terça-feira, 8 de novembro de 2011

Guiné 63/74 - P9011: Memória dos lugares (161): O cais do Xime e a solidão do Rio Geba... (Torcato Mendonça)




Guiné > Zona leste > Sector L1 (Bambadinca) > 1968 ou 1969  > O Rio Geba e o cais do Xime > Fotos falantes (Série II), do nosso colaborador permanente Torcato Mendonça (ex-Alf Mil Art, CART 2339, Fá Mandinga e Mansambo, 1968/69).  Texto de L.G.


Legendas: De cima para baixo: (i) cais do Xime, com guindaste; (ii) aproximação de dois barcos civis: (iii) população local (da tabanca do Xime) na margem  esquerda; (iv) o fotógrafo, assitindo a um mágico pôr do sol, tendo a seus pés o Rio Geba e a sua imensa solidão... 

Fotos: © Torcato Mendonça (2007). Todos os direitos reservados


1. O cais do Xime...  Era aqui que começava  a  "autoestrada" do leste... Dezenas e dezenas de batalhões, centenas de companhias e outras subunidades, milhares e milhares de camaradas, milhares de viaturas,  milhares e milhares de toneladas de géneros, munições e outros artigos que alimentavam o "ventre da guerra", passaram por aqui, a caminho de Bambadinca, Bafatá, Nova Lamego, mas também no sentido inverso, ao longo dos anos da guerra (1963/74)... 


No final, a estrada alcatroada já ia do Xime até para além de Piche, até à ponte de Caium, não sei mesmo se chegava a Buruntuma, na fronteira com a Guiné-Conacri... As ligações de Bissau, centro nevrálgico da guerra, com o leste só se podia fazer, de barco (pelo Rio Geba: até ao Xime; e, para os barcos mais pequenos, civis, até Bambadinca e nalguns casos Bafatá), ou então por via aérea (o Dakota podia aterrar em Bafatá e Nova Lamego). No final da guerra, ainda se construía o troço de estrada, alcatroada,  Jugudul-Bambadinca (que iria permitir a ligação de Bissau com o leste, atravessando a região do Oio, mas também o sul (via Badora e Corubal). 


No Xime havia uma unidade de quadrícula... e do outro lado do rio, na margem direita, um destacamento (1 Gr Com reforçado) em Enxalé. O aquartelamento do Xime dispunha de três obuses 10,5.

Recorde-se o seguinte; (i) o Geba Estreito, a partir do Xime, só era agora navegável através de LDM e LDP, e de barcos civis (em geral ao serviço da Intendência); (ii) as LDG (Lanchas de Desembarque Grandes) faziam o transporte de tropas e equipamentos e só chegavam ao Xime; (iii) entre 1961 e 1976, foram construídas, para serviçod a Marinha Portuguesa,  65 LDM e 26 LDP, dois terços das quais se destinaram à Guiné; (iv)  as LDM dispunham de uma peça Oerlinkon Mk II de 20 mm e duas metralhadoras MG 42, a sua velocidade máxima era na ordem dos 9 nós e podiam transportar uma força de 80 homens.


2. Ao que eu saiba ou me lembre, o IN de então, que com frequência flagelava o Xime e o Enxalé, nunca intentou, no meu tempo (e no nosso tempo, meu e do Torcato, que esteve no setor até ao último trimeste de 1969), levar a cabo nenhuma ação contra esta estratégica infraestrutura portuária (por ex., minagem)... Muito provavelmente por que não longe dali, a montante e a jusante do cais do Xime,  havia pelo menos dois ou mais importantes pontos de cambança do Rio Geba, permitindo a  ligação da frente sul à frente norte, através do Enxalé (e também do Geba Estreito, no Mato Cão)...  

Isso mesmo reconheceu o comandante Bobo Keita, nas suas memórias, quando Amílcal Cabral propôs o seu nome, para substituir o comandante da Zona 7, Mamadu Indjai, gravemente ferido pelas NT (e mais concretamente pela CART 2339) na Op Anda Cá (em 15 de Agosto de 1969). (Mamadu Indjai estará mais tarde implicado no assassinato de Amílcar Cabral, em 20 de Janeiro de 1973, juntamente com Inocêncio Cani e outros, tendo sido executado, a crer no depoimento de Bobo Keita)...


"Ofereci-me para lá ir esperar o restabelecimento do Mamadu Indjai. Cabral disse-me que podia então lá ir  por 15 dias pois era um lugar importante na estratégia da luta.  Ficava nas regiões de Xime, Bambadinca e Xitole. Era um triângulo   onde se encontrava uma cambança que permitia passar para o Norte [, região do Óio,] através do rio Geba, via Inchalé [sic]. Fui para 15 dias e fiquei lá nove meses. Era um lugar difícil" (In: Norberto Tavares de Carvalho - De campo em campo: conversas com o comandante Bobo Keita. Porto, ed. de autor, 2011, p. 134).

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6 comentários:

Mário Beja Santos disse...

Torcatal Figura, Agradeço-te muito teres trazido imagens do rio da minha vida, os ângulos são sugestivos, a natureza está expectante e silenciosa, havia terra de ninguém em ambas as margens. Permite-me uma precisão: este porto do Xime de que estás a falar teve as suas obras concluídas em Outubro de 1969, foi a partir dessa data que surgiu a possibilidade de se processar, em pleno funcionamento, o abastecimento do Leste mais pela estrada Xime-Bambadinca do que pelo porto de Bambadinca. Se não tivesse sido assim, não teríamos ido praticamente todos os dias a Mato de Cão, vinham comboios de navios e as LDM e LDP com enorme frequência. Em Outubro e Novembro de 1969, mesmo assim, o tráfego era tão intenso de e para o porto de Bambadinca que um dos pelotões da CCAÇ 12 revezava-se com as tropas de Missirá e Finete. Por isso mesmo, todas as unidades do Leste iam preferencialmente abastecer-se em víveres, munições, equipamento e material de engenharia a Bambadinca, até esta altura. Seguramente que quando estavas em Mansambo, em 1968 e 1969, era em Bambadinca que te abastecias. Em meados de Outubro, a situação alterou-se mas não radicalmente, não te esqueças que o alcatroamento da estrada só ficou concluído em finais de 1970 (a minha última missão, todo o mês de Julho de 1970, era andar por ali entre as 6 da manhã e as 6 da tarde, a montar segurança aos trabalhos da Tecnil). Junto a seguinte declaração: “Se eles afundam um barco entre Xime e Bambadinca, colocam-nos numa situação desesperada”. (De uma carta de Hélio Felgas, comandante do Agrupamento de Bafatá para Marcello Caetano, em 10 de Junho de 1969). Recebe um abraço de uma camaradagem com mais de 40 anos, Mário

Torcat Mendonca disse...

Mário: o texto é do Luís Graça e o Poste foi ele que o fez. Só as fotos são minhas. É lindo o Geba, não é? Ainda desci de Bambadinca a Bissau na Bor. Missões ou pedidos parvos. Fiz seguranças a Mato Cão, antes de lá estares, creio que até Mai/68. Foste em Jul/Agosto.
Não sei bem onde nos abastecíamos. Devia ser em Bambadinca pois éramos de Intervenção ao Bat 1904 e depois ao 2852. Preocupava-me mais com a parte operacional e não era pouco. O General Hélio Felgas (Coronel nesse tempo) tinha e não tinha razão. O fornecimento ao IN ficaria assim comprometido…e não só. Guerra suja, como todas e tantos a lucrarem com elas.
Gostava de ir hoje fazer uma segurança a Mato Cão…teria menos 40 e tal…
Com a Velha Amizade de sempre, aí vai um abração do T.

Anónimo disse...

Camaradas,
Durante a primeira metade do ano de 1970 passei alguns dias nas Termas de Canquelifá, no âmbito da actividade da minha Companhia, adstrita ao BART.2857 (Piche), onde fazia intervenção.
Pois nesses dias registou-se uma completa falta de géneros alimentares, e constou-me que ficava a dever-se ao afundamento de um batelão. Comíamos pão com estilhaços, e a carne era proveniente de vacas estrategicamente liquidadas antes dos primeiros alvores.
Não faço ideia se foi barco civil ou militar, nem em que braço de água terá sido o incidente, mas, dizia-se, foi algures em Bafatá.
Assim se ilustra a importância da navegabilidade naquela região.
Abraços fraternos
JD

Luís Graça disse...

Mário: As fotos são do Torcato, da série Fotos Falantes II... Magníficas, desconcertantes, valiosíssimas... Uma parte delas já aqui publicadas no nosso blogue... Em contrapartida, o texto é meu, feito de memória...

Levantas uma questão interessante (e intrigante): a data da construção do cais do Xime e da montagem do guindaste... Eu desembarquei no Xime, com o resto dos meus 50 camaradas da CCAÇ 2590 (futura CCAÇ 12), em 2 de Junho de 1969... Ou melhor fui despejado de uma LDG, com a tralha toda: viaturas, colchões, armas e bagagens... Não te posso garantir se já existia este pontão de madeira... Julgo que connosco veio também a CART 2520 (Xime, 1969/1970) que veio render a CART 1746 (1967/69), a do Gilberto Madail...

Faremos diversas operações com a malta da CART 2520, em 1969/70... Infelizmente só temos 13 referências a esta subunidade no nosso blogue... Eles é que poderiam contar a história da construção do cais/pontão do Xime... Mantenhas. LG


http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/
search/label/CART%202520

Luís Graça disse...

Escrevi algures, aqui, no blogue:


1. O troço, alcatroado, Bambadinca-Bafatá era seguro, embora propício a excesso de velocidades: uma verdadeira pista de corridas para os aceleras; já o resto, Bambadinca-Xime, piava mais fino; em finais de 1969 ou princípios de 1970, se não me engano, começou a ser aberta uma nova estrada, a cargo da Tecnil; quando voltei a casa, em Março de 1971, ainda não estava alcatroada....

http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2008/10/guin-6374-p3263-lbum-fotogrfico-do.html


2. Em 30 de Dezembro de 1970, em Ponta Coli, o PAIGC flagelou (pela primeira e única vez) as máquinas e o pessoal da Tecnil... Os trabalhos de construção da estrada Xime-Bambadinca, que levaram mais de um ano, só se concluiram no 2º trimestre de 1971... (Pelas minhas contas).

Luís Graça disse...

Também o Humberto Reis, que tem uma boa memótias, já em tempos aqui escreveu que o novo itinerário Bambadinca-Xime "ainda não estava totalmente asfaltado quando viemos embora em Março de 71" - referia-se ao pessoal metropolitano da CCAÇ 2590/CCAÇ 12, todo de rendiçãop individual... (Em Bambadinca, só lá ficou, à espera do seu pira, o desgraçado do nosso cripto, o Gabriel Gonçalves,o GG).

http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/
2011/02/guine-6374-p7852-minha-ccac-12-12.html