quinta-feira, 28 de maio de 2015

Guiné 63/74 - P14674: Notas de leitura (718): "Cabra-cega: do seminário para a guerra colonial" (autor: João Gaspar Carrasqueira, pseudónimo literário de A. Marques Lopes): Excertos (Parte I): "Tinha-se interrogado várias vezes sobre as razões que o levaram a entrar no seminário"...


Guiné > Região do Ccaheu > Barro > CCAÇ 3 > 1968 > À direita.  ex-al fmil at inf, A. Marques Lopes, que comandava o grupo Os Jagudis.  Antes, em 1967, tinha passado pela CART 1690, om sede em Geba (Zona leste, região de Bafatá, onde foi gravemente ferido; evacuado para  metrópole, voltaria cerca de nove meses depois para acabar a sua comissão de serviço na CCAÇ 3,. em Barro, na fronteira com o Senegal).

Foto: © A. Marques Lopes (2005). Todos os  direitos reservados


Guiné > Região do Ccaheu > Barro > CCAÇ 3 > 1968 > Grupo Os Jagudis > Ao centro, o ex-al fmil at inf, A. Marques Lopes,

Fotos: © A. Marques Lopes (2005). Todos os direitos reservados



Capa do livro (Lisboa, Chiado Editora, 2015). Já está á venda na 85ª edição da Feira do Livro de Lisboa (que abre esta tarde, e vai prolongar-se até 14 de junho,  no Parque Eduardo Sétimo).


Ficha técncia:

Título: Cabra-cega: do seminário para a guerra colonial
Autor: João Gaspar Carrasqueira
Data de publicação: Junho de 2015
Número de páginas: 582
ISBN: 978-989-51-3510-3
Colecção: Bíos
Género: Biografia
Preço: 19 € (edição em papel) [10 € na sessão de lançamento)


1. Excertos do livro de memórias "Cabra-cega", que vai ser lançado no próximo dia 3 de
junho, às 15h30, na biblioteca municipal de Matosinhos (*)



Gentileza do nosso camarada e amigo A. Marques Lopes, coronel inf, DFA, na situação de reforma, ex-alf mil da CART 1690 (Geba, 1967) e da CCAÇ 3 (Barro, 1968), um dos primeiros membros membros da nossa Tabanca Grande (entrou em 14 de maio de 2005) [, foto atual à direita]:


(...)  Guardava os papéis há muito tempo e ficou preocupado com as gotas que pingavam das telhas partidas das águas-furtadas. Oxalá não tivessem borrado o que lá tinha escrito. Aquele último andar do velho prédio pombalino da Calçada da Patriarcal metia água sempre que chovia.

Mas paciência, era o que podia ser. Apesar de mau era bem melhor do que morar em partes de casa ou quartos alugados, como antigamente. Agora, com a idade que tinha, não queria passar novamente por essa situação.

A caixa de lata da Oliva tinha uns pingos na tampa mas nenhum passara para dentro. Estavam bem, felizmente. Era nela que a mãe antes guardava os dedais, tesouras, carrinhos de linhas e demais coisas do seu trabalho de costura para os Rodrigues da Rua de São Paulo. Porque já não podia por causa da doença, coitada, teve de deixá-lo e deu-lhe a caixa para ele guardar os cadernos onde escrevera os seus diários e pensamentos.

Ontem viera um aviso para se apresentar na Escola Prática de Infantaria em Mafra. Disciplina de quartel, vida de caserna não eram coisas que o preocupavam, não era muito mais do que aquilo a que estava habituado desde pequeno.

Mas havia a guerra, e era mais que certo ir lá parar e isso é que o fazia estar receoso e apreensivo e com pena de ter deixado os estudos na universidade. Preferia tê-los acabado primeiro. É claro que, acabados ou não, estava condenado na mesma. Para morrer lá, tanto fazia ter acabado ou não.

Já dissera aos pais desta ordem de apresentação na tropa e viu a angústia com que ficaram, na cara do pai e nas lágrimas da mãe. Já tinham essa preocupação há muito, sempre na expectativa que sucedesse. Sabiam que era assim para todos e que, num dia qualquer, também lhes ia acontecer. Mas estava ali aquele papel a dizer que era agora, o que supunham aconteceu mesmo. Pensar que pode ser que um dia é diferente de ver que já é. Tentara um lenitivo dizendo-lhes que vir a ser oficial era uma coisa simpática, um salto na condição de filho de pobres, e podia ser que não lhe calhasse ter que ir para a guerra, sempre havia alguns que não iam. O pai não ficou convencido mas ficou mais calmo, a mãe não deixou de chorar. O irmão não se manifestou, pareceu não ser nada com ele, mas a irmã acompanhou a mãe nas lamentações.

Agora, só ele é que estava em casa. Os irmãos estavam no trabalho, o pai também, e a mãe fora a uma consulta no hospital. Altura ideal para ver com calma o que escrevera.

Era a recordação dos dias em que lhe doíam a alma por quase tudo e o corpo por não ter nada, quando a vida parecia fugir, quando a desilusão o afundou no purgatório dos vencidos. Ia ler cada “caderno diário”, este com uma caravela e um padrão dos descobrimentos na capa e a inscrição “por mares nunca dantes navegados”, e este com Viriato e a narrativa da saga dos lusitanos, com Camões e outros heróis muito elogiados. Conseguira escrevê-los no seminário quando estava mais sereno e podia estar sozinho, o que não era nada fácil no ambiente extremamente vigiado em que era obrigado a estar.

A vida alterou-se depois disto que escrevera e estava para mudar agora novamente, mas num novo ciclo totalmente diferente.

Queria ver novamente como foi, tentar compreender as tramas do seu destino, ver se conseguia desfazer esta dúvida que ainda tinha de se foi ele ou se foram outros que as teceram. Interrogou-se se não seria masoquismo voltar a esse passado. Não, não era. Precisava aprofundar o conhecimento de tudo o que lhe aconteceu, de tirar lições para que não sucedesse o mesmo nesta nova situação que se avizinhava.

Tinha tudo lá escrito.

O pai e a mãe, bem como os seus avós, bisavós e trisavós nasceram todos no Alentejo, no Baixo, e talvez os de antes também, mas isso não sabia ao certo. Já falara sobre isso, sobre as raízes e a árvore genealógica da família, mas o pai riu-se dizendo-lhe que essa árvore era um chaparro com raízes fundas, como há muitos nos montados. Lembravam-se dos seus antepassados directos mais chegados mas não conseguiam ir muito longe. A mãe foi ceifeira que andava à calma, lembrava-se bem desta canção, e o pai foi tractorista nos campos dos latifundiários, rasgando-os com aivecas. Pensa que foi por isso que lhe acrescentaram a alcunha Aiveca ao nome próprio, sendo conhecido lá na terra como Eduardo Aiveca. Mas a vida era má, contaram-lhe da miséria e da fome passada, razão por que tinham vindo para Lisboa na tentativa de encontrar melhor. Foi por isso que nascera na maternidade Magalhães Coutinho, ali para os lados da Estefânia. O pai quis pôr-lhe o nome de António Aiveca mas o registo civil do Socorro não deixou acrescentar Aiveca pois não era o apelido que ele tinha no bilhete de identidade. Mas a família sempre o tratou assim e assumiu esse nome toda a vida. Até porque, após o nascimento, só passara um anito na Rua da Mouraria. A mãe adoeceu dos pulmões e o médico disse-lhe para ir apanhar ares para o campo, lá para baixo. Fora com ela, ainda bebé, e ali ficou sete anos. Lá na terra sempre foi tratado por António Aiveca, o filho do Eduardo Aiveca. Não desgostava do nome.

Quando tinha seis anos metera-se-lhe na cabeça que queria ser padre. Não havia pároco a residir no Penedo Gordo, devido á extrema miséria dos assalariados rurais que constituíam a grande maioria da população da aldeia e porque a maior parte deles não ligava grande coisa às questões da religião. Só aos domingos é que o seminário de Beja mandava um padre para que os crentes pudessem cumprir os seus deveres dominicais. Nessa altura ia à igreja com a avó Rosário. Os avôs Salustiano e João, materno e paterno, não ligavam, nem os tios, a mãe não ia porque estava doente, dizia ela, mas sempre lhe pareceu a ele que também não ligava muito àquilo. A avó Violante, a mãe do seu pai, nunca a vira na igreja. Mas ele gostava de ver o senhor prior com aquelas vestes bonitas, as campainhas, a solenidade, e o respeito de todos os que lá estavam impressionavam-no muito. Todas aquelas cores, luzes e sons eram uma maravilha. Os revérberos do sol através dos vidros coloridos das janelas exerciam o mesmo efeito que qualquer coisa extraterrestre poderia exercer, encantamento, espanto e redobrado respeito. Era bonito, também queria ser padre. Tanto insistiu com a mãe que esta, num dia que teve de ir a Beja, levou-o ao seminário para lá ficar. O reitor ficou encantado, sorriu e afagou-lhe a cabeça. Mas recomendou-lhe, depois, com ar sério que tinha primeiro de tirar a 4ª classe e deu-lhe uma mancheia de rebuçados. Deixou-o contente e muito esperançado de um dia poder igualmente viver no meio de tantas maravilhas, numa casa enorme e bonita como aquela e ter sempre à mão quantos rebuçados quisesse.

Estas lembranças ainda agora eram agradáveis e o faziam sorrir. Mas queria ver mais algumas páginas

(...) Tinha-se interrogado várias vezes sobre as razões que o levaram a entrar no seminário. Mais para carpir a mágoa por um passo mal dado do que para tentar esclarecer aquilo que já sabia. Tinha sido a condição de menino pobre que levara a isso como necessidade. Mas é claro que não fora responsável pela decisão. A necessidade era dos seus pais, que aproveitaram o desejo de um padre que se tinha armado em protector.

As pressões daí decorrentes e os meios em que passou a ter que se mover fizeram o resto. À distância, sentia uma grande mágoa por não ter conseguido libertar-se mais cedo dessa catástrofe que lhe sucedera na vida. Mas, nem sabia se poderia ter sido diferente. Para quem tinha fome, para quem passava o dia com uma fatia de pão com margarina ou, mais do que uma vez, com uma côdea seca, era impossível recusar a possibilidade de ter refeições a tempo e horas. Como não aceitar a perspectiva do café com leite e pão com marmelada, da sopa, da carne e do peixe, se chegara, quando era puto, a ter que andar aos caixotes?
Preço: 19 € (edição em papel) [10 € na sessão de lançamento)
Já tinha desejado muitas vezes não acreditar em Deus. Mas não tinha conseguido. Numa guerra, nesta guerra em que se encontrava como interveniente activo, os desejos, a esperança, a ideia de que quem morria eram os outros e não ele, tudo estava depositado no Deus que o havia de proteger e guardar. Mas porquê a ele e não aos outros, aos que morreram, aos que ficaram sem braços e sem pernas, aos que ficaram cegos e aos que ficaram loucos? Era uma dúvida e, ao mesmo tempo, uma incompreensão muito funda que se afogava e perdia naquilo que a sua formação religiosa chamava os insondáveis desígnios de Deus. Queria dizer que era desígnio de Deus morrer ou ficar estropeado, e também era vontade d’Ele se saísse bem disto tudo. Deus era a explicação de todas as coisas, ele não riscava nem decidia nada, podia tranquilamente continuar a fazer a guerra. Podia matar porque nos desígnios de Deus tanto podia estar o prémio como o castigo. Ele é que decide quem mata e quem morre. O prémio era para ele que matara e não morrera e o castigo era para o outro que não o matara e morrera? Ou ele seria castigado porque matara o outro e este terá um prémio na outra vida porque não o matara? Se comparecer perante Deus, durante ou após esta guerra, será condenado às penas eternas ou entrará no rol dos bem aventurados? Será condenado ou premiado por ter matado para obedecer aos seus legítimos superiores, àqueles que têm sobre ele a pesada responsabilidade de governar e mandar? Será condenado ou premiado se lhes desobedecer e não matar?

A Deus o que é de Deus e a César o que é de César... Citação hipócrita para justificar a passividade da Igreja perante a guerra quando César vai contra o mandamento não matarás. Ou consentimento? Como admitir que a Igreja abençoe a guerra?  (...) (**)

(Continua)





Guiné > Região do Ccaheu > Barro > CCAÇ 3 > 1968 > Natal de 1968 > Areograma do A. Marques Lopes, enviado á irmã e cunhado: "Querida irmã e cunhado, um Natal feliz e que o Ano Novo seja sepre melhor que o anterior. António Manuel... Uma ginginha!.. Pois dar de beber à dar é o melhor"...

"Este é mais outro aerograma que descobri. Mandei-o, pelo Natal, em 1968. O que eu quis transmitir é que eram natais de morte e que o que procurava era esquecer, dando de beber à dor".

Foto (e legenda): © A. Marques Lopes (2005). Todos os direitos reservados

_________________

Notas do editor:


7 comentários:

Luís Graça disse...

Ceifeira que andas à calma... António, só podia ter sido escrito, este poema e este verso, por um gajo que nunca ceifou, que nunca labutou, sob o tórrido calor da charneca alentejana, com os cornos espetados na terra, e tendo por comer uma sopa de ervas, a sopa dos ganhões que agora vai à mesa dos ricos, nos restaurantes gourmets da ex-capital do reino de portugal e dos algarves e de além-mar... É uma "idealização" do Alentejo e da ceifeira... A realidade era bem mais dura, há 75 anos atrás...

Ao que parece, a letra é do Bento Caeiro e a música do João Camilo (1940). Canção do filme "Pão Nosso" (1940), de Armando Miranda

http://www.cinept.ubi.pt/pt/filme/1997/P%C3%A3o+Nosso...

Aqui tens a letra:


O meu Alentejo

Eu não sei que tenho em Évora,
Que de Évora me estou lembrando,
Ao passar o rio Tejo,
As ondas me vão levando.

Abalei do Alentejo,
Olhei para trás chorando,
Alentejo da minh'alma,
Tão longe me vais ficando.

Ceifeira que andas à calma,
À calma, ceifando o trigo,
Ceifa as penas da minh'alma,
Ceif'as e lev'as contigo.


http://mtfoliveira.blogspot.pt/2008/05/o-meu-alentejo.html

A música é do João Camilo, no filme Pão Nosso

Ver aqui um interpretação do fadista eborense Júlio Parreira;

https://www.youtube.com/watch?v=O7CFSzmzJGY

Também há uma interpretação, conhecida, da Dulce Pontes: Meu Alentejo, letra de Bento Caeiro, música de João Camilo.


http://www.letras.com.br/dulce-pontes/meu-alentejo/print


Outros intérpretes. Luís Piçarra.

Luís Graça disse...

Encontrei aqui uma sinopse do filme, "Pâo Nosso" (1940)... Está escrita em inglês:

(...) City couple lacking an objective in life, and happiness, buy a large piece of land in the vast planes of Alentejo. At first, they are happy learning to live like peasants, with simplicity and frugality. They watch them actually working for their daily bread, from throwing the seeds to the earth, harvesting, milling, and baking the bread, and always singing. António sets after a beautiful, married woman, Teresa, and her husband Joaquim vows revenge. But when he watches Jorge, a friend of António, sexually assaulting Isabel, Joaquim's christian soul takes over, and he saves Isabel. This brings peace and reconciliation for both estranged couples.
- Written by Artemis-9 (,,,)

http://www.imdb.com/title/tt0032956/plotsummary?ref_=tt_ov_pl

Antº Rosinha disse...

Pois é Luís Graça, o Alentejo não tem sombras se não as que vêm do céu, e o outro Luís, o Piçarra era fabuloso a cantar a ceifeira que andava à calma, mais as Papoilas saltitantes.

Chamavam-lhe o Luís Mariano português, em Portugal e na França.

Pelo que ficou na ideia de quem ainda o ouviu, os pais tinham bastantes trigais para ceifar pelas ceifeiras.

Mas, como dizes Luís Graça, que quem nunca enfiou os cornos na terra do nosso mundo rural, é que podia deixar-se encantar por aqueles versos que Piçarra cantou nos anos 50 e que a malta daquele tempo já estavamos a dar corda aos sapatos e começavamos a desertificação do interior, porque a foice faz calos.

Mas queres crer que em 1974 apareceram uns tantos poetas cabeludos à boca de sino de viola às costas e surpreendentemente convenceram uns tantos pegar em enxadas, fouces e gadanhas e a convence-los que aquilo é que era bom para os calos?

E alguns alinharam, como foi possível! durou pouco.

Hélder Valério disse...

Caro Luís

Tenho para mim que a expressão "andar à calma" não é sinónimo de "andar devagar", "andar nas encolhas", como se pode ser levado a pensar....
Essa expressão tem a ver, como aponta o Rosinha, com o trabalho feito ao sol, ao calor "à calma"....
Hélder S.

A. Marques Lopes disse...

É o que o Hélder Valério diz.Calma, no Alentejo, é o calor do sol e do ar. Não andes assim à calma, rapaz, dizia-me o meu avô Salustiano muitas vezes. Só quem não sabe o que é ceifar ou cavar sob o sol abrasador do Alentejo é que moteja da calma, a outra, dos alentejanos. mas parece-me que os que andaram sob o sol nas lalas, bolanhas e matas da Guiné compreenderão o que é.

Chapouto disse...

O sol na ceifa alentejana é abrasador sem dúvida, mas ninguém fala também no sol abrasador transmontano no tempo das ceifas e eu que o diga que passei por lá e também andei com a ceitoira em punho, mas só para saber o que era ceifar, mas diziam que tinha jeito, mas a minha missão era chegar o vinho ao pessoal com o pipo de adoelas, por isso era um calor abafado causado pelas montanhas em redor
Fernando Chapouto

Anónimo disse...



Amigo Chapouto.

Eu penso que essa ferramenta usada há mais de cinquenta anos para fazer as ceifas nos campos alentejanos, no planalto mirandês e nesse Portugal rural do interior, onde havia trigo e centeio, se escreve com "s" e não com "c". Com os meus meios disponíveis já verifiquei que será mesmo "seitoura". Sobre o assunto o nosso escritor e camarada Marques Lopes poderá dar-nos os motivos pois ele como teve mais anos de latim talvez possa ir à etimologia da palavra.
Aproveito para dizer que tenho gostado dos textos que o blogue tem transcrito do livro dele e penso estar no dia 3, na Biblioteca Municipal de Matosinhos para comprar um livro pedir um autografo ao autor.

Um grande abraço

Francisco Baptista