quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Guiné 61/74 - P16945: In memoriam (275): Adeus Mário e nobre Soares (Manuel Luís Lomba, ex-Fur Mil da CCAV 703)



1. Em mensagem datada de 10 de Janeiro de 2017, o nosso camarada Manuel Luís Lomba (ex-Fur Mil da CCAV 703/BCAV 705, BissauCufar e Buruntuma, 1964/66) enviou-nos este artigo de opinião para publicação:


Adeus Mário e nobre Soares

Foi-se embora, fica a História e o seu julgamento. Se foi o coveiro do Portugal Africano, desempenhou-se com a dignidade, porque nem fora autor da morte nem quem lhe abriu a cova. E superou-se como político e estadista – o grande dos maiores obreiros da transformação do Portugal imobilista no Portugal democrático e progressista.

Naquele tempo eu pensava que a solução dos problemas que assoberbavam o país recaía sobre os portugueses do interior, na oportunidade da “Primavera marcelista”, esperançadamente nutrida pelo ideário da então Ala Liberal da Assembleia Nacional. Os partidos Comunista e Socialista (este formado recentemente na Alemanha) pareciam-me organizações externas ao país, formatadas por emigrantes políticos, geralmente fugidos ou a isto ou àquilo. Como mal informado, enganara-me.

Desembarcado na Estação de Santa Apolónia, Mário Soares pareceu-me um demagogo, revolucionário oportunista, retórico mobilizador e radical, que ultrapassava pela esquerda o Partido Comunista e os movimentos da extrema-esquerda. Só comecei a interessar-me pela sua personalidade por altura do Congresso do PS, em meados de Dezembro de1974, alertado pelo apoio declarado dos países comunistas à facção do católico e progressista Manuel Serra contra a facção do socialista e laico Mário Soares. Isso levava água no bico e, então, comecei a perceber a sua luta pela liberdade e que o seu populismo era manobra táctico em se posicionar ante “o povo como o peixe para a água” – a grande arma táctica dos partidos comunistas.

E os acontecimentos confirmaram essa razão. Adiante.

A “Descolonização exemplar”, o maior desastre nacional após Alcácer Quibir, tema tão caro às centenas de milhar de portugueses, pela sua dádiva da juventude, saúde, integridade física e da própria vida, na condição de militares, a lutar para que Portugal não fosse corrido da África a tiro e como sendeiro, após 500 anos de estar nela como leão, teve a responsabilidade de Mário Soares? Alguma, certamente – mas de grau muito inferior à do anterior regime e, sobretudo, à da “Comissão Coordenadora do Programa do MFA”, que se lhe antecipou a conspurcar a substância de liberdade e de democracia desse movimento militar, na sua trajectória de se transformar em partido armado!

Mário Soares apresentou-se na Cova da Moura ao MFA e assumiu o Ministério dos Negócios Estrangeiros comungando as ideias e princípios da autodeterminação por eleições livres, inclusivas, e das suas independências por tratados. Mas quando partiu para essa missão, já o MFA se lhe antecipara, em oferecimento da retirada, do abandono, ao PAIGC, à FRELIMO e ao MPLA – porque nos queriam correr a tiro! Imaginemo-nos na sua situação negocial, a ouvir o contínuo zumbido do MFA de “despache-se, senão a tropa rende-se” e, no caso da Guiné – a caixa de Pandora que esse movimento militar abriu para esse desastroso desfecho – a cassete em contínuo de José Araújo e Pedro Pires: - Negativo! Vão-se embora! Vão-se-embora!

Na senda dos republicanos – o pai fora ministro das Colónias da I República - em 1966 Mário Soares ainda preconizava uma discussão do Minho a Timor, sobre o Ultramar – como todo o português, de espírito óbvio. Passou a advogar as negociações que conduzissem às independências africanas com a entrada de Marcelo Caetano – pela sua intuição de o salazarismo não poder subsistir sem Salazar.

Em 1974, partiu para as negociações com esse pressuposto. Cedeu aos factos consumados e seguramente que terá feito o melhor que pôde; depois, voltou-se a enfrentar o futuro, generosamente, sem recriminações aos seus actores, preocupado em aliviar-lhes a negrura desses factos acontecimentais. E como primeiro-ministro e durante os seus 10 anos como PR não foi a Cuba, em romagem a Fidel Castro…

Ganhou direito a um lugar no olimpo dos Grandes Portugueses.

Manuel Luís Lomba
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Nota do editor

Último poste da série de 2 de janeiro de 2017 > Guiné 61/74 - P16910: In memoriam (274): José Augusto Machado (1949-2017), ex-fur mil at, CART 2715 (Xime, 1970/72); vivia em Caneças, Odivelas. O velório é hoje na igreja de Casal de Cambra, Sintra, e o funeral é amanhã às 15h00 (Benjamim Durães)

8 comentários:

Tabanca Grande disse...

Manuel Luís, por norma não comentamos a "atualiddae politica" no nosso blogue....Como sabes, política, religão e futebol estão "banidos" do nosso blogue... Foi uma das regras que instituímos e que aceitamos, ao entrar para a Tabanca Grande, expressa ou tacitamente...

Mas, claro, há exceções: lembro-me de termos falado aqui da figura de Eusébio, na altura da sua morte...Além de ser natural de Moçambique, foi um dos ídolos da nossa juventude e também fez tropa (!)... Era o português mais conhecido no mundo no nosso tempo... Claro que foi também utilizado pela propaganda do Estado Novo, como o CR7 o é hoje pelo sistema (do Estado à comunicação social)...

Fazes agora aqui um "in memoriam" com a figura de Mário Soares que acaba de nos deixar aos 92 anos... Teve honras de funeral de Estado, cerimónia que eu, confesso, nunca tinha assistido. Creio que a última vez que isso tinha acontecido, nosso país, fora com Salazar, que morreu em 27 de julho de 1970. Nessa altura eu estava na Guiné.

Escrevo este comentário apenas para sublinhar (e congratular-me com) a elegância, a serenidade, a honestidade intelectual, o sentido crítico, o bom senso e o bom gosto com que escreves sobre o evento e a figura... Mário Soares, como grande político e estadista que foi, não gerava "unanismos" e ainda bem... Só os ditadores é que se reclamam do "unaninismo"...

E, como tu muito bem dizes, ele gerou inclusive uma corrente de ódio patológico, associado às desastrosas consequências da descolonização... Aqui funciona a teoria do bode expiatório... E o bode expiatório foi ele, que na altura exerceu a pasta dos negócios estrangeiros... Claro que somos, nós, os antigos combatentes, sensíveis ao tema da descolonização e nesse aspeto faz todo o sentido falar aqui do papel de Mário Soares... Todavia, a história nos julgará, a ele e a nós...

Muito desse ódio ainda, por estes dias, tem sido destilado e redestilado no"alambique" das redes sociais, nomeadamente no facebook...É um espetáculo triste, esse uso e abuso da liberdade de expressão que é um dos pilares da nossa convivência democrática...(e bloguística, no nosso caso).

Pessoalmente também penso que, tal como Pombal ou Salazar, este português maior tem lugar na história. Quer se goste ou não goste da figura em vida... E na hora da morte de alguém, grande ou pequeno, nós, portugueses costumamos ser solidários, generosos, magnânimos... Às vezes também pecamos por "unanimismo" e "nacional-porreirismo" pós-mortem...

Enfim, acho que podemos e devemos falar dos nossos mortos com o respeito que eles, todos eles, nos merecem, independentemente das nossas escolhas ou preferências político-ideológicas...

Um abraço, Luís Graça

Tabanca Grande disse...

Sugestão de leitura a descolonização e o papel de Mário Saores:

A “traição” de Soares e outros mitos sobre a descolonização portuguesa
January 9, 2017 Bruno Cardoso Reis

Changing world -Centre for Internationalo Studies, ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa


http://cei.iscte-iul.pt/blog/a-traicao-de-soares-e-outros-mitos-sobre-a-descolonizacao-portuguesa/

"O aspecto talvez mais controverso e que gera mais animosidades da vida política de Soares é o seu papel na descolonização. É fácil perceber que alguns das centenas de milhares de colonos portugueses que foram forçados a sair de Angola e Moçambique procurem alguém a quem culpar. E é típico que em guerras de guerrilha que nunca terminam com uma vitória convencional evidente, algumas lideranças militares e alguns veteranos apontem para os políticos e para uma facada nas costas para justificar a derrota, alimentando o mito de uma vitória traída. O grande traidor numa determinada versão da história da descolonização portuguesa seria Soares. Ora essa ideia assenta numa série de erros e mitos." (...)


Vale a pena seguir a análsie do autor e ler o artigo completo...Eis alguns excertos:

(i) Portugal não podia fazer uma descolonização orgulhosamente só

A República da Guiné-Bissau, de que o PAIGC tinha proclamado unilateralmente a independência em 1973, era reconhecida por mais de 80 países – mais do que aqueles que mantinham relações diplomáticas com Portugal. (...)


(ii) Em Portugal em 1974 dominava a oposição à continuação das guerras

As únicas manifestações públicas sobre temas coloniais em 1974 eram para gritar “nem mais um soldado para as colónias”. Sem rotação de tropas, independentemente da vontade de políticos como Soares, a continuação da guerra era insustentável num prazo relativamente curto. E os movimentos independentistas não aceitavam um cessar-fogo sem negociações para a independência. (...)

(iii) A descolonização e a saída dos colonos foram comparativamente normais

Em nenhuma colónia europeia em África com uma presença forte de colonos europeus o fim foi outro que não fosse a saída deste últimos em grande número. Por várias vezes, da Argélia até ao Zimbabué passando pelo ex-Congo belga, essa saída deu-se de um modo mais sangrento do que nas colónias portuguesas.(...)


(iv) Soares não foi o principal autor da descolonização, mas não a renegou

As grandes decisões que levaram à descolonização de 1975-75 foram tomadas, antes de 1974, por Salazar. Foi este último que, em 1961 (possivelmente, no início até com algum apoio popular), viu na guerra a única solução aos pedidos de independência. Mesmo que as guerras levassem, por exemplo, na Guiné a uma derrota “honrosa”, como Marcelo Caetano referiu, resignado, a um Spínola indignado, em 1973. Em 1974-75 foram os militares os decisores principais.(...)

(v) O fim do império português resultou em muitas vítimas inocentes


Convém lembrar, no entanto, que a maioria das vítimas mortais antes de 1975 foram africanos apanhados nas guerras pela independência pelas quais Soares não pode ser responsabilizado. E depois de 1975 as guerras em Angola e Moçambique foram sobretudo alimentadas por disputas pelo poder, pela estratégia do regime racista da África do Sul, e pelas guerras por procuração das superpotências da Guerra Fria. Responsabilizar principalmente Soares pelo fim do império português e pelos seus custos em nome de uma suposta traição a uma pátria pluricontinental que ele não reconhecia é historicamente insustentável. Afirmar que Soares defendeu que uma descolonização rápida era condição indispensável para a democratização e desenvolvimento de Portugal é um dado histórico que ele não negou.
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Sobre o autor:

Bruno Cardoso Reis
Guest author at Changing World. PhD in International Security (King's College). Master in Historical Studies (Cambridge Univ.). Guest lecturer at ISCTE-IUL. Researcher at ICS. Associate researcher at King's College.

http://cei.iscte-iul.pt/blog/a-traicao-de-soares-e-outros-mitos-sobre-a-descolonizacao-portuguesa/

Tabanca Grande disse...

Um funeral de Estado, ou com honras de Estado, o que é ?

Trata-se de:

(i) uma cerimónia fúnebre pública realizada com honras de Estado,

(ii) em homenagem de chefes de Estado, chefes de Governo ou de alguma outra figura de importância nacional,

(iii) tendo obrigatoriamnmete a presença de membros do Exército e de outras forças militares...

O escritor Eça de Queiroz, que morreu em Paris, teve funeral de Estado em 1900... Salazar em 1970... Mário Soartes em 2017...

Lê-se no "Público", de anteontem;

Soares tem o primeiro funeral com honras de Estado em democracia
LEONETE BOTELHO 9 de Janeiro de 2017, 20:55

https://www.publico.pt/2017/01/09/politica/noticia/soares-tem-o-primeiro-funeral-com-honras-de-estado-em-democracia-1757656


(...) António de Spínola e Francisco da Costa Gomes, os dois primeiros presidentes da República do Portugal pós-25 de Abril, não foram eleitos democraticamente e isso terá sido a justificação para que não se lhes atribuísse esta distinção de Estado.

Já quanto a Sá Carneiro, que morreu enquanto era primeiro-ministro, a decisão então tomada foi a de decretar cinco dias de luto nacional, mas não as honras de Estado. Uma das razões terá sido o facto de o país se encontrar em campanha para as eleições presidenciais – que decorreram três dias depois naquele mês de Dezembro de 1980. (...)

Antº Rosinha disse...

Como Retornado e "ex-colonialista" e "ex-imperialista, Mário Soares diz-me muitíssimo à minha pessoa.
Mas ao contrário do que muita gente pensa, Mário Soares, diz pouca coisa aos ex-colonizados.
Na visita presidencial que fez à Guiné-Bissau, os guineenses do regime ficaram desiludidos pela "ingratidão" de Mário Soares, que não agradeceu aos guineenses e ao PAIGC, o esforço que fizeram para haver liberdade em Portugal e ele ser um português livre.
Pior, que MS apareceu com cara de que os guineenses é que lhe deviam a sua independência.
Estas coisas não são dos discursos, são coisas do povo e do partido.
Não estou a fazer humorismo, na Guiné, era muito sério.

Manuel Luís Lomba disse...

Prezado Antº. Rosinha. Sem embargo o elevado apreço pelos teus comentário, julgo poder dizer algo em relação a este. Na sua visita oficial à Guiné, salvo erro em 1989, Mário Soares pretendeu ir ao cemitério de Bissau em homenagem aos soldados portugueses. O governo do PAIGC não só lhe deu nega como promoveu manifestações de desagravo anticolonialista. Mário Soares interpelou-os dizendo que não recebia lições de anticolonialismo e mandou o recado ao Nino Vieira de que ou ia ao cemitério ou ia imediatamente embora. Baixaram a fasquia e ele completou a visita com cara de poucos amigos e com sobranceria.
Creio que Ramalho Eanes fez essa homenagem, mas Cavaco Silva não...

Antº Rosinha disse...

Foi exactamente assim o comportamento de Mário Soares em Bissau, como explicas, L. Lomba.
Ramalho Eanes fez duas visitas, uma com Luís Cabral outra com Nino.
Mas o que eu quero frisar com o meu comentário, é o sentimento geral dos indefectíveis apoiantes do PAIGC.
Aliás, estes pensam, ou pensavam nesses tempos, hoje não sei tais as desilusões com o PAIGC, que Portugal e todos os anti-salazaristas/colonialistas lusos, deviam fazer do 25 de Abril uma homenagem ao PAIGC.
Hoje esse entusiasmo pelo PAIGC terá esmorecido, não sei, mas naquele tempo era assim que entre si se exprimiam, tanto os "membru" como a Juventude Amílcar Cabral.
Mário Soares, que nunca "acertou o passo" com os três movimentos vencedores africanos, chegou mesmo a cortar com Nino Vieira, quando este liquidou Viriato Pan e mais uns balantas.
Só isso!

Manuel Luís Lomba disse...

Achegas à paráfrase da "traição" de Mário Soares.
O P16945 aborda o seu desempenho na "descolonização" da Guiné; na de Moçambique foi desautorizado pelo Otelo (vd o seu livro "5 meses mudaram Portugal"; a de Angola já não foi com ele.
(i) Fê-la só e mal acompanhado!
(ii)Naturalmente. Haja em vista o seu jogo de morte, as mobilizações e, sobretudo, a condição da mulher e de mãe.
O reconhecimento diplomático de 80 países não passaria de formalidade "burocrática". Com embaixadas em Madina do Boé? Recordo a descrição da apresentação de credenciais do embaixador da URSS - o estado mais interessado e envolvido na "nossa" descolonização: Numa inóspita floresta cerrada, numa tenda feita com ramos de árvores, invadido de suores frios, com 2 Fiat´s a roncar-lhe sobre a cabeça...
(iii) Só o MPLA é que que se propunha a expulsar os colonos... Terá sido por esse pressuposto que o apoiamos?
(iv) Mário Soares foi sempre generoso com os seus actores militar-revolucionários, talvez por gratidão ao s5 de Abril.
(v) A partir da descolonização, centenas de milhares...

Antº Rosinha disse...

Devemos olhar para estas figuras como Mário Soares ou Salazar, ao fim de 40 anos, com sangue frio e sem ligar muito para o "nosso umbigo".

O nosso umbigo de europeus, europeístas, comodistas, ou euro centristas e até egoístas deve ficar mais para trás e olhemos também para quem somos nós "os portugueses", que nunca fomos bem-bem europeus.

O tempo vai amadurecendo os acontecimentos, e como vamos vendo os "finalmente" assim devemos analisar a história, penso eu.

Ainda agora com a visita da António Costa a Goa, estive a ler a aventura de Afonso de Albuquerque, e verifiquei (li)que foi Albuquerque o primeiro português a pôr em prática a «psico-social» e a promover e incentivar o fenómeno da mestiçagem a fim de ter gente suficiente para dominar todo o oriente.

Quase dava resultado em Angola Cabo-verde e Guiné e Moçambique tal processo, mas foi em Lisboa, Algarve, Cova da Moura e Moita e FPF que tem dado mais resultado.

L. Lomba, é com todas as peças que se faz um puzzle completo, penso que é isto que alguns tentamos fazer neste blog, um puzzle completo.

Fizeste bem em trazer para aqui a memória de Mário Soares.