quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Guiné 63/74 - P15682: Manuscrito(s) (Luís Graça) (75): sabedoria alentejana: viver até aos cem anos... p'ra quê ?

Ao Mário Fitas e à sabedoria alentejana... LG


Viver até ao cem anos... p'ra quê ?

por Luís Graça


Pergunta um velhote alentejano ao seu jovem médico de família, no primeiro exame de saúde que este lhe fez:
Ó sô doutouri, acha que eu inda terei a sorte de vivêri até aos cem anitos comó mê pai ?
– Bom, depende das asneiras que o mê amigo fez na vida ou tem feito... Ora, diga-me lá: vocessemê fuma ?
Ná, nunca me puxou prá aí.
– E beber, bebe o seu copo ?!...
–  Ná, na gosto d' álcool.
– Mas olha que o tinto até faz bem ao coração... E o comer ?
Só o que a terra dá, pão, azêti, migas, alho, coentros, cebola, batatas... 
– Quer dizer: carne e peixe, pouco, que a pensão do governo não dá p'ra tanto!... Então, e que mais? O senhor é casado ? Tem filhos e netos ? 
– Ná, nunca tive filhos que Deus me desse.
– Atão ?!... e não tem mais nenhum vício ? Quero eu dizer: jogo, mulheres... ?
 Ná, sô doutouri. Nada disso! Fui pastouri, ‘tou reformado, sou viúvo, vivo sozinho no monte mailo o canito...

O médico ficou uns largos segundos pensativo, e depois perguntou, em tom de brincadeira a roçar o humor negro:
– Diga-me cá uma coisa, ó senhor Joaquim, que eu não 'tou a compreender: o senhor quer viver até aos cem anos... mas para quê?!

O alentejano, muito sério, lívido, quase ofendido, deu uma resposta que fez corar o jovem clínico geral, acabado de chegar, vindo de Lisboa ainda há pouco meses,  ao centro de saúde de Odemira: 
–  Atão... porque a vida de um home é a única coisa que pertence a um home e que um home pode tirar a ele próprio...

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Nota do editor:

1 comentário:

Luís Graça disse...

Tenho saudades da Festa de Nossa Senhora das Pazes, e dos meus amigos de Vila Verde de Ficalho, a começar pelo dr. Edmundo Sá... Já não vou lá há uns anos... Escrevi, a propósito, num poema de datado de 21/4/2004 ("Às vezes este país quase perfeito e sem mácula"), o seguinte:


(...) Na Festa de Nossa Senhora das Pazes,
entre ficalheiros e azinheiras centenárias,
todos os anos no domingo seguinte à Páscoa.

Este ano veio muito menos gente,
que a morte bateu, com mão pesada,
a muitas portas de Vila Verde de Ficalho.
Vinte e cinco mortes, dizem-me, desde janeiro.
A festa e o luto não combinam.
Mas veio gente de outras partes do mundo,
do Montijo, do Seixal, do Barreiro, de Lisboa,
da diáspora alentejana.
E a alegria e a festa do reencontro são universais.
Todos os anos na primeira semana a seguir à Páscoa,
quer faça chuva, quer faça sol.
E mesmo que os homens não se incorporem
na procissão da santa que dá três voltas à capelinha,
a um tiro de distância da raia espanhola,
Nossa Senhora das Pazes.
Lembrando, pelo caminho, os ódios e os amores antigos
que atraem e repelem os vizinhos separados
pelas extremas de dois países do Al-Andaluz.
Desde 1232 quando o lusitano e cristão D. Sancho II
reconquista aos mouros a margem esquerda do Guadiana.

Mesmo que haja quem queira desistir da vida,
ou dela se despedir com dignidade.
"Doutor, em passando a festa, eu dou um rumo à minha vida".
E aí tu percebes a diferença
entre ter e não ter um médico de família,
um equipa de saúde,
um centro de saúde,
ao alcance do teu braço. (...)

v3, 30/8/2013, LG