terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Guiné 63/74 - P15698: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (36): De 21 a 26 de Junho de 1974 (Revisitando Junho de 1974)

1. Em mensagem do dia 30 de Janeiro de 2016,  o nosso camarada António Murta, ex-Alf Mil Inf.ª Minas e Armadilhas da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973/74), enviou-nos mais uma Memória, a 36.ª.


CADERNO DE MEMÓRIAS
A. MURTA – GUINÉ, 1973-74

36 - De 21 a 26 de Junho de 1974 (Revisitando Junho de 1974)


Das minhas memórias: Ainda os finais de Junho de 1974

Como dei conta no último poste, o mês de Junho ficou marcado pela conclusão das estradas e pelo incremento das aproximações e contactos dos grupos do PAIGC com os aquartelamentos e as populações. A nossa actividade militar, à medida que aumentava a confiança no cessar-fogo tácito, ficou reduzida ao mínimo, embora nunca deixasse de se fazer patrulhamentos de segurança próxima.

Com tempo de sobra e sem uma data à vista para sairmos dali, a ansiedade e o nervosismo foi afectando quase todos. Foi necessário “inventar” actividades desportivas, mesmo com o patrocínio do Comando do Batalhão, para ocupar o tempo e descarregar tensões. Parece incrível que em tempo de paz se tivesse de recorrer à criatividade para impedir o enchimento da “bolha” das tensões e evitar a afectação da disciplina e o eclodir de conflitos. Só quem não passou por elas... Mas não chegaram a ocorrer desmandos e os mais extrovertidos optaram pela animação, embora nem sempre comedida.

Dos registos que me restam dessa época, transcrevo trechos que confirmam o que ficou dito e muito mais.


Nhala, 21 de Junho de 1974 (sexta-feira)

Faz hoje precisamente um ano que, pela terceira vez, senti por cima de mim o fogo do PAIGC e, desta vez, com bastante intensidade. A esta hora, 23h30, e há um ano, portanto, estava com toda a minha Companhia a dormir no mato nas imediações de Nhacobá sob uma tremenda trovoada e chuva torrencial. As ordens eram passarmos a noite na base de Nhacobá: mas são doidos, ou quê? Era assim há um ano e assim continuaria ainda por muito tempo. Hoje, tudo é diferente. A única coisa que nos consome os nervos restantes é a expectativa duma situação que nunca mais chega: o regresso a casa. Também a inactividade nos inferniza. Praticamente não há que fazer, mas também não há nada que nos distraia nestas paragens isoladas e remotas no meio do mato. Por vezes temos de ser nós a engendrar actividades ou distracções mas, muitas vezes, não passam de maluqueiras. Por exemplo, na madrugada de hoje, cerca da uma hora, quando eu me preparava para dormir, bem como os meus camaradas, (o Lopes foi já de férias), chegaram-nos aqui vindos de Aldeia Formosa, (a esta hora!), os nossos camaradas Alferes Amado João e Alferes Mota, mais um furriel madeirense e outro que pertence à Engenharia. Vinham já com os copos e faziam-se transportar numa Mercedes da Engenharia. Continuaram aqui em Nhala a festa deles e começaram a nossa, apesar da hora tardia, que se prolongaria até às 3h30. Bebeu-se, comeu-se e dançou-se. E o tempo passou. Mas encharcaram-se os corpos em uísque e roubaram-se horas ao descanso. (...).

Os mais sensatos e disciplinados passam o tempo de maneira mais saudável: levantam-se cedo e vão para Buba nadar no rio. Depois vêm almoçar e saem logo a seguir para a caça. À noite deitam-se cedo sem necessidade dos comprimidos que eu tomo ou dos copos que encharcam os outros, para recomeçarem tudo na manhã seguinte.

[De seguida dava conta das actividades desportivas. Tinha acabado um campeonato de futebol que envolveu todas as Companhias do Sector, e ia-se iniciar um outro da iniciativa do Comando do Batalhão, bem como um torneio de voleibol para decorrer em paralelo. Curioso é que eu tanto valorizava estas iniciativas por serem benéficas para o actual estado de espírito do pessoal, como as considerava alienantes por envolverem “multidões” que, na hora presente, deviam concentrar as atenções em questões mais importantes. Seria por eu estar a ficar sem “clientela”... Veja-se a seguir].

(...). Ainda no tempo do capitão BC se pensou em fazer qualquer coisa junto dos soldados no sentido do esclarecimento político e, no que me diz respeito, senti-me incentivado quando fui eleito Delegado do MFA em Nhala. Mas desencorajei mais uma vez ao ver a indiferença dos outros. (...). Aguardo determinações do MFA da Guiné que sirvam de orientação e que me dêem carta-branca para agir e, então, é possível que mesmo na situação presente venha a fazer reuniões de esclarecimento com o pessoal, visando o momento político que vivem agora os portugueses e os procedimentos a corrigir por pertencerem ao passado. [?]. Seria bastante útil também a realização de convívios com o diálogo aberto a todos, para se irem acendendo luzes nos espíritos dos mais despolitizados. Espero vir a cumprir tudo o que citei atrás e já estou a dar conhecimento a todo o pessoal, do documento recentemente recebido do MFA da Guiné e que a seguir transcrevo:

[Nem chegou a ser transcrito para o caderninho, nem o possuo para poder divulgar agora, pois fazia parte de todos os demais documentos (incluindo vários Perintrep) que deixei em Nhala sem remédio].


Nhala, 22 de Junho de 1974 (sábado)

Em Angola já há acordos de cessar-fogo com alguns Movimentos de Libertação e, para o caso de Moçambique, esteve em Lusaca o Dr. Mário Soares em contacto alguns dirigentes dos Movimentos moçambicanos. Tudo indica que se vai chegar a acordo em todas estas negociações, embora pouco transpareça do que se passa nas reuniões. No respeitante à Guiné, há já muito tempo que o cessar-fogo é um facto, mesmo ainda antes de ser conhecido qualquer acordo. No entanto, no Perintrep do último período, ainda se fazia referência a três acções da guerrilha, mas dando conta, por outro lado, de que neste período não houve accionamento de minas nem nenhuma detecção.

Que eu saiba, o PAIGC não reivindica a autoria destas acções, que são uma traição aos princípios que deram forma aos acordos de cessar-fogo. Aliás, um alferes do PAIGC que há dias esteve aqui Nhala a falar à nossa tropa e à população, atribui estas últimas acções de guerrilha aos homens da FLING.

[Creio que até àquela data ninguém ouvira falar desta FLING. (Frente de Libertação e Independência Nacional da Guiné. Foi um movimento independentista da Guiné Portuguesa que resultou da fusão destes: União dos Povos da Guiné; Reunião Democrática Africana da Guiné; União da População Libertada da Guiné. Fonte Wikipédia. 

Mas casos de oportunismo sempre aparecem em situações análogas. Cabia ao PAIGC demarcar-se e impedir confusões e ambiguidades. É o que parecem fazer os seus apoiantes na faixa da fotografia em baixo, em que clamam “Abaixo os oportunistas”]. 



Fotos 1 e 2: Buba, Junho de 1974 – Faixa de apoiantes do PAIGC repudiando o MDG – Movimento Democrático Guineense. Os “oportunistas” eram um dado recente, pelo menos à luz do dia, no período histórico que se vivia.

Prosseguindo a nota de 22 de Junho de 1974. 

Ultimamente alguns grupos de combate do PAIGC têm tentado contactos amistosos com os nossos, chegando a esperar em pleno mato junto à estrada, para poderem dialogar connosco. Isso já se verificou no carreiro de Chinconhe [?] do lado de Buba e no de Uane do lado de Mampatá. Neste último, esteve há dias um bigrupo que se espalhou paralelamente à nossa estrada, aguardando que aí passasse alguém. Já o tinham feito e voltariam a fazê-lo. Ao passar uma coluna que se dirigia a Buba, o Comandante do Batalhão Ten Cor Ramalheira que seguia à frente, mandou parar as viaturas para poder falar com os comandantes desse bigrupo. Parece que tudo correu cordialmente e pouco depois a coluna retomava a marcha.


Nhala, 23 de Junho de 1974 (domingo)

Hoje tivemos a visita do Alf Mil Médico Herculano, (um progressista que já dorme com a fotografia de Amílcar Cabral à cabeceira), o Eng.º Campos e o alferes das antiaéreas. Trouxeram galinha e batatas de Aldeia Formosa.

Também eu fazia gala em me deixar fotografar, embora sisudo, com uma camisola recém-adquirida com a imagem de Amílcar Cabral, embora não a usasse. 

Foto 3: Buba, Junho de 1974 – António Murta ostentando um dos sinais dos tempos.

Foto 4: Buba, Junho de 1974 – Outro dos sinais dos tempos: a irreverência. Nunca usei tal boina, mas pu-la para a fotografia. O meu quico está nas mãos atrás das costas...


Nhala, 25 de Junho de 1974 (terça-feira)

Já os meus camaradas dormiam quando fui surpreendido com a visita do Alf Mil Médico Herculano e do Alf Mil Mota de A. Formosa. Depois de umas bebidas quiseram ir a Buba beber com os de lá. Como não os consegui demover, fui com eles. Era uma da madrugada. A meio do caminho avariou-se o jeep. Depois de várias tentativas lá conseguiram pôr o jeep a trabalhar e seguimos. O Capitão de Buba, o Brás Dias, ficou indignado mas depois abriu o bar e fez-nos companhia.

[Quando transcrevi esta nota fiquei surpreendido por omitir o que se passou a seguir e que foi o “melhor da festa”. Contudo recordo muito bem esta ida a Buba já de madrugada, a avaria do jeep, o Cap. Brás Dias todo chateado, enfim, talvez me recorde por ter já narrado isto antes. Também omiti, sem que o compreenda, que a acompanhar os alferes de A. Formosa vinha um tenente do QP, que ainda conheci como Sargento Ajudante, mais velho do que nós e que era um bonacheirão incorrigível. Foi o homem da noite, pelos piores motivos. Protagonizou uma cena que deixou o capitão de Buba furioso e nós perplexos.

Bebíamos no bar, entre conversas, quando o tenente se “desenfia” direito ao quarto dos alferes. Pensávamos que tivesse ido à casa de banho e não ligámos. Só quando ouvimos burburinho e protestos indignados nas acomodações próximas do bar percebemos o que ele andava a fazer. Dirigimo-nos logo para lá a fim de o trazermos e impedirmos algum incidente. Tinha acendido a luz do quarto dos alferes que estavam a dormir e estava junto da cama de um deles a insistir para que se levantasse para nos acompanhar no bar. O alferes resistia, o capitão exaltou-se, já nos queria dali para fora e o tenente, como se não fosse nada com ele, continuava a rir e a gozar, afinal, com todos nós. 

Face aos protestos mal-humorados do capitão, o nosso tenente, de súbito, ficou com o semblante inexpressivo, o olhar vago, e cai redondo no chão onde ficou inanimado. Ó caraças, só faltava mais esta, vira daqui, vira dali, mais uns estalos na cara, mas não havia qualquer reacção. Chamava-se, abanava-se mas continuava a não reagir. Quando o capitão, visivelmente preocupado, já mandava alguém ir chamar o enfermeiro, de repente, o nosso tenente virou-se para o lado e levantou-se de um salto, a rir à gargalhada de braços no ar como quem diz não tenho nada. Primeiro foi a estupefação geral, depois a indignação. 

Estava a noite estragada. Quer dizer, mais estragada. Apressámo-nos a sair dali empurrando o tenente para o jeep e a pedir desculpas de circunstância aos camaradas de Buba. Estrada fora em silêncio, cada um a cogitar apenas para si. Fez-nos bem a frescura da noite. Deixaram-me em Nhala, muito sóbrios, e seguiram para A. Formosa. Cenas e aventuras impensáveis há apenas dois meses. Estes excessos não eram, de modo nenhum, comuns à maioria, mas traduzem um certo “clima” pós cessar-fogo].


Nhala, 26 de Junho de 1974 (quarta-feira)

Fui a Mampatá assistir a um jogo de voleibol dum torneio que se está a realizar. Da borda do campo acompanhei os olhares da assistência que se viravam para a estrada atrás de nós, e não muito longe dali. Era um bigrupo do PAIGC que se aproximava numa longa fila vindo do lado de Cumbijã. Passaram sem se manifestar na direcção da tabanca de onde acorreram, sobretudo mulheres e a miudagem, a aclamá-los com palmas e alguma euforia, mais movidos pela curiosidade. Eles, muito dignos e quase indiferentes, continuaram a sua marcha e só pararam depois de atravessar a povoação.

Era a primeira vez que eu assistia a uma recepção tão calorosa da população. Em Nhala nunca observei nada disso. Em comum com o que já observara antes, apenas o porte e a disciplina dos guerrilheiros: sempre em silêncio, bem fardados e muito comedidos. Vinham bem armados, como sempre.

[Hoje, Janeiro de 2016, não imagino como veria isto um nosso camarada antigo combatente dos anos sessenta, que ali fosse largado sem aviso. Julgaria que estava a sonhar?].

Viria a surgir um problema. O Comandante do aquartelamento, (não recordo se lá estava na ocasião o Cap. Luís Marcelino), recusou-se a dar-lhes alojamento para pernoitarem, alegando que não tinha ordens para os tratar como amigos. [Uma atitude cautelosa e sensata, diria eu hoje]. Eles continuaram sentados no chão até ao anoitecer, mas depois o problema resolveu-se com a intervenção do Comandante do Batalhão.

Entretanto, ainda durante o jogo de voleibol – que não foi interrompido devido à chegada dos guerrilheiros -, todos vimos com tristeza passar na estrada o resto da CCAV 51 para Buba, com destino a Bissau e à Metrópole.


Foto 5: Mampatá no tempo da guerra, quando até ir à fonte era perigoso, mesmo ali ao fundo onde a estrada prossegue para Colibuia-Cumbijã-Nhacobá. (Panorâmica sem primores técnicos e com alguma batota, feita com a junção de duas fotografias que nem sequer eram coincidentes).

(continua)
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 Nota do editor

Poste anterior da série de 26 de janeiro de 2016 Guiné 63/74 - P15671: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (35): De 11 a 30 de Junho de 1974

12 comentários:

Luís Graça disse...

Murta, quem não fez "pequenas loucuras" como as que descreves, que levante o dedo ?!... Provavelmente algumas acabaram mal, já que punham a nossa segurança (e a dos outros)... De qualquer modo, são comuns em situações-limite como a guerra...

Não estávamos preparados (ou muito mal) para fazer a guerra... e menos ainda para fazer a paz... Valeu-nos o tão apregoado "desenrascanço" (virtude - ou defeito ? - dos lusitanos)...

Abraço grande. Luis

J. Gabriel Sacôto M. Fernandes (Ex ALF. MIL. Guiné 64/66) disse...

Gostava de comentar, mas não sou capaz, ou não quero?
JS

Luís Graça disse...

João, tu abriste a guerra, o António fechou a guerra... Eu andei pelo meio, a incentivar a guerra, ou pelo menos a conter ou até a inverter a guerra (, no leste, num dado setor, o L1,,em 1969/71...) para que, quando chegasse a hora das negociações (... que um dia teriam de chegar, porque não há guerras de mil anos!), os termos de troca não nos fossem totalmente desfavoráveis... Era pelo menos o que o Spínola pensava ou desejava. como qualquer bonm estratega... A guerra é, sempre foi, a continuação da política de Estado por outros meios... Depois dos militares, vêm os diplomatas... Porque as guerras, como qualquer conflito, não são jogos de soma nula...

Imagina agora que trocávamos de papeis: eu abria a guerra (1963), o António continha a guerra (1969) e tu fechava a guerra (1974)... Nenhum de nós pode à partida dizer como é que se comportaria nestes 3 cenários hipotéticos... E depois quem somos nós para fazer juízos sobre o comportamento dos nossos camaradas, quer os de 1963, quer os ded 1969, quer ainda os de 1974 ?!...

João, acho que deves comentar. apesar de tudo. Mas primeiro põe-te na "pele do outro"...Neste caso, pega na G3, veste o camuflado e viaja até Nhala, junho de 1974...

Aprecio o teu "fair play", entendo as tuas reticências... Um alfabravo fraterno. Luis

José Carlos Gabriel disse...

Amigo Murta.
Eu também fiz parte da malta que pós 25 de Abril se desenfiava e fazia umas incursões até Buba para dar alguns mergulhos. Também cheguei a sair algumas vezes para caçar. Se foi privilégio? Talvez tenha sido mas não temos culpa de termos sido os eleitos (no terreno) para iniciar o término desta guerra. A alguém tinha que calhar porque nada é eterno. Um abraço amigo.
José Carlos Gabriel

aecc disse...

É exactamente assim. Claro que as nossas reacções (a partir do 25 de Abril) não foram exactamente iguais, houve um ou outro que se manifestou contra a "entrega", mas, na generalidade, todos queriam vir depressa embora, e, naquela idade, tudo ou quase tudo é admissível.
Quanto ao Sacôto: deves camarada combatente comentar, expressando a tua opinião, ainda que ela seja condenatória ou reprovatória da conduta dos que "fecharam" a guerra.

Parabéns pelo teu trabalho amigo Murta.
Um abração
Carvalho de Mampatá.

J. Gabriel Sacôto M. Fernandes (Ex ALF. MIL. Guiné 64/66) disse...

O facto de não comentar está justificado nas palavras do Carvalho de Mampatá: "e, naquela idade tudo ou quase tudo é admissível".
Já na nossa idade ...
Um abraço,
JS

Anónimo disse...

Meus caros amigos,
Confesso que leio com atenção os artigos escritos pelo nosso camarada-de-armas Murta. É bom ver com os olhos de quem lá estava as peripécias do fim da Guerra na Guiné.
Este artigo não foi diferente. Todavia, senti revolta perante a foto do então Alferes Murta a envergar uma camisa de homenagem a Amílcar Cabral e ao PAIGC. Não estou a falar de um militar qualquer, o que seria sempre mau, mas de um Oficial do Exército de Portugal. Quando ali, ao seu lado, camaradas nossos tombaram numa guerra para a qual não foram chamados a decidir se justa ou injusta.
A dignidade pessoal e militar foi uma das grandes casualidades do fim da Guerra do Ultramar. Lamentavelmente tudo se desculpa com a impreparação das nossas tropas e até mesmo com a sua juventude.
Continuarei a ler os artigos do A. Murça.

Anónimo disse...

O comentário anterior foi postado por mim, José Câmara.

Carlos Vinhal disse...

Camaradas
Confesso que fiquei chocado quando vi a foto do Murta com a camisola do PAIGC/Amílcar Cabral vestida. Publiquei o poste como é meu dever e no fim apeteceu-me fazer um comentário mas optei por não fazê-lo.
Agora mesmo, ao chegar à minha caixa de correio o comentário do camarada José da Câmara, senti uma certa frustração por não ter sido o primeiro a fazer o que ele fez, deixar a sua opinião franca e sincera.
Julgando estar ainda a tempo de me retratar, aqui fica o que tenho para dizer.

Face a esta foto pensei: aqui está uma coisa que nunca faria, vestir a camisola do inimigo, porque memória dos meus camaradas Alf Mil Couto e Soldados Espírito Santo e Manuel Vieira têm que ser preservadas e honradas, eles não morreram por nada, morreram ao serviço de Portugal, cumprindo o serviço militar obrigatório num território desconhecido e hostil, numa guerra para a qual não contribuíram.

Claro que não estou a julgar o camarada António Murta mas apenas a dizer o que eu não faria. Que fique bem claro.

Carlos Vinhal
Fur Mil da CART 2732
3 camaradas mortos em combate, 1 por acidente e 1 por doença.

Antº Rosinha disse...

Dentro de um espírito de juventude e um certa euforia a cheirar a peluda as reacções dependem de momentos imprevistos.

Esta camisa do PAIGC vestida por um Alferes para uma foto, nem teria qualquer sentido político, embora não pudesse merecer aplausos nem de brancos nem negros, antes pelo contrário.

Grave foi coisas passadas em Angola por patentes com responsabilidades.

Em Angola houve casos de militares e civis (brancos)que se bandearam no 25 de Abril, sem terem nada a ver com eles o que se ia passar a seguir.

No entanto, vi guerrilheiros em Angola, do Savimbi, do Chipenda do FNLA e do MPLA após uns meses do 25 de Abril, que se aproximavam das cidades, mas nem os habitantes (negros) dos subúrbios se aproximavam deles, tão estranhos lhes parecia aquela gente e até os evitavam.

Entretanto houve muitos militares portugueses de altas patentes que se puseram de armas na mão em Angola, quer ao lado do MPLA ou dos outros dois movimentos angolanos.

Mas também sargentos e Alferes se passaram.

Sem falar em unidades que tomaram partido naquela tristeza humana que se tornou aquela bela terra pacífica.

Triste ver altas patentes portuguesas sujarem a farda de muitas maneiras.

Os casos estão sobejamente publicados.



António Murta disse...

Camaradas José Câmara e Carlos Vinhal.
Só ao ler os vossos comentários tive a noção de como aquela imagem é susceptível de ferir sensibilidades. Não digo isto por ser imbecil, mas porque nunca valorizei a atitude de vestir aquela camisola. Foi uma peça comprada aos vendedores ambulantes que atravessavam o território e tanto vendiam aquelas estampagens, como vendiam os gorros que eu costumava também comprar, e usei-a apenas para a fotografia. Não foi oferecida pelo PAIGC porque me identificasse com eles. Seja como for, nunca a usaria. Não tanto por fervores patrióticos que, nesse aspecto, não comungo das vossas sensibilidades, mas por se tratar do símbolo daqueles que combati, pese embora estando do lado das suas causas, como por mais de uma vez deixei transparecer. Paradoxalmente, quando os conheci de perto, como também já dei conta no Blogue, vi-me obrigado a manter distâncias para evitar conflitos, ao contrário de muitos "insuspeitos" que com eles se identificaram e se fizeram fotografar ao lado deles. E não foram poucos. Será mais grave vestir os seus símbolos? Mas, para ser mais verdadeiro, digo-vos que hoje me repugnaria muito mais vestir aquela camisola, face a tudo o que se passou na pós-independência.

Admito que foi um erro a fotografia e mais ainda enviá-la para publicação mas, repito, desvalorizo a cena que, aliás, inseri no texto como ilustração das irreverências e maluqueiras daquele período. Muito menos se tratou de provocação, que não faria qualquer sentido. Ainda assim, peço desculpa aos que se sentiram chocados e ofendidos.

Só que agora fico com um grande dilema: tenho um texto pronto para enviar que parece ter sido feito propositadamente para desmontagem do que a fotografia em causa parece significar, quando, afinal, o escrevi muito antes desta polémica. Vou ponderar.

Abraços.
A. Murta.

José Carlos Gabriel disse...

Amigo Murta.
Verifico agora que a polémica levantada sobre este teu escrito se resume em volta da tua foto. Também vi a mesma mas não lhe atribui nenhum valor em relação á imagem que a mesma contem. Fiquei muito mais focado no conteúdo sobre o que escreves que propriamente nos acessórios. Mas esta é a minha visão e aceito que nem todos comunguem da mesma ideia. Não deixes de enviar o que já tens preparado.
Um abraço amigo.

José Carlos Gabriel