terça-feira, 3 de julho de 2018

Guiné 61/74 - P18805: (Ex)citações (339): "Hoje sentimo-nos bem connosco, por termos ajudado a minorar o sofrimento dos feridos e doentes, que nos foram confiados. Em nós ficou o sentimento de um dever cumprido" (Maria Arminda Santos, capitão, enfermeira paraquedista, ref)


Leiria, Monte Real > Palace Hotel Monte Real > XII Encontro Nacional da Tabanca Grande > 29 de abril de 2017 > Da esquerda para a direita, a Giselda, a Maria Arminda Santos (que veio pela primeira vez a um encontro nacional da Tabanca Grande) e a Maria de Lurdes (de perfil) (, esposa do nosso camarada Jorge Canhão).

Foto: © MIguel Pessoa (2017). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


1, Pedi às nossas amigas, camaradas e grã-tabanqueiras, as enfermeiras paraquedistas, hoje jubiladíssimas, mas sempre atentas, disponíveis e amáveis, Giselda, Arminda, Rosa... para comentarem o poste do nosso Dino, que esteve em Fulacunda, região de Quínara, em 1972/74, e em especial um excerto de um aerograma à namorada e futura mulher, Amélia, com data de setembro ou outubro de 1973, em que dizia assim:

“Antes de te falar romanticamente, quero informar-te que hoje veio aqui um helicóptero e nele vinham duas moças pára-quedistas brancas,  foram para uma operação no mato e por causa do nevoeiro tiveram de aterrar aqui. Com estas duas, são três as mulheres brancas que vi em Fulacunda. Quando puderam partir levaram correio, espero que desta vez recebas”. 

Eu próprio comentei no poste, em tom de brincadeira, o seguuinte;

"Dino, com um ano de Guiné tinhas a 'obrigação' de saber que havia mulheres, nossas camaradas, enfermeiras paraquedistas que andavam nos helis e nas DO 27 a 'socorrer' os desgraçados dos nossos feridos graves, com direito a evacuação Ypsilon...

Geralmente não paravam nos quartéis, faziam as evacuações a partir do mato até ao HM 241, em Bissau...Não tinham tempo para se 'coçar'...

Acho que havia muita gente, nos nossos quartéis, que não sabiam mesmo da existência das enfermeiras paraquedistas... Elas não precisavam de pôr anúncios nas revistas cor de rosa da época... Mas eu vi-as, no mato e no quartel de Bambadinca, sempre elegantes, sempre eficientes, sempre corajosas... Temos uma grande dívida de gratidão para com estas raparigas, hoje com a nossa idade"...


Capa do livro "Nós, enfermeiras  paraquedistas" (Coord., Rosa Serra) Porto: Fronteira do Caos Editores. 2015 (Há já uma 2º ed). Prefácio do professor Adriano Moreira.



Da esquerda para a direita, a Maria Arminda, a  Maria  Zulmira André (falecida em 2010) e a Júlia Almeida (, falecida em 2017). Guiné, Bissalanca, BA12, s/d .  Foto de cronologia do Facebook da Maria Arminda Santos. (Reproduzida aqui com a devida vénia...).



2. A Maria Arminda Santos,  que esteve na Guiné (e mais do que uma vez, foi de resto a primeira a chegar ao território, logo em julho de 1962; e em 1969/70 era tenente enfermeira paraquedista; hoje capitão reformado, vive em Setúbal e tem 4 dezenas de referências no nosso blogue),  já me respondeu, ontem às 23h00, dizendo:

"Obrigada,  amigo Luis Graça, por me ter feito chegar esta mensagem. Não me surpreende que muitos militares desconheçam ainda muita coisa, da nossa existência e das missões que desempenhámos, durante o decurso da Guerra do Ultramar, ou Colonial.

Já coloquei o meu comentário no Blogue, conforme a sua solicitação. Envio um grande abraço. Não esqueço quem sempre nos tratou bem, apesar de eu participar pouquíssimo no blogue. Até sempre, M. Arminda Santos".

Aí vai comentário da Maria Arminda Santos,  deixado no poste P18799:

 "Li com atenção e não levo a mal, por esse nosso camarigo, desconhecer da nossa existência, na Guiné e nas Tropas Paraquedistas.

Realmente nós éramos poucas para acudir a todos os locais, mas de facto eram muitas as saídas em DO 27, Alouette III e até em Dakota, fizemos evacuações de feridos e não só, porque até a elementos da população civil, prestámos cuidados.

Também fizemos Bases de Operações, principalmente em Aldeia Formosa e Cufar, mantendo-nos de alerta para possíveis evacuações de feridos , que viésssem a ocorrer em teatro de operações, como na realidade aconteceram.

Ainda bem que esse camarada, não precisou de nos conhecer, no âmbito do nosso trabalho. Bom sinal para ele.


Hoje sentimo-nos bem connosco, por termos ajudado a minorar o sofrimento dos feridos e doentes, que nos foram confiados. Em nós ficou o sentimento de um dever cumprido.
Um abraço.

M. Arminda Santos" (**)

____________


(**) Último poste da série > 1 de julho de 2018 > Guiné 61/74 - P18798: (Ex)citações (338): Quem não sabe beber, que beba m..., dizia um durão de Bambadinca... Mas, camaradas e amigos, era mesmo m... a famosa "água de Lisboa" que nos chegava aos nossos quartéis para matar a nossa dor e a nossa sede... (Luís Graça / Virgílio Teixeira)

9 comentários:

Tabanca Grande disse...

Obrigada, Maria Arminda... Só hoje, através de uma pesquisa na Net, tive conhecimento de que a Júlia Almeida já tinha feito o seu último no passado dia 19 de junho de 2017...Vivia em Oeiras, era 2º srgt ref. Fez em 1963 o 3º curso de enfermeiras parquedistas. Lembro-la com saudade, aqueles de nós quem com ela conviveram.


http://www.radiocruzeiro.pt/faleceu-a-enfermeira-paraquedista-julia-almeida/

A Zulmira infelizmente também partiu cedo, em 2010. E na altura demos a devida notícia, em poste assindao pela Giselda e pelo Miguel Pessoa:

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2010/09/guine-6374-p6980-in-memoriam-52-o.html

Tabanca Grande disse...

Não eram só os militares que estavam nos quartéis, em funções de apoio como o Dino, e que não tinham "oprtunidade" de ver uma enfermeira, "branca", paraquedista... A população portuguesa, na Metrópole, desconhecia por completo que havia mulheres na guerra, de um lado e do outro...O PAIGC também tinha enfermeiras e combatentes do sexo feminino... A nossa população não sabia bem convinha que soubesse... Por causa do temido "alarme social"... A guerra era "censurada"...

Tabanca Grande disse...

Não quer dizer que alguma imprensa diária não falasse delas, de tempos a tempos... Mas a população portuguesa estava longe de poder imaginar as missões que elas efetuavam, em especial no mato... E as centenas e centenas de feridos que resgataram e salvaram...

Enfim, ía-se cultivando a ideia "romãnticas" dos anjos que vinham do céu para proteger os nossos soldados... E pouco ou nada se fala do seu sofrimento, das condições em que viveram e trabalharam nos teatros de operações, de Angola, Guiné e Moçambique... Nenhuma delas foi para lá passar férias...

Alberto Branquinho disse...

Pois é, Luís!

O pessoal devia ler o livro "NÓS, enfermeiras para-quedistas" ou, pelo menos, ALGUMAS das histórias lá contadas por muitas delas (não só da Guiné, mas também de Angola e Moçambique): relatos trágicos, assustadores, mas, também, outros cómicos e com muita ironia, relatando a realidade a que estiveram sujeitas, sem se limitarem ao relato do "eu-me-migo, mais o meu umbigo" que muito abunda aqui neste blogue.

Abraço (e beijos para "Elas")
Alberto Branquinho

Alberto Branquinho disse...

Pois é, Luís!

O pessoal devia ler o livro "NÓS, enfermeiras para-quedistas" ou, pelo menos, ALGUMAS das histórias lá contadas por muitas delas (não só da Guiné, mas também de Angola e Moçambique): relatos trágicos, assustadores, mas, também, outros cómicos e com muita ironia, relatando a realidade a que estiveram sujeitas, sem se limitarem ao relato do "eu-me-mim-migo, mais o meu umbigo" que muito abunda aqui neste blogue.

Abraço (e beijos para "Elas")
Alberto Branquinho

Anónimo disse...

Eu julgo que alguns que leram o livro não se sentiram mais informados por isso.Eu ainda não me esqueci que foi afirmado aqui no blogue que depois do strela a força aérea não voava na guiné.E o que é certo é que as camaradas enfermeiras paraquedistas continuaram a evacuarem feridos e alguém as transportava.ainda bem que não teem coragem de as desmentir.
Carlos Gaspar

Anónimo disse...

Enfim uma no cravo outra na ferradura.Os mesmos que tecem elogios aos nossos adversários de ontem dizendo que o paigc colocou a força aérea em terra, reconhecem o esforço e o mérito das enfermeiras.
J.Dias

Anónimo disse...

A hipocrisia anda a solta e são sempre os mesmos.
Pedro Azevedo

Anónimo disse...

Palavras para que?e um artista "português"O amigo do meu inimigo...
A.Neto