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domingo, 23 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27454: Humor de caserna (222): A chico-espertice às vezes também dava... m*rda (José António Sousa, 1949-2025 / António Carvalho)


Cartoon gerado  pela IA / Gemini / Google, sob instruções e supervisão de LG.
 Homenagem ao José António Sousa (1949-2025)



Guiné > Carta da Província (1961) (Escala 1/500 mil ) > Percurso, assinalado a amarelo entre o Xime e Cabuca, passando pro Bambadinca, Bafatá e Nova Lamego
 
Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)


1. Não foi o já saudoso José António Sousa (1949-2025) que nos contou diretamente, mas foi o António Carvalho (*) que com ele conviveu, quer na Tabanca de Matosinhos, quer no Bando do Café Progresso.

É uma cena de "chico-espertice" que merece ter o devido destaque na série "Humor de Caserna". Aqui vai.

O protagonista é o José António Sousa. O cronista, o Carvalho de Mampatá. Recorde-se que o Zé António Sousa  esteve em  Cabuca no sector L3 Nova Lamego), como sold cond auto, CCAV 3404, / BCAV 3854.

 O cais referido a seguir, só pode ser o do Xime, a grande porta de entrada da Zona Leste, nesta altura da guerra (1971/73), Pertencia aio Sector L1 (Bambadinca). Era no Xime que as LDG abicavanm com homens e material.

A distància do Xime até Cabuca devia ser da ordem dos 180/190 km. Uma etapa dura, mesmo que já em estrada alcatroada até Nova Lamego (Xime-Bambadinca-Bafatá-Nova Lamego=160 km). Depois era, picada até Cabuca (c. 25/30 km). Náo sabemos em que estação (seca ou das chuvas) se desenrola a história. Cinco ou seis horas de estrada, a andar bem, sem comtratempos, no tempo seco.

Na altura, o dispositivo das NT em Cabuca, perto da fronteira com a Guiné_Conacri,  devia ser:
  • CCav 3404 
  • 1 Esq / Pel Mort 2267 
  • 1 Sec (-) / /Pel Canh S/R 2298
  • 1 Pel Mil 255

Humor de caserna  > A chico-espertice às vezes também dava... m*rda 

(José António Sousa, 1949-2025 / António Carvalho)
 

O Zé António tinha deixado no cais a sua viatura, GMC, destinada a abate. 

Na volta da coluna, de regresso ao seu aquartelamento, em Cabuca, deveria conduzir a Berliet,  novinha em folha, acabada de chegar de Bissau. 

Era essa a sua intenção, mas o 1º Cabo, puxando das divisas, impôs-se, nestes modos: 

– Quem vai estrear a Berliet sou eu... Tu levas o Unimog que eu trouxe.

O Zé António, naquela maneira de levar tudo a brincar, perguntou-lhe o motivo pelo qual não era ele próprio a conduzir a viatura acabada de chegar, uma vez que a mesma lhe estava destinada. O 1º Cabo,  lacónica e autoritariamente, respondeu-lhe: 

–  Porque eu sou cabo ...

O Zé António, rendido ao peso das divisas, assentiu, sob um sorriso
malandro:

– Então, se és cabo, leva-a.

Passados alguns quilómetros a Berliet, novinha em folha,  pisou uma mina. Por sorte o nosso 1º Cabo apenas sofreu ferimentos sem grande gravidade.

Foi uma maneira de te homenagear, meu amigo Zé António.

Carvalho de Mampatá



2. Comentário do editor LG:

Uma história "edificante", António, e muioto ao gosto dos "bandalhos" (a irreverente tertúlia, que é o Bando do Café Progresso, de  que ambios faziam/fazem parte; o Zé António continuará a ser lembrado como um dos "bandalhis")...

Na tropa e na guerra, e na vida em geral, todos conhecemos esses "chicos-espertos"... A "chico-espertice" é, de há muito, uma forma peculiar de ser e de estar do "tuga"... Conheci alguns na Guiné, e em "cenas" com consequências bem mais trágicas do que as que tu relatas... 

Mas é uma boa homenagem ao nosso saudoso Zé António. Que era uma homem discreto, sensato, competente,que amava a vida, bem como os seus amigos e camaradas.  E que amava a Guiné e a sua gente. Ao ponto de lá ter voltade, em romagem de saudagem...Gostava do seu Porto,  da sua Foz do Douro, do fado... e da "mulher negra" (tem uma coleção fabulosa de rostos femininos na sua página do Facebook!)

Frequentava as "tardes de fado", ao domingo, das "Caves São João", R. de Cimo de Vila 109, Porto,  um dos locais do roteiro do "fado vadio". Como frequentava a Tabanca de Matosinhos e o Bando do Café Progresso e a Tabanca dos Melros.

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
___________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 21 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27448: In Memoriam (562): José António Sousa (1949-2025), ex-sold cond auto, CCAV 3404/BCAV 3854 (Cabuca, 1971/73): o funeral é hoje, dia 21, às 16h00, no cemitério da Foz do Douro, Porto

(**) Último poste da série > 10 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27407: Humor de caserna (221): O brigadeiro António Spínola para o comandante, "apanhado do clima", do destacamento da Ponta do Inglês, c. 3º trimestre de 1968: "Não tenho a certeza de ter aterrado...no sítio certo!"

10 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Interessante a análise que a própria IA (Gemini / Google) fez desta "cena"... (O "boneco", confesso, não saiu bem "esgalhado", e tive que fazer correções com o "Paint"...). Aqui vai:

(...) É uma história poderosa, carregada de ironia e que ilustra perfeitamente a dureza da Guerra Colonial e, simultaneamente, as dinâmicas humanas e hierárquicas no seio das Forças Armadas Portuguesas.

Comentário da Cena
A cena é um microcosmo da vida militar em tempo de guerra, onde se misturam a rigidez da hierarquia com o perigo iminente.

1. A Ironia do "Chico-Esperto"
O 1º Cabo encarna o papel do "chico-esperto" (ou "espertalhão")

A "Esperteza": O cabo usa a sua patente ("Quem vai estrear a Berliet sou eu...tu levas o Unimog que eu trouxe.") para obter um benefício pessoal — o prazer de conduzir a viatura mais nova e, presumivelmente, mais confortável e prestigiada. A sua justificação é lacónica e autoritária: "Porque eu sou cabo...".

O Castigo Irónico: O destino (a mina) pune a sua atitude de forma imediata e severa. A sua "esperteza" acaba por colocá-lo diretamente em perigo, enquanto o Zé António, que aceitou a imposição com um sorriso malandro, escapa ileso. O cabo queria o privilégio da viatura nova, e o privilégio veio com o risco máximo.

2. A Atitude do Soldado Zé António
O Zé António representa a resiliência e a sabedoria do militar de patente mais baixa.

Obediência Sarcástica: Ele acata a ordem, mas com um "sorriso malandro", o que sugere que ele compreende perfeitamente a mesquinhez da atitude do cabo. Ele rende-se ao "peso das divisas", mas não à lógica.

A Homenagem: O texto termina como uma homenagem a ele, não pela sua sorte, mas pela sua atitude tranquila perante a injustiça da hierarquia. A "bênção" (ou maldição) de conduzir o veículo mais antigo e menos desejado salvou-lhe a vida.

3. O Contexto de Guerra (Guiné Portuguesa, c. 1971/73)
A Realidade das Minas: A explosão da mina anti-carro era um perigo constante e quotidiano na Guerra da Guiné, sendo o PAIGC exímio na utilização deste tipo de armadilha. A Berliet e o Unimog eram viaturas comuns, mas o contraste entre a "novinha em folha" e o perigo que a estrada escondia sublinha a brutalidade do teatro de operações.

A GMC, a Berliet e o Unimog: Mencionar as viaturas (GMC, Berliet, Unimog) dá autenticidade e veracidade à narrativa. O contraste é entre o veículo destinado a abate (GMC) e o novinho em folha (Berliet), que se torna o objeto de cobiça do cabo.

Esta micro-história capta de forma brilhante a moralidade da guerra, mostrando que o maior perigo, muitas vezes, não vem do inimigo, mas da vaidade e do abuso de poder entre as próprias fileiras — e como o destino pode intervir para reverter essa injustiça de forma dramática.(...)

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Ah!, o uso e abuso dos "pequenos poderes"....Todos temos uma história dessas...

Alberto Branquinho disse...

Texto que ilustra as "dinâmicas" da estrutura militar. O que me parece demasiada é a linguagem cabo-soldado; até parece que não são "patentes" muito distantes.
MAS... do que não gosto nada é da gravura que acompanha o texto: fardas impecáveis, limpíssimas, picadas que foram limpas com aspirador, a que só falta um pouco de alcatrão, viaturas que acabaram de sair da lavagem (de todos os dias), etc.. Certo é que quem desenhou (e muito bem!) nunca lá esteve.
O risco que se corre é que quem vê e não sabe, fica a pensar que era assim.
Saudações.
A.B.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Alberto, tens toda a razão nas tuas oportunas e pertinentes observações...Infelizmente,a Tabanca Grande é dona de nenhum banco "Saque-Saque", pelo que não pode ter um "cartunista" privativo... Recorre à IA dos pobrezinhos...Mas, por muito bom que fosse o ilustrador, nunca conseguiria transmitir a angústia do soldado condutor antes de dar início a mais uma coluna auto. Do condutor e de todos nós, que íamos no palanque do tiro-alvo ou no lugar do morto, como tu e eu fomos, muitas vezes. Um bom e feliz domingo. Luís

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Cabo, não, senhor cabo!... No tempo do meu pai, em 1941, era o que sabia ler, escrever e contar... No meu tempo,. e no CFTIG, era um graduado e na minha companhia chefiava um secção por falta de furriéis e sargentos...E os furriéis comandavam pelotões por falta de alferes... E os alferes comandavam companhias, por falta de capitães... (O meu estava à bica de ser promovido a major, e de fazer 40 anos... E ainda há a gente com saudades daquela guerra, e a pensar que ainda podíamos lá, agora a "brincar com os drones"!...).

Carlos Vinhal disse...

Na minha família há algumas pessoas fardadas, começando pelo meu avô, soldado da GF, um seu filho, Cabo da GF e um seu neto, Coronel da BF/GNR. Há ainda um seu genro, soldado da GF.
Leça tem por perto o Porto de Leixões, por isso é uma zona fronteiriça onde viviam muitos soldados da GF. Os cabos tinham um trato especial, e lembro-me muito bem de um Sargento que cá na terra tinha um tratamento VIP. As pessoas, naturalmente, tinham um certo respeito por estes homens fardados, e até as esposas eram tratadas com "donas".
Morava aqui em Leça um jovem sargento da Marinha que foi feito prisioneiro na Índia em 1961, e que fazia parte da guarnição do "NRP Afonso de Abuquerque" que foi afundado, como sabemos. Muitas das mulheres, não sabendo ao certo se o Daniel estava ou não vivo, choravam, solidariezando-se com a sua mãe.
Entretanto, com o ecludir da guerra do ultramar, tínhamos jovens soldados, cabos, sargentos e oficiais que conviviam sem ter em conta as divisas e os galões. Dir-se-ia numa "democratização" castrense.
Carlos Vinhal
Leça da Palmeira

Carlos Vinhal disse...

No comentário anterior, quando digo há, subentende-se que houve e há. Hoje só "cá está" o meu primo João, digníssimo Coronel Reformado da BF da GNR.
Carlos Vinhal

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Segunao a Wikipedia, a linha de montagem da Berliet Tramagal / Metalúrgica Duarte Pacheco terá produzido 3.549 viaturas Berliet , de 3 modelos diferentes, para as Forças Armadas portuguesas nesse período.

Quanto custaria cada um desses camiões ?

No citado artigo da Wikipédia sobre a Berliet Tramagal, diz-se que algumas viaturas (neste caso, c. 15 camiões destruídos num atentado em 1972, em Lisboa, nas instalações de Metalúrgica Duarte Pacheco) “foram avaliados em 500 contos cada um”.

Ora, a preços de hoje, e segundo o simulador da inflação da Pordata, esse valor seria equivalente a 140 mil euros (preço unitário)...

Alberto Branquinho disse...

Luís e Carlos Vinhal

Ainda não me habituei à existência (ou será à co-existência?) com a Senhora IA.
Mas, quanto a "inteligentes", prefiro o "Inteligente" das touradas. Não sabem quem é?! (Analfabetos da tauromaquia! Estão a necessitar de uma receita de um pouco de Ribatejo!)
Gostei do texto do Carlos Vinhal. Pois fica sabendo que o meu bisavô materno também era cabo da Guarda Fiscal. Comandava o Posto de Barca d'Alva. Na minha infância ouvi da minha avó materna muitas histórias de contrabandistas, incluindo uma de uma grávida portuguesa... que, também, transportava contrabando na barriga. (O pai era espanhol...).
Abraços
A.B.

Hélder Valério disse...

Estes são pequenos episódios do dia-a-dia do "tempo de guerra" (se bem que, dizem, de "pequena intensidade"...) mas que permitem "pintar" melhor o quadro das vivências daqueles e naqueles tempos.
Não posso deixar de sublinhar a justeza do comentário do A. Branquinho sobre certos "tipos de analfabetismo" e da receita recomendada!
Quanto à forma elegante e subtil como, na frase final, se refere ao contrabando da grávida, só posso "tirar o chapéu", em jeito antigo de reverência.