sexta-feira, 6 de julho de 2018

Guiné 61/74 - P18817: (In)citações (120): SOS, Língua Portuguesa: a situação na Guiné-Bissau e em Angola (São e Paulo Salgado, ex-cooperantes)

1. Texto enviado ontem, para publicação,  pelos nossos amigos e grã-tabanqueiros Paulo e São Salgado, um casal com larga experiência de cooperação nalguns PALOP, como é o caso da Guiné-Bissau e de Angola, e em particular nas áreas da saúde e da educação. O Paulo, além de gestor e consultor em gestão de saúde,  foi alf mil op esp da CAV 2721, (Olossato e Nhacra, 1970/72). A São é economista. Ambos são transmontanos de Torre de Moncorvo, e vivem em Vila Nova de Gaia.

SOS – Língua Portuguesa!

O que vamos escrever sobre a língua portuguesa nas ex-colónias portuguesas, países independentes há várias décadas, não são comentários de comentários, glosas de glosas, sobre o muito que já foi referido sobre este assunto (*).

Pode esta ser uma apreciação ou um contributo nossos; não mais do que isso (**). E reflecte a nossa experiência e, de algum modo, as preocupações de quem foi cooperante na área da educação e na área da saúde. Desde já pedimos indulgências a quem souber mais do que nós – e há muitos que sim, em especial quem trabalha no Instituto Camões, ou por alguns estudiosos atentos e historicamente isentos. Apenas focamos o que sabemos sobre a Guiné-Bissau e Angola, não obstante termos visitado Moçambique e S. Tomé e Príncipe.

Primeiro: O português falado na Guiné-Bissau, em Angola, em Moçambique, em S. Tomé e Príncipe, em Cabo Verde e em Timor apresenta diversos matizes e dimensões. Tendo sido declarado como a língua oficial, verifica-se o seguinte relativamente à Guiné-Bissau e a Angola, mas considerando que se trata de uma visão parcelar:

a) Na Guiné-Bissau, os textos oficiais são em português, seja nos Tribunais, seja na Presidência da República, seja no Governo, nas escolas e noutros serviços públicos (embora nas escola, haja tendência para “fugir para o crioulo…). 

Nos eventos a que assistimos e ou em que participámos, como congressos, workshops, jornadas, etc., se a língua oficial era e é o português, muitas vezes, ou quase sempre, se encaminhava para o crioulo, porque era mais fácil e envolvente a comunicação para todos os participantes. 

Recordamos três exemplos, entre muitos: 

(i) as orientações de natureza clínica às matronas (parteiras das e nas tabancas) eram em crioulo e as próprias imagens ilustrativas tinham as designações nesta língua – o que, nestas circunstâncias, era correcto de forma que as mensagens passassem plenamente para as destinatárias; 

(ii) nas sessões de formação que orientámos tivemos de usar muitas vezes o nosso fraco crioulo; num determinado momento, o então Secretário de Estado da Saúde, pessoa que domina perfeitamente o português e que eu estimo muito, referiu-me, a mim, Paulo Salgado, que deveria aprender o crioulo. 

(iii) uma nota mais: existia o Centro Cultural de Portugal e existia, à data das nossas várias presenças na Guiné-Bissau, o Centro Cultural do Brasil – duas instituições interessantes, operacionais e interventivas; mas existia, em edifício, pujante e em crescendo de influência, o Centro Cultural Francês; decerto, acreditamos, que desde 2006 muitos factos concretos terão ocorrido em matéria de cultura e de ensino das línguas portuguesa e francesa.

b) Em Angola, nas cidades, fala-se o português, por vezes com um ligeiro sotaque, frequentemente em bom português; no interior (aldeias e comunas), que visitámos, não se falava o português ou falava-se mal. São as línguas nativas que servem de meio de comunicação. 

No entanto, por exemplo, nos congressos das Ordens dos Médicos, dos Advogados e noutros eventos fala-se o português, embora houvesse situações, compreensíveis, de intervenções em inglês e espanhol. Uma nota: os brasileiros têm contribuído, de algum modo, para difusão da língua portuguesa.

Segundo: Nas tabancas da Guiné-Bissau ensina-se o árabe (ensino praticado pelos marabus), junto dos povos que seguem o Islão, e ali aprendem as crianças a língua árabe; recorda-se que a língua árabe tem mais falantes do que qualquer outro idioma e é falada por mais de 280 milhões que a usam como língua materna, seja no Norte de África e boa parte da África Subsariana, seja no Sudoeste Asiático e Médico Oriente. É a língua oficial de 26 países; o Corão, o livro sagrado islâmico, foi escrito nesta língua. Falada em 58 países, o árabe só é menos difundida no mundo do que o inglês

Terceiro: Na época da guerra colonial, que o escriba Paulo Salgado viveu durante 23 meses, Cabral procurou fomentar o português, que se ensinava nas matas, não obstante as dificuldades; há livros e cadernos interessantes desta atitude do grande pensador, político e lutador, e de outros seus companheiros de jornadas. Quem, militar que tenha sido na Guiné, não sabia que jovens professores ensinavam disciplinas, sobretudo aprender a ler e escrever e a contar, nas zonas libertadas, em português?

Quarto: Em Angola, com a presença de várias centenas de milhares portugueses da Metrópole durante os séculos XIX e XX, houve um processo de disseminação da língua, aliás uma forma de assimilação amplamente fomentada pelas autoridades coloniais, assimilação tão cara e defendida pelos europeus em África e noutras partes do Mundo.

Quinto: Portugal não tem sabido efectuar, em partilha saudável, de forma eficaz e efectiva, o desenvolvimento da língua. Não tecemos comentários sobre este fenómeno. Mas dizemos o seguinte: por que razões não se instalaram escolas de ensino do português nas cidades dos Países que adoptaram o Português? Por que razão não soubemos fazer como os ingleses e franceses que têm abundantes escolas nos países anglófonos e francófonos, respectivamente? 

Decerto que instalar uma escola em cada cidade e vila mais importantes destes países de expressão portuguesa, enviar professores portugueses e recrutar alguns locais, e formar outros em cada País seria dispendioso. Mas não valeria o sacrifício? Isto, não com a ideia de “colonizar”, mas de ajuda num registo de cooperação autêntica, fraterna, solidária, de acordo com o princípio da reciprocidade. Bem sabemos que são meritórias algumas iniciativas, quer institucionais, quer individuais, nestes dois países, interessantes, mas episódicas, não duradouras.

Sexto: Seria na educação e na saúde o grande exemplo de Portugal de cooperar com estes países. É, cremos nós, um imperativo ético e histórico.

Duas notas finais:

Primeira – Nós respeitamos o que alguns camaradas do blogue afirmam, ou que transmitem nas mensagens, como é óbvio; no entanto, se estamos no mundo da globalização, para o qual contribuímos de forma intensa no período das Descobertas (ou expansão), qual o nosso papel no Mundo? É o de deixar correr? É o de pôr a cabeça debaixo da areia?

Segunda – A nós interessa a História; passar ao lado da História é como desistir, e isso nós não queremos.

Os tabanqueiros,

Maria da Conceição Salgado e Paulo Salgado
_______________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de 3 de julho de 2018 > Guiné 61/74 - P18806: Ser solidário (214): SOS!!!... SOS!!!... Por Timor Leste e pela língua portuguesa... Há um esforço (deliberado) da Austrália para fomentar o uso do inglês, e da Indonésia, para promover o bahasa... Camarada, manda até ao fim do dia um email ao Senhor Presidente da República para que envolva Portugal e os portugueses nesta campanha em defesa da educação, em português, na pátria de Xanana Gusmão e Ramos Horta... O verdadeiro "campeonato do mundo", não o da bola mas o do futuro, joga-se e ganha-se aqui... (João Crisóstomo, Nova Iorque)

(**) Último poste de 10 de junho de 2018 > Guiné 61/74 - P18731: (In)citações (119): Coisas e Loisas acerca da nossa Guerra de África, das nossas Forças Armadas e da Descolonização e dos seus Destroços (1) (Manuel Luís Lomba)

7 comentários:

Antº Rosinha disse...

Os ingleses e os franceses investem na língua porque são uns saudosistas/colonialistas?

Ou será a pensar num futuro sem esquecer o passado?

Isto é uma atitude de quem pensa no seu futuro, da maneira mais económica e mais inteligente.

Pena que em Portugal se caia na mediocridade mais frequentemente do que as vezes que se tenta algum rasgo.





Cherno Baldé disse...

Caro amigo Paulo Salgado,

Bom texto e pertinentes observaçoes. Construir escolas portuguesas nas principais cidades pode ser dispendioso e dificil de gerir em contextos de grande e permanente instalilidade politica e institucional, como é o caso da Guiné, mas acho que se devia manter a cooperaçao na educaçao do tipo que funcionou nos anos 70/80 com professores portugueses nos varios niveis do ensino. A nossa geraçao teve a sorte de ser acompanhado por cooperantes (Portugueses, Africanos de varios paises, Cubanos, Russos etc) e beneficiamos muito com as diferentes abordagens pedagogicas e o intercambio cultural.

Hoje assistimos, completamente impotentes, a uma dinamica social e educacional diferente cujas as consequencias ainda desconhecemos na sua totalidade, mas é sabido que o rumo nao é o melhor ou, pelo menos, nao é mais desejado.

Para ja, uma coisa eu posso garantir: Paises como a Guiné-Bissau que em tudo se assemelham a um veiculo desgovernado, nao podem de per si adoptar politicas de educaçao afirmativas ou quaisquer que sejam e assumir a sua implementaçao criteriosa e a longo prazo e, sem isso, nao se podera falar de um ensino orientado e de qualidade.

Paises como a Guiné-Bissau estao sujeitos, como sempre foram, a ser rebocados pelos sistemas de integraçao, seja da UEMOA/CEDEAO seja da intervençao internacional mais alargada fruto da globalizaçao forçada a que todos os paises estao sujeitos e onde a lingua dominante é incontestavelmente o Inglés. Também, de certo modo, fiquei estupefacto, para nao dizer chocado, com a invasao/dominio do ingles nas universidades e na juventude portuguesa dos ultimos anos, e sem querer, dizia aos meus botoes: Mas, eles querem que a gente fale portugues enquanto que, nas suas Universidades toda a literatura a consultar esta em Ingles ou Frances?

Peço perdao se falei alguma coisa que nao devia, mas foi a quente e, mais uma vez, obrigado pelo contributo.

Com um abraço amigo,

Cherno Baldé



Costa Abreu disse...

Caro Cherno Balde
Gostei da maneira como escreves. Isso demonstra o teu nivel. Obrigado por demonstrares que ainda ha pessoas na Guine que teem cultura e sabem falar.
Julio Abreu

Tabanca Grande disse...

Meu caro Cherno, é verdade, parece que às vezes estamos a "discutir o sexo dos anjos", quando tudo à volta está em sobressalto ou em mudança...Não haverá muitos guineenses que escrevam tão bem o português como tu... E tu fizeste o teu ensino superior, a licenciatura, na Ucrânia, logo em russo... Mas a tua língua mãe é o fula, mesmo que o fula seja um "dialeto" (ou seja, não tem "escrita", alfabeto, gramática, dicionário)... Há memórias, emoções, sentimentos... que só podes exprimir na tua "língua-mãe"...E é em fula (ou não ?) que falas com os teus filhos, mesmo que a mãe seja nalu...

É muito importante que o fula e as outras línguas da Guiné-Bissau, incluindo o nalu, se mantenham vivas... Eu não queria viver num mundo dominado por uma só cultura, uma só língua... A diversidade etno-linguística é tão importante, para nós, seres humanos, como a biodiversidade... Daí também a importância do português... e do mirañdês (mesmo que seja só falado por c. de 10 mil portugueses)... Se calhar, não sabias que Portugal tem duas línguas oficiais, o português e o mirandês...

É verdade que em hoje em dia temos que ser poliglotas... O inglês é o "moderno latim". A comunidade científica escolheu-o para comunicar entre si (, nas publicações, nos congressos, nas aulas)... Na Europa até ao séc. XIX o latim, língua morta, era a língua que se ensinava e aprendia na universidade... em todo o lado, de Coimbra a Leiden.

Durante dez anos eu fui diretor da "Revista Portuguesa de Saúde Pública", editada pela Elsevier, um gigante editorial... Hoje somos editados por um editora mais pequena, a Karger, e a revista sai inteiramente em inglês... Chama-se "Portugueses Journal of Public Health"... E os autores pagam para publicar...

O francês que era a língua culta da Europa (e até do Mundo), desde o século das Luzes (Séc. XVIII) perdeu importância, sobretudo a partir da II Guerra Mundial. E é uma língua que eu adoro... No XV Congresso Internacional de Medicina que se reuniu em Lisboa, em 1906, a língua oficial era o francês e até o rei Dom Carlos I deu as boas vindas... em francês, aos mais de 1750 congressistas de mais de 30 países. E o congresso foi um extraordinário sucesso do ponto de vista científico e social...numa época em que ainda hão havia aviação comercial, e muito menos computadores e internet, estando o cinema a dar os primeiros passos...

Em suma, este é o mundo em que vivemos ou que nos calhou em sorte... E em que tendemos a ser "formatados" desde pequeninos... Mas podemos e devemos lutar contra a maré!... Eu que tive muitos alunos da CPLP, desde Timor a Angola, da Guiné a Moçambique, de Cabo Verde até São Tomé, do Brasil a Macau, bem via que era deficiente a sua preparação em línguas estrangeiras (e em especial o inglês).

Mas não penses que o inglês que se fala e escreve, nas nossas universidades, é o inglês de fino recorte literário, de Oxford e Cambridge...Não, é o "googlês"... Era como o latim macarrónico que os estudantes de medicina usavam em Coimbra ou em Leiden.

Lutemos, sim, pela preservação e promoção das nossas línguas, o fula, o crioulo, o português...É a nossa identidade que está em causa. Amílcar Cabral também percebeu isso, na Babel que era a África e na sua Guiné, rodeada de francófonos por todos os lados...

Mantenhas. Um abraço. Luís Graça

Antº Rosinha disse...

Agora até Andorra se quer juntar à Guiné Equatorial, e mais outros quatro.

Tudo quer entrar na CPLP.

Como o crioulo de Caboverde já tem gramática (ou quase) os caboverdeanos talvez se disponham a ensiná-los a papiar.

Porque em Portugal já estamos sossegados no nosso canto, não estamos para aturar mais ninguém.

Fernando de Sousa Ribeiro disse...

Permitam-me contestar a afirmação de que em Angola, «com a presença de várias centenas de milhares portugueses da Metrópole durante os séculos XIX e XX, houve um processo de disseminação da língua». Não houve. As várias centenas de milhares de portugueses da então Metrópole que são referidas no texto só afluíram a Angola a partir de finais dos anos 50 do séc. XX. Até então, era preciso cumprir uma série de formalidades burocráticas (incluindo uma famigerada "carta de chamada"), para que um português da Metrópole pudesse emigrar para Angola. Acho que acontecia exatamente o mesmo na Guiné e nas outras colónias. Portanto, durante o século XIX e a primeira metade do séc. XX, em Angola, a população portuguesa europeia era bastante reduzida e estava quase toda concentrada em quatro ou cinco cidades: Luanda, Benguela, Nova Lisboa (atual Huambo) e Sá da Bandeira (atual Lubango). Tirando mais alguns que viviam em cidades mais pequenas, como Silva Porto (atual Cuíto), Lobito, Carmona (atual Uíge) e Malanje, praticamente não havia portugueses no interior de Angola. Só um ou outro comerciante do mato.

Com o regresso a Portugal da esmagadora maioria dos portugueses em 1975, seria de esperar que acontecesse um declínio na difusão da língua portuguesa em Angola, mas tal não se verificou. Verificou-se precisamente o contrário. Nunca tanta gente falou tanto português em Angola como agora. Porquê? Primeiro, o movimento que conquistou o poder em Angola foi o MPLA, que foi um movimento fundado por mestiços (como Lúcio Lara) e negros fortemente europeizados (como Agostinho Neto), ao qual aderiram muitos intelectuais angolanos brancos de ascendência portuguesa, como Luandino Vieira, Ruy Duarte de Carvalho, Pepetela, António Jacinto e muitos mais. O português era e é, portanto, a língua do MPLA por excelência. Por outro lado, a prolongadíssima guerra civil angolana, que se seguiu à proclamação da independência, provocou maciças movimentações de pessoas falando diversas línguas maternas do campo para as cidades. Luanda tem hoje cerca de 6 milhões de habitantes e o Lubango um milhão. A única maneira de toda essa gente, vinda dos quatro cantos do país, se entender entre si é falando português.

Antº Rosinha disse...

Até os "comerciantes do mato" e os "comerciantes do muceque" falavam o português da suas aldeias natal, e batiam maravilhosamente o quimbundo o bailundo ou quioco conforme a longitude e latitude, e muitos eram poliglotas.

E havia o linguajar dos calcinhas das cidades que os comerciantes do muceque também dominavam.

Na Guiné com a mistura do crioulo até o Amilcar Cabral se atrapalhou todo.

Embora o PAIGC fosse irmão do MPLA, o percurso não foi o mesmo.

O MPLA só pegou em armas a sério após o 25 de Abril de 1974, o PAIGC largou as armas nessa data e mandou tudo à fava.

Talvez por isso!!!!