sábado, 1 de junho de 2019

Guiné 61/74 - P19847: Recordações da CART 2520 (Xime, Enxalé, Mansambo e Quinhamel, 1969/71) (José Nascimento) (13): ingenuidade ou inexperiência do cap mil Maltez


 Foto nº 1 > Xime, CART 2520 (1969/70) >  O José Nascimentro junto ao obus 10.5


Foto nº 3 > Xime > CART 2520 (1969/70> Quartel do inimigo, ma mata do Xime


Foto nº 2 > Xime > CART 2520 (1969/70) > Depois deum ataque ao quartel


1. Mensagem do José Nascimento [ex-Fur Mil Art, CART 2520, Xime, Enxalé, Mansambo e Quinhamel, 1969/71], membro da nossa Tabanca Grande (*):

Data - 30/05/2019, 15:21

Assunto -  Ingenuidade ou inexperiência do capitão Maltez

Xime, c. 1969/70, cap mil António dos Santos Maltez.
Foto Renato Monteiro (2006) (*)


As forças militares portuguesas representadas pela CART 2520 e comandadas pelo Capitão [miliciano] Maltez caminhavam há algumas horas pelos trilhos das matas do Xime quando a determinado momento se começa a ouvir algumas batidas parecidas com o trabalhar de um machado. Tomadas as devidas precauções os nossas tropas começam a fazer a aproximação da direcção de onde vinha o som dessas batidas.

E, com os cuidados devidos, a tropa portuguesa chega a uma distância de cerca de cinquenta metros do local, numa clareira existente na mata. A esta distância deu para perceber que eram dois elementos do PAIGC, um deles com um lança-roquetes às costas e outro com uma Kalashnikov, estavam a cortar ramagens de palmeiras com uma catana ou uma ferramenta artesanal.

Após uma rápida análise da situação, o Capitão Maltez tomou a decisão de tentar apanhar à mão (vivos) aqueles guerrilheiros inimigos

É iniciado um cerco aos dois guerrilheiros, o que demora alguns minutos e as condições da mata não eram as melhores. Então o inesperado acontece, num movimento involuntário ou talvez não, um dos guias da nossa tropa tropeça num ramo da floresta, provocando um pequeno ruído, mas o suficiente para chegar aos ouvidos apurados dos guerrilheiros inimigos, que num ápice e mais velozes do que um raio desapareceram no interior da mata.

É retomado o caminho pelo trilho e muito mais depressa do que seria de esperar, os elementos que haviam fugido montam uma pequena emboscada e atiram um ou mais rokets sobre a tropa da CART 2520. Os nossos militares reagem e imediatamente respondem com algumas rajadas, fazendo com que aqueles elementos do PAIGC dispersassem de seguida. Uma das granadas atiradas contra os militares portugueses explodiu a escassos metros da fila do pirilau, provocando ligeiros ferimentos nas costas do soldado João Parrinha e de outros dois dos nossos combatentes, o Bárbara e o Setério, que de imediato foram assistidos pelo Cabo enfermeiro Silva.

Feitos de novo ao caminho, a nossa tropa cumpriu o percurso préviamente traçado, chegando já ao cair da noite à nossa base sem mais incidentes.

Para todos os camaradas da Tabanca Grande aqui vai um enorme abraço.

José Nascimento

Anexo:

Foto 1 - Xime, junto ao obus 10,5

Foto 2 - Xime, depois de um ataque inimigo

Foto 3 - Mata do Xime, quartel do inimigo

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Notas de leitura:



23 de junho de 2006 > Guiné 63/74 - P899: Diga se me ouve, escuto! (Renato Monteiro)

3 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Zé, beneficiei algumas evzes do apoio (protetor) deste obus 10,5... Infelizmente nºao chegava ao Poindon / Ponta do Inglês, onde era mais necessário, em caso de emboscadas... Tamnto canto de me lembro do teu capitão, o Maltez, tinhe jeito para a tropa como eu...Ainda é vivo ? , espero bem,

José Nascimento disse...

O capitão António dos Santos Maltez era professor de liceu e já tinha cumprido o SMO quando foi de novo chamado e promovido a capitão para comandar a Companhia. Tinha tanta aptidão/vocação para a tropa como qualquer um de nós, com a desvantagem de ser mais velho, com uma compleição física a dar para o "forte" e de sofrer de miopia, teve de se habituar a andar no mato sem óculos. Infelizmente já não pertence ao número de vivos, dos oficiais só resta um alferes.
Um abraço
José Nascimento

Anónimo disse...

Caro camarada José Nascimento,

É normal, digo eu, que as memórias do (sobre) Xime me suscitem uma maior atenção. Foi aí que nos anos, cada vez mais longínquos, de 1972/1973 vivi grandes emoções/tensões, como já dei conta em diferentes narrativas.
Agora, e caso ainda te recordes, gostaria que descrevesses melhor (com mais detalhes) o contexto de cada uma das fotos que acompanham estas "recordações da CART 2520".
Obrigado,
Um grande abraço,
Jorge Araújo.