terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Guiné 61/74 - P22917: A nossa guerra em números (12): baixas militares e civis, de um lado e do outro... Por cada militar português morto, terá havido 2,7 guerrilheiros mortos... Na Guiné, o PAIGC terá tido 9 mil baixas, entre mortos (78%) e feridos (22%), entre guerrilheiros e população sob o seu controlo. Mas o nº de feridos pode estar subestimado e o de mortos sobreestimado.

Quadro 1 - Guerra colonial / Guerra de África (1961/74): baixas civis, vítimas da acção da guerrilha. Estimativa com base nos relatórios militares portugueses. Fonte: Adapt. de Pedro Marquês de Sousa - "Os números da Guerra de África". Lisboa, Guerra & Paz Editores, 2021, pág. 154.

 

1. Quantos civis (crianças, mulheres, homens, idosos) terão morrido na guerra da Guiné, a exemplo da "Mariema" do pungente poema do Alberto Bastos (*) ? E dum lado e do outro... 

Nunca saberemos ao certo... A única fonte disponível são os relatórios militares portugueses que poderão pecar nuns casos por excesso (nº estimado de guerrilheiros mortos) ou por defeito (elementos civis, nomeadamente entre a população apoiante da guerrilha ou sob o seu controlo).

Pedro Marquês de Sousa, o autor de "Os números da Guerra de África" (Lisboa, Guerra & Paz Editores, 2021) (tenente-coronel na reforma, mestre e doutor em História e ex.professor na Academia Militar e no Instituto Universitário Militar) que temos vimdo aqui a citar, dedica apenas três páginas às "baixas civis", do lado português, nos três teatros de operações (pp. 154/156). (**)

A estimativa do autor aponta para 6200 mortos e 12200 feridos, em Angola, Guiné e Moçambique, num total de 18400 baixas civis,  em resultado da acção da guerrilha,  diretamente (ataques e bombardeamentos a aldeias) e indiretamente (minas e armadilhas) (pág. 154). 

Segundo o Quadro 1, acima publicado, Angola teve mais mortos em números absolutos e relativos. E a Guiné terá tido mais feridos...

Citando o autor:

"As baixas civis foram mais expressivas em Angola, sobretudo no início da luta armada (1961), quando foram atacadas as fazendas dos colonos brancos, mas também noutros períodos em que as vítimas eram quase todas africanas, como ocorreu em 1968-1970, numa fase em que a guerra decorria nas duas frentes (Norte e Leste), realidade que também resultou da rivalidade entre os movimentos de libertação" (pág. 154).

No que diz respeito a Moçambique, é a frente que apresenta menos baixas civis, "embora a quantidade de mortos e feridos tenha aumentado bastante nos últimos anos da guerra" (pág.155).

"Na Guiné, a quantidade de baixas civis também foi aumentando, à medida que a situação militar evoluía megativamente para os portugueses" (pág. 156).

2. Veremos, num próximo poste, com mais detalhe,  as nossas baixas militares e as baixas entre os guerrilheiros (, incluindo prisioneiros, para além dos mortos e feridos).

O autor estima que por combatente morto (por todas as causas), do lado português, terá havido 2,7 guerrilheiros mortos: em termos absolutos, 10409 mortos entre as NT, e 28266 do lado dos movimentos nacionalistas (pág. 164) (Quadro 2).

Nas baixas da guerrilha, deverão estar  naturalmente também civis, elementos da população que apoiavam a guerrilha ou estavam sob o seu controlo. Impossível, muitas vezes,  num guerra deste tipo ("subversiva", para as autoridadades portuguesas de então; de "libertação", para os movimentos nacionalistas),  conseguir-se separar os "civis" dos "combatentes". 

Na Guiné, o PAIGC terá tido 9 mil baixas, entre mortos (78%) e feridos (22%) (Quadro 2).

Parece-nos que o nº de feridos está  francamente subestimado (e o de mortos pode estar sobreestimados): vimos, no poste anterior (**) que o autor, Pedro Marquês de Sousa,  encontrou, para o caso das NT. um rácio de 10 feridos (hospitalizados) por cada morto. O nº de mortos estimados para a Guiné corresponderá grosso modo ao nº máximo de  combatentes do PAIGC  ao longo da guerra: 6000 guerrilheiros e 2000 milícias, segundo o autor que temos vindo a citar (pág. 331).

Aliás, basta comparar os dois quadros, 1 e 2: nas baixas civis, do lado português, a proporção dos feridos é sempre superior à dos mortos: 55% para Angola, 78% para a Guiné e 71% para Moçambique.  O Quadro 2 deve ser analisado com cautela uma vez que nas baixas dos movimentos nacionalistas é impossível separar os combatentes e os civis. 

Estes dados têm que ser vistos com reservas, já que são provenientes de uma única fonte (os relórios militares portugueses). Mas provavelmente também não há outros, válidos e fiáveis.


Quadro 2 - Guerra colonial / Guerra de África (1961/74):  baixas dos movimentos nacionalistas: guerrilheiros e população apoiante.  Estimativa com base nos relatórios militares portugueses. Fonte: Adapt. de Pedro Marquês de Sousa - "Os números da Guerra de África". Lisboa, Guerra & Paz Editores, 2021, pág. 164.
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8 comentários:

João Carlos Abreu dos Santos disse...

Continuação da divulgação de extrapolações carentes de quaisquer validações de âmbito científico.
Ao autor da tal "nossa guerra em números", não se lhe reconhecem nem capacidade nem mérito; quanto aos objectivos da 'obra', resta a dúvida sobre seriedade de propósitos...

Cherno Baldé disse...

Caros amigos,

Os numeros apresentados nesta obra so tem interesse como exercicios academicos, pois sao dados que devem ser vistos com muita reserva, atendendo a natureza fascista do regime que vigorava no periodo em apreço.

A meu ver os unicos numeros que podem ser considerados como minimamente validos terao a ver com o exército (do quadro, milicianos e forças especiais), pois quanto as milicias e civis os registos raramente eram feitos, facto que nao surpreende muito porque era um procedimento herdado das guerras ditas de pacificaçao em que o numero de participantes, mortos e feridos dentro das forças locais (Auxiliares, carregadores etc) que de facto faziam a guerra, nunca eram conhecidas como nos diz o historiador Francés, René Pélissier, no seu livro sobre a Guiné. Quanto ao numero de mortos citados e referentes ao guerrilheiros, se foram baseados nos relatorios militares, em que havia sempre mais suspeitas do que provas reais, esta tudo dito.

Com um abraço amigo,

Cherno Baldé

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Cherno, obrigado pelo teu ponto de vista. Mas tu que estás mais próximo das fontes guineenses, diz-nos se há, na Guiné-Bissau de hoje, no INEP por exemplo, números conhecidos e divulgados sobre as baixas (mortos, feridos e prisioneiros), tanto da guerrilha do PAIGC (mas também da FLING, num dada fase) e como da população, "apoiante" ou "sob controlo" do PAIGC.

Temo que, com as operações terrestres e bombardeamentos (Força Aérea, Marinha, Artilharia do Exército nas áreas de influência do PAIGC: Cantanhez, Morés, Fiofioli, Choquemone, Como, etc.), as baixas entre a "população civil", tenham sido bem maiores que o estimado...

Ao fim destes anos, portugueses e guineenses têm o direito de saber o número de baixas provocadas por esta inútil guerra...

Quem conheceu o terreno, fez operações terrestres e leu os nossos relatórios, sabe que os números das baixas do PAIGC eram muitas vezes estimadas, a partir de "indícios" (como o arrastamento de corpos, poças de sangue,etc.).

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Cherno: Não queremos, obviamente, usar os tristes números da guerra como "arma de arremesso" contra ninguém, até por que a guerra já acabou há muito... e agora compete aos historiadores fazer os "balanços"...

Não podemos ignorar, em todo o caso, que o apuramento e a divulgação das "baixas" fazem parte, em todas as guerras, do "arsenal de propaganda e contra-propaganda"...

Quem esteve no TO da Guiné, no mato, sabe, por exemplo, que a "Maria Turra" transmitia dados fantasiosos sobre as baixas provocadas pelo PAIGC às forças militares portuguesas, incluindo milícias e população civil... Mas as fontes portuguesas da época também têm de ser consultadas com "cautela e reservas"...
Os "comandantes", em qualquer guerra, querem "mostrar serviço": mortos, feridos, prisioneiros, armamento capturado, infraestruturas destruídas, etc...

Já apresentámos aqui alguns relatórios de operações, no TO da Guiné, com estimativas "fantasiosas" das baixas provocadas ao IN...

Unknown disse...

Quanto à fantasia dos números po

Eduardo Estrela disse...

Quanto à fantasia dos números posso afirmar que em 1970, quando a propósito do reordenamento de Cuntima tivemos que fazer colunas diárias a Farim, num dia em que a coluna era comandada por mim rebentou uma anti-carro no rodado traseiro duma viatura carregada com material, rebentamento do qual felizmente não resultaram danos pessoais. No entanto a rádio do PAIGC noticiou a morte de dois militares e vários feridos o que não era verdade.
Claro que o exército procedia de igual modo em situações de dúvida.
Eduardo Estrela

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Na realidade, havia diferenças de literacia e numeracia, de um lado e do outro... Em Conacri, a elite (política) do PAIGC não queria "números", mas "manga de roncos"... Do nosso lado, muitos comandantes operacionais só queriam era contabilizar "números": mortos, feridos, prisioneiros, armamento... Outra forma de dizer "manga de roncos"...

Andámos nisto muitos anos, a "brincar às guerras", com as nossas vidas e as vidas de outros desgraçados...

Anónimo disse...

Caro Luis Graça,

Eu estou a ser critico em relação ao exército português, posto que sobre ele podemos ter dúvidas, algumas reservas sobre a fiabilidade das fontes e metodologias nas compilações, deduções e das extrapolações entre outras, já do lado do Paigc não se pode esperar nada o que não é de estranhar dada a natureza subversiva do movimento, do secretismo das acções, da violência e pressão física e psicológica sobre os combatentes e a população sob seu controlo em geral e os comandantes das zonas em particular.
Na verdade, pode-se esperar alguma verdade, mesmo que parcial, da história que o Leão nos conta, mas não se pode esperar muita coisa da história do Lobo, que passa a maior parte do seu tempo a comer carcaças abandonadas ou a roubar a caça aos cães selvagens, como diziam os mais velhos da minha aldeia.

O que se podia esperar de "bandidos" como vocês mesmo os designavam ?

Abraços,

Cherno Baldé