quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Guiné 63/74 - P15678: Outras memórias da minha guerra (José Ferreira da Silva) (21): Amores e Desamores

1. Em mensagem do dia 15 de Janeiro de 2016, o nosso camarada José Ferreira da Silva (ex-Fur Mil Op Esp da CART 1689/BART 1913, , Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), mandou-nos uma excelente história para a sua série "Outras Memórias da Minha Guerra".


Outras memórias da minha guerra

20 - Amores e Desamores

Quando entrei no Destacamento do Quartel de Santarém (Escola Prática de Cavalaria), faltavam menos de 15 minutos para o limite máximo de entrada. Num dos bancos de jardim, instalados ali na frente, já havia escrito a alguns amigos, manifestando o meu estado de espírito, carregadinho de incertezas.
Ainda hoje me custa aceitar que eu tenha merecido 7 punições durante as primeiras 5 semanas de recruta. Aliás, só à 5.ª semana consegui licença para ir a casa. Lembrei-me então de pedir ao CMDT de Esquadrão para me deixar participar nos Fiéis Defuntos, alegando o facto de ser órfão e, como irmão mais velho, querer acompanhar a família nessa dolorosa função.

Foi durante esse período de fins-de-semana cortados que tive a oportunidade de conhecer e conviver mais de perto com o Diogo Carvalho que, por opção, também não ia a casa. Inicialmente pareceu-me evidente o seu temperamento emotivo e revoltado quase com tudo o que o rodeava. Depois, após vários dias de convívio restrito, constatei que se tratava de um indivíduo maduro, já bastante espremido pela vida e pelos seus azares.

- Então, também voltaste a não ir de fim-de-semana? – perguntei.
- Não, nem tenho interesse em ir. Já há uns meses que decidi afastar-me da terra.
Perguntei:
- Estás chateado ou magoado com algo muito importante?
- Não gosto de falar disso, mas tens razão.

Após uns momentos de silêncio, abeirou-se um pouco mais, olhou-me frontalmente, de forma a falar só para mim.
- Ofereci-me como voluntário para a tropa para fugir de lá. Ainda pensei em emigrar, mas ponderei as consequências e optei por antecipar o serviço militar. Depois, se há-de ver o que virá.

Contou coisas que muito o marcaram, tais como a morte da mãe, que ainda era jovem, a do avô pouco tempo depois e, ainda, mais tarde, o comportamento do pai, que engravidou uma jovem casada, que trabalhava lá em casa.
Enfim, o Diogo, apesar da sua juventude, já acumulara um sem número de acontecimentos pessoais que o tornaram, precocemente, num homem maduro. Porém, o que mais mexeu com ele foi o desfecho de uma paixoneta por uma vizinha rica.

Viviam da lavoura. Tanto o pai, Laurindo Carvalho, como o avô paterno, Augusto Carvalho, destacavam-se na criação do gado arouquês, o que lhes trazia fonte de rendimento suficiente para pagar as rendas aos senhorios Morgados e ainda desfrutarem de algumas possibilidades na boa criação do Diogo, o único descendente.

Desde menino que o Diogo se destacava entre os seus amigos. Tinha bom aspecto, era inteligente, muito educado e irradiava alegria permanente. Por isso, entre o grupo da JOC (Juventude Operária Católica), ele era o mais admirado.

As miúdas também lhe dedicavam muita simpatia. Porém, em criança, já ele parecia mais focado na Guidinha dos Morgados, a bisneta do Comendador Afonso e sobrinha do Padre Benjamim Morgado. Embora desfasassem quase um ano de idade (ele era mais velho), frequentavam a mesma classe, vinham da escola primária quase sempre juntos, acompanhados pela criada Manuela, porque os Morgados a mandavam ir buscar a miúda.

Este relacionamento era normal, uma vez que viviam na mesma zona da aldeia: ela no Casal dos Morgados e ele, logo mais abaixo, perto da Casa do Feitor, na casa do Senhor Augusto. Além disso, há muitos anos que a família do Diogo estava ligada aos Morgados não só por questões de boa vizinhança mas também por boas relações pessoais e interesses laborais. O Diogo era querido pelos Morgados, especialmente pelos pais da Guidinha.

Durante o tempo da escola primária, havia um relacionamento quase fraternal. Quando a criada Manuela os ia buscar, procurava passar perto do seu namorado, Alcino, que trabalhava na Casa do Brandão.
Por vezes, ela ficava com ele e deixava o Diogo e a Guidinha irem para a beira do Rio Arda. Num dia de calor, a Manuela ficou aflita ao vê-los nus, a aprender a nadar. Todavia, como não os podia acusar dessa ousadia, teve que os tolerar mais vezes. Noutras vezes, já eles andavam na 4.ª Classe, a Manuela encontrou-os a brincar aos beliscões e apalpadelas.

A Guidinha não queria estudar. Gostava muito da família, da natureza e daquele ambiente rural. Por outro lado, temia muito afastar-se dali. Os pais não se preocupavam muito com isso, até porque, ali, não era tradição a continuação dos estudos por parte das mulheres. Além disso, como herdeira de um elevado património, não sentia necessidade de se sacrificar por qualquer outra valorização profissional.

Ele, o Diogo, enquanto pôde, estudou no Colégio dos Carvalhos. Nesse período, os contactos com a Guidinha resumiam-se às actividades de fim-de-semana, ligadas à igreja. O relacionamento de amizade manteve-se bastante próximo.

Logo que faleceu o avô Augusto, o Diogo teve que ir para casa. O pai que já havia entrado em depressão com a falta da jovem mulher, inesperadamente falecida por doença cancerosa, sentia, agora, grandes dificuldades em aguentar o habitual trabalho agrário. Com menos de 17 anos, o Diogo era, então, um jovem sobrecarregado de trabalho nas lides da terra e do gado, obrigado a ajudar o sustento da família, bem como os seus compromissos.
Nesta fase, o jovem Diogo era merecedor dos maiores elogios e de simpatia generalizada. Em pouco tempo, o Diogo fez-se homem. Além disso, ele era solicitado, frequentemente, para colaborar nas responsabilidades das actividades da JOC.

Foi nessa altura que, após as cerimónias do Corpo de Deus, os dois, quando regressavam a casa, se viram junto ao Rio Arda, nos mesmos locais onde desfrutaram de grandes momentos de alegria e de pura convivência. Recordaram aqueles tempos, riram-se de situações inesperadas e brincaram com alusões ao aspecto físico de cada um. Sentados na berma do rio, descalçaram-se para usufruírem da frescura das águas límpidas, naquele dia de grande calor. De repente, estavam no rio a lançar água um ao outro, como faziam nos tempos de crianças. Passaram para a outra margem, acessível só pelo lado do rio, e foram secar as roupas molhadas.
Ao tirar a folgada blusa branca, a Guidinha expôs um bom par de mamas, devidamente sustentadas por um apertado soutien, de cor carnal. Por sinal, era também a cor da calcinha sedosa que cobria o encontro de duas coxas, bem torneadas e bastante atractivas.

Quando o Diogo, de costas, “ameaçou” tirar as calças, já ela se estendia sobre as ervas tenras do pequeno verdeiro. Olhou-a e estremeceu. Foi um momento ímpar. De repente sentiu que toda a pureza daquele relacionamento se esfumara e que outro o amedrontava. Agora via ali disponível a mulher que desejava, aquela formosa rapariga de olhos negros e cabelos lisos e retintos. Deitados ao sol, quase nus, aproximaram-se e encostaram-se.
Beijaram-se sem experiência, agarraram-se com volúpia e murmuraram algumas palavras de amor. A Guidinha, entusiasmada, expôs-se abertamente, entregou-se e desejou tudo do Diogo. Ele procurou satisfazê-la pudicamente com beijos e algumas massagens, sem que tivesse que a desflorar. Assaltaram-lhe os pensamentos que já há muito tempo o vinham condicionando: a diferença social abismal que os separava. Aliás, sabia que se a desflorasse seria considerado e condenado como um oportunista sem perdão. Ele estava convencido de que ela o amaria mais com estas reservas inibidoras, imbuídas do maior respeito. Assim lho deu a entender:
- Guidinha, és a única rapariga que quero. Vamos ter calma. Somos menores, temos que esperar mais algum tempo e pensar melhor no nosso futuro.
Porém, ela parecia insaciável e esperava uma satisfação maior. E respondeu:
- Se me queres, temos a oportunidade de nos amarmos totalmente. Não vou aguentar ficar à espera. Nada receies. Ninguém nos vai chatear. Eu é que sei da minha vida.

Ela agarrou-o e prendeu-o em cima de si. De pernas abertas, já sem cuequinha, soltou-lhe o pénis e puxou-o para junto da vagina, entre um basto e negro púbis. Quase instintivamente, ele moveu-se cautelosamente, de forma a não a penetrar, mas roçar, continuamente, o clítoris e os lábios vaginais. Rapidamente, ela, ofegante, exultava de satisfação e soltava gritinhos de prazer.

Apesar do seu relacionamento, desde crianças, o Diogo e a Guidinha nunca foram apontados como presumíveis namorados.
Eram vistos como vizinhos, muito amigos e de famílias bem distintas. Ninguém, ou quase, pensaria ser possível que eles viessem a assumir um namoro oficial.
Porém, ele ficou bastante preocupado com o encontro recente e, agora, não sabia o que fazer. Não tinha dúvidas quanto ao amor da Guidinha, mas sentia-se apreensivo quanto ao desfecho desta relação que lhe veio avolumar um mar de pressões.

Uns dias depois, a Guidinha, a pretexto de visitar o Feitor, entrou em casa do Senhor Augusto e procurou o Diogo. Entrou à vontade, como era seu hábito desde criança. Logo que pôde agarrou-se a ele e beijaram-se.
Sentiram aproximação de alguém e esconderam-se no quarto. Enquanto ele, atento, escutava o ruído dos movimentos que se afastavam, ela abriu a blusa e deixou cair a saia. Ele voltou-se e, meio surpreendido, não sabia que dizer nem o que fazer. Sentada na cama,puxou-o pela cintura, desapertou-lhe as calças e as cuecas e puxou-as para baixo num movimento brusco. Com o pénis na frente dos olhos, contemplou-o enquanto dizia:
- Sempre que te imaginava nu, via-te tal como eras; sem pelos e com a aquela pillinha.
Acariciouo e agarrou-o, ao mesmo tempo que murmurava:
- Jesus, como cresceu! Tens que o meter no meu pipi. Ele anda zangado, porque ainda não o fizeste.

Ele sentou-se ao seu lado e enquanto lhe acariciava os cabelos, dizia:
- Calma Guidinha, por favor, tem calma. Não podemos cair nessa tentação. Bem gostaria mas, por agora, não posso, nem quero, ser responsável por isso.
Ela agarrou-o com força e puxou-o para trás, por forma a ficarem deitados sobre a cama e murmurou-lhe:
- És um tolo. Será que tens outra e me estás a evitar?
Ele abraçou-a, acariciou-a e beijou-a. De seguida, perguntou-lhe:
- Já imaginaste o que diriam os teus pais quando soubessem deste tipo de relacionamento?
- Os meus pais gostam de ti e vais ver que não haverá problemas. O que eles querem é que eu seja feliz.

Em silêncio, aproveitaram o momento e continuaram a usufruir dos impulsos desta paixão. Valeu o autocontrolo do Diogo que conseguiu de novo evitar o desfloramento.

Aquele Verão sequeiro obrigou a um trabalho extraordinário. Todos andavam mais ocupados nas regas e nas pastagens contínuas. Apesar disso, o Diogo achou um pouco estranho deixar de ver a Guidinha. Ainda passou por perto do Casal dos Morgados, mas não se apercebeu de nada. Ainda pensou que estivesse a gozar férias mas já lá iam cerca de 2 meses sem que a tivesse visto.

Chegaram as festas da S.ª da Mó, que se realizam a 7 e 8 de Setembro. Ali se juntam as famílias e muitos emigrantes. No parque das merendas existem muitas mesas de pedra que são usadas para as abundantes comezainas. O Diogo passou o tempo a olhar para a mesa onde, normalmente, se via a família dos Morgados. Logo após a procissão, viu a criada Manuela dirigir-se para lá. Porém, as pessoas que a seguiram eram seus familiares e amigos. Quando se apercebeu de que os Morgados não viriam, foi-se aproximando. A Manuela quando o viu, convidou-o para comer alguma coisa. Ele reagiu dizendo:
- Vim à missa e à procissão e tenho que ir já para baixo, porque estamos com muito trabalho.
Ela logo respondeu:
- Eu não. Os patrões nem vieram à Sra. da Mó. Devem andar pelo estrangeiro ou estão no Porto, na casa do Padre Benjamim. Nem sei o que vai acontecer agora.
- Mas, porquê? Perguntou o Diogo.
- Não digas nada a ninguém mas, houve lá discussão, por causa da menina Guidinha. Querem que ela vá estudar para junto do Pe. Benjamim e ela não quer ir.
E continuou:
- Tenho pena dela. Andava tão contente. Lá em casa, parecia que estava tudo bem e de repente, tudo mudou. Saíram de cá ainda antes do mês de Julho começar.

Passou o Verão, passou o S. Miguel e chegou o Fiéis Defuntos sem que a Guidinha aparecesse. No Cemitério, ao passar junto do Jazigo dos Morgados, o Diogo achou estranho que os pais da Guidinha o tivessem evitado e se concentrassem tanto na foto do Comendador.
De regresso a casa, o Diogo, que já andava a matutar há tanto tempo, pareceu ter encontrado a justificação. Então imaginou que ela, na ânsia de evoluir a sua relação amorosa, inocentemente e na mais pura das intenções, terá sondado a opinião da sua mãe, sobre uma hipotética atracção por si. Sim, de certeza que foi isso. E continuou a imaginar: os pais discutiram o assunto e optaram por a afastar de imediato dali, levando-a para perto do Padre Benjamim.

Agora que tudo lhe parecia claro, uma dúvida lhe assaltava: Se ela continuasse a apostar nele, já teria deixado algum recado ou teria enviado alguma carta. Todavia, acalentava a esperança de que isso ainda iria acontecer.

Passaram as festas de Natal, sem que se tivesse visto mais a Guidinha. Sem ela, silencioso e pouco iluminado, o Casal dos Morgados parecia abandonado. Foi na noite de Reis, quando recebeu um grupo que cantava as Janeiras, que ouviu um dos elementos do grupo dizer:
- Estivemos no Casal dos Morgados, mas eles não estavam. Disseram-nos que agora estão mais tempo lá pelo Porto. Parece que a miúda foi para o convento do tio.

Entre as pessoas que costumavam trabalhar lá em casa, havia a Carolina, a mulher do Francisco Queirós, que tinha emigrado para a França. Mal casaram, ele seguiu com a ambição de obter melhores condições de trabalho e a promessa de a chamar para junto de si. Menos de um ano depois, em Agosto, o Francisco veio de férias. Queria levar a mulher mas ela disse-lhe que era melhor aguentar mais algum tempo.

A Carolina engravidou. Tudo levava a crer que tinha sido durante a vinda do marido, nas férias de Agosto. Foi trabalhando lá em casa dos Carvalhos mas, em Março, teve um robusto menino, alegadamente com cerca de sete meses de gestação. Tudo normal, tudo na paz do Senhor. Poucos tempos depois do parto, a Carolina trazia a criança lá para casa, enquanto trabalhava. A avó do Diogo, que já acusava sintomas de Alzheimer, gostava de cuidar da criança. Numa das vezes que o Diogo pegou no miúdo, mexeu-lhe no cabelo e verificou que, por coincidência, ele tinha uma pequena mancha rosada igualzinha à sua e à do seu pai. Só depois disso é que se apercebeu de alguma intimidade na relação de seu pai com a Carolina. Sempre pensou que isso não passava de um certo carinho paternal.
O Diogo enfrentou o pai, que não assumiu o caso, e confessou que não podia lá continuar. Ainda bem que em breve iria para a tropa.

******

Em 1967 embarquei como a minha Companhia para a Guiné.

Em princípios de Janeiro de 1968, quando regressei às aulas de condução, interrompidas pelo chumbo de Abril anterior, encontrei lá, na Escola de Condução, em Bissau, o Diogo, que fora buscar a carta. Tinha terminado a comissão e regressaria uns dias depois. Falou-me que tivera muita sorte durante a missão da PSICO em apoio aos nativos e que conseguira tempo e disponibilidade para estudar. Tencionava dedicar-se exclusivamente aos estudos, aproveitando as facilidades que tinham sido criadas para os ex-combatentes, proporcionando-lhes exames, sempre que os requeressem.

Durante a nossa conversa, acabamos por falar de novo na sua paixoneta. Perguntei:
- Então, já esqueceste a tua vizinha rica?
- Quase. Olha, endureci de tal maneira que agora receio não conseguir voltar a apaixonar-me. Fiquei marcado por esta não me ter comunicado qualquer justificação.
E continuou:
- Soube que ela está num convento. Imagina, aquela gaja tão quente e tão rica, feita freira!
- E o teu velhote?
- Recebi uma carta dele há pouco tempo. Diz que quer que eu vá para lá, que precisa de mim, que está muito só e, até, que a Carolina foi para França, etc., etc.
- E não vais? Perguntei.
- Devo ir, mas estou decidido a fugir de lá. Quero ver a minha avó, que já não conhece as pessoas, mas o objectivo é ir para Coimbra.

Durante vários anos, passei por Arouca, em direcção a Covelo de Paivó, onde fiz muitas pescarias à truta. A paisagem é maravilhosa e as poucas pessoas que lá vivem são adoráveis. Muitas das vezes, não chegava a pescar. Sempre que encontrava alguém disposto a conversar, perdia-me fascinado a ouvir aquela gente. Falava-se mais do antigamente, da abundância, da fuga das pessoas após o encerramento das Minas de Regoufe e da actual ausência de jovens. Havia gente que não conhecia o mar.
Mas o que mais adorava ver, além daquelas águas límpidas do Rio Paivó, afluente do Rio Paiva, serpenteando entre pedras arredondadas pela sua erosão, era a chegada dos cabritos, ao fim da tarde. Vinham da montanha em rebanho e entravam pelo lado norte, enchendo a rua principal da povoação, “alcatroada” de excrementos secos. Ao cruzarem as pequenas ruelas com os cancelos abertos, iam entrando nas casas de seus donos. Nenhum se enganava e os últimos cabritos chegavam à última casa lá ao fundo, no altinho, por um caminho empedrado há séculos, que nos leva a Regoufe.

Todos os dias, a tarefa se repete. Dois pastores acompanham o rebanho, de forma alternada e democrática. No regresso, perdíamo-nos a petiscar nas adegas abertas, na baixa de Arouca. A carne arouquesa é excelente e o presunto também. Todavia, nunca perdia o salpicão de vinhad’alho nem o bucho, acompanhados do tinto da região.

Nunca encontrei o Diogo. Mas, recentemente tive essa agradável surpresa. Um cliente meu, da Beira Alta, sportinguista ferrenho, contactou-me para lhe fazer um favor: arranjar dois bilhetes para poder assistir ao Arouca-Sporting, que se realizava no Domingo seguinte e que não conseguira através da net.

Andavam numa azáfama, lá na sede do FC Arouca, quando entrei e disse o que desejava. Senti então um toque no ombro, vindo trás:
- Por aqui, Silva?
Voltei-me, olhei: era o Diogo. Reagi logo:
- É verdade. Tanta vez passei por aqui e sempre a procurar encontrar-te e hoje, sem o contar, apareceste. Como me conheceste?
- É fácil porque tens uma voz inconfundível. Mas, pelo aspecto, estás já um bocado gasto, desculpa lá. Vamos tomar qualquer coisa.
- Por acaso era para voltar para trás. Mas, já que te encontrei, podemos ir à baixa petiscar. Conheço ali umas tasquinhas que são uma maravilha.

Armado em cicerone, encaminhei-o para a “tasca da viúva”. Mal entrámos, ouvimos:
- O Senhor Doutor Juiz está cá hoje?
O Diogo respondeu:
- Só vim tirar bilhete para ver o jogo. Não se fala noutra coisa: o nosso Arouca a jogar com o Sporting! Olhe, arranje aí qualquer coisa para petiscarmos.
- Então, Silva, que fizeste nestes anos todos?

Falei-lhe resumidamente destes 40 anos de vida, desde a presença civil em Angola, de 70 a 74, casamento, filhos, canoagem, até aos nossos dias. Seguidamente:
- Agora fala tu, até porque sinto muita curiosidade.

O Diogo explanou também a sua vida, começando pela sua licenciatura, obtida em Coimbra e a carreira na magistratura. Casou em Vila Real e vive no Porto. Tem duas filhas, ambas casadas, uma delas a viver em Matosinhos e a outra em Aveiro. Passa muito do seu tempo junto delas e dos 5 netos que já tem.
A determinada altura, sem que o tivesse perguntado, diz-me:
- Lembraste daquela história da minha paixão? A miúda sempre seguiu para freira. Chegou a directora de Colégio. Recentemente, quando faleceu o tio Padre Benjamim, houve um funeral especial, que teve muito impacto aqui na região. Por curiosidade, quis ver a Guidinha durante o velório.

Contou o que sentiu enquanto não a viu. Imaginava-a ainda uma morenaça boazona, encoberta pelas vestes sagradas. De repente, pôs-se a pensar: e se encetar conversa com ela? Que tipo de conversa teremos? E se ela confessar que não teve culpa do seu afastamento? Gostaria de lhe perguntar se ainda está virgem. Se nunca mais se agarrou a outro homem e como conseguiu resistir a isso tudo. Enfim, chegou a pensar que lhe daria imenso prazer fodê-la, mesmo com aquelas vestes.

Abeirou-se do velório, olhou o morto de longe e esperou ver a Guidinha no meio daquelas velhas feiosas, a rezarem a seu lado. Ficou decepcionado por não a ver.
Não se apercebeu que a Guidinha era uma delas.
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Nota do editor

Último poste da série de 20 de agosto de 2015 Guiné 63/74 - P15023: Outras memórias da minha guerra (José Ferreira da Silva) (20): História de paz com (muita) guerra atrás

13 comentários:

JD disse...

Caro Silva, ´
Parabéns pelo belo naco de prosa, uma estória do incrível que me deixa perplexo pela evolução dos acontecimentos. Consigo encontrar alguma justificação para o apagamento da paixão feminina, como que respondendo a uma penitência estribada em educação rigorosa e dependência familiar efectiva. Foi uma infelicidade que abalou uma família. Depois, "longe da vista, longe do amor", e cada um fez-se por novos rumos.
Também gostei da citação de lugares da serra que palmilhei numas poucas caminhadas, e do alto da Sra da Mó, onde beneficiei de uma bela jantarada durante o Inverno frio, com gaitadas e cantorias a alegrar o ambiente. Sabes qual a génese geológica das pedras parideiras? Lembrei-me agora, pois nunca investiguei a propósito.
Com um abraço
JD

Anónimo disse...



Amigo José F. Silva:

Com mais vagar e paciência escrevias um belo romance e não te falta arte para tal
Gostei muito.
Um abraço. Francisco Baptista

jteix disse...

És fo... ragido ó Zé, ou aqui será Silva.
Das duas uma, ou tens cá uma lata, ou o chapéu não te deixa fugir a memória, sim porque é preciso ter uma memória para "engendrar" uma estória assim e bem contada como sempre.
Um abraço
cumprim/jteix

Luís Graça disse...

De há muito que o nosso camarada José Ferreira da Silva está "sinalizado", no nosso blogue, como um dos nossos "penas de ouro"... Ele é um exímio contador de histórias, aonde geralmente não faltam os ingredientes que nos fazem, a nós, seres humanos (e portugueses), sermos como somos, humanos (e portugueses)...

Infelizmente, não tenho nenhum convívio com ele, conversámos os depois, a sós, umn pouco mais longamente, certa vez em que eu fui à Tabanca de Matosinhos. Confirmei a impressão que já tinha dele, da leitura dos seus escritos (e já serão mais do que meia centena!), de ser um "homem de vida", como se diz no norte, e um apaixonado pela vida, mas também um grande observador do "zoo" humano, e um grande escultor de corpos e almas... Tem um notável sentido do picaresco, do burlesco, e as suas histórias não nos deixam indiferentes, tocam-nos, justamente pela sua humanidade... É um homem afável, um bom camrada e tem um grande talento literário... Acho que as suas histórias merecem o prémio de um livro!...

Um grande abraço, de Lisboa até ao Porto. Luis


PS - Silva, a história, tendo ou não um fundo autobiográfico,é verosímil, e encaixa-se perfeitamente na tua "idiossincrtasia" nortenha... Só uma pequena sugestão: numa próxima versão, revista e melhorada, põe o Diogo a militar na JAC - Juventude Agrária Católica, e não na JOC - Juventude Operária Católica... Quanto ao desfecho (surpreendente...), acho que fizeste bem em "desencontrar" o Diogo e a freira... Afinal, a vida é isso mesmo, feita de amores e desamores... (E não há amores como os primeiros!)...

E depois, como diz o fradesco, misógino (ou apenas pícaro ?) provérbio popular, "Freiras e frieiras é coçá-las e deixá-las"...

Luís Graça disse...


Zé Silva:

Escreveste na tua mensagem, enavida aos editores: "Podia ser uma boa história de amor. Porém, temos que nos cingir à realidade e aceitá-la porque o desamor também faz parte da nossa história"...

Discordo: acho que é uma grande história de amor... A crueldade está (quase) sempre no meio social e familiar em que a gente nasce e cresce...As raízes do conflito estão aí... Neste caso, o Portugal no seu pior, o Portugal em que nos fizemos homens, já em transição, mas ainda muito, salazarento, marialva, autoritário, repressivo, beato, hipócrita ...

Como vês, és sempre bem vindo e melhor comentado pelos teus camaradas que são fãs das tuas histórias, da I e da II série... Luís

J. Gabriel Sacôto M. Fernandes (Ex ALF. MIL. Guiné 64/66) disse...

Camarada José Silva:
Comecei a ler esta memória, na diagonal mas só até aos primeiros parágrafos. Depois não resisti, voltei ao principio e li, completamente envolvido, todo o belo romance, que, como diz o Francisco Baptista, dava um belo BEST SELLER.
Abçs.
JS

José Botelho Colaço disse...

Começa-se a ler e a curiosidade cresce em saber o que se passa a seguir, que dizer: felicitar o autor isto não é ser fã das tuas histórias é deliciar como o modo simples e apaixonado como escreves que só superdotados conseguem, linda história de Amor "sem Desamor".
Um abraço.

Jorge Portojo disse...

Caro Zé;
Mais um enredo à Eça com o estilo de Camilo. Ou será o contrário ?
Seja como for, a nossa vida está recheada de histórias (ou serão estórias ?)que se entrecruzam e contadas por ti têm aquele sabor único da tua pena.
Continua em pé a colaboração para o livro. Não tens coragem para seguir em frente porque não sabes o que fazer depois. Aos livros, claro.

Não entendi a sugestão do Luís Graça. Mudar a JOC para a JAC. Se ele entender que explique.

Um abraço do bandalho teu amigo

Jorge Portojo

Luís Graça disse...

Jorge, sem a pretensão de me armar em crítico, muito menos em professor:

(i) o contexto em que a história se passa é "rural", no princípio dos anos 60 do séc. XX;

(ii) A JAC (agora JARC - Juventude Agrária e Rural Católica (JARC) era (ou é() um movimento de jovens católicos, residentes em "zonas rurais", ligados à Ação Católica, e com a função de "evangelizar" e o contribuir para o desenvolvimento do meio rural;

(iii) Acho que nos anos 60 estavam mais ativos do que hoje, não sei, nunca pertenci à JAC/JARC;

(iv) A JOC -Juventude Operária Católica, acho que é uma organização congénere, mas mais antiga, e com outro contexto sociológico: o meio industrial e urbano...

O meu pequeno "reparo" vai no sentido de tornar a história ainda mais "verosímil"... Um abraço aos dois. Luis

José Ferreira disse...

Caros amigos
Participei activamente no núcleo da JOC de Fiães, concelho da Feira. No nosso núcleo, tal como nos que conheci na região norte do distrito de Aveiro, tanto incluíam operários como estudantes ou lavradores. É verdade que se constava existirem também agrupamentos JAC- Juventude Agrária Católica e JUC -Juventude Universitária Católica. Todavia, a opção vulgar de então, e que tinha bastante força na juventude local, era a JOC.
Confesso que já devia ter-me pronunciado. Porém, perante tanta qualidade dos elogios aqui produzidos, fiquei inerte e sem jeito enquanto aguardava capacidade e inspiração para vos agradecer condignamente.
Muito obrigado pelo vosso carinho.
Grande abraço

Manuel Carvalho disse...

Amigo Zé ficou uma das melhores para o fim, comecei a ler e só uma morteirada de 81 é que me fazia parar.Agora venha o livro julgo que já são mais de 50 e cada qual melhor.

Manuel Carvalho

Anónimo disse...

Esta escrita é do melhor, prende-nos como íman ao ferro. O Zé Ferreira é um espanto. Não acredito que ele fique por aqui.
Continua a escrever para nós, para nosso contentamento.

Um abração

carvalho de mampatá

Juvenal Amado disse...

Eu nunca deixo de ler uma estória do José Ferreira.
Cheguei a rir até às lágrimas com algumas com que ele nos brindou, mas esta, é uma estória fantástica que prende a nossa atenção na sua prosa cuidada e elegante.
Só a li hoje embora a tivesse reservado há dias. Lamento que o meu comentário possivelmente não atinja o Zé por já ter passado algum tempo, mas aqui fica como forma de lhes expressar a minha admiração e já estou ansioso pela a próxima.

Um abraço Zé Ferreira