sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Guiné 61/74 - P18303: Da Suécia com saudade (58): No dia nacional Sápmi [Lapónia], 6 de fevereiro... Recordando o(s) colonialismo(s) escandinavo(s) e russo (José Belo)





 Suécia > Sápmi [Lapónia] e samer [lapões]... O seu dia nacional é a 6 de fevereiro

Fotos do arquivo do José Belo / Tabanca da Lapónia (2018). Cortesia do autor.[Edição e legendagem complementar : Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem do José Belo, o português mais "assuecado" (ou o sueco mais "aportuguesado"...) da Tabanca da Lapónia e da Tabanca Grande

[Fotos à esquerda e direita: José Belo, ex-alf mil inf da CCAÇ 2381,Ingoré, Buba, Aldeia Formosa, Mampatá e Empada, 1968/70; cap inf ref, é jurista, vive na Suécia há 4 décadas, e onde formou família: reparte o seu tempo entre a Suécia, a Lapónia Sueca e os EUA, onde família tem negócios; tem 125 referências no nosso blogue]




Data - 2 fev 2018
Assunto - "Santos da casa näo fazem milagres"...ou...talvez pior...


Nos anos sessenta a Suécia estava na vanguarda de todas as votacöes anticolonialistas nas Nações Unidas.

O Reino Sueco contribuía com generosidades de largos milhares de Koroas anuais para tudo o que eram auxílios em material sanitário, hospitais, escolas, alimentos, viaturas, motores para barcos, etc, etc, etc.

Ao mesmo tempo que um povo autóctone habitava, desde há  mais de 2.500 anos,o extremo norte do Reino Sueco, bem dentro do Círculo Polar Árctico. Um povo cujos direitos, liberdades e outras condições sociais eram."limitadas" pelo governo central. ( Uso o termo "limitadas", para ser diplomático).

A língua local era proibida de ser usada fora do círculo familiar, querendo isto dizer em termos concretos....unicamente dentro da própria casa. Nem em documentos administrativos ou declaracões oficiais;nem nas escolas, igrejas, ou mesmo nas trocas comerciais em mercados.
O modo típico de cantar,assim como os instrumentos de música locais e cânticos radicionais, estavam proibídos.

Todas as formas artesanais representativas da ancestral religião local, fossem elas em madeira, pedra, tecidos ou peles,eram regularmente recolhidas entre as poucas aldeias locais e queimadas, normalmente junto das igrejas, em típicos "autos de fé" locais.

A mesma igreja (, considerada até há bem poucos anos parte integrante do Estado sueco), que, ao aperceber-se das oportunidades comerciais,em impostos sobre a vasta fauna, negócios de peles, carne, pesca, assim como das infindáveis riquezas  minerais, obteve do governo, (entäo empenhado em iniciativas missionárias de ocupação), a garantia de lhe ser concedida uma área circular de 10 quilómetros em volta de cada uma das igrejas por ela construídas.

À primeira vista,e tendo em conta a vastidão infindável da Lapónia, 10 quilómetros poderá fazer sorrir. Posso dar como exemplo o facto de o vizinho mais próximo(!) da minha casa estar a uma distância de 274 quilómetros  [, o equivalente ao percurso Lisboa-Faro]...

Mas, e inteligentemente, os locais escolhidos para as construções das igrejas foram sempre os mais ricos em fauna, pesca,ou minérios. E não só, pois também tinham em conta os locais de convergëncia das caravanas de renas, e de todas as feiras comerciais resultantes.

Para mais,e como todos os outros povos considerados primitivos pelo civilizador branco, os locais (näo sabendo nem ler nem escrever) näo dispunham de documentos comprovativos de posse de qualquer palmo de terra, mesmo nos terrenos tradicionalmente habitados por um povo entäo maioritariamente nómada ,acompanhando as manadas de renas em deslocaçöes contínuas de pastagens em pastagens de acordo com as estações do ano.

Assim,o tal círculo de 10 quilómetros à volta das igrejas construídas tornou-se mais "espiritual" do que material, passando a crescer (digamos milagrosamente) de ano para ano.

Desde Estocolmo o governo procurou estabelecer uma administração local com quadros de funcionários, centros judiciários, polícia,  escolas e professores, assim como alguns quarteis militares.
Obviamente que os locais, totalmente analfabetos, não tinham condições de ocupar tais cargos.
Tornou-se necessário criar condições "convidativas" para fazer deslocarem-se para a zona os quadros minimamente necessários.

Não só em termos salariais, como também em prerrogativas das mais variadas, estas eram sempre em prejuízo dos habitantes locais. Tendo em conta que a Lapónia se encontra 1.500 quilómetros ao norte de Estocolmo,e que tradicionalmente a maioria da populacão  vive ao sul da capital, não foi fácil o recrutamento para os cargos.

Numa época em que as poucas estradas existentes não eram transitáveis na maioria do ano, e o caminho de ferro ainda não tinha sido inventado, 1.500 quilómetros somados
as condiçõees extremas do Círculo Polar, fizeram com que a maioria dos que vieram a estabelecer-se não seria a "nata" da sociedade sueca de então.

Muitos ambiciosos e aventureiros na busca de fortuna rápida que acabaram por comprar por precos mais do que "simbólicos" imensidões de florestas, áreas ricas em minérios de primeira qualidade,e lucrativos entrepostos comerciais.

A maior mina europeia de ferro de primeiríssima qualidade cá está em Kíruna, a indústria de madeiras que veio a criar a gigantesca indústria de papel sueca, as companhias hidroelécticas, fornecendo energia para toda a Escandinávia e continente, só para citar algumas.

Numa outra página negra nas relacöes do governo central com a população local,(agora nos tão
próximos anos de 1940 a 1956),foi estabelecido todo um programa de estudos rácicos, enquadrado por docentes do mais alto nível universitário, médico e antropológico, centrado na famosa universidade de Uppsala, com o fim de estudar e examinar detalhadamente milhares de lapões,de ambos os sexos e de todas as idades.

Os indivíduos, completamente nus, eram fotografados em várias posições, e entre outras observações ,os crânios eram medidos meticulosamente com aparelho especial, numa busca de estabelecer "científicamente" as diferençaas entre os escandinavos e estes...inferiores.

Tudo se encontra criteriosamente arquivado em vastos volumes,acompanhados dos álbum fotográficos e de esqueletos retirados dos cemitérios tradicionais, contra a vontade dos familiares.
Toda esta documentação, obtida no mesmo período em que a Alemanha nazi efectuava estudos semelhantes, está hoje aberta aos que a queiram consultar na Universidade.

No aspecto educacional, enquanto em toda a Suécia os programas escolares eram centralizados (e iguais) quanto ás disciplinas normais europeias, na Lapónia até 1966 (!!!) o ensino liceal era todo orientado para a criação de renas e para as técnicas florestais e cinegéticas.

Aparentemente muito lógico tendo em conta as realidades locais (apesar de hoje em dia só 14% dos lapöes se dedicarem á criacäo de renas). Mas,em verdade, não dando aos locais por falta das habilitações escolares necessárias, qualquer possibilidade de acederem ás universidades ou a outro ensino técnico superior, tão necessários para empregos na Escandinávia.

E,repetindo-me...isto até ao ano de 1966! A tal década em que a Suécia tanto votava nas Nações Unidas pelos direitos dos povos...colonizados.

Hoje, 6 de Fevereiro,  é oficialmente o dia nacional Sápmi. De uma Sápmi que tem já universidades locais; um Parlamento próprio que cria as leis regionais feitas em colaboração com os Samer da Noruega e Finlândia, e com um estatuto especial reconhecido pelos governos destes países; a língua local é ensinada de novo nas escolas e usada nas cerimónias oficiais.

Dispöe de televisão e estações de rádio também locais, com programas transmitidos para toda a Escandinávia. Com bandeira a ser hasteada ao lado da sueca em todos os edifícios oficiais,ou isolada, aquando dos feriados locais reconhecidos pelo governo central.

O "ambiente de fundo" já näo é hoje o mesmo do anterior. Apesar de ainda surgirem ,de vez em quando cenas de pugilato entre jovens de famílias locais e outros de famílias "escandinavas", tanto em discotecas como infelizmente em liceus ,(näo menos... na zona norueguesa).

Como curiosidade histórica,o método usado na zona da lapónia Russa quanto á "integração" durante os tempos soviéticos foi o de retirarem as crianlças em idade escolar do seio das famílias,enviando-as para receberem educapção primária ,liceal e universitária, em zonas muito afastadas culturalmente das tradicionais.

Os mesmos só podiam regressar ás famílias depois de terminada a educacäo escola. O sistema funcionava melhor que o escandinavo no respeitante à educação escolar dos indivíduos. Mas a falta total de contacto com as famílias e tradições em todo um longo período de formação, levava a que muitos já não se sentiam "em casa" ao regressar, acabando por afastar-se de novo para outros locais, não utilizando assim, dentro das zonas tradicionaisos, os conhecimentos adquiridos.

Por este motivo é hoje difícil saber-se o número total de indivíduos deste grupo étnico  existente na Rússia, sendo todas as estatísticas "aproximadas".

Um abraço.
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Nota do editor:

Último poste da série > 8 de fevereiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18301: Da Suécia com saudade (57): Algumas coisas que um tuga tem que saber quando vier à Tabanca da Lapónia (José Belo)

10 comentários:

Tabanca Grande disse...

Etnocídio(s): é isso que todos os colonialismos fazem, e têm feito,ao longo da história... O que fez o Estado sueco (e a Igreja Nacional Luterana), em relação aos "samer" (lapões), ou os czares da Rússia e depois o estado soviético (em relação à Lapónia russa), não foi muito diferente do que outros povos "imperiais" fizeram, em maior ou menor escala: a "colonização" da América do Norte, a exterminação (física e cultural) dos povos ameríndios nos impérios sul-americanos, etc.

Todos povos têm esqueletos nos armários da sua história... Sejam eles balantas ("braza") ou lapões ("samer")...

E Viva a Tabanca da Lapónia... Muita saúde e longa vida para o seu régulo!

Anónimo disse...

José Belo

Tenho lido, sempre com muito interesse a tua " escrita ", daí da Lapónia. Fotos lindas, comentários bem interessantes. Se não me engano, parece que viveste no Estoril, antes de viajar para essas paragens ; digo isto, porque eu vivo no Monte Estoril desde sempre, e é
estranho não nos termos cruzado.
Comenta.

Um grande abraço,

Jorge Rosales

Anónimo disse...

Caro Jorge Rosales

A casa do Monte Estoril,ou Estoril,ficava situada junto à Rua dos Bombeiros e era propriedade dos meus avós maternos.
Para mim foi uma casa de férias, desde os meus verdes anos até 1958,data a partir da qual Cascais e Lisboa tomaram o lugar,devido ao colégio que frequentava (Irmäos Maristas na Artilharia Um,e posteriormente Liceu Francês). Também novas amizades que me transportaram para os "tempos livres"do Cascais do saudoso "Caixote", "John Bull", Parada,entre outros.
Apesar de näo muitos,têmos alguns anos de idade que nos separam,o que naquela altura da vida têm grande importäncia quanto aos locais frequentados,as festas, e näo menos o círculo de amizades.
Mas Tanto no Tamariz como nas Arcadas certamente nos cruzamos.

De qualquer modo, a vires até ao Círculo Polar na Lapónia Sueca,como já outros amigos de outras Tabancas de ex-combatentes o fizeram,terêmos oportunidades...à volta do meu vodka caseiro (96%)..de localizar no espaco e tempo alguns amigos comuns da nossa pré-história já infelizmente quase "Bíblica".

Um grande abraco do José Belo

Anónimo disse...

José Belo

Obrigado pela tua pronta resposta. Vivo no Monte e como deves calcular, conheço perfeitamente os locais a que te referes. Naquele tempo, o meu poiso preferido, era o " Forte Velho ", por sinal perto da Av. dos Bombeiros, junto à praia da Poça. Estudei 5 anos nos Salesianos do Estoril. Mais uma vez, digo-te que gosto imenso dos teus relatos da Lapónia.
Zé, obrigado mais uma vez, um grande abraço, do tamanho do " Forte Velho ", da Poça ao "Caixote", em Cascais.
Jorge Rosales

Anónimo disse...

Falando da Suécia

Neutra,anticolonialista,pacifista,socialista(social-democracia)....e outros istas...

Colaboracionista com o regime nazi, armamentista, produtora de material bélico de grande qualidade que vende a quem quiser comprar,e colonialista da lapónia.

Sobre a colaboração sueca na guiné..faz lembrar o rico que dá uma esmola a um pobre para aliviar a consciência.

Durante a guerra colonial contribuía com donativos para o PAIGC supostamente comprar medicamentos, e outro material sanitário, alimentos, vestuário..etc. etc. mas não tinha nenhum controle sobre como eram usados esses donativos,muito provavelmente nem estavam interessados.

Contradições quem as não tem..e no melhor pano cai a nódoa.

Um grande alfa bravo para o luso-colonizado perdão luso-lapão.

C.Martins

Anónimo disse...

E a primeira medalha de ouro dos Jogos Olímpicos de Inverno 2018...Charllot Kalla.
Originária da...Lapónia Sueca.

HEIJA SÁPMI!

J.Belo



Tabanca Grande disse...

Estamos com as minorias, bravo, Charllot Kalla... Luís Graça.

PS - C. Martins, gosto muito do meu/nosso país, com tudo o que de bom e de mau tem. Não faço um juizo tão elementar sobre a Suécia ou qualquer outro país... A minha paleta é a do arco-íris. É um país e um povo que aprendi a respeitar desde que lá fui (oito dias,em trabalho) há quase 3 décadas atrás. E pelo menos não houve granadas suecas a matar os meus/nossas camaradas na Guiné...

Anónimo disse...

Sem querer ir pelo "Deitar foguetes e apanhar as canas"



As nossa longas vidas já nos teräo demonstrado que quanto aos paraísos terrestres.....

A Suécia é a Suécia.
País que escolhi para viver,constituir família,envelhecer e,quarenta anos de "exigrado"(misto de emigrante-exilado) já lá väo.
Liberdade;Democracia; políticas discutíveis que têm sabido criar uma das mais fortes economias europeias;um apoio sistemático às famílias jovens com regalias laborais no pós parto únicas pela extencäo.
A garantia de uma educacäo totalmente gratuita(!)desde o infantário até ao fim dos estudos universitários(incluindo todos os meios necessários em material escolar) permitindo uma "mobilidade social ascendente" a tantos que,em outros países, tendo as qualidades e vontade necessárias näo dispöem de meios económicos para tal.

Näo menos,a paz que se encontra na espectacular natureza,florestas,montanhas,milhares de lagos e ilhas (Só no arquipélago de Estocolmo existem 14 mil ilhas!).Uma fauna riquíssima onde se pode dar como exemplo fácil o facto de terem que ser abatidos anualmente 70.000 alces para manter a espécie em números saudáveis.

A populacäo,em número inferior à portuguesa,ocupa uma área geográfica 14 vezes maior.
Como outro exemplo fácil: A distäncia da fronteira norte sueca à fronteira sul é a mesma que a da fronteir sul à cidade italiana de Miläo.

Mas,e mais uma vez, quanto aos paraísos terrestres,nem o facto de as suecas serem "muito dadas" os acaba por criar.

Os que vivem há décadas longe do nosso querido Portugal acabam por sentir a falta de pessoas e locais que já näo existem.
(Ou,a existirem...já näo säo os mesmos!)

Uma maldicäo que Fernando Pessoa soube bem descrever :"...o lugar a que se volta é sempre outro,
A gare a que se volta é outra,
já näo está a mesma gente,nem a mesma luz,nem a mesma filosofia..."

Boa Noite Amigos e Camaradas com um abraco do J.Belo.

Anónimo disse...

11 fev 2018, 23h57

Muito mais se pode escrever sobre os exotismos do Círculo Polar Ártico mas,em verdade, os interessados (a haver!) dispõem de quase todo o material na Net.

Estou "d'abalada" para a minha casa nos States e acabo de deixar um comentário de "Boa Noite" a todos os Amigos e Camaradas que acompanharam os postes.

Como soía dizer-se nos programas de Natal da RTP do antigamente...

-Adeus até ao meu regresso! E...um Natal com muitas Páscoas!

J. Belo

Tabanca Grande disse...

Zé, obrigado pelas lições que nos deste, de borla, sobre essa terra de mistério e magia que é a "tua" Lapónia... Já agora leva, também de borla, este poema do Miguel Torga. Pode dar-te jeito em Key West, tê-lo à mão. Apesar de "exigrado", sei que continuas a gostar "desta nesga de terra, debruada de mar"... LG
___________


Pátria

Soube a definição na minha infância.
Mas o tempo apagou
As linhas que no mapa da memória
A mestra palmatória
Desenhou.

Hoje
Sei apenas gostar
Duma nesga de terra
Debruada de mar.

Portugal (1950)
In: Miguel Torga - Antologia Poética. Coimbra, ed. de autor, [1981], p. 141.