segunda-feira, 5 de junho de 2017

Guiné 61/74 - P17435: Os nossos camaradas guineenses (45): Encontro no LNEC com o Augusto Delgado, ex-Fur Mil da CCAÇ 18, hoje Engenheiro Técnico (Hélder Sousa, ex-Fur Mil TRMS TSF)

 Augusto Delgado e Hélder Sousa, Engenheiros Técnicos da Guiné-Bissau e de Portugal


ENCONTRO COM GUINEEENSE NO IV CONGRESSO DA OET

Na quinta e sexta-feira passados ocorreu em Lisboa, nas instalações do LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil), o IV Congresso da OET (Ordem dos Engenheiros Técnicos), que é a minha Ordem profissional.

Tal evento decorreu de modo muito satisfatório, segundo a minha opinião, com temas muito interessantes e com bastante participação, quer na assistência, quer nas intervenções.
Foram abordadas questões como a “Reabilitação, Revitalização e Regeneração urbana”, cruzando com a interrogação “E se houver um sismo em Portugal” a propósito de não se aproveitar para se enquadrar o “reforço anti-sísmico” no âmbito da “reabilitação”, também se debateu o “Plano Nacional de Segurança Rodoviária”, o aproveitamento do Montijo para aumento temporário da capacidade do Aeroporto de Lisboa, etc., sendo que um aspecto importante teve a ver com “A livre circulação de profissionais de engenharia no mercado global”.

É relativamente a este último aspecto que o assunto se cruza com a Guiné. Foi criada uma Entidade para agrupar os países de expressão portuguesa, concretamente a “Associação de Engenharia de Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho” e, nesse âmbito, houve intervenções de pessoas do Brasil, de Cabo Verde, de Angola e da Guiné-Bissau.
A representação deste último País recaiu no Engenheiro Técnico Augusto Delgado, na qualidade de Presidente da Associação Guineense dos Engenheiros Técnicos que, na sua intervenção, teve oportunidade de dar conta da dificuldade que é exercer a actividade de modo sério, competente e responsável em face das (nossas) conhecidas ‘facilidades’ com que as mesmas se desenrolam no seu dia-a-dia, com a agravante das constantes mudanças de dirigentes e outros responsáveis.

Notou-se a sua dificuldade em se mover e fiquei a saber que tal se devia a um relativamente recente episódio de AVC que lhe deixou sequelas, com implicações ao nível dos seus membros inferior e superior, do lado direito, também na vista e um pouco menos na fala.

Consegui estar e falar um pouco com ele, o que não foi fácil, mas fiquei a saber que é “mancanha”, oriundo da zona de Bula/Có, fez o seu curso na Escola Industrial de Bissau (era um dos que estudava sob a luz da iluminação na então Praça do Império em frente ao Palácio do Governador), fez estágio na Lisnave, prestou serviço militar na tropa portuguesa, em 72/74, como Furriel Miliciano na CCaç 18, na zona de Aldeia Formosa (Quebo, actualmente).

Tirámos uma foto, que anexo.
Será que algum dos nossos membros desta “Tabanca” se recorda dele?

Hélder Sousa(*)
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Notas do editor

(*) - Hélder Valério de Sousa foi Fur Mil de TRMS TSF em Piche e Bissau, nos anos de 1970/72

Último poste da série de 18 de junho de 2016 > Guiné 63/74 - P16213: Os nossos camaradas guineenses (44): Criada, em Bissau, a Associação dos Filhos e Viúvas dos Antigos Combatentes das Forças Armadas Portuguesas (AFVCFAP): presidente Suleimane Camará (Idrissa Iafa, jornalista, Rádio Pindjiguiti)

6 comentários:

Tabanca Grande disse...

Obrigado, Hélder, pela notícia, pelo teu gesto de solidariedade... Alé, de ser um homem das tuas áreas de engenharia, é também um camarada nosso, guineense, de uma companhia africana, a CCAÇ 18, de que temos aqui gente... a conmeçar pelo cap m,il Rui Ferreira...


https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/search/label/CCA%C3%87%2018

Mancanha, e não "mancanhe", como a gente escrevia em 1969... A CCAÇ 12 (uma companhia fula) teve um soldado arvorado (nº 82106369), mancanha, o Vitor Santos Sampaio... O que será feito dele ?

É um grupo étnico que dá médicos, engenheiros e outros quadros científicos e técnicos. Um abraço para ambos, LG

Tabanca Grande disse...

Hélder, malta da CCAÇ 18, desse tempo (1972/74), não sei se temos...

Temos malta que lidou com o pessoal da CCAÇ 18, na época, em operações... Caso do António Murta, por exemplo... As referências mais recentes à CCAÇ 18 são dele:

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/search/label/CCA%C3%87%2018


O Rui Alexandrino Ferreira comandou a CCAÇ 18 mas noutra altura (1970/72)... Publicou em 2014 o livro "Quebo, nos confins da Guiné"...

Como é que ele estará agora de saúde ?

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/search/label/Rui%20A.%20Ferreira

Tabanca Grande disse...

Sei pouco sobre os mancanhas, mas ainda recentemente tive uma aluna de mestrado, médica, de origem macanha, mas com um apelido... russo (por casamento). Vive no norte e já foi à Tabanca de Matosinhos... Tenho a ideia de que os macanhas seriam mais escolarizados do que outros grupos... Daí não me admirar de ver um furriel miliciano, macanha, na CCAÇ 18, em 1972/74, numa altura, de resto, em que os graduados das companhias africanas tendem a substituir os graduados metropolitanos... É o caso deste nosso camarada Augusto Delgado a quem eu saúdo e desejo as melhores perspetivas possíveis em termos de saúde e de trabalho.

Na minha CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71) só havia, na altura, um 1º cabo guineense, o José Carlos Suleimane Baldé, que tinha o exame da 3ª ou 4ª classe. Era uma companhia de fulas (com alguns futa-fulas), dos regulados de Badora e Cossé, com exceção de 2 mandingas e 1 mancanha, de Bissau, o tal Vitor Santos Sampaio-

Era um tipo escolarizado, urbano, valente mas muito reguila, refilão mesmo... Não sei se era contestário, tinha fama de indisiciplinado, teve num espaço de seis meses (entre outubro de 1970 e abril de 1971) duas punições, cada uma de 10 dias de detenção disciplinar... dadas peço comdt da CCAÇ 12...

Mas atesto que era valente. Ao Vitor, só lhe conheci um momento de "fraqueza" (?), no decurso da Op Abencerragem Candente, em 26/11/1970, vai fazer agora 47 anos... O Vítor recusou-se a acompanhar-me à cabeça das NT que tinham acabado de sofrer uma tremenda emboscada (CART 2715 e CCAÇ 12); era preciso resgatar 6 mortos e socorrer 9 feridos graves; ainda hoje recordo a desculpa que ele me deu:
- Furriel, pessoal africano só ganha 600 pesos!....

As baixas mortais... eram todas de "tugas", com exceção do nosso guia e picador, o Seco Camará.

O Vítor pertencia ao 1º Gr Combate (do alf mil op esp Francisco Moreira) e eu estava na altura no 4º (, não tinha pelotão certo)... Portanto, não era diretamente meu subordinado...

Terá sido o único gesto de "cobardia" (?) que testemunhei em 22 meses de comissão, na CCAÇ 12... A emboscada foi tremenda e as reações de medo são humanas e universais...

Mas quem sou eu para julgar os meus camaradas guineenses ? Infelizmente, já não deve ser vivo, o Vitor Santos Sampaio, o único mancanha que conheci... (80% a 90% destes meus camaradas guineenses já devem ter morrido...

Tabanca Grande disse...

Hélder, vê aqui uma referência ao Augusto Delgado, num depoimento do médico, Prof. Joaquim Silva Tavares (Djoca), guineense, que triunfou na América, é especialista na área dos cuidados intensivos... Dedicou um importante prémio que recebeu em 2010 a um dos seus grandes amigos, o Jaime Delgado, irmão mais novo do Augusto... Vem na página do Didinho:


http://www.didinho.org/Arquivo/EDITORIALDEJANEIRODE2010.htm

Uma amizade bonita, histórias de vidas que nos tocam!... Agora imaginem o que pode vir a ser a nossa Guiné-Bissau com grandes homens (e mulheres) como estes (e estas)...

Aqui vai um execrto:

(...) "Não imaginam a alegria e sensação de conquista (“afinal, como diz o nosso amigo Ângelo Correia Dias – AnCoDi - não saí da Guiné para "contar telhas", "conta tidja") que senti quando recebi o prémio “Dr. Joseph and Rae Brown”, prémio para o especialista de Cuidados Intensivos que, nos Estados Unidos (Norte a Sul, Este a Oeste) mais contribuiu para o avanço, desenvolvimento, ensino e melhoria da qualidade de cuidados prestados a doentes críticos na sua região. (...)

)...) MAS, ESTE PRÉMIO É ESPECIALMENTE DEDICADO AO MEU GRANDE AMIGO JAIME DELGADO (JAMES/JIMMY):

Poucos homens, no decorrer das suas vidas, têm o privilégio de ter amigos da magnitude e confiança do Jaime Delgado. Devido à minha personalidade, tenho um círculo muito fechado de amigos e o Jaime pertence a esse círculo.

Conheci o Jaime no Ciclo Preparatório de Bissau (posteriormente Salvador Allende), tínhamos em comum o gosto pela de leitura do jornal A Bola, jogar futebol e pertencermos à mesma turma (juntamente com o Edson, Beto Casimiro, Nado Cardoso, Renato Cabral, Carlos “Vaqueiro”, Eduardo Pimentel, entre outros). Assim continuamos até ao sétimo ano dos Liceus, excepto no ano lectivo de 1973/74 em que fui estudar para o Colégio de Nuno Álvares em Tomar (ainda me lembro do Faustino Martins Cunha, o João Manuel Gomes, o Rui José Abibe, o Osório de Pina Correia, o Hamer Aniz Bourafe e, de São Tomé: o Ovidio Martins Pequeno, O Teodósio; de Cabo Verde, o Gibau e as manas Gibau, entre outros), do Castelo dos Templários, do rio Nabão, etc.

O Jaime é desses Heróis e exemplos não cantados do folclore Guineense, mas que são exemplos a seguir pelos nossos jovens: nasceu em Tite e sem pais desde tenra idade, ele, os manos mais velhos (Augusto Delgado e Joaquim Delgado), os primos Francisco Dias, Ernesto e Garcia, ampararam-se uns aos outros à custa de muitos sacrifícios, misturados com “chapadas” dos mais velhos aos mais novos, para não perderem as perspectivas da vida, e conseguiram triunfar. (...)

António Murta disse...

Luís Graça

Já ontem estive para escrever duas linhas sobre a CCAÇ 18 e o Augusto Delgado, mas, com tão pouco para dizer, acabei por não fazer.

Realmente, é quase certo termo-nos cruzado naquelas matas ou, até, termos estado na mesma ocasião no inferno de Nhacobá, como me aconteceu várias vezes com o pessoal dessa Companhia. Mas não recordo o nome e menos ainda a fisionomia desse camarada.

Recordo, sim, a tranquilidade que transmitiam os da 18, quando nos acompanhavam naqueles infortúnios, sobretudo à noite quando dormíamos com eles em Nhacobá. Também recordo a coragem de um deles que eu vi uma vez no decorrer de uma flagelação, que vinha à bolanha disparar a bazuca e, num frenesim, recuava para ser municiado na orla da mata, voltava à bolanha, recuava de novo…, sem medo e sem descanso. Eram admirados e respeitados por todos.

Grande abraço para o Augusto Delgado e para todos os camaradas.
António Murta.

Hélder Valério disse...

Caros camaradas

Este encontro foi, como podem calcular, um acaso.
Não sabia de nada nem estava à espera. Sabia dos contactos havidos e desenvolvidos com os colegas de Cabo Verde e de Angola e, talvez por preconceito, não esperava nada da Guiné.
Lamento a inferioridade física em que o Augusto Delgado se encontra, por ele, claro, mas também porque limitou o desenvolvimento das conversas.
No entanto já tenho o seu (dele...) endereço de mail e vou-lhe enviar não só este conjunto da foto, do post e dos comentários e espero que depois se possa dar novos passos.

Aproveito para agradecer as indicações acima colocadas pelo Luís e, já agora, referir também as interessantes palavras que ressaltam do tal blogue.
Sim senhor, pelos vistos "matéria-prima" humana tem havido, o que parece ter faltado são "outras coisas"....

Em relação ao Murta, até pode ser que ao ver estes comentários o Augusto se recorde e possa dar mais algum contributo.

Hélder Sousa