terça-feira, 17 de novembro de 2015

Guiné 63/74 - P15376: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (29): De 08 a 16 de Abril de 1974

1. Em mensagem do dia 14 de Novembro de 2015, o nosso camarada António Murta, ex-Alf Mil Inf.ª Minas e Armadilhas da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973/74), enviou-nos a 29.ª página do seu Caderno de Memórias.


CADERNO DE MEMÓRIAS
A. MURTA – GUINÉ, 1973-74

29 - De 8 a 16 de Abril de 1974

Da História da Unidade do BCAÇ 4513: O reconhecimento de Sua Excelência

ABR74/08 – (...) De Sua Excelência o General Governador e Comandante-Chefe, foi recebida uma mensagem, manifestando o seu apreço pelo esforço desenvolvido pelo pessoal empenhado na segurança e trabalhos das duas frentes de estrada A. FORMOSA-BUBA.


Das minhas memórias:

15 de Abril de 1974 – (segunda-feira) – A estrada. Sempre a estrada

Em carta para a Metrópole refiro a dado passo: “Neste momento estão, ao todo, 7 grupos de combate em Nhala. Três, para além dos da minha Companhia, devido às obras da estrada nova. As máquinas ficam no mato a cerca de 9km daqui e temos de pernoitar lá para as proteger. Ainda mais, junto a um corredor do PAIGC. Passam-se, assim, 26 horas fora do aquartelamento”.

Era mesmo assim. Depois do encontro das duas frentes de trabalho ocorrido no passado dia 7 e com as máquinas a operar cada vez mais longe, para além das picagens de manhã cedo e da protecção às obras ao longo do dia, ainda tínhamos que dormir no mato para proteger a maquinaria. Era necessário rodar os grupos de combate nestas rotinas. Daí o reforço da tropa em Nhala.

E como era dormir no mato, em campo aberto, quase em cima de um trilho do inimigo? E, já agora, como era a última refeição do dia em tais circunstâncias? Tentarei dar uma ideia a seguir. Antes, referir que a preparação, de véspera, para um dia tão longo, era feita com mil cuidados e muitas preocupações. A Engenharia construíra no local de pernoita um abrigo à superfície, apenas com terra, que parecia uma LDG com uma barreira de segurança que a dividia em duas. Era assim uma espécie de barca do inferno mas, para não associar o Gil Vicente a um empreendimento sem grandiosidade, chamar-lhe-ei “LDG” em terra.

Antes de escurecer instalávamo-nos na “LDG” e organizávamo-nos como num destacamento, de modo estratégico e com sentinelas toda a noite em rotação. Dada a proximidade da mata nas nossas costas, o que eu mais temia era um assalto. E nós éramos apenas um grupo de combate desfalcado. Instruía todos para essa eventualidade. Recordo bem que, a pensar nessa situação extrema, arranjei de véspera uma saca velha de farinha e nela carreguei seis ou sete granadas defensivas (um peso do caraças, para além das que sempre usei à cintura), e que foi a minha cabeceira no dia das fotografias que junto.

Da mata à nossa frente, muito para além da estrada, e onde por mais de uma vez foram vistos vultos em movimento na orla, o meu receio era a flagelação prolongada. Mas também essa hipótese foi acautelada com maior quantidade de granadas.

Outro receio fundamentado era que, de manhã, com a chegada dos novos grupos de combate e as viaturas que nos levariam de regresso, fôssemos atacados aproveitando a inevitável confusão e excesso de homens no terreno, como já ocorrera noutros locais. Mas nem de noite nem de manhã aconteceu nada. Também poderíamos ser emboscados na correria maluca de regresso a Nhala, duas ou três viaturas com um pelotão mal dormido, desacautelado de cuidados. Enfim, mesmo ao almoço não estávamos livres de nos engasgarmos e morrermos asfixiados com as salsichas da bianda...

Imagem de satélite do Google Earth (2013), com a devida vénia, onde realcei a branco a estrada de A. Formosa-Buba (1973-74). A linha que tracei do “carreiro” de Uane é aproximada e intercepta a estrada (círculo vermelho) a, mais ou menos, 9 km de Nhala. Do lado de Buba não recordo a localização dos carreiros. As imagens que se seguem referem-se a uma das dormidas no mato na zona do círculo vermelho. 

Foto 1: Abril de 1974 – Local de concentração das máquinas da Engenharia após mais um dia de trabalho. É aqui que iremos passar a noite para a sua protecção. Em primeiro plano, parte do pessoal de um grupo de combate da CCAÇ 18, creio, que estiveram com o meu grupo na protecção às obras durante o dia, e que agora se preparam para regressar a A. Formosa, deixando-nos sós. Vê-se uma White dos nossos camaradas da Cavalaria que os vão acompanhar. Tirando este bocadinho de terreno com sombras, onde até se podia fazer um piquenique, tudo em redor é inóspito e desolador. Um cenário de matas e terras revolvidas, quase apocalíptico. Em contraponto, o humor do pessoal parecia desenquadrado, como se não estivessem ali para o que se sabia. E quando assim era, significava que nada de mal nos acontecia. E não aconteceu.

Foto 2: Lamentavelmente desfocada, mas única, esta fotografia de mais alguns elementos do grupo de Cavalaria. 

Foto 3: Todo o pessoal abandona o local e regressa a A. Formosa. Esta White teve um dia uma fraqueza de ânimo mesmo à minha frente, em Nhala. Mais tarde contarei o episódio.

Foto 4: O meu grupo de combate dispersa-se e toma a última refeição do dia, antes de se abrigar para passar a noite. Que virá rápida. De pé, da esquerda para a direita: Furriel Oliveira, Rui Pereira, Furriel Pastor e 1.º Cabo “Tarouca”. Sentados: Manuel Gomes, à esquerda, e o Baptista à direita. O do centro não recordo o nome. 

Foto 5: O Furriel Oliveira faz a distribuição de água. 

Foto 6: Este é o Victor, andrajoso mas de grande carácter e bonomia. E safado. Foi preciso a película dos slides fazer o périplo Guiné-Metrópole-Espanha-Metrópole-Guiné, para eu perceber aquele riso sarcástico: tinha as calças rotas e uma exposição indecorosa. Na altura, com o cantinho de uma lâmina raspei do slide as indecências. Quer dizer, estraguei o slide.

Foto 7: O grande e eficiente bazuqueiro do grupo, “Mafra” (por ser de lá). Ao fundo vê-se o 1.º Cabo maqueiro, Custódio. 

Foto 8: O Alferes António Murta a dar corda a uma lata de feijoada, creio. O que recordo bem é que no final do repasto comi duas ou três mangas apanhadas ali próximo (Samba Sabali?). Fora o conselho de alguém para que passasse a noite sem ter frio... 

Foto 9: Rapazes do melhor que havia, e eram muitos no meu grupo. Da esquerda para a direita: José Gomes, “Mafra”, Victor e Osório (de costas). O Osório é de Coimbra e encontrei-o uma vez, para alegria de ambos. Pena que não tenha fotografado a totalidade do grupo, mas nem sei se tinha película para todos. Nem os custos eram como os de hoje.

Foto 10: O Sol ainda não espreita. Uns dormem, outros vigiam. Eu recomeço a fotografar. Esta imagem foi captada da barreira que divide em dois o grande abrigo: “LDG” em terra, lado do morteiro. E de Nhala.

Foto 11: Ainda do lado do morteiro, com o pessoal já despertar. A humidade nos ossos ficaria ainda por muito tempo.

Foto 12: O lado oposto da “LDG” com o “posto de comando” em primeiro plano, onde se vê o Furriel Oliveira a tomar o pequeno-almoço junto à minha cama. Na minha cabeceira é visível o cordão da saca das granadas defensivas. Felizmente, teria de carregar com elas de novo no regresso. Próximo, vê-se o “posto de rádio”, com o operador ainda a dormir. Lá para onde o nevoeiro ainda tudo cobre, a meia dúzia de quilómetros, fica Mampatá.

Foto 13: Em tempo de guerra também se limpam armas, e o Fur. Oliveira esmera-se. Está na hora de “desembarcar” e montar guarda às viaturas que entretanto chegarão para nos levarem de regresso a Nhala. Não tarda, a nossa tranquilidade vai ser perturbada pela chegada, sempre caótica, dos grupos que nos virão render em jornada igual. Mas a nossa alegria vai ser muita ao vê-los chegar. Por nós, está cumprida a missão.

(continua)

Texto e fotos: © António Murta
____________

Nota do editor

Poste anterior de 10 de novembro de 2015 Guiné 63/74 - P15348: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (28): De 01 a 7 de Abril de 1974

8 comentários:

zé manel cancela disse...

Caro Murta.Fico extasiado e com uma lágrima no canto do olho
ao ler as tuas histórias,Porque toda essas zonas também foram "batidas"por mim,em 68 e 69,portanto no começo da nova estrada Buba Aldeia Formosa.Agora e se me permites,vai uma sugestão.Porque não passar tudo isso para um livro?


Um forte e fraternal abraço,de Buba a Aldeia.............

JD disse...

Não tenho ideia de já ter ou não comentado algum texto desta série, mas acho-os francamente agradáveis, bem descritos, e com excelente suporte fotográfico. Trata-se de uma reportagem ainda em continuidade, onde se mostram inúmeros meios de conforto, de equipamento e, não menos importante, as fantásticas lata de conserva que nos faziam crescer água na boca.
A mina companhia também passou por um estilo turístico semelhante, embora as excursões desfrutadas tivessem ocorrido mais no mato puro, por força da intervenção, primeiro, e das exigências de uma área de circulação e ameaça do IN, depois, quando entrámos em quadrícula, com uma extensa área de fronteira e intensa actividade operacional, muito mais - e talvez por isso - do que a falta de intensidade da guerra poderia sugerir.
Normalmente, quando passava as noites sob o céu luminoso, a minha almofada era a mochila, quando a levava, e nunca me passou pela carola usar uma saca com granadas de mão, um insustentável peso sobre o ser que o meu copo nunca suportou.
Um grande abraço
JD

José Carlos Gabriel disse...

Amigo António Murta.
Mais uma das tuas belas memórias do nosso tempo de guerra. Obrigado por me fazeres relembrar alguns dos nossos camaradas nas tuas fotos. Estou perfeitamente de acordo com a sugestão do Zé Manel Cancela. Porque não começas a pensar editar um livro? Qualidade e pormenor não faltam nos teus escritos com a vantagem de passados todos estes anos conseguires ter fotos ainda com excelente qualidade. Mais uma vez vou deixar de fazer comentários pois vou ter de voltar para a estância de inverno de onde só regressarei no próximo ano mas não deixarei de vir verificar sempre que possível o que por aqui se vai escrevendo.
Um grande abraço.

José Carlos Gabriel

Ramos disse...

Amigo e Companheiro António Murta, revejo-me na maioria das palavras que escreves,palmilhei a maior parte desses "terrenos" e vivi esses mesmos acontecimentos. Parabéns pela memória e permite-me (se não sabes) que temos um blogue do Batalhão 4513 onde se vão partilhando memórias e noticias dos nossos ENCONTROS, se porventura estiveres interessado podes consultar e partilhar com mais companheiros do Batalhão. Temos contado com a presença do ex.alferes Lopes, o Tibério Barros , os furriéis Oliveira, Loução e mais alguns camaradas da tua companhia.

Jaime Ramos
ex. furriel da 3ª Companhia
Aldeia Formosa

António Murta disse...

Caríssimos camaradas.

Obrigado pelos vossos amáveis comentários e sugestões.

Jaime Ramos, bem aparecido.
Lembro-me muito bem de ti. E de muitos outros camaradas da 3ª CCAÇ, principalmente dos alferes por ter privado mais com eles, esses camaradas com um "C" muito grande.
Claro que também me lembro de muitos outros que nunca mais se lembraram de mim.

Para ti um apertado abraço.
A. Murta.

Luís Graça disse...

Ninguém, como tu, António, descreveu e documentou até agora o "suplício de Sísifo" que foi a permannete montagem aos homens e máquinas que abriam e construiam as novas estradas no TO da Guiné... Também fiz segurança à nova estrada Bambadinca-Xime, nos anos 70/71... As tuas fotos trazem-me recordações desses tempos, mal dormidos, mal comidos, desassossegados... Nunca dormi em cima de um saco de granadas defensivas, mas um dia acordei, sobressaltado, com uma cobra a escassos centímetros da minha cara...

Tu fazias fotos e escrevias o teu diário... O Josema (José Manel Lopes, dos Unidos de Mampatá) escrevia todos os dias um poema... Cada um tinha a sua estratégia para nunca ficar louco... Obrigado pelo desenho do célebre carreiro de Uane!

Um alfabravo fraterno. Luís Graça



Olhos semi cerrados querendo ver
para além das árvores
passo controlado
procurando caminho
já calcado e pisado
orelhas a pino
a querer ouvir
além da neblina
todos os sentidos
são poucos
escaparão com vida?
não ficarão loucos?

Carreiro de Uane 1972
josema

http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2008/03/guin-6374-p2665-poemrio-do-jos-manuel-4.html

Anónimo disse...

Caro Murta:

A publicação em livro ! Quem, melhor do que tu, reúne condições para o fazer. Está tudo ali, estou-me a ver, em 73, do lado de fora do arame de Cumbidjã, a passar uma noite dentro de uma LDG como aquela que retratas. Nessa noite houve tiroteio seguido da sobrepassagem de granadas de obus 14 que o Zé Pedro Rosa mandava de Mampatá e rebentavam do outro lado da Companhia do Vasco da Gama. Nem sei o que dizer...mas na verdade também não posso entrar em pormenores porque a memória não me ajuda mas que aqueles assobios assustavam lá isso é verdade.

Um abraço
Carvalho de Mampatá.

António Murta disse...

Caro Carvalho de Mampatá.
Se elas assobiavam...
Fizeste-me recordar uma noite semelhante em Cumbijã. Agora ao ler-te senti nostalgia, porque fez-me tão bem à alma ouvi-las passar numa noite tão serena, a abóbada celeste limpa, e eu desinteressado do destino que elas levavam...
Estava sentado a conversar com alguém na traseira de um Unimog. A noite convidava a um relaxe, cerveja na mão, por certo a recordar coisas boas. De repente, ouve-se um grande estouro do lado de Nhacobá. Estremecemos. Mas de seguida outro estouro, mais frouxo, mas do lado de Colibuia. Percebemos logo que era o obus 14 a disparar (de Colibuia, quase de certeza), só que tínhamos ouvido o rebentamento da granada, antes de ouvir a saída do obus, por ser mais longe.
A seguir não paravam de passar com o seu assobio mesmo por cima de nós. Parece maluqueira dizer isto, mas estava a saber-me tão bem o espectáculo que me deitei (deitámos) para trás no estrado da viatura a ouvi-las passar, o céu como fundo. Por vezes via-se aproximar um traço vermelho, antes de se ouvir o assobio, mas extinguia-se logo. A seguir, pum!
Grande susto foi quando a seguir a um estouro de saída, ouvimos uma que vinha a rodar atravessada, com um barulho que parecia as pás de um helicóptero. Sentámo-nos rápido a ver o que ia dar mas ela passou e acho que nem rebentou. Sinto nostalgia dessa noite, pronto...

Abraço.
A.Murta