segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Guiné 63/74 - P3625: História da CCAÇ 2679 (10): Um Natal atribulado (José Manuel Dinis)

1. Mensagem do nosso camarada José Manuel Dinis, ex-Fur Mil da CCAÇ 2679, Bajocunda, 1970/71, com data de 11 de Dezembro de 2008

Companheiros,
Antecipo este episódio, porque se enquadra na época natalícia e num assunto da moda, a ganância.

Para todos, vai aquele abraço
José Dinis

Um Natal atribulado

Corria o mês de Dezembro de mil novecentos e setenta. As picadas que levavam a Bajocunda apresentavam-se enrijecidas por via da seca e o capim amarelo, já aguardava pelas queimadas que antecediam o tempo das chuvas. A natureza não era desoladora, apesar disso, mas o aquartelamento local, esse sim, apresentava características desoladoras, com o material a monte, quer junto à enfermaria, aos quartos dos sargentos, em volta da oficina macânica e a cerca de arame um bocado desmantelada. As pinturas das construções também se apresentavam carcomidas pelo decorrer do tempo.

Algo revelava à chegada ao aquartelamento que ali não morava um bom ambiente. O pessoal deslocava-se com lassidão, troncos nús, curvados sob o peso do calor, sempre poucos à vista, a deslocarem-se como autómatos, sem se perceber bem uma motivação ou interesse. Era a pasmaceira. Animava-se pelas horas de refeição, quando, dos abrigos periféricos, afluiam os militares ao chamamento do rancho, mas sem entusiasmo, sem corresponder à vivacidade dos vinte anos. E compreendia-se, já que a ementa de arroz com estilhaços era quase servida em exclusivo. Dizia-se que era do gamanço e da falta de géneros. E da falta de interesse, pois iniciei uma horta e quando as ervas floresciam, comecei a ter problemas operacionais, e os dois militares a terem que integrar o pelotão, sem que da parte dos restantes houvesse qualquer compensação. Era o sistema.

Um dia surgiu a notícia: fora determinado um reforço de verba para o dia de Natal. A notícia em si, não causou muitas espectativas, pois logo começaram os dichotes sobre a medida, que não podia ser, pois se não havia géneros... e também para evitar a criação de maus hábitos. Alguns ainda acreditaram num bifinho, mas onde preparar os bifes, se apenas havia uma sertã para os oficiais e sargentos. Esperava-se qualquer coisa e teria sido tão fácil. O sistema, porém, não parecia contemplar alterações ao quotidiano.

A messe de oficiais e sargentos funcionava em parte da varanda da casa colonial que era ocupada pelos sargentos e pela enfermaria. Era um canto com mesas e bancos de correr, sem mais. Quando chovia, todos queriam ficar do lado da parede, pois do outro, caía água. Mas no dia de Natal, sobre a toalha de plástico colorida, colocaram umas latas vazias de refrescante, adornadas com flores. Manifestação naif de uma decoração possível e generosa. Sem custos.

O refeitório ficava a cerca de setenta metros, por detrás dos edificios do comando e das transmissões. Não passei por lá. Eu também não atribuía significado àquele Natal.

Pela hora de abancarmos, fiquei numa das extremidades. Servi-me do bife e do arroz. Acompanhei com a tradicional cervejola. Estávamos nestas tarefas, com conversas de circunstância com os mais próximos, quando me chamaram do exterior. Três militares. Que tinha que ser já. Levantei-me e fui inteirar-me das razões da urgência. Queixaram-se de que o rancho era a mesma coisa, arroz com estilhaços. Que ia um grande descontentamento. Não acredito, respondi.

Prometi-lhes chatice se a conversa não fosse verdadeira.
Lá fui. À chegada tive que me impor para que o barulho não nos tolhesse as ideias.
E o que eu vi foi uma companhia condenada às galés, pessoal com péssima apresentação, indignados com o que lhes davam a comer, reflexo da desconsideração. Não era uma questão de vida ou de morte. Era a dignidade, ou a falta dela, e o tratamento sobranceiro a que estavam sugeitos, Filhos da puta! A chicalhada não perdia pitada.

Considerei que podiam fazer levantamento de rancho ou que comessem o que ali estava, pois já sabiam o que era. Em qualquer dos casos gritei pelo Jesus, o cantineiro. Dei-lhe ordem para abrir a cantina e que todos se servissem do que houvesse.

No regresso à messe censurei a chicalhada, referi o que decidira, desafiei o capitão a dar-me uma porrada, depois, a título simbólico, peguei no meu prato e fui acabar de comer no quarto.

A ganância desta chicalhada, do mais vil e ordinário que me foi dado conhecer, indivíduos sem escrupulos, mereciam que se desse publicidade aos seus nomes, todavia, não me parece do âmbito do blogue estar a indicá-los. Como é que foi possível, juntar numa companhia, três aventesmas de tais quilates?
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 10 de Dezembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3593: História da CCAÇ 2679 (9): Boas recordações da PIDE (José Manuel Dinis)

3 comentários:

Carvalho disse...

Não era só em Bajocunda amigo Dinis.Noutros sítios, quando vinha frango da Metrópole, era o costume:frango assado para os of. e sarg. , estilhaços do mesmo com bianda, para os outros.
Ingloriamente preguei contra tal injustiça.Tu Dinis, foste mais longe e melhor que eu. Parabéns

Colaço disse...

No que acabo de ler Honras ao meu comandante de companhia capitão hoje coronel reformado João da Costa Martins Ares.
Nos dez meses e uma semana que estivemos no Cachil Ilha do Como, nunca houve discriminação na alimentação, o primeiro exemplo foi no segundo dia de estada na ilha na distribuição da agua um copo de cantil a cada um inclusive os carregadores negros.
Rancho quando passou a haver, messe única, digo isto porque primeiro foi 55 dias a ração de combate.
Mas em Julho salvo o erro o capitão veio de férias á metrópole e então o 2º comandante o alferes Rocha implementou logo a messe de sargentos e oficiais Quando regressou e tomou conhecimento da nova ordem insurgiu-se com tal ordem de serviço, revogou tudo, o comandante sou eu não têm que alterar o que está determinado, o sacrifício humano tem que ser igual para todos e messe única até ao dia em que saímos do Cachil
Li num dos postes do camarada Palmeirim que a c.c.728 que nos rendeu implementou as referidas messes.
Um alfa bravo.
Colaço
Mais uma nota: O alferes Rocha era um oposicionista ao regime tinha pertencido a direcção dos estudantes da universidade de Coimbra nas lutas estudantis de 61-62 foi preso e expulso da universidade.

Anónimo disse...

Caros Carvalho e Colaço
Obrigado pelas v/intervenções. Quanto ao antecedente político do alferes referido pelo Colaço, a contestação ao regime, só por si, não era garantia de nobreza e grandeza de carácter, como, infelizmente, temos tido tantos exemplos. O que algumas pessoas pensariam, talvez, por via dos postos, é que a solidariedade deveria funcionar debaixo para cima. Ainda agora tivémos um exemplo de grande nobreza, refiro-me ao maj.Coutinho e Lima, que, entre salvaguardar as vidas sob o seu comando, ou salvaguardar a sua carreira de militar, optou pelo prejuízo próprio. Ainda bem que há excepções, que devem ser relatadas, a ver se germina a dignidade entre os portugueses.
Abraços.
J.D.