sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Guiné 63/74 - P15685: Notas de leitura (801): "Catarse", da autoria do Pe. Abel Gonçalves (Major-Capelão do BCAÇ 1911 e do BCAV 1905), edição de autor, 2007 (2) (Mário Beja Santos)

1. Conclusão da recensão do livro "Catarse", da autoria do Major Capelão Abel Gonçalves, enviada ao Blogue em 22 de Janeiro passado pelo nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70).


Catarse, pelo Major Capelão Abel Gonçalves (2)

Beja Santos

O Alferes Capelão Abel Gonçalves já tem quem o ajude no setor de Bambadinca, dedica-se a tempo inteiro aos 18 destacamentos sob o comando do BCAV 1905, que ele enumera: Camamudo, Catacunda, Fajonquito, Cambajú, Jabicunda, Contuboel, Sara-Bacar, Sara-Banda, Banjara, Sinchã-Jobel, Sara-Ganá, Geba, Sinchã-Dembel, Sinchã-Sulu, Fulacunda, Udicunda, Bansci. Insisto que esta é a enumeração que o autor faz, tenho dúvidas que tivéssemos um destacamento em Sinchã-Jobel, sempre me disseram que era uma base do PAIGC em território de intervenção exclusiva do Comando-Chefe. Desloca-se de jipe, e muitas vezes em coluna, guarda memórias de jipes que griparam ou a que rebentaram pneus. Em Contuboel relacionou-se com um chefe muçulmano de nome Caramon-Mamadu. Dispunha de um altar portátil, convidava muitas vezes as gentes das tabancas, e encontrava recetividade:
“Na recitação do Pai Nosso uniram-se aos nossos gestos espontaneamente erguendo as mãos para o céu, implorando do Deus único, com nomes diferentes a paz eterna para os finados”.

Conserva recordações das pessoas que encontrou ao longo das deambulações pelo setor de Bafatá, caso do alemão luterano de Geba:
“Conheci o único branco da população de Geba, um alemão chamado Lindorf. Não sei como foi ali parar. Vivia bem, casado com uma nativa, cristão, afirmando com um certo orgulho que tinha tido uma só mulher. Um homem crente, que me dizia com muita simplicidade: 
- Eu sou luterano, tal como o senhor é católico. Nasci numa aldeia onde todos eram luteranos.
Mandava limpar e enfeitar a igreja e dava esmolas para a missão católica. Como não tinha filhos, sustentava os inúmeros sobrinhos da mulher”.

Considerava que a companhia sediada em Geba estava destroçada, o seu comandante tinha morrido a levantar uma mina. Dos quatro alferes primitivos só restava um. Em Outubro de 1968 é louvado e colocado no Hospital Militar de Bissau, vai conviver diariamente com o sofrimento. Em Maio de 1969 regressa a Lisboa, em conversa com o Bispo Castrense, este incita-o a continuar com o seu trabalho nas Forças Armadas. Entretanto é colocado na base aérea de S. Jacinto, dá aulas na Escola de Formação de Pilotos. Dão-lhe missões de ir comunicar à família a morte de militares, é um ponto alto das suas descrições.

Temo-lo agora na base de Bissalanca, é o Capelão da Base Aérea 12. É encarregado da assistência a muitas unidades do Exército: Unidade Militar de Bá (Adidos, Comandos, Engenharia e o COMBIS), a Força Aérea não via com bons olhos que o seu capelão andasse pelos destacamentos do Exército. Não esqueceu a Capela de Bissalanca, onde tinha quarto e um salão onde dava aulas, era o responsável pela biblioteca e dava aulas a negros e brancos, de preparação para a quarta classe. A morte ronda por toda a parte. Em plena pista de Bissalanca, a enfermeira Celeste foi sugada pela hélice do avião, que lhe cortou, como se fosse uma lâmina, a nuca, morte instantânea. Mas havia também os acidentes alheios à guerra e encomendavam ao capelão que fosse dar a funesta notícia às famílias. É enternecedor o retrato que faz do padre Marcos, um bondoso capuchinho italiano que vivia com um grupo de rapazes negros junto à Capela de Brá. Vivia pobremente, chegava a comer as sobras que lhe davam dos quartéis. A Engenharia Militar fez-lhe uma pequena casa. E dá-nos a impressão encantadora de um encontro entre os dois:
“Os rapazes da pequena comunidade dele gostavam mais de ir à minha missa por causa dos cânticos mais alegres.
Um domingo, lá o vejo ao fundo da capela a assistir à missa, com o seu ar muito castanho, com as costumadas nódoas de pó, a sua barbinha ruça, os cabelos desgrenhados. No fim da missa foi à sacristia e disse-me: 
- Sabe, senhor capelão, eu antes de ir para frade, fui mundano e estes cânticos lembram-me esses tempos do pecado.
- Ora, ora, senhor Padre Marcos, a mim não me lembra nada disso, porque nunca andei nessas vidas! Disse-lhe eu, a rir muito”.

Recorda aqueles meses de pesadelo do primeiro semestre de 1973, o assassinato de Cabral, a chegada dos mísseis Strella, o agravamento da situação militar. Veio o 25 de Abril e toda a situação se alterou, regressou a S. Jacinto em Agosto de 1974, apanhou o PREC e o 25 de Novembro. Foi visitar os presos:
“Também fui à prisão de Custóias. Visitei um paraquedista que me não disse uma única palavra. Admirei, no entanto, os frescos pintados a cores nas paredes da cela. Recordo ver desenhado um paraquedista, deitado com as mãos no chão, com a legenda o paraquedista, mesmo depois de morto ainda fez 100 flexões”.

Apresenta a lista dos capelães militares que prestaram serviço no CTIG entre 1961 e 1974. Rende a sua homenagem a todos os capelães que prestaram serviço na Guiné, manifesta o seu grande apreço pelo trabalho dos missionários. A título do posfácio, dá-nos a saber que também andou pelo Hospital Militar da Força Aérea, no Lumiar, e pede-nos para não esquecermos todos os nossos camaradas:
“Quase todos os que estiveram mergulhados nas emoções de uma guerra… sempre à espera do inesperado, vendo nos outros aquilo que só por sorte não os atingia a eles, imaginando-se na situação desses, face à família e aos amigos. Se o corpo está íntegro, a mente está ferida, a emoção retalhada, o subconsciente entulhado de horrores, desgostos, tragédias, vigílias, incertezas, medos… mais o que não somos capazes de definir com palavras".
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Nota do editor

Poste anterior de 25 de janeiro de 2016 Guiné 63/74 - P15665: Notas de leitura (800): "Catarse", da autoria do Pe. Abel Gonçalves (Major-Capelão do BCAÇ 1911 e do BCAV 1905), edição de autor, 2007 (1) (Mário Beja Santos)

3 comentários:

Luís Graça disse...

"Considerava que a companhia sediada em Geba estava destroçada, o seu comandante tinha morrido a levantar uma mina. Dos quatro alferes primitivos só restava um. "


A companhia, sediada em Geba, em 1967, a que se refere o nosso capelão, é a famosa CART 1690 (1967/69), a dos alf mil A. Marques Lopes, Domingos Maçarico, António Moreira e Alfredo Reis, todos os quatro nossos grã-tabanqueiros!... Todos eles foram feridos em combate, os três primeiros com gravidade. "Dos quatro alferes primitivos só restava um", ou seja, o alf Alfredo Reids...

Quanto ao cap art Manuel Carlos da Conceição Guimarães (1938-1967) foi morto na estrada Geba-Banjara, em 21 de agosto de 1967, com 29 anos.

As memórias do nosso capelão, então ao serviço, em 1967, do BCAV 1905, sediado em Bafatá, batem certo... Exceto em relação ao destacamento de Sinchã Jobel... que era uma "barraca" (base) do PAIGC nesta altura...

Quanto à história do alemão de Geba, o Lindorf, que "vivia bem, casado com uma nativa, cristão, afirmando com um certo orgulho que tinha tido uma só mulher", creio que em tempos já alguém havia falado desta história. Não tenho a certeza, possivelmente o A. Marques Lopes...

A. Marques Lopes disse...

O alferes António Moreira não foi ferido. Por sorte (...) nunca ouviu um tiro ou outra coisa do IN. Ele e o alferes Alfredo Reis estiveram até ao fim na companhia, não só o Reis. Conheci o Lindorf e constou-me que ele foi para a Guiné, não esteve sempre em Geba, durante a Segunda Guerra Mundial como informador dos alemães. Quanto aos "sobrinhos da mulher" deve ter sido piada do Lindorf, quis dizer como dizem alguns padres, pois contaram-me que eram filhos dele.
E dá para rir que o Pe. Abel Gonçalves tivesse tantos locais da companhia de Geba à sua guarda (e Sinchã Jobel é para gargalhadas) pois, enquanto lá estive, nunca o vi em lado nenhum, nem o eis nem o Moreira me disseram tê-lo visto. O único padre que vi foi o Major-capelão Nazário de que falei no blogue, não sei quando, e que bem conheci como professor nas Oficinas de S. José dos salesianos em Lisboa. Como eu disse então, só passou por lá por breves momentos "para ver como estava a guerra".
Pelo nome não sei se era ele mas é capaz de ter sido este Pe. Abel Gonçalves que, quando fui ferido com a mina e estive em Bafatá à espera de evacuação para o HM241, me tentou convencer que era um milagre de Deus eu ter-me safado.

Luís Graça disse...

Há um blogue na Net com um só poste (24 de março de 2008) e que se chama Catarse-Abel Gonçalves:

http://abel1931.blogs.sapo.pt/2008/03/

Eis a transcrição do referido poste:

(...) "Vê-se que o blogue foi aberto paar promover o livro, "Catarse", do capelão Abel Gonçalves... Mas por qualquer razão não teve continuidade. O que é pena...

"É um livro que acaba de ser publicado, da autoria do Major Capelão Abel Gonçalves.
No prefácio do livro Ramiro Albuquerque escreve: 'este livro é primordialmente evocação e memória. Evocação, por vezes similar à dos nossos heróis lusos. Não raro o autor inclui, com justeza e pertinência, transcrições de Os Lusíadas, à medida que ele e os seus companheiros percorriam também inóspitas ondas 'nunca dantes navegadas'... É com muito gosto e alguma emoção que aceito redigir o prefácio de 'Catarse0... Abel Gonçalves neste livro prenhe de singeleza e autenticidade, dá-nos sobremaneira uma lição de profundo humanismo.'

"É um livro que tem interesse para todos os Capelães que passaram pela Guiné, militares que prestaram serviço nessa antiga Província Ultramarina, dum modo especial aos que pertenceram às Unidades onde o autor prestou serviço: Batalhão de Caçadores 1911, Batalhão de Cavalaria 1905, Hospital Militar de Bissau, Unidades sitiadas em Brá. Na Força Aérea de Agosto de 1972 a Agosto de 1974. Na Base e nos Paraquedistas, em segunda comissão de serviço.
Na Metrópole o autor prestou serviço em S. Jacinto, na Base do Lumiar e na Esquadra 12, em Paços de Ferreira.

"Prevê-se que os mil exemplares se esgotem em pouco tempo, tendo em conta o interesse que despertou naqueles que já o leram". (...)

Contacto do autor:

Major Capelão Abel Gonçalves
Ordem da Trindade
Rua da Trindade, 115
4000-541 Porto
Telemóvel: 936 526 339
email: abel1931@sapo.pt