terça-feira, 19 de setembro de 2023

Guiné 61/74 - P24674: Manuscrito(s) (Luís Graça) (232): Zé do Telhado (Penafiel, 1816 - Angola, Malanje, 1875): um caso de "banditismo social"? Entre o mito e a realidade - Parte III: de herói patuleia a perseguido e fora-da-lei



Capa e contracapa do livro de Camilo Castelo Branco, “Memórias do Cárcere”, II Vol, 8ª ed. Lisboa, Parceria A. M. Pereira, Lda, 1966, (1ª ed., Porto, 1862) (Coleçáo "Obras de Camilo Castelo Branco,  Edição Popular, 54")


1. Aos 19 anos, por volta de 1836/37, José Teixeira da Silva (nascido em 22 de junho de 1818, no concelho de Penafiel), vai cumprir o serviço militar, no regimento de lanceiros nº 2, os "Lanceiros da Rainha", na Ajuda, em Lisboa. (*)

 Eis, a seguir,  como o Camilo Castelo Branco, a partir das confidências do Zé do Telhado na prisão do Tribunal da Relação do Porto (por volta de 1860/61), relata a sua vida na tropa e depois a sua participação na “Revolta dos Marechais” em julho de 1837, e mais tarde, em 1846/47 na revolta da “Maria da Fonte” (primavera de 1846) e na guerra da “Patuleia (novembro de 1846/junho de 1847). No primeiro caso, indo integrado nas forças do duque de Saldanha (que estava do lado dos “cartistas”) e no segundo caso como ordenança do general Sá da Bandeira, "setembrista", que tinha tomado o partido da Junta do Porto. 

Em 15 de novembro de 1846, num combate de Valpaços, Trás-os-Montes, José Teixeira da Silva (por alcunha, "Zé do Telhado") ganha por atos de excecional bravura a condecoração da Torre e Espada, grau de cavaleiro.  

Aos 19 anos, o Zé do Telhado trabalhava, como "capador" ou "castrador",  com o tio materno, no concelho vizinho de Lousada, e pretendia casar-se com a sua prima, Ana Lentina  de Campos, já órfã de mãe. O Camilo diz que este tio era de origem francesa, facto que está por comprovar. O pai da moça recusou-lhe a pretensão. Desgostoso, o rapaz alista-se no exército.

(…) Foi o moço para Lisboa, e jurou bandeira no segundo Regimento de Lanceiros, denominado o da Rainha [Dona Maria II] . A esbelta figura de José Teixeira era o encanto dos oficiais. Nenhum camarada caía tão airoso na sela, nem meneava mais garboso a lança. O cavalo entendia-lhe o mais ligeiro tremor de pernas, e enfeitava-se orgulhoso do possante e galhardo moço, que lhe embridava os ímpetos para realçar-lhe as soberbas graças.

Na conhecida revolta dos Marechais, em 1837 [1] saiu José Teixeira na comitiva do duque de Saldanha, e mostrou quem era nos combates do Chão da Feira [2] e Ruivães [3]

“Lá ouvi” − me dizia ele – “a cantiga das primeiras balas e algumas me queimaram o cabelo, e vinham dizer-me ao ouvido que estivesse sossegado. O barão de Setúbal [4]  disse-me uma vez que choviam balas; e eu mostrei-lhe a lança, e disse: “Cá está o guarda-chuva, meu general; deixe chover!”.

Não esqueceu o valente Schwalback 
[4] o afoito gracejo, quando a derrota lhe desordenava as filas. Como, em remate de luta, tivesse de emigrar para Espanha, o barão de Setúbal levou consigo, como sua ordenança, José do Telhado.

Fez-se a Convenção de Chaves [5] a tempo que o lanceiro recebia a Carta da sua prima, chamando-o a toda a pressa para se casarem com o consentimento do pai. Requereu o soldado a baixa, e obteve-a do barão de Vilar de Turpin, comandante da Terceira Divisão Militar. Recebeu o francês [seu tio materno e futuro sogro, que vivia na Lousada] em braços paternais e dotou a filha com abundantes bens para mediania aldeã. (…)

Seguiu-se a revolução popular de 1846 [5]. A populaça carecia de um chefe, e rejeitava os ilustres caudilhos, que saíram de suas casas nobres a especular com o braço do povo. Conclamaram à uma José Teixeira, e quase forçaram a comandá-los.

O chefe, conhecendo-se obscuro de mais para aceitar a responsabilidade e prestígio de cabecilha guerrilheiro, convenceu os seus amigos da precisão de se ajuntarem, sob outro chefe, às legiões populares que confluíam para a cidade heróica [o Porto].

Entrou José do Telhado ao serviço de Junta [do Porto] na arma de cavalaria. Comprou cavalo, e fardou se à sua custa a todo o primor. Repartia do seu dinheiro com os camaradas carecidos, e recebia as migalhas do cofre da Junta para valer aos que de sua casa nada tinham.

José Teixeira empenhou-se grandemente para satisfazer o que em parte era capricho e em parte largueza de alma.

Acompanhou a expedição a Valpaços, e foi dado como ordenança ao senhor visconde de Sá da Bandeira. As proezas cometidas nessa temerosa e mal sortida batalha, estão escritas na condecoração de Torre-e-Espada que o general, por sua própria mão, lhe apresilhou na farda.

Fora o caso que do cômoro duma ribanceira alguns soldados do regimento traidor [leais aos Cabrais] apontavam as armas ao general, conturbado pela fumaça das descargas, José Teixeira arranca do cavalo a toda a brida, toma as rédeas do cavalo do general, e obrigou a assaltar um valado. Mal deram o saldo, passaram as balas poucas polegadas acima da cabeça de ambos.

A este tempo três soldados de cavalaria avançaram desapoderados sobre o visconde de Sá. José Teixeira embarga-lhes a arremetida, desarma o primeiro de um golpe, fere mortalmente o segundo, e persegue o terceiro, que fugia, até lhe arrancar a vida pelas costas.

Quando voltou da fação, já o general tinha suspensa a medalha, que o valente recebeu com mais delicadeza que entusiasmo de honras.

Feito com o convênio de Gramido, José Teixeira arrancou as divisas de sargento e foi para casa, onde o esperavam a saudosa e atribulada mulher com os seus cinco filhos.

Como se disse, a casa estava onerada de dívidas, os credores perseguiam-no e as autoridades, avessas à sua política, esquadrinhavam disfarces para o 

afligirem. (…)

(Excertos: Camilo Castelo Branco, “Memórias do Cárcere”, II Vol, 8ª ed. Lisboa, Parceria A. M. Pereira, Lda, 1966, (1ª ed., Porto, 1862), pp. 87-91. Seleção, revisão, fixação de texto e notas, LG)
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Notas do editor LG:

[1] De 12 de julho até 7 de outubro de 1837

[2] Chão da Feira: perto da Batalha (28 de agosto de 1837)

[3] Ruiváes, Chaves (15 de setembro de 1837)

[4] João Schwalbach (1774-1847), barão de Setúbal

[5] Maria da Fonte e Patuleia (1846/47)
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Nota do editor:

1 comentário:

José Teixeira disse...

O Zé do Telhado tinha bem demarcada a sua zona de atuação. Do Marco de Canavezes a Vila Real até Cete, Paredes, sobretudo na orla da estrada real. A conhecida estrada Porto a Vila Real com uma variante para a Régua. Era a estrada por onde passavam os grandes comerciantes do Vinho Fino, vulgo, Vinho do Porto. A minha avó falava muito do Zé do Telhado, dado que o meu visavô foi contemporâneo dele. O Lugar da Árvore em Caíde, um entroncamento de estradas era um dos sítios onde ela costumava fazer as emboscadas. Recordo-me de em criança passar por lá várias vezes a caminho de Vila Meã.Havia sempre uma história contada pela minha avó sobre o meliante. A admiração que os mais velhos tinham pelo Zé do Telhado ia assim passando para os mais novos. Para a minha avó o Sr. José do Telhado tinha sido um grande homem. Ele roubava aos ricos para dar aos pobres e havia sempre mais uma história para contar.
Zé Teixeira