terça-feira, 18 de junho de 2019

Guiné 61/74 - P19900: Notas de leitura (1188): Uma história antiga, do livro "Brunhoso, Era o Tempo das Segadas - Na Guiné, o Capim Ardia", da autoria de Francisco Baptista, com lançamento no próximo dia 24 de Agosto de 2019, pelas 15 horas, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Mogadouro

1. Mensagem do dia 13 de Junho de 2019 do nosso camarada Francisco Baptista (ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2616/BCAÇ 2892 (Buba, 1970/71) e CART 2732 (Mansabá, 1971/72), autor do livro "Brunhoso, Era o Tempo das Segadas - Na Guiné, o Capim Ardia", trazendo até nós um trecho deste seu livro que vai ser lançado no dia 24 de Agosto próximo, pelas 15 horas, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Mogadouro.

Tenho recordações vagas e difusas desse meu antepassado que sempre procurou viver a vida com independência e liberto de amarras de qualquer espécie. Talvez por isso nunca tenha casado, entre o falar do povo e a lenda diz-se que terá tido um filho de uma mulher casada, que por via das dúvidas nunca assumiu. Aliás ao tempo, as leis dos Estados seguindo um pouco a lei natural da maioria das espécies animais reconheciam as mães sem se preocuparem com a paternidade a não ser que houvesse casamento, sendo nesses caso os maridos legalmente obrigados a assumi-la.
Alguns sobreirais, alguns olivais, alguns lameiros (prados para o gado), uma boa horta e algumas terras de cultivo de cereais, que herdou dos pais, ajudaram-no a viver dentro dessa liberdade que ele apreciava.

Era meu tio-avô por ser irmão do meu avô paterno e padrinho e nessa qualidade tinha comigo uma ligação e um poder protector logo abaixo do meu pai. Sem ser muito falador, assumia a sua responsabilidade de padrinho, dentro da sua filosofia de vida sem se intrometer na minha vida de garoto, sem conselhos desnecessários, sem dinheiro nem rebuçados. Um padrinho era uma figura tutelar, bastava-lhe existir e ser nosso amigo para sentirmos a sua protecção benfazeja.
Dava-me castanhas piladas (secas), fosse primavera ou verão, que levava sempre nos bolsos quando íamos os dois com as vacas do meu pai, e com a égua dele para o lameiro (prado de pastagem) dele de Vale da Nina..
Nunca me esqueci dessas castanhas piladas e pela vida fora sempre agradeci essa dádiva e a bonomia, sem palavras desnecessárias, com que me tratava. Os meus cinco ou seis anos de vida davam-me a intuição e o entendimento para o saber interpretar e estimar. Sonhadores, distraídos ou dorminhocos, sei que por vezes chegávamos a casa sem vacas, que se tinham perdido.

Nas noites longas de inverno ia muitas vezes para casa dum rico da aldeia, segundo dizia, rezar a coroa (equivale a três terços). Conta-se que enquanto rezavam iam bebendo vinho, de que ambos gostavam, duma caneca próxima da lareira, para aquecerem.

Era um homem de estatura média, forte, largo, lembro-me ainda de o ver em dias de verão ou de inverno, em tronco nu, a lavar-se na fonte da bica, perto da casa dele.

Até ao dia da sua morte que ocorreu subitamente num dia 29 de Agosto, na festa da Senhora do Caminho, em Mogadouro, viveu sempre sozinho em casa dele, casa que o meu pai depois herdou e reconstruiu para nós. Gostava de festejos, folguedos e dos excessos que os banquetes que lhe estavam associados proporcionavam.
Os sobrinhos fizeram-lhe um funeral digno além do mais porque preservou todos os bens que tinha herdado.
Eu, nos meus nove anos de idade, ele faria sessenta e sete, quando a minha mãe me disse que o meu padrinho tinha morrido, senti uma tristeza desprendida, sem dor e sem mágoa, como quem se despede dum companheiro valente que não gosta de lágrimas.

Do meu livro " BRUNHOSO, ERA O TEMPO DAS SEGADAS" 
" NA GUINÉ O CAPIM ARDIA"
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Nota do editor

Último poste da série de 17 de junho de 2019 > Guiné 61/74 - P19898: Notas de leitura (1187): “Deixem a Guerra em Paz: Guerra Colonial – Guiné”, Edições Partenon, 2019 - Sempre na caçoada, zombeteiro quanto baste, subtil apurado: Alberto Branquinho

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