quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Guiné 61/74 - P16948: Brunhoso há 50 anos (11): Crasto, Fraga do Poio e Rio Sabor (Francisco Baptista, ex-Alf Mil da CCAÇ 2616 e CART 2732)

Rio Sabor


1. Em mensagem do dia 7 de Janeiro de 2017, o nosso camarada Francisco Baptista (ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2616/BCAÇ 2892 (Buba, 1970/71) e CART 2732 (Mansabá, 1971/72), volta à sua série Brunhoso há 50 anos, desta vez para nos falar do Crasto, da Fraga do Poio e do Rio Sabor.


Brunhoso há 50 anos

11 - Crasto, Fraga do Poio e Rio Sabor

No lugar do Crasto, que ocupa uma colina fronteira à aldeia, identificada na fotografia, segundo a memória transmitida por muitas gerações ao longo dos séculos, que se confunde com a lenda, terá existido uma povoação romana. Quando eu era mais novo vi lá algumas vezes pedaços de telhas que os lavradores desenterravam ao lavrar as terras.

O Crasto, que dominava toda a paisagem em redor numa lonjura de vistas variável, a menor nunca inferior a dois quilómetros e a maior superior a 50, era um sitio estratégico para os seus habitantes se precaverem e poderem defender de ataques surpresa de possíveis invasores, nos tempos em que as guerras de conquista e reconquista eram constantes. Existe em muitas povoações e nalgumas denomina-se “Castro” pois são palavras com a mesma raiz etimológica e significado. Era um lugar fortificado num sitio estratégico, entre os povos romanos ou pré-romanos. Hoje está morto e enterrado debaixo do pó da terra que os ventos transportam e que se foi acumulando ao longo de centenas de anos, tendo os lavradores lavrado essa terra que o cobre para semear trigo e onde algumas árvores foram crescendo, semeadas pelas aves e pelo vento. A sua forma cónica e a proximidade da aldeia, associada à lenda doutras eras, dá-lhe uma beleza um pouco familiar, misturada com uma certa nostalgia de um passado desconhecido.


 Duas perspectivas do Lugar do Crasto

Com a progressiva pacificação da Península depois da ocupação dos romanos, invasões dos bárbaros, os Suevos, os Vândalos e os Visigodos, e das invasões dos muçulmanos, provavelmente ainda muito antes do inicio da nacionalidade, a povoação terá sido construída no lugar onde hoje se encontra, um sitio mais baixo, entre colinas, mais protegida dos ventos frios e agrestes do Inverno e do inferno dos calores estivais. Uma planície mais verdejante, entre pequenos montes e colinas, onde nascem os ribeiros, mais abrigada dos ventos e das intempéries.

Já longe da aldeia, passando pelos montes de sobreiros e entrando na zona das oliveiras, quando os terrenos começam a descer em declive na direção do Rio Sabor, encontramos a Fraga do Poio, um monumento natural que marca a paisagem pela sua dimensão. A Fraga do Poio é um enorme penhasco de xisto com cerca de 300 metros de altura e com uma largura, na base, superior, formando um penedo, que impõe a sua presença em toda a paisagem em redor, como se fosse uma enorme catedral de pedra erguida em tempos antigos a um Deus da Terra menos omnipotente e mais próximo dos mortais do que o Deus dos Céus que, na sua ânsia de poder, quis ser Deus dos Céus e da Terra. Sinto dificuldade em definir o sentimento que os brunhosenses sentiam e sentem em relação a essa fraga gigante: respeito, temor, veneração, exaltação, vaidade, orgulho? Talvez um pouco de tudo isto mesclado com a simplicidade e a naturalidade que foram sempre características dos meus conterrâneos.


 Vistas da Fraga do Poio

Sem saírem da povoação, tinham à vista o Crasto que lhe povoava a imaginação dum passado de gentes que confundiam com romanos e mouros, mais mouros que foram os últimos a passar por lá e dos quais alguns resquícios da memória coletiva conservavam lembranças difusas envoltas em lendas.

Descendo por caminhos ou carreiros de terra batida, em direcção ao rio Sabor, a três quilómetros, podiam debruçar-se de cima da Fraga do Poio e apreciar as vistas do rio serpenteando no vale, a cerca de dois quilómetros, brilhando como prata em dias mais claros de sol ou como chumbo em dias mais escuros de inverno .

 Panorama a partir da Fraga do Poio

Hoje para quem o vê e admira, o Sabor parece um rio grande, que a barragem a jusante, perto da foz, converteu num enorme lago de águas paradas que irá aumentar ou baixar o seu volume conforme as necessidades das barragens hidroeléctricas do Rio Douro, no seu caminho para a Foz do Porto, em direcção ao Atlântico. O Sabor não será mais aquele rio furioso e selvagem dos Invernos chuvosos do Nordeste ou calmo e com tão pouca água no Verão, que se deixava atravessar a vau nalgumas partes do seu percurso. Com a construção da barragem, o Sabor deixou de estar ao serviço dos habitantes das aldeias das suas margens, cada vez mais desertas, para se transformar num rio moderno para produção de electricidade para os grandes burgos. Entrou na era da globalização tal como a maioria dos habitantes de Brunhoso e das outras terras pequenas atraídos pelas grandes cidades do país e do estrangeiro, que ainda antes da construção da barragem já o tinham abandonado .

As pessoas crescem e fazem-se na contemplação do meio ambiente em que são criadas e é ele que que lhes vai ajudar a moldar o carácter e a personalidade. O Crasto, a Fraga e o Sabor irão marcar para sempre as gentes de Brunhoso. A colina arredondada e elevada do Crasto, tão perto da povoação, com vestígios doutro povoado mais antigo, deu-lhes uma dimensão difusa da longevidade que transportam os séculos e da história que os homens escreveram quando se espalharam pela terra. A Fraga do Poio, erecta, firme e imutável na sua consistência e rigidez de pedra, com milhões de anos, dá-lhes a ideia confusa e mal assimilada, das medidas e dum tempo astral, quando tempo e distâncias se confundem e se transformam em crenças que a pouca ciência ou a ignorância dos homens não conseguem decifrar.

O rio Sabor, antes da construção da barragem, suave e transparente no Verão, cheio, escuro e apressado no Inverno, vai dar-lhes a beleza fluída e envolvente ora calma e transparente no Verão, ora furiosa e temerosa no Inverno, da água, essa mãe primordial que tanto cria, alimenta e afaga os outros elementos, como os destrói na sua passagem impetuosa.

 Rio Sabor

Há cinquenta anos, quando Brunhoso ainda estava povoado de gente a viver num mundo mais difícil, primitivo e antigo, os seus habitantes formaram pois o carácter sob a influência da colina do Crasto que lhes deu o sentido do passado e da história, da Fraga do Poio que lhes transmitiu dureza e algum sentido de grandeza, do rio Sabor que lhes deu outra dimensão da beleza e da vida.

É tão difícil utilizar as palavras mais apropriadas para definir a luta e a comunhão entre a natureza e esses antigos habitantes da história de Brunhoso, que antecedeu a minha partida para a Guiné.

Peço desculpa, se a emoção, de quem ainda viveu parte dessa história, lhe dificulta a razão e lhe prejudica a objectividade e imparcialidade.
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Nota do editor

Último poste da série de 28 de outubro de 2016 > Guiné 63/74 - P16651: Brunhoso há 50 anos (10): As casas (Francisco Baptista, ex-Alf Mil da CCAÇ 2616 e CART 2732)

8 comentários:

Anónimo disse...

Caro Francisco

Bem-vindo. Quem, ao falar daquilo que é ontologicamente seu, que constitui o seu presépio, pode ser imparcial e objectivo. Nestas circunstâncias, a parcialidade e o subjectivismo só pode enriquecer a narração. Adorei mais esta tua revisita ao berço onde foste gerado e moldado.
Um abração

Carvalho de Mampatá

Tabanca Grande disse...

Francisco, não tens que pedir desculpa aos leitores por te deixares trair pela emoção, podias pôr um vídeo sem som nem legendas, mas não era a mesma coisa... São os nossos "olhos" que constroem a realidade... Conceitos como beleza ou grandiosidade são objetos abstrato-formais que construímos intelectualmente para poder apreender e conhecer (ciência) a natureza e depois dela nos apropriarmos (tecnologia)...

As pessoas da sociologia, como eu, gostam, de dizer que a "realidade não fala por si", somos nós que a "construímos" através da nossa linguagem, e dos nossos conceitos, teorias, métodos e técnicas (ciência & tecnologia)...

Se tu não "existisses". se tu nunca tivesses aparecido na nossa Tabanca, e escrito sobre a tua terra e a tua região, eu nunca, muito provavelmente, tomaria conhecimento de Brunhoso e das suas gentes, nem sentiria vontade de lá ir um dia...

Hoje "conheço" Brunhoso e tenho vontade de lá ir, graças a um filho de Brunhoso, que sabe falar com ternura, emoção, carinho, sensibilidade e talento da terra que o viu nascer e crescer e que o moldou como homem, transmontano e português!...

Sobre os "crimes ecológicos" que temos cometido, incluindo o aproveitamento hidro-elétrico dos nossos rios, não tenho um "pensamento definitivo", é um dossiê complexo e contraditório: o nosso desafio, enquanto país, é como conciliar ambiente, recursos finitos, desenvolvimento, qualidade de vida, equidade, liberdade e sustentabilidade... Preocupa-me, por exemplo, saber o que vai acontecer daqui a 100 anos às nossas barragens... E sobretudo se haverá "transmontanos" puros e duros como tu... Reconheço que a tua região pagou um preço muito elevado pelo "plano de eletrificação" do país, desenhado em 1945 pelo prof eng Ferreira Dias, o tecnocrata de Salazar que lançou as bases da "modernização industrial" do país... Recorde-se que a primeira grande barragem é a de Castelo de Bode, em 1951...Numa vilória do oeste estrememho, a maior parte das casas, como a minha, não tinha luz... Aprenmdi a ler e a escrever, à noite, com o candeeiro a petróleo...

Tardiamente ou não, os "donos disto tudo", como a EDP, vem agora falar-nos em "desempenho ambiental"... Eu entendo o teu "luto": o Sabor, o rio da tua infância já não existe... Tal como os "moinhos de vento" dos cabeços da Estremadura da minha infância...Deram lugar às eólicas... A p... da vida é um jogo de deve e haver, e no final, acho que perdemos sempre. (Mas não faças caso, ser "saudável" é desligar o complicómetro...).

http://www.a-nossa-energia.edp.pt/centros_produtores/desempenho_ambiental.php?item_id=1&cp_type=&section_type=desempenho_ambiental

Anónimo disse...


Francisco

A tua prosa dá para "ver" a paisagem do Brunhoso e do Sabor...,que não esqueces.

Fica bem...

Jorge Rosales

José Botelho Colaço disse...

Francisco que grande capacidade para transcreveres para o papel aquilo que te vai na alma e que outrora contemplaste e viveste, lugar do Crastro, a Fraga do Poio O rio Sabor, todas as palavras pecam por defeito para definir elogiar a delícia da tua prosa. Uma Só obrigado.

Joseph disse...

A viver há muitas décadas demasiado longe do nosso querido Portugal sinto, ao ler os teus textos,um misto de melancolia e saudade dos valores,sentimentos,"olhares exteriores"(e näo menos,interiores!)com que täo bem tens sabido descrever o Portugal profundo das nossas raízes colectivas.

Cruzámo-nos,infelizmente por curto tempo,em Buba.

Um abraco do José Belo.

Anónimo disse...

Amigo Francisco,
Adoro a paixão que impregnas naquilo que escreves e nos prende na leitura do texto. Pelas razões que conheces a tua terra também é um pouco minha. Um dia, só Deus sabe, talvez tenha a oportunidade de a visitar.
Abraço transatlântico.
José Câmara

Anónimo disse...

Vejo, pelos dados dos censos, que a população da freguesia de Brunhoso está hoje reduzida a um terço relativamente há 50 anos... Tem 216 habitantes (censo de 2011) contra 610 em 1960, o que equivale a cerca de 35,4%.

Este declínio demográfico é mais acentuado em Brunhoso do que no concelho de Mogadouro: a população concelhia de 2011 (9542) representava cerca de 48,8% da população que existia em 1960 (19571).

Anónimo disse...



Muito obrigado ao amigo anónimo que escreveu sobre o forte declínio demográfico, de Brunhoso e de todo o concelho de Mogadouro. Estes dados com o rigor que lhe reconheço e todos podemos comprovar, ajuda também a compreender o meu texto. Noutro texto já falei sobre este assunto mas sem este rigor estatístico em números e percentagens confesso. Em 1960 atinge-se um pico demográfico que começa a pesar bastante na qualidade de vida da maior parte das famílias mais desfavorecidas da terra, a dos "jeireiros" (trabalhadores agrícolas por conta de outrem). Brunhoso, tal como muitas aldeias e vilas de Trás-Os-Montes, sempre gerou mais filhos do que aqueles a que podia dar trabalho e alimentar. A solução para esse crescimento demográfico sem planeamento, era a emigração, sobretudo para o Brasil, ora em meados da década de cinquenta, o Brasil fechou as portas aos emigrantes, pelo que sem esse escape ou outra alternativa, aconteceu esse crescimento anormal que trazia consigo a fome. Contra esse situação desesperada os trabalhadores da terra de Trás-Os-Montes, do Minho e em parte das Beiras raianas forçaram a emigração clandestina, a salto, para a França e outros países ricos da Europa. Outros se seguiram. Na década de 60 e um pouco na de 70, os trabalhadores mais válidos de Brunhoso , e eram muitos, emigraram todos. Por outras causas que se prendem com a pobreza dos solos e com as políticas agrícolas dos governos da nação e da CEE, a aldeia nunca mais conseguiu recuperar dessa fuga dos seus naturais, pelo contrário ela foi-se acentuando.
Hoje acredito que os habitantes de Brunhoso já não são 200, pois desde o último censo já morreram bastantes e nasceram bem poucos. Há horas do dia em que se percorrem as ruas da aldeia e não se vê nem se ouve vivalma e Brunhoso parece uma terra abandonada.
Agradeço os comentários simpáticos dos meus amigos e camaradas, sois vós que me dais força e coragem para continuar a escrever no blogue: Carvalho de Mampatá, Luís Graça, Jorge Rosales, José Botelho Colaço, José Belo, José Câmara e outros que sem opinarem, tiveram a paciência de me lerem.
Um abraço. Francisco Baptista