segunda-feira, 9 de julho de 2018

Guiné 61/74 - P18831: (In)citações (121): SOS, Língua Portuguesa: a propósito do editorial do "Novo Jornal", semanário luandense, de 6 do corrente: "Quando a língua se torna uma questão de Estado" (São e Paulo Salgado, ex-cooperantes)


Cabeçalho do semanário luandense Novo Jornal, 6 de julho de 2018, com a devida vénia...



1. Mensagem de ontem, da Conceição e Paulo Cordeiro Salgado, nossos grã-tabanqueiros, com uma larga experiência de cooperação na Guiné-Bissau e em Angola, em particular na área da gestão e da formação em saúde.

O Paulo, além de gestor e consultor em gestão de saúde, foi alf mil op esp da CAV 2721 (Olossato e Nhacra, 1970/72), e tem 85 referências no nosso blogue.   A São é economista. Ambos são transmontanos de Torre de Moncorvo, e vivem em Vila Nova de Gaia.

Assunto - SOS, Língua Portuguesa

Caros Editores,
Camaradas,

Em anexo, um outro contributo sobre o assunto epigrafado. Decerto que é uma matéria interessante que deve interessar-nos enquanto cidadãos.

Um abraço dos tabanqueiros.
Maria da Conceição Salgado e Paulo Salgado



2. (In)citações > SOS – Língua Portuguesa

Ainda a propósito deste tema que tem sido abordado ultimamente (*), deixamos um outro contributo.

Do Novo Jornal – de Angola, sua edição de 6 de Julho, respigamos um parágrafo do Editorial, que preconiza a defesa, hoje, repetimos hoje, da difusão da língua portuguesa, porque é a língua oficial:

«Se é preciso que venham professores de fora do país para que aprendamos a falar a nossa língua oficial, que venham. Mas chega de sermos obrigados a ouvir disparates aos mais variados níveis.»

Vem esta transcrição a propósito do que defendíamos no nosso contributo passado sobre SOS – Língua Portuguesa, e que os editores postaram no nosso blogue. Reiteramos o que então dizíamos: é urgente, imperioso e eticamente responsabilizante ajudar a criar estruturas duradouras e consistentes de ensino da língua nos PALOP.

Além do mais, enfatizamos, é um compromisso histórico, mesmo que alguns não acreditem no processo histórico. Não como metodologia colonizante, mas como riqueza solidária que urge recriar de forma definitiva.

Já o pensador seareiro Augusto Casimiro escrevia em 1958 na obra Angola e o Futuro (Alguns Problemas Fundamentais) que o ensino do português era essencial para o conhecimento universal; mas, reparai bem, caros leitores, acrescentava, de resto com outros pensadores, que «o desenvolvimento de um povo se sustenta, prima facie, nas línguas nativas africanas, doces e maleáveis e que os seus princípios gramaticais assentam numa base sistemática e filosófica».

Afirmava o ilustre seareiro que as línguas maternas (nativas) devem ser mantidas porque são o veículo do bem senso natural para alimentar a clareza do pensamento. E acrescentava, embora com contraditores por essa altura, e decerto também agora os haverá), no final da década de cinquenta do século passado (já os ventos de autodeterminação e de independência sopravam fortes), que a educação colectiva deveria ser feita por meio da língua nativa (higiene, saúde, agricultura…), mas que a língua portuguesa deveria preencher progressivamente todos os níveis de ensino.

E é interessante notar que o editorial atrás referido menciona que alguns altos dirigentes de Angola que não haviam feito estudos, se compenetraram da aprendizagem em disciplinas diversas. Transcrevemos:

«…pelo menos dois dirigentes do então Bureau Político do MPLA que, em razão das inúmeras responsabilidades que foram tendo no processo da luta de libertação, não foram bafejados pela sorte de ir estudar para os países que apoiavam então os movimentos de libertação. No entanto, esses logo se apressaram a procurar professores que já viviam em Luanda, gente intelectual e bem preparada, com quem tiveram durante dois ou três anos aulas de Português, de História e até de Filosofia. Acabavam o seu trabalho e, em casa, tinham ao longo de toda a semana um horário estabelecido para explicações de três matérias que consideravam essenciais». [Vd. o editorial completo mais a baixo]

No mínimo, um notável sentido de responsabilidade.

Ora, foi isso que Amílcar Cabral procurou fazer: o ensino do português aos meninos e meninas que estavam no mato em zonas libertadas, ou em território da Guiné-Conakri, mas falando-se o crioulo na transmissão das mensagens entre os protagonistas da luta contra o domínio colonial – afinal a língua congregadora.

Não estaria Cabral a favorecer o bilinguismo? Não será a prática de duas línguas uma melhor aproximação entre duas culturas? Eis duas questões com que encerramos este contributo. Não temos respostas acabadas, temos dúvidas, sobretudo as que resultam da persistência de um niilismo – que alguns conservam – que não tem em conta o valor humano e social de duas línguas e respectivas culturas que não podem ignorar-se. A História não se pode destruir nem se pode vilipendiar e os povos seguem o seu percurso.

Maria da Conceição Salgado

Paulo Salgado

8.7. 2018

PS - Reproduz-se, com a devida vénia, o supracitado editorial do Novo Jornal:




Excertos do Editorial do Novo Jornal, 6 de julho de 2018, com a devida vénia...  
[Os sublinhados são da responsabilidade dos editores do blogue]
 ________________

Nota do editor;

Último poste da série > 6 de julho de 2018 > Guiné 61/74 - P18817: (In)citações (120): SOS, Língua Portuguesa: a situação na Guiné-Bissau e em Angola (São e Paulo Salgado, ex-cooperantes)

1 comentário:

Tabanca Grande disse...

Não tenho o direito de me imiscuir na vida interna interna de um país lusófono, irmão, onde temos bons amigos, angolanos e portugueses, a viver e trabalhar. Até por razões estatutárias, não devemos criticar a política seguida por cada um dos membros da CPLP...No nosso blogue, estão interditas três coisas: (i) atualidade político-partidária: (ii) o futebol (, em especial o clubismo); e (iii) a religião, ou melhor, o proselitismo religioso...

Conheço Angola, ou melhor, Luanda, ou melhor, uma parte de Luanda (a ilha, a baixa, o percurso para o aeroporto...), e o Mussulo...Desde 2003 que lá fui, uma meia dúzia de vezes... E logo constatei uma fenómeno algo similiar ao que se tinha passado em Portugal com a "proliferação", como cogumelos, dos politécnicos e das universidades, e em especial dos estabelecimentos privados...

A explosão da oferta nem sempre é(era) acompanhada da qualidade, científica e pedagógica... A regulação, a certificação, o mercado, etc. acabam por trazer ao de cima os melhores: as universidades mais "manhosas", de triste memória, que tínhamos em Portugal acabaram por desaparecer...

Espero que o mesmo se passe em Angola, e que a mentalidade da população estudantil mude, para melhor: que importa ter um "canudo", comprado a peso de ouro, se ele automaticamente não é sinónimo de mais e melhores competências para a vida, para o trabalho, para o futuro ? Como é que a Angola (e Portugal) pode ter bons quadros, de formação superior, sem bons professores, bons programas, bons laboratórios, boas bibliotecas e outros equipamentos ?

Comprar diplomas é uma armadilha: mais tarde ou mais cedo, o falso médico, o falso engenheiro, o falso enfermeiro, o falso gestor é apanhado em flagrante... A incompetência, nas profissões, vem ao de cima, como o azeite na água...

Inteiramente de acordo com o Paulo e a São e o editorialista do "Novo Jornal"... Comecemos por baixo, pelos alicerces do sistema educativo, o ensino básico obrigatório...Se todas as crianças angolanas não forem à escola e não aprenderem a falar e a escrever corretamente o português, não haverá futuro para Angola... A saúde e a educação são dois investimentos prioritários...