A nau "Portugal", uma das principais atrações da Exposição do Mundo Português
Tinha 3 mastros e cerca de meia centena de canhões. Pretendia ser uma réplica de um agleão quinhentista.
(Fonte: Ilustração Portuguesa,nº 979, 7 de setembro de 1940,. pág, 6 (cortesia de Hemeroteca Municipal de Lisboa)
1. Ainda não tínhamos nascido, a maior parte de nós em 1940. Em plena II Guerra Mundial, Portugal era, milagrosamente (?), um oásis de paz. Precário, é certo. Milhares de refugiados fugidos da barbárie nazi, nomeadamente judeus, chegavam a Portugal, país neutral, na esperança de conseguir um visto e uma passagem para o Novo Mundo, e em especial os EUA.
O Duplo Centenário (1140, "fundação da nacionalidade"; e 1640, "restauração da independência") foi o pretexto, genial, para a organização de um grande evento político-cultural de consagração do regime de Estado Novo.
De facto, a Exposição do Mundo Português (1940) foi, em grande parte, uma obra de arte efémera (e sobretudo de arquitetura), se bem que que tenha sido também um grande êxito, enquanto evento cultural e propagandístico, prestigiante para o País e para o Estado Novo. Seis dezenas de anos depois, só a Expo 98, também em Lisboa, lhe poderia pedir meças.
Muitos dos pavilhões e estruturas foram construídos com materiais baratos e temporários, tais como madeira, estuque / gesso, pasta de papel (incluindo papelão moldado e reforçado), fibrocimento, telas pintadas, revestimentos decorativos não duráveis, etc,
Estes materiais permitiam criar uma cenografia monumental a baixo custo, dado que as estruturas não eram pensadas para durar após o encerramento da exposição.
Contudo, alguns elementos mais importantes, como o Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém, já existentes, ou certas infra-estruturas de apoio, como o jardim colonial, a Praça do Império, o espelho de água, o padrão dos Descobrimentos, o Museu de Arte Popular, etc., são marcas que ainda hoje nos falam desse momento de glória, irrepetível, que foi, para Portugal e o Estado Novo, a Exposição do Mundo Português.
3. O que infelizmente não chegou aos nossos dias foi a pobre nau "Portugal". (Tal como a nau "Catrineta", teria hoje muito que contar.)
Tópicos a reter sobre a Exposição do Duplo Centenário e o papel da nau "Portugal" que mimetizava um galeão quinhentista:
Depois do acidente inicial, a história da nau “Portugal” continua a ser, de certa forma, tão simbólica como o próprio projeto.
Depois de ter adornado, logo após o lançamento à água, em 7 de junho de 1940, a embarcação teve de ser endireitada e estabilizada: foram feitas modificações de emergência para permitir que o navio pudesse cumprir minimamente a função decorativa e cénica que lhe tinha sido atribuída na Exposição do Mundo Português.
E foi, de facto, uma das grandes atrações da Exposição (a partir de 17 de setembro, depois de recuperada), servindo como cenário flutuante, mais ornamental do que funcional, e tornado-se parte do percurso expositivo que celebrava a epopeia marítima...
Hoje a nau "Portugal" nem sequer é lembrada, ou quando muito é citada como uma "anedota", uma peça de propaganda estética do Estado Novo; um símbolo da tentativa de recriar um passado grandioso com materiais frágeis; e um caso curioso de engenharia naval que revelou os limites entre o mito e o realidade. (Na década de 1940 Portugal não tinha acesso a planos originais detalhados de galeões quinhentistas: ou não existiam muito simplesmente ou eram incompletos.)
Toda a sociedade portuguesa e a sua elite (incluindo os seus melhores arquitetos, engenheiros, escultores, decoradores, pintores, cenógrafos, artesãos, escritores, jornalistas, poetas, cineastas, etc.) foram mobilizados: cinco mil trabalhadores sob as ordens do arquiteto Cottinelli Telmo (1897-1948) ergueram um espaço equivalente a 56 campos de futebol, no tempo recorde de um ano, e com limitados recursos financeiros. Em Belém, na zona ocidental de Lisboa,entre o mosteiro dos Jerónimos e o rio Tejo, zona até então considerada pobre e periférica de Lisboa.
De 23 de junho a 2 de dezembro de 1940, a Exposição do Mundo Português, em Belém, teve 3 milhões de visitas. Gente de todo o país vinha em excursão a Lisboa, num tempo em que a mobilidade era reduzida, e um ribatejano nunca tinha ido ao Algarve, nem um transmontano conhecia sequer o Porto, e muito menos Macau ou Angola. A visita tornou-se quase obrigatório para os portugueses da época. Os clichés do Portugal do Minho a Timor vêm desse evento, do casa de sobrado colonial ao solar do Minho, da tabanca guineense à roça são-tomense. O ingresso custava 2 escudos e 50 centavos. Ficou na memória da geração dos nossos pais. Tal como ficou na nossa memória a Expo 98.
Hemeroteca Municipal de Lisboa > Efemérides | Exposição do Mundo Português (1940) (excerto) (com a devida vénia)
(...) Em plena guerra civil de Espanha, quando os regimes autoritários pareciam impor-se na conturbada cena política europeia, o Estado Novo consolidava-se.
É neste ambiente que, em 27 de Março de 1938, Salazar anuncia a realização, em nota oficiosa, de uma grande comemoração do duplo centenário da independência (1140) e da restauração (1640), para o ano de 1940.
A iniciativa assumiu então, em termos de recursos materiais e humanos, uma dimensão inédita, tornando-se o mais importante acontecimento político-cultural do Estado Novo.
O empenho político nas comemorações resulta da compreensão do que estava em jogo: passar ao acto (em forma de comemoração) a consagração pública de uma legitimidade representativa própria, desta feita, eminentemente ideológica e histórica.
Ao invés da legitimidade eleitoral dos regimes democráticos, esforçou-se o Estado Novo por associar os traços mais marcantes do seu nacionalismo – autoritarismo, elitismo, paternalismo e conservadorismo – a um passado mítico legitimador do presente.
Mais, buscou, pela mão dos artistas e a pena dos historiadores, difundir, com «a clareza» possível, essas linhas invisíveis da continuidade, que uniam a grandeza do passado, do presente e do futuro de Portugal.
Corolário de uma «política de espírito», lançada na década anterior pelo audacioso director do Secretariado de Propaganda Nacional, António Ferro, assiste-se à mais conseguida conciliação da arte com a política no Estado Novo. Efémera e irrepetível, contudo.
Ninguém escondia o valor propagandístico da exposição que o próprio António Ferro sintetizaria: «1140 […] explica 1640, como 1640 prepara 1940».
Evocação histórico-ideológica dos momentos edificantes, recheados de heróis e lições exemplares. Espécie de fábula contada em imagens, símbolos, frases e palavras. A exposição ficaria como marco crucial da cumplicidade dos artistas com o Estado Novo ensaiada nos anos 30 e, simultaneamente, o seu ponto final e de viragem.
O certo é que, enquanto em Junho os portugueses assistiam pacíficos à inauguração da sua «cidade mítica», nas chancelarias acendera-se já o alarme – a guerra alastrava por toda a Europa.
Quatro anos volvidos, e o jovem e vigoroso regime atravessaria a sua primeira crise política. A exposição viera afinal comemorar, em apoteose, o fim do ciclo mais sólido da sua existência.
Para saber mais, ver:
BARROS, Júlia Leitão de, “Exposição do Mundo Português”, in BRITO, J. M. Brandão de, e ROSAS, Fernando (dir.), Dicionário de História do Estado Novo, Lisboa, Círculo de Leitores, 1996, vol. 1, pp. 325-327;
MÓNICA, Maria Filomena, “Exposição do Mundo Português”, in BARRETO, António, e MÓNICA, Maria Filomena (Coord.), Dicionário de História de Portugal, Vol. 7, Lisboa, Livraria Figueirinhas, 1999, pp. 710-711. (...).
Fonte: excertos de © 2005 | Hemeroteca Municipal de Lisboa
Vd. também: RTP Ensina > Exposição do Mundo Português, vídeo: 23' 42''
2. A nau “Portugal” (vd. foto acima), idealizada pelo cineasta Leitão de Barros (1896-1967), construída em 1940 para a Exposição do Mundo Português, foi pensada como um símbolo grandioso da epopeia marítima e do imaginário dos Descobrimentos.
No entanto, alguns historiadores e críticos culturais olham para ela como uma "encenação", uma versão romantizada e artificial de um passado que o regime do Estado Novo queria promover. Há quem, mais radical, não esconda que foi uma caricatura de um "império de papel".
De 23 de junho a 2 de dezembro de 1940, a Exposição do Mundo Português, em Belém, teve 3 milhões de visitas. Gente de todo o país vinha em excursão a Lisboa, num tempo em que a mobilidade era reduzida, e um ribatejano nunca tinha ido ao Algarve, nem um transmontano conhecia sequer o Porto, e muito menos Macau ou Angola. A visita tornou-se quase obrigatório para os portugueses da época. Os clichés do Portugal do Minho a Timor vêm desse evento, do casa de sobrado colonial ao solar do Minho, da tabanca guineense à roça são-tomense. O ingresso custava 2 escudos e 50 centavos. Ficou na memória da geração dos nossos pais. Tal como ficou na nossa memória a Expo 98.
Hemeroteca Municipal de Lisboa > Efemérides | Exposição do Mundo Português (1940) (excerto) (com a devida vénia)
(...) Em plena guerra civil de Espanha, quando os regimes autoritários pareciam impor-se na conturbada cena política europeia, o Estado Novo consolidava-se.
É neste ambiente que, em 27 de Março de 1938, Salazar anuncia a realização, em nota oficiosa, de uma grande comemoração do duplo centenário da independência (1140) e da restauração (1640), para o ano de 1940.
A iniciativa assumiu então, em termos de recursos materiais e humanos, uma dimensão inédita, tornando-se o mais importante acontecimento político-cultural do Estado Novo.
O empenho político nas comemorações resulta da compreensão do que estava em jogo: passar ao acto (em forma de comemoração) a consagração pública de uma legitimidade representativa própria, desta feita, eminentemente ideológica e histórica.
Ao invés da legitimidade eleitoral dos regimes democráticos, esforçou-se o Estado Novo por associar os traços mais marcantes do seu nacionalismo – autoritarismo, elitismo, paternalismo e conservadorismo – a um passado mítico legitimador do presente.
Mais, buscou, pela mão dos artistas e a pena dos historiadores, difundir, com «a clareza» possível, essas linhas invisíveis da continuidade, que uniam a grandeza do passado, do presente e do futuro de Portugal.
Corolário de uma «política de espírito», lançada na década anterior pelo audacioso director do Secretariado de Propaganda Nacional, António Ferro, assiste-se à mais conseguida conciliação da arte com a política no Estado Novo. Efémera e irrepetível, contudo.
Ninguém escondia o valor propagandístico da exposição que o próprio António Ferro sintetizaria: «1140 […] explica 1640, como 1640 prepara 1940».
Evocação histórico-ideológica dos momentos edificantes, recheados de heróis e lições exemplares. Espécie de fábula contada em imagens, símbolos, frases e palavras. A exposição ficaria como marco crucial da cumplicidade dos artistas com o Estado Novo ensaiada nos anos 30 e, simultaneamente, o seu ponto final e de viragem.
O certo é que, enquanto em Junho os portugueses assistiam pacíficos à inauguração da sua «cidade mítica», nas chancelarias acendera-se já o alarme – a guerra alastrava por toda a Europa.
Quatro anos volvidos, e o jovem e vigoroso regime atravessaria a sua primeira crise política. A exposição viera afinal comemorar, em apoteose, o fim do ciclo mais sólido da sua existência.
Para saber mais, ver:
BARROS, Júlia Leitão de, “Exposição do Mundo Português”, in BRITO, J. M. Brandão de, e ROSAS, Fernando (dir.), Dicionário de História do Estado Novo, Lisboa, Círculo de Leitores, 1996, vol. 1, pp. 325-327;
MÓNICA, Maria Filomena, “Exposição do Mundo Português”, in BARRETO, António, e MÓNICA, Maria Filomena (Coord.), Dicionário de História de Portugal, Vol. 7, Lisboa, Livraria Figueirinhas, 1999, pp. 710-711. (...).
Fonte: excertos de © 2005 | Hemeroteca Municipal de Lisboa
Vd. também: RTP Ensina > Exposição do Mundo Português, vídeo: 23' 42''
2. A nau “Portugal” (vd. foto acima), idealizada pelo cineasta Leitão de Barros (1896-1967), construída em 1940 para a Exposição do Mundo Português, foi pensada como um símbolo grandioso da epopeia marítima e do imaginário dos Descobrimentos.
No entanto, alguns historiadores e críticos culturais olham para ela como uma "encenação", uma versão romantizada e artificial de um passado que o regime do Estado Novo queria promover. Há quem, mais radical, não esconda que foi uma caricatura de um "império de papel".
De facto, a Exposição do Mundo Português (1940) foi, em grande parte, uma obra de arte efémera (e sobretudo de arquitetura), se bem que que tenha sido também um grande êxito, enquanto evento cultural e propagandístico, prestigiante para o País e para o Estado Novo. Seis dezenas de anos depois, só a Expo 98, também em Lisboa, lhe poderia pedir meças.
Muitos dos pavilhões e estruturas foram construídos com materiais baratos e temporários, tais como madeira, estuque / gesso, pasta de papel (incluindo papelão moldado e reforçado), fibrocimento, telas pintadas, revestimentos decorativos não duráveis, etc,
Estes materiais permitiam criar uma cenografia monumental a baixo custo, dado que as estruturas não eram pensadas para durar após o encerramento da exposição.
Contudo, alguns elementos mais importantes, como o Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém, já existentes, ou certas infra-estruturas de apoio, como o jardim colonial, a Praça do Império, o espelho de água, o padrão dos Descobrimentos, o Museu de Arte Popular, etc., são marcas que ainda hoje nos falam desse momento de glória, irrepetível, que foi, para Portugal e o Estado Novo, a Exposição do Mundo Português.
3. O que infelizmente não chegou aos nossos dias foi a pobre nau "Portugal". (Tal como a nau "Catrineta", teria hoje muito que contar.)
Tópicos a reter sobre a Exposição do Duplo Centenário e o papel da nau "Portugal" que mimetizava um galeão quinhentista:
- Propaganda do Estado Novo: a Exposição de 1940 tinha como objetivo enaltecer a “missão civilizadora” de Portugal e reforçar a narrativa de um país com um destino imperial, por desígnio divino (imperial mas não "imperialista"....); a nau servia mais como peça cénica do que como reconstrução museográfica rigorosa;
- Falta de autenticidade e rigor históricos: embora se inspirasse nos galeões quinhentistas, a nau incorporava elementos estilizados e não seguia fielmente aas técnicas de construção naval da época nem adoptava os materias originais; daí a perceção de “caricatura”;
- Símbolo de um império já decadente: em 1940, Portugal já não tinha o império que proclamava; a nau torna-se assim um símbolo paradoxal: imponente à vista, mas representante de um poder mais mítico do que real, um "império de faz-de-conta", gerido a distância;
- Valor cultural atual: apesar do seu evidente caráter propagandístico, a nau “Portugal” podia continuar a ter interesse enquanto objeto histórico, revelando como o país (o regime, falando em seu nome) quis representar-se a si próprio naquele momento político, numa conjuntura internacional de excepcional gravidade (estava-se em plena guerra e as democracias ocidentais estavam em sério risco de se desmoronarem).
Recorde-se, entretanto. que entre a união ibérica, monarquia dual ou III dinastia (filipina) (1580–1640) e a independência do Brasil (1822), Portugal enfrentou um período de enorme pressão de potências europeias (sobretudo Holanda e Inglaterra) mas também do próximo oriente (como Omã), perdendo vários territórios, praças e feitorias estratégicas do seu império oriental e africano, ou alienando outras (como as praças de Tanger, no Norte de África, e de Bombaim, na Índia, parte do dote da princesa Catarina de Bragança...). Eis os principais: territórios perdidos:
- Ceilão (Sri Lanka)
- Cochim, Quilon, Cananor e feitorias menores na Índia
- Fortes no Coromandel
- Ormuz (Irão)
- Mascate (Omã)
- Mombaça (Quénia) e domínio na costa suaíli, etc,
O império português reduziu-se sobretudo no Índico e no Golfo Pérsico, devido à ascensão holandesa, inglesa e omanita. E em 1822 perdeu a sua jóia da coroa, que era o Brasil. A "redescoberta" de África vem depois da independência do Brasil, a única colónia do Novo Mundo.
Mas voltando à nau "Portugal"... Acabou por tombar mal do saiu do estaleiro, na Gafanha da Nazaré, no chamado dia do "bota-abaixo"... E esse episódio (caricatural) reforça ainda mais a ideia simbólica de fragilidade do “império” que o Estado Novo tentava encenar com pompa e circunstância.
De facto, assim que a nau “Portugal” foi lançada à água, adornou devido ao mau cálculo do casco e ao desajuste do centro de gravidade (defeitos de desenho e construção conjugados também com um eventual erro de manobra).
Mas voltando à nau "Portugal"... Acabou por tombar mal do saiu do estaleiro, na Gafanha da Nazaré, no chamado dia do "bota-abaixo"... E esse episódio (caricatural) reforça ainda mais a ideia simbólica de fragilidade do “império” que o Estado Novo tentava encenar com pompa e circunstância.
De facto, assim que a nau “Portugal” foi lançada à água, adornou devido ao mau cálculo do casco e ao desajuste do centro de gravidade (defeitos de desenho e construção conjugados também com um eventual erro de manobra).
Foi um embaraço público, especialmente porque a embarcação tinha sido concebida para representar a glória marítima portuguesa na Exposição do Mundo Português. E causou grande comoção entre o público que assistia a esse momento único.
Alguns aspetos relevantes para se entender este revés (de que vale a pena falar com mais detalhe na II Parte).
Alguns aspetos relevantes para se entender este revés (de que vale a pena falar com mais detalhe na II Parte).
- Erro técnico evidente: a construção foi feita com grande preocupação estética, mas menos rigor técnico; o resultado foi um navio visualmente imponente, mas estruturalmente desequilibrado;
- Reação na época: apesar de se tentar minimizar o episódio, ficou para a posteridade como símbolo do improviso, do efeito perverso da propaganda ( e talvez do "desenrascanço" lusitano):
- Força simbólica posterior: alguns historiadores interpretam o acidente como uma metáfora involuntária: um projeto grandioso mas mal fundamentado, refletindo a discrepância entre a imagem do império projetada pelo regime e a realidade.
Depois do acidente inicial, a história da nau “Portugal” continua a ser, de certa forma, tão simbólica como o próprio projeto.
Depois de ter adornado, logo após o lançamento à água, em 7 de junho de 1940, a embarcação teve de ser endireitada e estabilizada: foram feitas modificações de emergência para permitir que o navio pudesse cumprir minimamente a função decorativa e cénica que lhe tinha sido atribuída na Exposição do Mundo Português.
E foi, de facto, uma das grandes atrações da Exposição (a partir de 17 de setembro, depois de recuperada), servindo como cenário flutuante, mais ornamental do que funcional, e tornado-se parte do percurso expositivo que celebrava a epopeia marítima...
Enfim, era mais um símbolo do que um navio. Tinha problemas estruturais persistentes: a embarcação nunca foi estruturalmente sólida. Era demasiado pesada no cimo, pouco estável e feita sobretudo para “parecer”, não para navegar, embora tivesse sido pensada como uma réplica navegável, para ser usada depois na promoção de produtos portugueses, como os vinhos (nomeadamente no Brasil).
Teve um triste fim: depois de cumprir o seu papel cénico num ambicioso programa propagandístico, a nau deixou de ter utilidade. Uns escassos meses depois, em 16 de fevereiro de 1941, sofreu danos irreparáveis devido ao ciclone que atingiu o país e sobretudo a região de Lisboa. O seu casco foi aproveitado para batelão ou barcaça para transporte de mercadorias no estuário do Tejo. E em 1952 acabou ingloriamente por ser abatida.
Hoje a nau "Portugal" nem sequer é lembrada, ou quando muito é citada como uma "anedota", uma peça de propaganda estética do Estado Novo; um símbolo da tentativa de recriar um passado grandioso com materiais frágeis; e um caso curioso de engenharia naval que revelou os limites entre o mito e o realidade. (Na década de 1940 Portugal não tinha acesso a planos originais detalhados de galeões quinhentistas: ou não existiam muito simplesmente ou eram incompletos.)
(Pesquisa: LG + Net + IA / Gemini, ChatGPT)
(Condensação, revisão / fixação de texto: LG
________________
Nota do editor:
Último poste da série > 30 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27479: Recortes de imprensa sobre o império colonial (1): Sociedade Agrícola do Gambiel, Lda, Aldeia do Cuor, Bambadinca: entrevista a um administrador ("Portugal Colonial", nºs 55-56. set/out 1935)
Nota do editor:
Último poste da série > 30 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27479: Recortes de imprensa sobre o império colonial (1): Sociedade Agrícola do Gambiel, Lda, Aldeia do Cuor, Bambadinca: entrevista a um administrador ("Portugal Colonial", nºs 55-56. set/out 1935)

10 comentários:
Fanfarronices! estas falsas grandezas, tão distantes do espírito salazarento, que vinham doutros tempos, já do tempo do mapa-cor-de-rosa e depois com a primeira república, com lutas enormes contra os alemães na França em Angola e Moçambique, Salazar com estas heranças de espíritos especiais, deve ter sofrido mais do que com os anarquistas, comunistas e democratas.
António Ferro, Henrique Galvão, Norton de Matos, Duarte Pacheco, arquitetos e outros artistas como Almada Negreiros, isto só para falar dos mais badalados ao meu ouvido, ouvido do povão, foi esta gente que conseguiu embrulhar o botas durante os primeiros tempos do Estado Novo.
Rosinha, faltavam-me seis anos para nascer... Mas hoje sou capaz de "imaginar" a angústia dos nossos pais e avós, cercados em 1940, de guerra por todos os lados, e na iminência de poderem ser invadidos e ocupados quer pelos alemães quer pelos aliados. A "neutralidade" era uma figura de retórica. Portugal jogava com um pau de dois bicos. E a própria população (urbana, mais imformada, com acesso aos jornais e à rádio) estava dividida entre germanófilos e anglófonos.
A Exposição do Mundo Português foi também um motivo de orgulho para os portugueses, independentemente do regime. E um momento de descompressão. Afinal, toda a gente sabia (ou suspeitava) que se fôsssemos invadidos, a resistência do exército português não durararia 48 horas.
Face à II Guerra Mundial, não se pode dizer que a população portuguesa estava dividida entre dois blocos, germanófilos e anglófilos. Não há números precisos, não há estatísticas da época sobre a proporção de uns e outros. Os estudos de opinião só chegariam muito mais tarde. Mas há estimatibvas baseadas em estudos históricos, imprensa da época e relatórios diplomáticos.
Segundo apurei, a partir da IA / ChatGPT, inquirida por mim:
A sociedade portuguesa encontrava-se dividida sobretudo em três grandes correntes:
(i) Germanófilos: simpatizantes da Alemanha nazi (e da Itália fascista de Mussolini):
Incluíam: alguns setores conservadores e autoritários; parte dos militares (como Spínola, a arma de cavalaria, etc.); simpatizantes da ideologia fascista; grupos económicos que viam a Alemanha como parceiro comercial crescente (volfrâmio, conservas, etc.);
Estudos históricos sugerem que representariam cerca de 20% a 30% da opinião pública, variando por região e classe social.
(ii) Anglófilos: simpatizantes do Reino Unido (e, mais tarde, dos EUA)
Incluíam: setores repubvlicanos,. liberais e democráticos, em geral genete que era "contra o regime"; elites urbanas (Lisboa, Cpoimbra e Porto); classe média com contacto cultural com o mundo anglo-saxónico; população que via na Grã-Bretanha (ou Inglaterra) o aliado tradicional, "histórico",. de Portugal.
A proporção é geralmente considerada superior, podendo rondar os 40% a 50% da população com opinião definida. Foi aumentando quando a sorte das armas começou a pender para o lado dos Aliados.
(iii) Neutros / indiferentes
A maioria da população rural tinha ou nenhum pouco envolvimento político, estava enquadrada pela Igreja Catíolica e caciques locais, e sobretudo focada na sobrevivência económica.
Este grupo representaria entre 20% a 40% (dependendo da fonte). Eu acho que seria mais...
Nas vilas, vilórias e nalgumas aldeias mais do litoral ou com mais acessibilidades, a populaçãpo juntava-se nos cafés e tabernas para ouvir a rádio.
Em 1940, a rádio ainda estava longe de ser universal, mas já era um meio de informação e conhecimento importante quem vivia nas cidades e para uma boa parte da população que a ouvia de forma comunitária, mesmo sem possuir um aparelho.
Em 1940, a rádio já era um meio de comunicação bastante difundido em Portugal, embora não estivesse ainda ao alcance de toda a população. Eis um retrato geral de quem tinha ou ouvia rádio nessa época:
(i) Quem tinha rádio?
Nos anos 40, possuir um aparelho de rádio ainda era relativamente caro. E a eletricidade ear um bem escasso. Quem mais frequentemente tinha rádio eram: (a) famílias da classe média urbana (proprietários, comerciantes, funcionários públicos, profissionais liberais), média-alta e alta (famílias mais abastadas, sobretudo nas cidades); (b) instituições públicas e privadas, como cafés, associações, coletividades, quartéis, estações ferroviárias, etc..
Quem ouvia rádio? Mesmo quem não possuía um rádio (a pilhas, ou ligado à corrente elétrica) podia ouvir: (a) nos cafés e tabernas, onde muitas pessoas se juntavam para ouvir transmissões importantes, como discursos políticos, notícias ou programas de entretenimento; (b) nas coletividades e clubes recreativos, que tinham aparelhos comuns; (c) através de vizinhos, pois era habitual as pessoas deixarem o rádio alto, à janela ou próxima da janela, para que outros pudessem ouvir; eram também um "símobolo de status" ter rádio dos anos 30/40...
Em 1940, Portugal vivia o período áurea do Estado Novo, e a rádio era usada como instrumento de controlo e propaganda, especialmente pela Emissora Nacional. A rádio era a principal fonte de informação imediata e também de entretenimento (música, teatro radiofónico, concursos, transmissões de eventos).
Com a Segunda Guerra Mundial a decorrer, mesmo sendo Portugal um país "neutral" (a par da Espanha, Suía, Suécia...). a rádio ganhou importância como forma de acompanhar o desenrolar do conflito...
Na Lourinhá, minha terra, o meu pai que era anglófilo, ia ouvir as notícias e jogar damas no Café Nicola...(Ainda existe, embora remodelado, e o aparelho de rádio foi doado ao museu local).
Luís Graça, nos anos 40, quem vivia nas pequenas vilas tinha luz eléctrica, havia rádios nas tabernas e cafés, mas nas enormes aldeias de Portugal nem rádios nem jornais, ainda nos anos 50.
Embora a minha geração já estivesse na 1ª classe quando a bomba atómica , embora ocasionalmente já soubesse que alguém tinha asilado crianças judias na sua casa, embora nos anos 40 o Salazar prendesse algum vizinho nas eleições com o Norton de Matos, podia qualquer criança ver que os adultos viviam preocupados.
Mas era o racionamento que na realidade o povão sentia forte e feio, mas a sensação de guerra não sabiam onde ficava.
Se nesse tempo eu soubesse o que sei hoje, só pedia ao Salazar duas coisas: que mandasse queimar as réguas das escolas primárias bonitas do centenário, e que criasse o SNS, igual a este que temos hoje, de que muita gente se queixa.
Um caso curioso de "convivência pacífica" entre alemães e ingleses em Portugal, no tempo da 2.ª guerra, passou-se na Serra de Arada, onde se encostam os concelhos de Arouca e de S. Pedro do Sul e, consequentemente, os distritos de Aveiro e de Viseu. O Luís já deve ter andado mais ou menos por lá, pois já deve ter subido ao S. Macário e descido à aldeia da Pena. Nessa mesma serra ainda agora estão duas minas abandonadas de volfrâmio, que quem quiser pode ir lá ver: uma mina que foi explorada pelos ingleses, em Regoufe, e outra mina que foi explorada pelos alemães, em Rio de Frades. A distância entre as duas antigas minas deve ser à volta de quatro quilómetros, ou nem tanto!
Tens toda razão, Rosinha... A luz eléctrica (mini-hídricas, geradores...) podia chegar às nossas vilórias, mas não a todas as casas... A barragem de Castelo de Bode é de 1951, o início do grande plano de eletrificação do país, do prof Ferreira Dias....
A maior parte dos portugueses da nossa geração, no litoral e no interior do país, ainda estudou à luz do candeeiro a petróleo... Rádio, jornais ? Um luxo...
E depois é bom não esquecer...a taxa de analfabetismo em Portugal em 1940 era significativamente maior nas mulheres do que nos homens, refletindo uma desigualdade histórica no acesso à educação.
(i) Dados de Analfabetismo em 1940
Os dados do Recenseamento Geral da População de 1940 confirmam a disparidade de género:
População Total (maior de 7 anos): A taxa de analfabetismo era ainda muito elevada, rondando os 49% (ou 51% de alfabetizados, conforme variações nos dados, dependendo do critério usado).
Analfabetismo por Sexo:
Mulheres: A taxa era superior, sendo a maioria dos analfabetos. Por exemplo, em 1970, 64% dos analfabetos eram mulheres, e a diferença de género era uma constante nas décadas anteriores.
Homens: Embora a taxa fosse alta, era substancialmente inferior à das mulheres.
Exemplo de Diferença (Baseado em Estatísticas da Época, Recenseamento de 1940):
Enquanto a taxa de analfabetismo para o total da população rondava os 49% (maiores de 7 anos), a taxa de alfabetização (o oposto) para indivíduos com mais de 7 anos era cerca de 57% para homens e 43% para mulheres. Isto demonstra que a taxa de analfabetismo era consideravelmente mais alta no universo feminino.
Os nossos analfabetos fizeram muita história no Brasil e em Angola.
As percentagens em 1940 de analfabetos, estes pelos vistos tiveram muita sorte terem sido rastreados, porque os pais deles nem rastreados seriam porque era mais simples rastrear os os pouquinhos que sabiam ler.
Então em Angola e no Brasil, onde foram porões e porões de vapores esvaziados em Luanda, Rio de Janeiro e Santos, litoral de São Paulo, principalmente, foram criadas piadas e anedotas do piorio sobre o portuga.
Até os próprios filhos desses analfabetos, já brasileiros num caso e angolanos em Angola, foram assimilados por essa cultura, chamemos-lhe assim da "piada do português".
Conheci, tanto no Rio, São Paulo, Baia, e até em Buenos Aires de visita, em 1974, até 1979, homens e mulheres, que alguns tinham ido para lá no tempo de Dom Carlos.
E Esse estigma negativo da piada do português começou a alterar-se levemente no Brasil, com a fuga dos banqueiros e retornados de Angola com o 25 de Abril.
Mas continua ainda hoje um pouquinho, apesar do fenómeno Jorge Jesus, em que a bola em Portugal deixou de ser quadrada.
No caso de Angola, muitos filhos desses analfabetos ou semi, uns brancos outros mulatos, já vieram de férias ou para a universidade à metrópole, em primeira classe, enquanto o velho pai ou avô foi de porão para Luanda, esses jovens tinham um comportamento idêntico aos brasileiros.
Agora, hoje, Portugal só exporta doutores, médicos e engenheiros.
O mundo dá voltas!
O meu querido avô paterno faleceu em 1947, ano da chegada da luz à minha ( e dele) freguesia de Medas, a escassos 18 Kms do Porto. Não sei se chegou a ver alguma lâmpada acesa na sua terra. Rádio nunca teve, nem a bateria, tiveram-no, no seu tempo, o Sr.Abade e mais dois ou três figurões. Depois de 1947 apareceram alguns, nas vendas e numa dúzia de casas dos mais abastados. Esse meu avô recebia pelo correio o Comércio do Porto, nos anos da guerra e, guiado por ele, tendia a ter em boa conta os alemães , nos quais apreciava a sua organização e produtividade. Por certo não conhecia as sacanices do nazismo. Certo é que, na segunda parte da guerra, após o desembarque na Normandia doas aliados, dera-se por enganado, espalhando pelos caminhos da aldeia, com satisfação, as notícias sobre o recuo e derrotas dos alemães. Esse meu avô encontrava-se enfermiço, por esses anos da guerra, dispondo assim de tempo para ler aos seus vizinhos analfabetos, alguns retalhos da raridade do seu jornal. Não o conheci, porque nasci três anos após a sua morte, com pouco mais de sessenta anos.
Era um homem de grande categoria. Foi presidente da Junta desta minha terra, no decurso do Estado Novo.
António Carvalho
Enviar um comentário