sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Guiné 61/74 - P23517: Notas de leitura (1474): "Histórias da C. CAÇ. 2533" - Os belos testemunhos da gentes da CCAÇ 2533 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 8 de Agosto de 2022:

Queridos amigos,
Mais vale tarde do que nunca, mesmo em edição de reprografia. Combateram e construíram bem-estar para a população, marcaram presença em Canjambari e noutras paragens. O Capitão Sidónio (hoje coronel) teve um papel fulcral na coesão, no sentido de ver que soube imprimir à sua unidade militar. Recebeu-se um quartel em estado de lástima, legou-se obra asseada, não se virou a cara aos corredores de infiltração, aceitou-se o trabalho dos reordenamentos. Transferidos para Farim, não desapareceu a aspereza operacional, há testemunhos a recordar o que era ir até à ponte de Lamel. Não esquecer a série de corredores de pontos de passagem regularmente utilizados pelo PAIGC entre o Senegal e o interior da Guiné. Agora, décadas depois, exulta-se com bom convívio as penas do passado. E o documentário fotográfico aqui fica, em substituição das palavras.

Um abraço do
Mário



Os belos testemunhos das gentes da CCAÇ 2533 (2)

Mário Beja Santos

A curiosidade desta obra é que não é uma história de uma unidade militar, trata-se de um punhado de testemunhos com uma boa articulação de imagens, é claramente trabalho de reprografia e o seu destinatário também não deixa ilusões, é todo aquele que andou a combater em Canjambari e na região de Farim entre 1969 e 1971, a malta da CCAÇ 2533. Testemunhos pessoais, umas vezes intensos, outras vezes eivados de humor ou de boas ou más recordações nas situações vividas. É o caso de José Tomás Costa que escapou por pouco a uma mina antipessoal:
“Em 17 de novembro de 1969, eu ia na frente do pelotão e pareceu-me ver uma tábua velha no chão da picada. Pensei dar-lhe um pontapé, mas fez-se luz no meu espírito e mandei parar o grupo. O Furriel Sousa, depois de analisar a situação, disse-me que se tivesse dado aquele pontapé teria dado no mínimo sem um pé. Tratava-se de uma mina antipessoal. Fiquei aliviado e agradeci a Deus. No dia seguinte, ao chegar ao quartel, recebi um telegrama com a notícia de que era pai de mais um rapaz”. O mesmo José Tomás Costa confessa que gostava de voltar a Canjambari, para percorrer alguns daqueles carreiros e bolanhas com paisagens de sonho, e desabafa: “Hoje, doente com problemas psicológicos cujas consequências sofrem a mulher e filhos, reconheço que tirei algum proveito da minha ida à tropa. Fui incorporado como analfabeto, fiz a instrução primária na tropa e isso foi muito bom para mim, pois como veem tenho muito gosto e orgulho em colaborar nesta escrita”.

Há quem recorde que alguém a seu lado puxou o gatilho e disparou a arma, podia ter sido grave, tudo operação de rotina a puxar a culatra da G3, há recordações de festas de aniversário, há quem nunca esqueceu o embarque para a Guiné naquele dia 24 de maio de 1969, e depois a viagem de Bissau para Farim e depois Canjambari, no meio do mato a cerca de 16 quilómetros a Sul de Jumbembem. Há também quem não esqueça que deu o corpo ao manifesto para construir ou reconstruir abrigos, trincheiras e vales. Havia quem tivesse sofrido de problemas do foro mental. E há também quem venha debitar que em Farim nem tudo era fácil, montar proteção às operações de campinagem na zona da ponte de Lamel tinha muitos riscos.

O Capitão Sidónio não transigia na disciplina mas embarcava numa boa brincadeira, como alguém conta a história da distribuição de isqueiros oferecidos pelo Movimento Nacional Feminino em 1970, alta madrugada por ali andava o corneteiro a acordar muita gente e o capitão, prestimoso, a entregar as ofertas contendo o riso.

Há igualmente quem não esqueça que andou perdido, não faltam histórias de abelhas e o Corredor de Lamel é motivo de várias histórias. O Furriel Tavares recorda a picagem da estrada numa coluna de reabastecimento, as viaturas vinham de Cuntima, Jumbembem e Canjambari até Farim. Minucioso trabalho a picar mas já com a ponte de Lamel à vista, acionou-se um fornilho com muito fogo do inimigo. E fala de atos de heroísmo. Há as memórias de um cabo-cantineiro e de um cabo-quarteleiro.

E chega-se à história do grupo que organizou este punhado de testemunhos. Quem depõe é o Furriel Nuno da Conceição. Alguém tinha que pôr em letra de forma o que se passara com a CCAÇ 2533 que andara por Farim, Nema, Jumbembem, Cuntima e Canjambari, entre maio de 1969 e março de 1971. Ele recorda que Canjambari tinha uma área mais ou menos equivalente a dois campos de futebol, ali viviam cento e sessenta e tal militares. Havia embaraço da escolha, recordações brejeiras, outras de caráter íntimo, não se encontrava com facilidade o fio condutor. Juntou-se um grupo com a missão de dar uma estrutura a todo o material que se pretendia coligir. E após jornada chegou-se ao almoço com o plano da obra: testemunhos, imagens alusivas, relação de todos aqueles que incorporaram a CCAÇ 2533 e o documentário fotográfico. E para que a História não esqueça, abre-se com o louvor dado pelo comandante-chefe em abril de 1971:
“Colocado inicialmente em Canjambari, realizou, a par da missão de contrapenetração num dos habituais corredores de infiltração do IN, uma intensa atividade operacional, alicerçada num elevado espírito de missão e numa firme vontade de bem servir”. Recordam-se várias operações onde inclusivamente houve captura de armamento e material. E adianta o louvor:
“A par da atividade operacional, remodelou totalmente as instalações militares de Canjambari e realizou ainda tarefa de muito mérito no âmbito da promoção social das populações, na construção de reordenamentos e organizações de terreno, tendentes à defesa dos mesmos”. Louvor pelo espírito de disciplina e de corpo, pelo elevado sentido de dever. Seguramente que o capitão Sidónio estava por detrás de tão elevado feito.

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Notas do editor:

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Último poste da série de 10 DE AGOSTO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23512: Notas de leitura (1473): Eduardo Lourenço (1923-2020): afinal, quem são os portugueses, e o que significa ser português? (José Belo, Suécia)

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