domingo, 1 de julho de 2018

Guiné 61/74 - P18799: Ai, Dino, o que te fizeram!... Memórias de José Claudino da Silva, ex-1.º cabo cond auto, 3.ª CART / BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74) > Capítulos 59 e 69: vê, pela primeira vez, enfermeiras, brancas, paraquedistas; apercebe-se igualmente da guerra psicológica; queixa-se de a namorada não receber o correio em setembro e outubro de 1973... Faz circular pelo quartel um texto a apelar a uma maior união dos "serrotes", numa crítica implícita ao capitão, por quem não morre de amores... Sabe, por fim, da declaração unilateral da independência do território através da Rádio de Argel...



Guiné > Uma propaganda pérfida e cínica, a do regime de Salazar-Caetano, que criou nas populações africanas a falsa (e trágica) ilusão de que eram portuguesas, tão portuguesas como os minhotos ou os alentejanos; por outro lado, minimizou e desprezou os combatentes do PAIGC, reduzindo-os ao estatuto de pobres mercenários, por conta de interesses estrangeiros, a quem se podia estender facilmente uma nota de 1000 pesos em troca da sua rendição e da entrega da sua arma...

Trata-se de material (muito pobre e tosco, muitas vezes escrito em português e não em crioulo...) de propaganda das NT, documentação essa  recolhido pelo nosso grã-tabanqueiro da 1.ª hora, o ex-1.º cabo enfermeiro José Teixeira (CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70), régulo da Tabanca de Matosinhos...

Fica-se na dúvida sobre o público-alvo: os pobres soldados e quadros milicianos a quem era preciso incutir e reforçar permanentemente a ideia de que, na Guiné, era a Pátria que estava em perigo; ou os os coitados dos guineenses, que nem sequer sabiam onde ficava Lisboa e quem era o homem grande de Lisboa...

Fotos (e legenda): © José Teixeira (2005). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Continuação da pré-publicação do próximo livro (na versão manuscrita, "Em Nome da Pátria") do nosso camarada José Claudino Silva [foto atual à esquerda] (*):

(i) nasceu em Penafiel, em 1950, "de pai incógnito" (como se dizia na época e infelizmente se continua a dizer, nos dias de hoje), tendo sido criado pela avó materna;

(ii) trabalhou e viveu em Amarante, residindo hoje na Lixa, Felgueiras, onde é vizinho do nosso grã-tabanqueiro, o padre Mário da Lixa, ex-capelão em Mansoa (1967/68), com quem, de resto, tem colaborado em iniciativas culturais, no Barracão da Cultura;

(iii) tem orgulho na sua profissão: bate-chapas, agora reformado; completou o 12.º ano de escolaridade; foi um "homem que se fez a si próprio", sendo já autor de dois livros, publicados (um de poesia e outro de ficção);

(iv) tem página no Facebook; é avô e está a animar o projeto "Bosque dos Avós", na Serra do Marão, em Amarante;

(ix) é membro n.º 756 da nossa Tabanca Grande.


2. Sinopse dos postes anteriores:

(i) foi à inspeção em 27 de junho de 1970, e começou a fazer a recruta, no dia 3 de janeiro de 1972, no CICA 1 [Centro de Instrução de Condutores Auto-rodas], no Porto, junto ao palácio de Cristal;

(ii) escreveu a sua primeira carta em 4 de janeiro de 1972, na recruta, no Porto; foi guia ocasional, para os camaradas que vinham de fora e queriam conhecer a cidade, da dos percursos de "turismo sexual"... da Via Norte à Rua Escura;

(iii) passou pelo Regimento de Cavalaria 6, depois da recruta; promovido a 1.º cabo condutor autorrodas, será colocado em Penafiel, e daqui é mobilizado para a Guiné, fazendo parte da 3.ª CART / BART 6250 (Fulacunda, 1972/74);

(iv) chegada à Bissalanca, em 26/6/1972, a bordo de um Boeing dos TAM - Transportes Aéreos Militares; faz a IAO no quartel do Cumeré;

(v) no dia 2 de julho de 1972, domingo, tem licença para ir visitar Bissau, e fica lá mais uns tempos para um tirar um curso de especialista em Berliet;

(vi) um mês depois, parte para Bolama onde se junta aos seus camaradas companhia; partida em duas LDM para Fulacunda; são "praxados" pelos 'velhinhos' (ou vê-cê-cês), os 'Capicuas", da CART 2772;

(vii) faz a primeira coluna auto até à foz do Rio Fulacunda, onde de 15 em 15 dias a companhia era abastecida por LDM ou LDP; escreve e lê as cartas e os aerogramas de muitos dos seus camaradas analfabetos;

(viii) é "promovido" pelo 1.º sargento a cabo dos reabastecimentos, o que lhe dá alguns pequenos privilégio como o de aprender a datilografar... e a "ter jipe";

(ix) a 'herança' dos 'velhinhos' da CART 2772, "Os Capicuas", que deixam Fulacunda; o Dino partilha um quarto de 3 x 2 m, com mais 3 camaradas, "Os Mórmones de Fulacunda";

(x) Dino, o "cabo de reabastecimentos", o "dono da loja", tem que aprender a lidar com as "diferenças de estatuto", resultantes da hierarquia militar: todos eram clientes da "loja", e todos eram iguais, mas uns mais iguais do que outros, por causa das "divisas"... e dos "galões"...

(xi) faz contas à vida e ao "patacão", de modo a poder casar-se logo que passe à peluda; e ao fim de três meses, está a escrever 30/40 cartas e aerograma as por mês; inicialmente eram 80/100; e descobre o sentido (e a importância) da camaradagem em tempo de guerra.

(xii) como "responsável" pelo reabastecimento não quer que falte a cerveja ao pessoal: em outubro de 1972, o consumo (quinzenal) era já de 6 mil garrafas; ouve dizer, pela primeira vez, na rádio clandestina, que éramos todos colonialistas e que o governo português era fascista; sente-se chocado;

(xiii) fica revoltado por o seu camarada responsável pela cantina, e como ele 1.º cabo condutor auto, ter apanhado 10 dias de detenção por uma questão de "lana caprina": é o primeiro castigo no mato...; por outro lado, apanha o paludismo, perde 7 quilos, tem 41 graus de febre, conhece a solidariedade dos camaradas e está grato à competência e desvelo do pessoal de saúde da companhia.

(xiv) em 8/11/1972 festejava-se o Ramadão em Fulacunda e no resto do mundo muçulmano; entretanto, a companhia apanha a primeira arma ao IN, uma PPSH, a famosa "costureirinha" (, o seu matraquear fazia lembrar uma máquina de costura);

(xv) começa a colaborar no jornal da unidade (dirigido pelo alf mil Jorge Pinto, nosso grã-tabanqueiro), e é incentivado a prosseguir os seus estudos; surgem as primeiras dúvidas sobre o amor da sua Mely [Maria Amélia], com quem faz, no entanto, as pazes antes do Natal; confidencia-nos, através das cartas à Mely as pequenas besteiras que ele e os seus amigos (como o Zé Leal de Vila das Aves) vão fazendo;

(xvi) chega ao fim o ano de 1972; mas antes disso houve a festa do Natal (vd. cap.º 34.º, já publicado noutro poste); como responsável pelos reabastecimentos, a sua preocupação é ter bebidas frescas, em quantidade, para a malta que regressa do mato, mas o "patacão", ontem como hoje, era sempre pouco;

(xvii) dá a notícia à namorada da morte de Amílcar Cabral (que foi em 20 de janeiro de 1973 na Guiné-Conacri e não no Senegal); passa a haver cinema em Fulacunda: manda uma encomenda postal de 6,5 kg à namorada;

(xviii) em 24 de fevereiro de 1973, dois dias antes do Festival da Canção da RTP, a companhia faz uma operação de 16 horas, capturando três homens e duas Kalashnikov, na tabanca de Farnan.

(xix) é-lhe diagnosticada uma úlcera no estômago que, só muito mais tarde, será devidamente tratada; e escreve sobre a população local, tendo dificuldade em distinguir os balantas dos biafadas;

(xx) em 20/3/1973, escreve à namorada sobre o Fanado feminino, mas mistura este ritual de passagem com a religião muçulmana, o que é incorreto; de resto, a festa do fanado era um mistério, para a grande maioria dos "tugas" e na época as autoridades portuguesas não se metiam neste domínio da esfera privada; só hoje a Mutilação Genital Feminina passou a a ser uma "prática cultural" criminalizada.

(xxi) depois das primeiras aeronaves abatidas pelos Strela, o autor começa a constatar que as avionetas com o correio começam a ser mais espaçadas;

(xxii) o primeiro ferido em combate, um furriel que levou um tiro nas costas, e que foi helievacuado, em 13 de abril de 1973, o que prova que a nossa aviação continuou a voar depois de 25 de março de 1973, em que foi abatido o primeiro Fiat G-91 por um Strela;

(xxiii) vai haver uma estrada alcatroada de Fulacunda a Gampará; e Fulacunda passa a ter artilharia (obus 14); e o autor faz 23 anos em 19 de maio de 1973; a 21, sai para Bissau, para ir de férias à Metrópole; um grupo de 10 camaradas alugam uma avioneta, civil, que fica por um conto e oitocentos escudos [equivalente hoje a 375,20 €];

(xxiv) considerações sobre o clima, as chuvas; em 19/5/1973, faz 23 anos... e vem de férias à Metrópole, com regresso marcado para o início de julho de 1973: regista com agrado o facto de o pai, biológico, ter trazido a sua tia e a sua avó ao aeroporto de Pedras Rubras para se despedirem dele;

(xxv) vê, pela primeira vez. enfermeiras, brancas, paraquedistas; apercebe-se igualmente guerra psicológica; queixa-se de a namorada não receber o correio; mada um texto para o jornal "O Século" que decide fazer circular pelo quartel e onde apela a uma maior união do pessoal da companhia, com críticas implícitas ao capitão por quem não morre de amores...


3. Ai, Dino, o que te fizeram!... Memórias de José Claudino da Silva, ex-1.º cabo cond auto, 3.ª CART / BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74) > Capºs 57 e 58

[O autor faz questão de não corrigir os excertos que transcreve, das cartas e aerogramas que começou a escrever na tropa e depois no CTIG à sua futura esposa. E muito menos fazer autocensura 'a posterior', de acordo com o 'politicamente correto'... Esses excertos vêm a negrito. O livro, que tinha originalmente como título "Em Nome da Pátria", passa a chamar-se "Ai, Dino, o que te fizeram!", frase dita pela avó materna do autor, quando o viu fardado pela primeira vez. Foi ela, de resto, quem o criou. ]


59º Capítulo  > AS NOTAS DE IMITAÇÃO E A PSIQUE

É apenas em finais de Agosto [de 1973] que me refiro a um pequeno acontecimento relacionado com a guerra.

Um grupo de milícias (nome dado a combatentes locais voluntários) veio participar connosco numa operação e é nessa altura que me apercebo doutra espécie de guerra. A guerra psicológica. Saibam o que levaram para o mato.

26 de Agosto de 1973:

“Como normalmente faço quando completo mais um mês aqui te envio um postal que acho encantador, espero que gostes também. Essa imitação é de uma nota de mil escudos da Guiné, é para guardar como recordação. Essas notas são feitas para serem espalhadas pelo mato para convencer alguns “turras” a entregarem-se, é uma das psicologias adoptadas pelo nosso governo a ver se convencem que o nosso lado é melhor”.

Esclareço que essa nota pedia aos homens do mato para se entregarem às tropas portuguesas e entregarem a sua arma, em troca de dinheiro e comida.

(Tive o prazer de oferecer a nota de mil escudos, a que me refiro, ao núcleo de ex-combatentes da cidade da Lixa, concelho de Felgueiras, estando exposta na sua sede).

Rapidamente voltei à música e à literatura.

O Silva, o tal de Almada mas que eu dizia ser de Lisboa, foi telegrafista. Era o tipo do Racal. Foi com ele que comecei a gostar de Lisboa, indo ao ponto de mesmo hoje lamentar não viver na capital.

Conversávamos muitas vezes sobre a diferença entre a cidade e a aldeia e não minto se disser que também com o Silva de Lisboa ou de Almada,  como queiram, aprendi a desenvolver-me em alguns aspectos, de forma a evoluir intelectualmente. Foi ele quem me pôs a ouvir Isaac Haies [1942-2008]e a gostar de Soul, Blues e Jazz. Também com ele aprendi o código dos radiotelegrafistas. Um Alfa Bravo para todos.


60.º Capítulo > INACREDITÁVEL

Registado no meu mapa de correspondência, em Setembro de 1973, e só para a Amélia, enviei 33 cartas e aerogramas, além de um postal de aniversário. Ela não recebeu nenhuma correspondência.

Em Outubro do mesmo ano, enviei 34; ela recebeu 5.

Não posso afirmar categoricamente qual foi a razão do desaparecimento do meu correio, mas tudo se vai complicar para mim e creio que, para todos nós, após eu ter enviado para o jornal O Século um artigo de opinião da minha autoria.

O texto não foi publicado no jornal e nem sei se lá chegou. Mesmo assim, decidi divulgá-lo pelo quartel. Foi este texto.

CONVERSAS EM FAMÍLIA.

Fulacunda Guiné

Nós precisamos de apoio moral, não queremos ser uma “série” que dominada, apenas trabalha com as pernas, precisamos de nos sentir apoiados e livremente dirigidos.

Nós temos receio de expor problemas, porque nos sentimos coibidos na presença dos nossos superiores e então, exteriorizamos em massa; apoiando-nos uns nos outros aquilo que sentimos.

Os nossos superiores em minha opinião, deviam dizer “os meus homens” mais vezes, mas como um pai diz “os meus filhos”.

A nossa família é de facto uma família? Se é, porque não temos mais conversas?

A hierarquia militar não nos permite um lugar-comum. No entanto haveria a meu ver, uma melhor ligação entre superiores e subordinados se os primeiros vivessem mais de perto com os seus homens.

Não haverá possibilidades de uma Maior união entre todos os “Serrotes”?

Será muito pedir que sejamos tratados como homens que somos?

União na terra entre homens de boa vontade.

José Claudino da Silva 

1.º Cabo N.º 158532/71

PENSEM E ACREDITEM SE QUISEREM! O CASTIGO POR CAUSA DISTO FOI MUITO GRAVE.

Em Outubro de 1973 eu soube, através duma rádio, que diziam emitir de Argel, que a Guiné tinha declarado a independência no dia 24 de Setembro de 1973 em Medina do Boé. Se assim fosse, eu estava a lutar num país estrangeiro.

Sem precisar de transcrever nada, tal a irrelevância do que escrevi nesses dias, somente um caso que na altura me pareceu um tanto ou quanto invulgar. Quero partilhar:

“Antes de te falar romanticamente quero informar-te que hoje veio aqui um helicóptero e nele vinham duas moças pára-quedistas brancas foram para uma operação no mato e por causa do nevoeiro tiveram de aterrar aqui. Com estas duas, são três as mulheres brancas que vi em Fulacunda. Quando puderam partir levaram correio, espero que desta vez recebas”.

Pela primeira vez fiquei a saber que na Guiné havia mulheres pára-quedistas a intervir em combate.
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Nota do editor:

4 comentários:

Tabanca Grande disse...

Ó Dina, diz-me lá onde é que tu "aterraste" ? Foi mesmo em Fulacunda, lá no cu de Judas da região de Quínara ? Não me admira que nunca tivesses ouvido falar da existência das enfermeiras paraquedistas... Mas, pelo que conheço delas, vão ficar "zangadas" contigo...

Tabanca Grande disse...

Dino, com um ano de Guiné tinhas a "obrigação" de saber que havia mulheres, nossas camaradas, enfermeiras paraquedistas que andavam nos helis e nas DoO 7 a "socorrer" os desgraçados dos nossos feridos graves, com direito a evacuação Ypsilon...

Geralmente não paravam nos quartéis, faziam as evacuações a partir do mato até ao HM 241, em Bissau...Não tinham tempo para se "coçar"... Mas eu vi-as, no mato e no quartel de Bambadinca, sempre elegantes, sempre eficientes, sempre corajosas... Temos uma grande dívida de gratidão para com estas raparigas, hoje com a nossa idade... LG

Tabanca Grande disse...

Pedi às enfermeiras Giselda, Arminda, Rosa... para comentarem. Acho que havia muita gente, nos nossos quartéis, que não sabiam mesmo da existência das enfermeiras paraquedistas... Elas não precisavam de pôr anúncios nas revistas cor de rosa da época...

Anónimo disse...

Li com atenção e não levo a mal, por esse nosso camarigo, desconhecer da nossa existência, na Guiné e nas Tropas Paraquedistas.
Realmente nós éramos poucas para acudir a todos os locais, mas de facto eram muitas as saídas em DO 27, Alouette lll e até em Dakota, fizemos evacuações de feridos e não só, porque até a elementos da população civil, prestámos cuidados.
Também fizemos Basas de Operações, principalmente em Aldeia Formosa e Cufar,mantendo-nos de alerta para possíveis evacuações de feridos , que viesssem a ocorrer em teatro de operações, como na realidade aconteceram.
Ainda bem que esse camarada, não precisou de nos conhecer, no âmbito do nosso trabalho. Bom sinal para ele.
Hoje sentimo-nos bem connosco, por termos ajudado, a minorar o sofrimento dos feridos e doentes, que nos foram confiados.
Em nós ficou o sentimento de um dever, cumprido.
Um abraço.
M. Arminda Santos