segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Guiné 61/74 - P18285: Um conto de Natal (23): Zé, o soldado de barro (Mário Gaspar, ex-fur mil at art, MA, CART 1659, Gadamael e Ganturé, 1967/68)

1. Mensagem do nosso camarada e grã-tabanqueiro Mário Gaspar, com data de 31 de janeiro último:

[foto atual à esquerda; ex-fur mil at art, minas e armadilhas, CART 1659, Gadamael e Ganturé, 1967/68; e, como ele gosta de lembrar, Lapidador Principal de Primeira de Diamantes, reformado; e ainda cofundador e dirigente da associação APOIAR; tem tem c. 100 referências no nosso blogue]

Caros Camaradas:

Depois de me reiniciar na escrita, escrevi muitos textos, todos publicados. Encontrei este “Soldado de Barro” que provocou críticas em alguns combatentes.

Inicialmente pensei escrever um texto para crianças, mas em cima da hora surgiu a dificuldade de publicar no jornal APOIAR no fim de ano, um texto de Natal, estando com o “Soldado de Barro” entre os dedos dei uma volta de 360% e saiu este conto de Natal.

Tenho andado às voltas no computador e vou encontrando imensos textos, alguns nem foram publicados.

Tive conhecimento que o Grande Soldado da minha Companhia (CART 1659),  António Pais Cabral n.º 06653066 e Apontador de Metralhadora.  faleceu. Estivemos muitas vezes em Operações, nunca quis ajuda de ninguém, era um jovem com menos de 40 quilos, transportava não só a MG como fitas para a mesma e pelo menos duas granadas de morteiro. No Almoço de Confraternização compareceu, tinha 110/120 quilos e o ano passado faltou, estava num Lar.

Em 2010 este “Soldado de Barro” saiu no jornal da ADFA: – “ELO”. Assinado: Mário Vitorino Gaspar, associado nº 15159.

Podem publicar no Blogue. A minha saúde é péssima.

Um abraço para o Blogue

Mário Vitorino Gaspar



2. Um conto de Natal (23) > Zé, o Soldado de Barro 

por Mário Vitorino Gaspar, associado nº 15159


Era uma vez um velhinho, muito velhinho, de nome Pinheiro. Morava naquela olaria, também ela muito velha, herdada de seu pai, feita de pedra já carcomida pelos anos. Situava­‑se numa zona muito isolada, onde só se ouvia o chilrear dos passarinhos e o sussurro do vento, murmurando nas paredes da casa, também ela velha, longe da povoação mais próxima.

O velhinho Pinheiro vivia muito só. Perdera a mulher há uns anos. Para ele, uma eternidade. Não tinha ninguém. A sua fortuna era as mãos queimadas pelo barro quente. Fazia com elas uns pífaros, muitos bonecos e outras peças que serviam para ornamentar os presépios – jumentos, o Menino Jesus nas palhinhas, José e Maria. Vendia pouco, porque só há um Natal no ano. Assim ele vivia também de alguma coisa que retirava da terra. Pois o amigo de toda a gente boa da terra principiou a sua obra, talvez a mais grandiosa: um soldado em barro.

Os traços do rosto eram belos e os olhos grandes, saltavam daquela imponente imagem de barro. Terminada a obra, depois de noites consecutivas sem se deitar, o velhinho oleiro sentou­‑se junto daquele monumento em barro. Teria por volta de um metro e oitenta. Era um grande homem, mas estava nu.
– Ti Pinheiro, que faz? – perguntou o seu vizinho e amigo Manel, que o visitava com frequência. O sonhador Pinheiro, porque a vida também é um sonho, com ar altivo, retorquiu:
– Mane! Este é o meu soldado!
– Mas ele não está fardado, Ó Ti Pinheiro! – respondeu prontamente, com uma certa angústia no olhar.

Mirava de alto a baixo a grandiosa está­tua, que mais parecia sorrir­‑lhes com um ar inocente. O velhinho Pinheiro algo comovido, respondeu, depois de passar a sua mão direita, acostumada a moldar o barro, pela cabeça do recém­‑nascido Zezinho:
– O Chico, o filho do João da Burra, regressou há bem pouco dessa guerra em África. Quero pedir­‑lhe que me dê uma daquelas fardas manchadas de verde que eles vestem.
– Não percebo para que servem as guerras!

Apontando para o telhado com o indicador direito, baixou o braço repentinamente:
– As guerras só servem para matar os nossos rapazitos, porque aquela terra não é nossa. Olha que quem te fala sabe bem o que diz. Sou muito velho, já passei as passas do Algarve. Foram também a 1.ª e 2.ª Guerra Mundial. Nem sei às vezes quantos anos tenho. A nossa terra é aqui, esta é que é a nossa terra. O filho do João da Burra parece que vem inteiro. Agora os outros!?  Vê bem quantos desta terriola vieram na madeira dos caixões? Olha que o filho do Ti Jaquim da Ponte desapareceu lá em Angola. Coitada da mãe. Parece que morreu com o filho. E o nosso João da Burra?  Como ele andava!
– Mas se pensa desse modo, porque fez isto que diz que é um sol­dado?
– O pacato do boneco até parece ter vida – respondeu o Ti Manel algo confuso.

Sentindo­‑se questionado, sabendo ser extremamente difícil com­preender as razões que ele próprio não percebia, o oleiro levantou­‑se com certa dificuldade do banco de madeira e abraçou o imenso monte de barro moldado pelas suas mãos, também enormes:
– Sei que ninguém nesta terra me compreende. Vão saber desta minha criação, mas eu nunca tive um filho. 

Após um momento de reflexão, continuou:
– Pois este é o meu filho, é o José...

Via­‑se no olhar daquele velho oleiro uma alegria mágica, algo de inexplicável, parecendo ter retornado aos seus vinte, trinta anos. Era um homem novo e com sonhos.  A verdade era que aquele grandalhão boneco, como por artes mági­cas, começou a andar e sorriu. O sorriso ainda gaiato. Ti Manel, assustado, dirigiu­‑se para a porta daquela casa de pedra já muito velha.

Olhando para trás já sem medo, disse:
– O seu filho, o Zezinho, já anda e tem movimentos como gente.

O velho Pinheiro agarrou­‑se ao seu filho chorando. Era a sua criação, com a ajuda divina, transformado num ser humano.  Ninguém por momentos falou. Instalou­‑se um silêncio, interrompido por uma voz desconhecida, uma voz forte de quem sabe o que quer da vida:
– Ó pai! – deslocando­‑se junto do espelho velho, continuou: – mas eu estou nu, sou um soldado sem farda! 

Envergonhado, tapou o sexo com as suas mãos enormes cruzadas. A vida renascia daquele barro esculpido. Era o Zé, o Zezinho que falava. 

Aquele barro falava. Com uma incontida emoção o pai Pinheiro, não deixando de abraçar o filho que continuava com as duas mãos sobre o sexo, diz:
– Dá­‑nos essa manta que está sobre a arca!

Depois de receber aquela manta de retalhos das mãos do Manel, cobriu as costas do filho, aquela sua criação feita verdade.  O tempo foi passando e o Zé já era soldado, nascera soldado. É que ninguém deveria negá­‑lo, era um soldado de corpo e alma, e ainda por cima. Toda a gente da povoação sabia serem os moços da terra e vizinhança, na grande maioria, analfabetos.

Naquele momento era um português, igualzinho a qualquer outro só com uma pequena diferença: – fora moldado pelas mãos de artista do Ti Pinheiro e transformado em ser humano, mas soldado. Não o soldadinho de chumbo ou o Pinóquio das histórias de encantar, mas o soldado de barro do oleiro. Era de tal modo igual a um soldado, que conhecia tudo sobre os mili­tares. Marchava, tinha uma ótima preparação física, não se notando sequer o cansaço quando fazia quilómetros, e bastantes, em volta do povoado.  Falava de armas, deixando as pessoas à sua volta admiradas. É que nascera soldado. Até tinha um camuflado. 

 Gostava muito do pai e falava da mãe que não tinha. A mãe Gertrudes, esposa já falecida do oleiro Pinheiro. O velhinho Pinheiro sentia­‑se alegre e mais novo, mas por vezes punha­‑se a pensar com os seus botões:
– O meu Zé é militar, vai deixar de ser meu. Vou ter de o registar, dar­‑lhe um nome.  Tem que ir “às sortes” porque nasceu soldado. E ainda para tristeza minha, os moços daqui ficam todos apurados para o serviço militar. Quando lhe toco é realmente um ser humano. Mas há qualquer coisa que não com­preendo. Ao mesmo tempo ele é de barro. Não é como nós e, ainda por cima, nasceu soldado.

Um dia, há sempre um dia, o Zé partiu para a tropa. Fez a recruta, a espe­cialidade. Era o melhor soldado entre os soldados. Mas sempre soldado.  Só que, semelhante a outro qualquer ser vivo, não se cansava, não chorava e era disciplinado. O velhinho Pinheiro quando o via em casa, nas dispensas de fins-de-semana, questionava­‑se:
– Terei sido castigado por desejar ter um filho? Queria um filho, que a minha Gertrudes, Deus tenha a sua alma em descanso, nunca me deu. Tenho um filho que nasceu militar. Tenho um filho que é soldado.

O velhote, por um instante ficou como que paralisado.  O Zé é mobilizado para a Guiné. O velhinho Pinheiro chorou. As lágrimas caiam pelo rosto gretado, para cima do barro que amassava. Não tinha interesse pelo trabalho. O momento era péssimo, porque se aproximava o Natal e tinha muitas encomendas.

Estando em casa de licença, o Zé acompanhava o pai e tentava convencê­‑lo que tudo correria bem. Mas o velho oleiro não se conformava. Aquele rapaz não era como os outros. Era de barro, o seu amado filho. Corria o risco de se quebrar.

Foram uns dias amargos, bem amargos. O pai ficou mais ligado ao filho do que nunca. Era o seu filho, não carne da sua carne, mas também da sua carne.  Chegou o dia do embarque e o velho oleiro lá partiu para o cais de Alcântara, em Lisboa.  Esteve uns breves momentos com o seu Zé, soldado de barro. O seu filho afastou­‑se lentamente, olhando­‑o profundamente. Não chorava. Come­çaram a formar­‑se os Batalhões e as Companhias. Alinhados. Lá estava o seu Zé na formatura. Era o mais belo dos soldados, pensou o velho oleiro.

Apetecia­‑lhe gritar:
– Este é o meu filho!

Depois de algum tempo todos começam a embarcar. O barulho, um imenso barulho, instala­‑se no cais, pequeno para tanta gente:
– Meu filho!? – diz alguém repleto de angústia.

Foi o toque mágico. Os gritos não chegavam para sarar as feridas. Era um quadro difícil de explicar. Os lenços seguros nas mãos e içados nos braços, pareciam exigir misericórdia. Uma nuvem trágica de cores pintava aquele cais de medo. O velho oleiro parava no tempo olhando o barco que começava a progredir nas águas sujas, tentando ver ainda o seu Zé.

Aquela amálgama de barulho ensurdecedor partia­‑se. Ouvia­‑se dis­tintamente o grito do cais e do barco que desaparecia quase na linha do mar, bem ao fundo. O tempo passou. A ligação era o aerograma. Mas o Zé não escrevia, não sabia ler nem escrever. Era um outro soldado, também José de seu nome, quem escrevia as letras para o velhinho muito velhinho:
– Estou bem, meu pai!

Aproximava­‑se o Natal e nem uma carta. Nem sequer um aerograma. Véspera de Natal, Natal, e o José não dava notícias.

Um dia o velho oleiro, enquanto trabalhava, vê pela janela aproximar­‑se o carteiro da terra. Vinha de bicicleta na mão:
– É um telegrama! – diz o homem do correio daquela terriola:
– Dá cá! – responde o velho Pinheiro, limpando as mãos às calças sujas e segurando de imediato aquele papel branco com ambas as mãos:
– O meu Zé morreu! – diz chorando.

O muito velho oleiro morreu passados dias. Não tivera Natal. O Zé morrera na noite de Natal.

O Zé era de barro, como os outros Zés soldados, e partiu­‑se, nem os cacos se aproveitaram. O soldado de barro é sempre de barro. E o barro parte­‑se.  Por tal motivo é que existem por esse mundo fora ruas com os nomes de soldados de barro, feitos heróis esquecidos.  É de barro o soldado. Os soldados de barro dessa guerra, que ainda sobrevivem. Andam por aí feitos em cacos. Fisicamente e psiquicamente.
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Nota do editor:

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