quinta-feira, 8 de junho de 2017

Guiné 61/74 - P17447: (De) Caras (75): Fausto Teixeira ou Fausto da Silva Teixeira, um dos primeiros militantes comunistas a ser deportado para a Guiné, em 1925, dono de modernas serrações mecânicas (Fá Mandinga, Banjara...) a partir de 1928, exportador de madeiras tropicais, colono próspero e respeitável em 1947, um dos primeiros a ter telefone em Bafatá, amigo de Amílcar Cabral, tendo inclusive ajudado o Luís Cabral a fugir para o Senegal, em 1960..."Quem foi, afinal, o meu avô?", pergunta o neto Fausto Luís Teixeira (nascido em Ponte Nova, Bafatá, onde viveu até aos três anos)...




Anúncio da empresa, em nome individual, "Fausto da Silva Teixeira", dono de serração mecânica de madeiras, com sede em Bafatá, publicado em Turismo - Revista de Arte, Paisagem e Costumes Portugueses, jan/fev 1956, ano XVIII, 2ª série, nº 2.


[Foto  partir de cópia pessoal pertencente ao  nosso saudoso camarada Mário Vasconcelos (1945-2017), ex-alf mil trms, CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, COT 9 e CCS/BCAÇ 4612/72, Mansoa, e Cumeré, 1973/74] (*)



Cartão pessoal, sem data, manuscrito, de Fausto da Silva Teixeira, encontrado no Arquivo Amílcar- Cabral. Tudo indica que seria dirigido ao "caro amigo" engº agrónomo Amílcar Cabral, nascido em Baftá em 1924, com "cumprimentos à sua senhora", a engª agrónoma, sua colega de curso do ISA - Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa,  Maria Helena [de Ataíde] Vilhena Rodrigues, transmontana de Chaves, com quem Amílcar Cabral casara em 1951, e com quem foi para a Guiné em 1952. Aqui nascerá a primeira filha do casal, Iva Cabral. Vão permanecer cerca de quatro anos na Guiné. Amílcar Cabral, encarregado pela administração da província de fazer o recenseamento agrícola,  vai percorrer a Guiné de lés a lés. Será nessa altura que conhece o Fausto Teixeira ,que devia viver em Bafatá ?... O casal adoece e tem de regressar a Lisboa. Em 1957 vão trabalhar para Angola. Mas em 1956e, 19 de setembrom, Amílcar já tinha participado na criação clandestina do PAI - Partido Africano para a Independeência, mais tarde PAIGC. O casal separa-se definitiavamente em 1966.

Este cartão deve ser, portanto, dos anos de 19652 a 1956.


Fonte: Portal Casa Comum, com a devida vénia

Instituição: Fundação Mário Soares
Pasta: 07063.036.115
Título: Cartão
Assunto: Cartão pertencente a Fausto da Silva Teixeira com nota manuscrita.
Data: s.d.
Observações: Doc. incluído no dossier intitulado Cartas de Bissau 1960-1961.
Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral
Tipo Documental: Documentos

Citação:

(s.d.), "Cartão", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_41709 (2017-6-8)


1. Mensagem do nosso leitor Fausto Luís Teixeira. com data de 4 do corrente:

Exºs Srs

Chamo-me Fausto Luís Teixeira, nasci em Ponte Nova, Bafatá (e vivi lá até aos 3 anos). Sou neto de Fausto da Silva Teixeira, que mal conheci, e de quem gostava saber algo mais.

Uma pergunta:
- Sabeis como ele foi parar à Guiné?

Muito obrigado
Cordial e atentamente

Fausto Luís Teixeira


2. Resposta do editor:

Obrigado, Fausto, pelo seu contacto. Do seu  avô, Fausto da Silva Teixeira ou Fausto Teixeira, sabemos pouco:

(i) seria um dos primeiros  militantes do PCP - Partido Comunista Português [, fundado a 6 de março de 1921] s ser deportado  para a Guiné, em junho de 1925, ainda portanto no tempo da I República (1910-1926),  juntamente com outros camaradas (Alexandre José dos Santos, Ferreira da Silva e Manuel Tavares, tendo este último, barbeiro de profissão,  morrido logo a seguir, já na Guiné, de doença) (*);

(ii) estabeleceu-se no leste da Guiné, onde terá fundado, em 1928, em Fá Mandinga, circunscrição (equivalente a concelho) de Bafatá, uma "serração mecânica de madeira", como se deduz do anúncio comercial publicado em Turismo - Revista de Arte, Paisagem e Costumes Portugueses, jan/fev 1956, ano XVIII, 2ª série, nº 2 e de uma notícia da agência Lusitânia, publicada no "Diário de Lisboa", de  9/2/1947;

(iii) devia ser um colono próspero e respeitável, ao ponte de a sua serração, em Fá Mandintga, entre Bafatá e Bambadinca, ter tido a honra de ser visitada pelo subsecretário de Estadod as Colónias, engº Rui Sá Carneiro, e comitiva, no dia 7/2/1947 (***):

(iii) terá sido dos primeiros moradores de Bafatá a ter telefone (o nº 10); tinha igualmente endereço telegráfico e caixa postal, o que era importante para u7ma "exportadoer de madeiras tropicais":

(iv) tinha, além disso, uma outra serração em Banjara, abandonada depois da guerra,mas cujas instalações eeram conhecidas das NT (***);

(v) terá conhecido  o engº agrónomo Amílcar Cabral e a esposa, portuguesa, Maria Helena,  logo quando o casal se estabeleceu na Guiné, no início dos anos 50, a avaliar por um cartão pessoal, manuscrito, de que encontrámos cópia digilitalizada no portal Casa Comum / Fundação Mário Soares, e que reproduzimos acima:

(vi)  devia ser, no mínimo, simpatizante da luta nacionalista encabeçada por Amílcar Cabarl ao ponte de ter ajudado o seu meio-irmão, Luís Cabral, a fugir da Guiné, em 1960, conforme testemunho do próprio Luís Cabral, no seu livro de memórias, "Crónica da Libertação" (Lisboa: Lisboa, O Jornal, 1984), citado pelo nosso camarada A. Marques Lopes (***);

(vii) mais concretamente, levou Luís Cabtalm,  no seu "Peugeot 203 pintado de cor azul forte" desde as Oficinas Navais do porto de Bissau até perto da sua serração [Banjara ou outra mais a norte ?], de onde Luís Cabral seguiu a pé até a uma aldeia senegalesa, passando por Fajonquito...

(viii) terá, mais tarde, sido identificado, seguido, vigiado e eventualmente preso pela PIDE [, que só abriu uma delegação em Bissau em 1954]... ou então, com a guerra, a empresa deve ter falido (é o que se deduz da homenagem que Luís Cabral lhe faz: "um velho democrata que amou profundamente a liberdade, lutou por ela e acabou por ser vencido pelas forças da repressão e do mal") (***).

O neto Fausto Luís Teixeira, nascido em Ponte Nova, em Bafatá (não diz em que ano, talvez em finais de 1950 ou princípios de 1960) pode agora cruzar esta informação com as memórias da família...

Um representante legal da família pode inclusive ir  ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, para consultar a  eventual informação constante do arquivo da PIDE, incluindo o da Delegação da Guiné (1956/74), respeitante ao seu familiar Fausto Teixeira ou Fausto da Silva Teixeira. (****)

Disponha sempre, caro Fausto,  do nosso blogue como fonte de informação e conhecimento.  Um abraço do editopr Luís Graça


______________

Notas do editor [, repo0nsável também pleos itálicos, negritos e realces a amarelos]:

(*) Vd. poste de 22 de janeiro de 2015 > Guiné 63/74 - P14173: Historiografia da presença portuguesa em África (52): Revista de Turismo, jan-fev 1956, número especial dedicado à então província portuguesa da Guiné: anúncios de casas comerciais - Parte IV (Mário Vasconcelos): Há, pelo menos, 6 comerciantes libaneses em Bafatá: Jamil Heneni, Toufic Mohamed, Rachid Said, Fouad Faur, Salim Hassan ElAwar e irmão

(**) Vd. Casanova, José - O Partido na História - Os primeiros comunistas presos, Partido Comunista Português: Organização Regional de Lisboa.

(...) O último registo conhecido de prisões (e, no caso concreto, também de deportações – as primeiras de que há notícia) de membros do PCP no tempo da 1ª República é de 1925: em Junho desse ano são deportados para a Guiné, sem julgamento, os militantes comunistas Alexandre José dos Santos, Fausto Teixeira, Ferreira da Silva e Manuel Tavares. Este último, barbeiro de profissão, era membro do Secretariado da Comuna n º 1 «Tibério Graco», do Beato e Olivais (Lisboa) e viria a morrer, após dois meses de deportação, vítima dos rigores do clima tropical e da falta de assistência médica. Terá sido, muito provavelmente, o primeiro de uma longa lista de militantes comunistas assassinados nas prisões. (...)

(***) Vd. poste de 19 de maio de 2017 > Guiné 61/74 - P17377: Historiografia da presença portuguesa em África (76): Subsecretário de Estado das Colónias em visita triunfal à Guiné, de 27/1 a 24/2/1947 - Parte V: De regresso, de Bafatá a Bissau, sexta-feira. 7 de fevereiro, com passagem por Fá (Mandinga), Bambadinca, Xitole e Porto Gole


(..) às 8h30 desse dia [7 de de fevereiro de 1947, o subsecretário de Estado] despede-se de Bafatá e segue em cortejo automóvel até Fá (Mandinga) onde visita a serração mecânica do português, o "madeireiro" Fausto da Silva Teixeira, radicado na colónia há 20 anos; (no nosso tempo, meu e do "alfero Cabral", em 1969/71, já não havia vestígios desta serração mecânica, e muito menos do Fausto da Silva Teixeira)" (...)


(***) Vd. poste dwe 31 de março de 2009 > Guiné 63/74 - P4115: Os Bu...rakos em que vivemos (1): Banjara, CART 1690 (Parte I) (António Moreira/Alfredo Reis/A. Marques Lopes)


(...) O nosso camarada Fernando Chapouto sabe também como era Banjara. «Banjara fica situada a cerca de 40 Km de Geba e a cerca de 20 Km de Mansabá, na estrada Bissau/Bafatá. Fica no coração da mata do Oio, e teve, antes da guerra colonial, uma unidade industrial de serração de madeiras.
Pertencia, durante a guerra, à área de actuação da Companhia de Geba, do Batalhão de Bafatá.


(...) [Cabe aqui um parêntesis para dizer que aquela serração em Banjara pertenceu ao português Fausto Teixeira:

"Antifascista desde a sua juventude, via-se no comportamento de Fausto Teixeira toda a história de um velho democrata que amou profundamente a liberdade, lutou por ela e acabou por ser vencido pelas forças da repressão e do mal. No entusiasmo e dedicação que pôs no cumprimento desta arriscada missão, sentia-se todo o seu orgulho em poder participar na luta que então travávamos, também pela liberdade, contra os mesmos inimigos".  

Isto diz Luís Cabral no seu livro Crónica da Libertação, aí referindo também que a missão do Fausto Teixeira foi ajudá-lo na sua fuga para o Senegal, em 1960, levando-o no seu "Peugeot 203 pintado de cor azul forte" desde as Oficinas Navais do porto de Bissau até perto da sua serração, de onde Luís Cabral seguiu a pé até a uma aldeia senegalesa, passando por Fajonquito.] (...)


Vd. também poste de 28 de julho de 2005 > Guiné 63/74 - P128: Bibliografia de uma guerra (10): Segredos do PAIGC (Marques Lopes)

(****) Último poste da série >  2 de junho de 2017 > Guiné 61/74 - P17424: (De) Caras (74): Almoço-convívio anual de 'Os Lacraus', CART 2479 / CART 11 (Contuboel, Nova Lamego, Piche, Paunca, 1969-1970/71... Em Mem Martins, Sintra, em 27/5/2017... Para o ano será na Nazaré (Valdemar Queiroz)

16 comentários:

Tabanca Grande disse...

Fausto: veja o que conseguimos saber sobre o seu avô... Já agora satisfaça também a nossa curiosidade, na volta do correio:

(i) onde e quando é que ele nasceu ? (Devia ter c. 20 anos quando foi preso e deportado, "sem julgamento", em 1925, para a Guiné; nessa época, muitos dos deportados, e eu conheci pelo menos um, em Bafatá, o sr. Teófilo, morriam, de doenças tropicais e falta de cuidados de saúde (médicos, medicamentos, apoio hospitalar...);

(ii) será que ele voltou a Portugal nos anos 30/40/50 ?

(iii) casou lá, teve filhos e netos ? (Pelo menos terá tido um filho ou filha e um neto.)

(iv) terá conhecido o Amílcar Cabral, onde ? Em Bafatá, onde o Amílcar Cabral nasceu (1924) ? Ou só mais tarde, em Bissau (c. 1952-1956) ?

(v) terá perdido tudo com a guerra ? Terá sido preso pela PIDE (que se estabelece na Guiné em 1954...) ?

(vi) quando é que família regressou a Portugal ?

(vii) em fotos do seu avô ( e da família m Bafatá ) ?

(viii) sabe quando e onde ele morreu ?

(ix) já alguma vez foram à Torre do Tombo saber mais coisas ? (Fausto, isso não podemos fazer por si, só legalmente a família...).

Um abraço do editor do blogue, Luís Graça

Anónimo disse...

Fausto Luís
8 jun 2017 12:59

Bom dia

Muito obrigado pela resposta.
Vou tentar dar resposta às perguntas que coloca, assim me seja possível o contacto com familiares e uma sua amiga de muita estimação.

Grato pela celeridade.
Fausto Luís Teixeira

Tabanca Grande disse...

Já aqui falámos, várias vezes, de um outro deportado, que vivia em Bafatá, tinha um café, o sr. Teófilo... O Fausto Teixeira deve tê-ço conhecido... Terá sido deportado para a Guiné em 1930, cinco depois do Fausto. E era um dos raros sobreviventes do grupo inicial de 40... Creo que restaram dois ou três... Esta história pode ser lida aqui.

O nosso camarada Manuel Mata, que frequentava o seu café e que o conheceu muito melhor do que eu, diz que era sobrinho do sr Tapadinhas da Tipografia Tapadinhas, em Portalegre... Nunca descobri o seu apelido... Seria Tapadinhas também ?

Tinha uma filha, Rita, que trabalhava nos Correios...

Era um homem, reservado, mas sempre bem informado...

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/search/label/Caf%C3%A9%20do%20sr.%20Te%C3%B3filo



https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2013/11/guine-6374-p12358-roteiro-de-bafata.html

Tabanca Grande disse...

O nome de Fausto Teixeira aparece também assocido ao de Maria Sofia Carrajola Pomba Amaral da Guerra... sobre a qual colhemos as seguintes informações:


(i) Farmacêutica, analista e professora, nasceu a 18 de julho de 1906 em São Pedro, Elvas, e cedo partiu para África;

(ii) Conhecida pelas actividades comunistas, antifascistas e anticolonialistas, sobretudo em Moçambique e na Guiné, onde viveu a partir de meados da década de 30;

(iii) Em Lourenço Marques, publicou alguns estudos sobre frutos silvestres e produtos exportáveis, foi analista no Hospital Miguel Bombarda, leccionou na Escola Primária Correia da Silva, onde teve como aluno o poeta, jornalista e activista moçambicano Rui Nogar (1932-1993);

(iv) aderiu ao Partido Comunista Português em Lourenço Marques, por intermédio do ferroviário Cassiano Carvalho Caldas [1915-2002/2003];

(v) Manteve naquela cidade militância activa, colaborou nos jornais Emancipador e Itinerário, publicação editada entre 1941 e 1955, participou, entre 1947 e 1948, na construção de uma estrutura comunista local [José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal, vol. 3] e desenvolveu, juntamente com Noémia de Sousa, actividades no âmbito do Movimento dos Jovens Democratas Moçambicanos, versão local do MUDJ da metrópole, integran(do a direcção.

(vi) Em 1949, tornou-se na primeira mulher branca a ser presa e deportada para a metrópole: apresentada na PIDE em 23 de novembro de 1949, ficou detida em Caxias até 4 de julho de 1950, quando foi libertada por ordem do Tribunal Plenário de Lisboa, por ter sido absolvida.

(vii) Partiu então para Cabo Verde, onde se junta ao marido, e seguiu depois para a Guiné, onde veio a ser proprietária da Farmácia Lisboa e ensinou inglês no Liceu de Bissau.

(viii) Mais uma vez, procurou reatar a actividade política, juntamente com Fausto Teixeira e o médico Gumercindo de Oliveira Correia: Pacheco Pereira refere que Sofia Pomba Guerra era vigiada pela PIDE, que sabia que a farmacêutica recebia e fazia circular revistas comunistas francesas e panfletos portugueses, procurando mesmo organizar células comunistas nos meios operários [JPP, vol. 3].

(ix) No entanto, onde a sua actuação mereceu destaque e obteve reconhecimento foi junto do embrionário nacionalismo independentista, patente nas referências elogiosas que muitos dos dirigentes guineenses fazem ao seu papel anticolonialista, nomeadamente no auxílio à organização clandestina de reuniões, na prestação de informações relevantes sobre prisões iminentes, como a de Carlos Correia, e na preparação de fugas, como a de Luís Cabral.

(x) Esteve associada, em janeiro de 1959, à fundação do Movimento de Libertação da Guiné, trabalhando na sua farmácia Epifânio Souto Amado e Osvaldo Vieira, que seria um dos principais combatentes do PAIGC, morto em 1974.

(Continua)

Tabanca Grande disse...

Maria Sofia Carrajola Pomba Amaral da Guerra [1907 - c. 1970]


(Continuação)

(xi) Amílcar Cabral [1924-20/01/1973], com quem Sofia conviveu na década de 60, no discurso pronunciado num Seminário de Quadros do PAIGC, efectuado entre 19 e 24 de novembro de 1969, referiu-se à contribuição de dois brancos na fuga de Luís Cabral da capital guineense, afirmando explicitamente que “uma pessoa que teve influência no trabalho do nosso Partido em Bissau, foi uma portuguesa. Só quem não está no Partido é que não sabe isso. Ao Osvaldo, a primeira pessoa que lhe ensinou coisas para a luta, foi ela, não fui eu. Eu não conhecia o Osvaldo” [AC, Alguns Princípios do Partido, pp. 21-22].

(xii) Posteriormente, Luís Cabral, na sua Crónica de Libertação, evoca os contactos que manteve com esta “deportada para a Guiné, com a indicação de se tratar de um elemento altamente perigoso” e que, “embora vigiada pela polícia política, cujo chefe veio morar mesmo em frente da sua casa, retomou na primeira oportunidade as suas actividades políticas”.

(xiii) Relacionou-se com Amílcar Cabral, Aristides Pereira, Fernando Fortes, Luís Cabral, a quem deu lições de Inglês do 7.º ano do liceu, e muitos outros e, “apesar da posterior separação da actividade anticolonialista do movimento geral antifascista, a dr.ª Sofia Pomba Guerra continuou, como no passado, a ser a amiga e conselheira de cada um de nós” [idem].

(xiv) O rótulo de desterrada política antifascista e comunista acompanhou-a por todos os locais por onde passou e nunca tal a impediu de intervir politicamente e manter-se fiel às suas ideias.

(xv) Morreu antes da independência, no início da década de 70, tendo Luís Cabral reencontrado em Portugal o marido, o dr. Guerra, “que parecia estar sempre muito distante das actividades da esposa, [mas] era um grande patriota e democrata português que encorajava e apoiava essa activi-dade” [idem], com a filha mais nova Tafia.


Fonte: Blogue "Silêncios e Memórias" > 12 de junho de 2015 > [0998.] MARIA SOFIA CARRAJOLA POMBA AMARAL DA GUERRA [I]

ze manel cancela disse...

Meu caro Luis.
Como o mundo é pequeno.Eu conheci o sr, Fausto Teixeira
em 1969,estava hospedado no Hotel Portugal,e tinha como
companheira uma sra. de origem Cabo-Verdiana,chamada Agostinha,
com eles vivia o filho mais novo que na altura teria uns 21 anos,que se tornou meu amigo,o Antonio.Na altura já era um senhor próximo dos oitenta anos anos.este meu relacionamento com o Antonio devia-se ao facto de um meu conterrâneo ser o fiel guarda da madeira que chegava de Bafatá e ficava no Pigiguiti á espera de embarque.
Nessa altura continuava a ser um senhor de muitas posses,pois alem das serrações em Bambadinca e Bafatá,tinha um barco para o transporte da madeira.Espero ter sido útil
Um abraço,caro amigo......

Tabanca Grande disse...

Falta o link do referido blogue, editado por João Esteves, desde 2010:

http://silenciosememorias.blogspot.pt/2015/06/0998-maria-sofia-carrejola-pombo-do.html

Tabanca Grande disse...

Os dois brancos que ajudaram o Luís Cabral na sua fuga para o Senegal foram, portanto:

(i) Maria Sofia Carrajola Pomba Amaral da Guerra [1907 - c. 1970];

(ii) Fausto Teixeira (, deportado para a Guiné 1925).

O Fausto deve ter nascido na mesma época, ou seja no 1º decénio do séc. XX, talvez nos primeiros anos...

Tabanca Grande disse...

Zé Cancela:

O teu depoimento é precioso. De facto, o Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande!
O neto, Fausto Luís Teixeira, já pode começar a encaixar melhor as peças do "puzzle"...Eu a imaginar "coisas", e tu a trazeres-me novos factos sobre o sr. Fausto Teixeira... Em resumo:

(i) conheceste pessoalmente o sr. Fausto Teixeira em 1969 (, quando o Spínola era já o governador geral e o comandante-chefe):

(ii) estava hospedado no Hotel Portugal (que era o melhor de Bissau);

(iii) tinha como companheira uma semhora de origem cabo-verdiana, chamada Agostinha;

(iv) com o casal vivia o filho mais novo, o António, que na altura teria uns 21 anos,que se tornou teu amigo;

(v) na altura (1969), o sr. Fausto já deveria estar próximo dos 80 anos [, a ser assim, teria nascido na última década de 1890, e estaria já próximo dos 30 anos quando foi deportado, em 1925, para a Guiné]:

(vi) o teu relacionamento com o filho António devia-se ao facto de um teu conterrâneo, de Penafiel, ser o fiel guarda da madeira que chegava de Bafatá e ficava no Pigiguiti á espera de embarque;

(viii) resumindo, em 1969, o sr. Fausto Teixeira "continuava a ser um senhor de muitas posses, pois além das serrações em Bambadinca e Bafatá, tinha um barco para o transporte da madeira"...

Vou fazer chegar este teu depoimento ao conhecimento do neto.

Um grande abraço do amigo e camarada Luís Graça

abilio duarte disse...

Olá Luis,
Ao ler este vosso assunto, sobre este senhor, lembro-me, que conheci em Bafatá, e depois em Lisboa, onde era meu cliente na Rua Augusta, o fundador da Fazenda Kapê, em Bafatá, e ele me contou. que também foi parar á Guiné, como exilado politico. Tu que tiveste perto de Bafatá, tens conhecimento de algo.
O que me lembro é que alguns filhos deles, iam a Contuboel, jogar á bola, connosco.
E a seguir ao 25 Abril, apareceu, um dos seus filhos, penso que o mais velho, a falar como Presidente ou responsável, por Bafatá.

Anónimo disse...


Fausto Luís [, que é formador]

9 de junho de 2017 23:54


Olá

Não tenho tido tempo nem oportunidade de me dedicar mais; contudo:
- Penso que o meu avô não seria assim tão velho em 1969 (oitenta anos), mas irei confirmar.
Por essa altura, lembro-me de ele ter ido dar um passeio com os netos(eu e meus irmãos), de Setúbal à Lagoa de Albufeira, a casa de Edmundo Pedro (*), sendo ele o condutor;
é verdade que não era condutor exímio(....!), mas o facto de conduzir com os olhos colados ao vidro se deveria mais a aselhice que a senilidade...

Além disso,já uns depois do 25 de Abril, ele ia (por vezes comigo) amiúde ao Bonfim [ Setúbal] ver a bola, e revelava grande autonomia e desembaraço.

Estou em crer que em determinada altura se terá dedicado ao comércio, tanto pelas prendas que trazia (gravadores,rádios,...), como por uma vez ter perguntado a alguém(?) que conhecia bem a Guiné se ele conhecia algum madeireiro chamado Fausto e ele só se lembrar de um comerciante em Bafatá com esse nome....

(*) Da casa de Edmundo Pedro fomos (acompanhados pela filha daquele,também), a V.Franca de Xira, ver um barco dele em construção para levar para a Guiné: pouco percebo de barcos mas,aquele,parecia-me mais adequado ao comércio do que ao transporte de madeiras.

Até breve
Grato pelo interesse.


Tabanca Grande disse...

Obrigado, Fausto, ficamos a saber que o seu avô era de Setúbal ou por aí perto. E que era visita do Edmundo Pedro, nascido no Samouco, Alcochete, também margem sul do Tejo. Mas o Edmundo era mais novo que o seu avô. Nasceu em 8/11/1918, portanto, fará 100 para o ano se lá chegar... O Edmundo esteve dez anos no Tarrafal, o campo de concentração na ilha de Santiago, Cabo Verde.

E é nessa altura que rompe com o PCP e, hoje, como sabe, é um velho militante socialista. A amizade (e o convívio) com o Edmundo Pedro veio de que época ? Seria interessante perguntar ao Edmundo Pedro. Eu aponto o ano de nascimento do seu avô para os primeiros do séc. XX, talvez 1905. A bater certo, ele é deportado para a Guiné com 20 anos... E seria 13 anos mais velho do que o Edmundo Pedro. Em 1960, quando o Zé Cancela o conheceu no Hotel Portugal ele não poderia, de facto, ter 80 anos, mas sim 64...parecendo mais velho... com quase meio século de Guiné...

Um bom resto de noite, LG

O seu avô é deportado para a Guiné em 1925...Em 1947 quando recebe a visita, na sua serração mecânica de Fá (Mandinga) a escassos quilómetros de Bambadinca, do secretário de Estado das Colónias, do governador-geral Sarmento Rodrigues e comitiva, o seu avô era um homem importante na Guiné!... E a imprensa dizia seu respeito, não que tinha sido deportado, mas sim que se fixara na colónia há cerca de 20 anos...

Não há dúvida que estamos a falar da mesma pessoa, Fausto Teixeira ou Fausto da Silva Teixeira, seu avô, que foi madeireiro na Guiné pelo menos durante 4 décadas...

Tabanca Grande disse...

Abílio, só ouvi falar do Kapé (ou Capé), aqui no blogue... ou seja, há menos de 15 anos. Mas vamos apurar essa história... Obrigado, LG

Tabanca Grande disse...

O Edmundo Pedro tem 3 volumes com as saus memórIAS... Será que fala no seu avÔ ?

Memórias: Um Combate pela Liberdade. Vol. I, Lisboa : Âncora Editora, 2007. ISBN 978-972-780-187-9
Memórias: Um Combate pela Liberdade. Vol. II, Lisboa : Âncora Editora, 2011. ISBN 978-972-780-308-8
Memórias: Um Combate pela Liberdade. Vol. III, Lisboa : Âncora Editora, 201?. ISBN 978-972-780-372-9

Tabanca Grande disse...

Fausto, essa história dos electrodomésticos... Será que o seu avô chegou ter, depois do 25 de abril, depois do regresso da Guiné, um negócio de electrodomésticops, tal como o seu amigo Edmundo Pedro ? Ou as coisas que ele trazia para casa (rádios, gravadores. etc.) não seriam antes compradas na loja do Edmundo Pedro ? Ou até uma oferta do amigo...

Sobre o Edmundo Pedro, ver aqui:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Edmundo_Pedro

Fausto, não percebi bem o que escreveu:

"Estou em crer que em determinada altura se terá dedicado ao comércio, tanto pelas prendas que trazia (gravadores,rádios,...), como por uma vez ter perguntado a alguém(?) que conhecia bem a Guiné se ele conhecia algum madeireiro chamado Fausto e ele só se lembrar de um comerciante em Bafatá com esse nome"...

A minha leitura é a seguinte:

(i) o seu avô encontrou alguém que conhecia a Guiné (talvez um ex-militar)...

(ii) perguntou-lhe se conhecia algum madeiro, de nome Fausto (que era ele)...

(iii) esse alguém lembrava-se de um comerciante em Bafatá com esse nome"... (Só podia ser o Fausto da Silva Teixeira)...

(iv) O negócio principal do Fausto era exploração e exportação de madeira, mas é possível que também tivesse uma loja de comércio a retalho em Bafatá, onde tinha a sede da sua empresa de serração...

(v) Ele quis testar os conhecimentos dessa pessoa que encontrou...provavelmente um ex-militar que, como eu, conheceu Bafatá...

Nessa altura (anos 60) Bafatá, onde você de resto nasceu, tinha a um ar próspero, e havia bastante casas de comércio... Chamávamos-lhe a "princesa do Geba"... Temos muitas fotos de Bafatá. Pesquise no Google Imagens= Bafatá.

Um abraço, Luís Graça

PS - Diga-me uma coisa: o seu avô, que devia ter boas relações com o PAIGC, com o Luís Cabral, presidente da República, etc., por que é que não ficou na Guiné, depois da independência ? Por causa dos filhos e netos ?


Zé Manel Cancela disse...

Caro Luis.Eu conheci o sr. Fausto em 1969 e não em 1960,
como referiste em cima.Há um outro pormenor.Nao creio que se desse muito bem
com P.A.I.G.C.porque o barco que transportava as madeiras
foi atacado e encendiado no Geba numa viagem para Bissau.
O barco foi reparado num estaleiro que havia na altura no ilheu do rei
cheguei a ir lá com o Antonio Teixeira numa altura que o pai dele veio a Portugal.
Até cheguei a saber quanto custava a reparação,noventa contos,que era uma pequena furtuna para a época.Tambem soube através do meu conterrâneo que o Antonio
foi parar a Angola como furriel,esto em 71.Outra coisa.A familia tinha casa em Palmela.Sem mais um abraço...