segunda-feira, 19 de abril de 2021

Guiné 61/74 - P22118: Pequenas histórias dos Mais de Nova Sintra (Carlos Barros, ex-fur mil at art, 2ª C/BART 6520/72, 1972/74) (24): "O papagaio embriagado"...



O Periquito-massarongo [, nome científico Poicephalus senegalus], não comfundir com o Papagaio-Cinzento-de-Time«neh, em vias de extinção, nativo dos Bijagós.. Fonte: Guia das aves comuns da Guiné Bissau / Miguel Lecoq... [et al.]. - 1ª ed. - [S.l.] : Monte - Desenvolvimento Alentejo Central, ACE ; Guiné-Bissau : Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas da Guiné-Bissau, 2017, p. 43).



1. O Carlos Barros, ex-fur mil, 2ª C/BART 6520/72 (Bolama, Bissau, Tite, Nova Sintra, Gampará, 1972/74), "Os Mais de Nova Sintra", mandou-nos, em 14 do corrente, "mais uma estória para a História"...


O papagaio embriagado...


O destacamento de Nova Sintra, no sector do Quínara, estava ocupado pela 2ª CART do BART 6520, companhia “baptizada” pelos “Os Mais de Nova Sintra”, tendo no seu crachá , a imponente figura do Obélix ,em destaque.

O destacamento de Nova Sintra, desde 1972 a 1974, foi alvo de flagelações, minas, emboscadas, patrulhamentos constantes, armadilhas mas os seus militares estiveram sempre à altura e responderam com afinco e eficácia, às investidas do inimigo. Eram soldados, como muitos outros disseminados pelos recantos da Guiné, com elevado índice de coragem, com grande espírito de sacrifício e muito empreendedores tanto na mata como dentro do arame farpado, nos diversos trabalhos que lhe eram incumbidos.

Fugindo um pouco à situação belicista em que vivíamos, com a minha memória, ainda um pouco refrescada, talvez pelo orvalho desta manhã, surge mais uma “estória” real que surgiu dos empreendimentos aventurosos dos nossos companheiros de Nova Sintra.

O 1º cabo Carlos Cripto (, o António Carlos de Jesus Ribeiro,) certo dia conseguiu apanhar um papagaio, que parecia mais um emplumado periquito. Andava com esta simpática e colorida, ave ao ombro pelo destacamento, o que despertava muita curiosidade e, provavelmente, uma certa inveja, aos seus companheiros de Nova Sintra.

Os furriéis Elias (.José Pereira da Silva Elias, mecânico auto) e Mendonça (,Jorge Manuel Santos C. Mendonça, transmissões) nos seus patrulhamentos dentro do destacamento, municiados com a sempre presente cerveja ou bebida similar, foram ter com o seu amigo Carlos Cripto para fazerem umas festinhas ao papagaio.

Esta dupla de furriéis, sempre empreendedores em aventuras, pegaram na avezinha ternurenta, abriram-lhe o bico e enfiaram-lhe “whisky” pela goela abaixo, apesar do “esbracejar” do periquito…A intenção dos furriéis era ver um periquito bêbado e observar o seu comportamento!

Naturalmente, passado algum tempo, a infeliz ave nunca mais se levantou, apesar dos esforços de reanimação que tentaram fazer e o óbito foi confirmado no local e, penso que a "certidão de óbito” foi passada pelo furriel enfermeiro Tavares (, José Manuel Dias Tavares), uma certidão de óbito, digamos, virtual!

O Carlos Cripto ficou desesperado e revoltado com a perda do seu amigo papagaio , encostou-se a um canto do edifício das transmissões, serenou e anestesiou o seu nervosismo e com o seu dedo indicador ameaçou mesmo os seus companheiros, com uma queixa ao capitão Cirne (, Armando Fonseca Cirne), que, mais tarde, soube deste incidente, achou-o engraçado e com muita piada !

Como, em Nova Sintra, não havia cemitério para os animais ou aves, fez-se um enterro “voador” já que o papagaio foi lançado pelos ares para o meio do ressequido capim que abundava nas circunscrições territoriais do destacamento.


Carlos Barros
(Ex- furriel Miliciano)
BART 6520 - 2ª CART
“Os Mais de Nova Sintra”
Esposende 10 de abril de 2021


C/ a colaboração de: António Carlos de Jesus Ribeiro-Operador Cripto | José Pereira Silva Elias-Furriel mecânico |  Jorge Manuel Santos C. Mendonça-Furriel das Transmissões |  José Manuel Dias Tavares - Furriel enfermeiro.

2. Comentário do editor LG:

Carlos, papagaio ou periquito ? 

Pel tua descrição, inclino-me, com toda a segurança, para a segunda hipótese... O periquito é que era vistoso, colorido... Deveria ser um Periquito-massarongo [, nome científico Poicephalus senegalus]. 

Originalmente, os militares que chegavam à Guiné eram chamados "maçaricos" (tal como em Angola, e "checas" em Moçambique). Mas o termo foi depois substituído, e com muito melhor propriedade", por "periquito" ou "pira" (e lê-se "p[i]riquito" (O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa ainda não grafou esta aceção do vocábulo, embora ela se use há mais de meio século por nós, antigos combatentes!)...

Segundo o guia das aves da Guiné-Bissau, este periquito é uma ave que tem 23 cm de comprimento, portanto mais pequeno que o papagaio-cinzento (que tem 33 cm)... 

"O seu chamamento agudo ouve-se com frequência em zonas de savana arbórea e de floresta. Encontra-se também em zonas de cultivo com árvores e em cidades. Apesar de ser muito capturado para cativeiro, é ainda comum na maior parte do país. Observa-se aos casais ou em pequenos grupos em ramos expostos. Alimenta-se de frutos e de sementes." (Fonte: Guia das aves comuns da Guiné Bissau / Miguel Lecoq... [et al.]. - 1ª ed. - [S.l.] : Monte - Desenvolvimento Alentejo Central, ACE ; Guiné-Bissau : Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas da Guiné-Bissau, 2017, p. 43. Com a devida vénia).

Sobre o papagaio-cinzento-de-Timneh, ver aqui, na mesma fonte e na mesma página (Ilustração também de Paulo Fernandes. Reproduzido com a devida vénia.)



9 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Temos um ppste sobre esta "terminologia" de caserna militar...

14 DE OUTUBRO DE 2019
Guiné 61/74 - P20240: Pequeno Dicionário da Tabanca Grande, de A a Z (4): 2ª edição, revista e aumentada, Letras M, de Maçarico, P de Periquito e C de Checa... Qual a origem destas designações para "novato, inexperiente, militar que acaba de chegar ao teatro de operações" ?

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2019/10/guine-6174-p20240-pequeno-dicionario-da.html




Na tropa e na guerra (colonial), Maçarico era o "soldado que ainda não terminou a instrução militar", o recruta, o novato, o que acaba de chegar (ao teatro de operações) (*)...

O termo começou a ser usado em Angola, em 1961, depois estendeu-se à Guiné, sendo aqui substituído por "periquito" ou "pira"... Em Moçambique dizia-se "checa"... O termo aparece nas letras de canções do Cancioneiro do Niassa (**)
A razão de ser desta(s) designação (ões), não sei. O único vocábulo com esta aceção, da gíria militar, que vem grafado no dicionário, é "maçarico".

Tabanca Grande Luís Graça disse...

periquito | n. m.

pe·ri·qui·to
(espanhol periquito, alteração de perico, espécie de papagaio)
nome masculino

1. [Ornitologia] Designação dada a diversas aves da família dos psitacídeos, semelhantes ao papagaio, mas mais pequenas.

2. [Figurado] Topete.

3. [Brasil, Informal] Nódoa que fica na pele como resultado de extravasamento de sangue numa área onde alguém chupou. = CHUPÃO

4. [Brasil: Nordeste] Pequeno candeeiro de petróleo. = MEXERIQUEIRO


Ver também resposta à dúvida: pronúncia de periquito.

"periquito", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021, https://dicionario.priberam.org/periquito [consultado em 19-04-2021].

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Ver a resposta aum dúvida sobre a pronúncia de "periquito":

https://www.flip.pt/Duvidas-Linguisticas/Duvida-Linguistica/DID/2094

_________________

pronúncia de periquito [Fonética e Fonologia]

Gostaria de saber qual a pronúncia correcta de periquito?
Aldina (Portugal)

Ao contrário da ortografia, que é regulada por textos legais (ver o texto do Acordo Ortográfico), não há critérios rigorosos de correcção linguística no que diz respeito à pronúncia, e, na maioria dos casos em que os falantes têm dúvidas quanto à pronúncia das palavras, não se trata de erros, mas de variações de pronúncia relacionadas com o dialecto, sociolecto ou mesmo idiolecto do falante. O que acontece é que alguns gramáticos preconizam determinadas indicações ortoépicas e algumas obras lexicográficas contêm indicações de pronúncia ou até transcrições fonéticas; estas indicações podem então funcionar como referência, o que não invalida outras opções que têm de ser aceites, desde que não colidam com as relações entre ortografia e fonética e não constituam entraves à comunicação.

A pronúncia que mais respeita a relação ortografia/fonética será p[i]riquito, correspondendo o símbolo [i] à vogal central fechada (denominada muitas vezes “e mudo”), presente, no português europeu, em de, saudade ou seminu. Esta é a opção de transcrição adoptada pelo Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa e do Grande Dicionário Língua Portuguesa da Porto Editora. Há, no entanto, outro fenómeno que condiciona a pronúncia desta palavra, fazendo com que grande parte dos falantes pronuncie p[i]riquito, correspondendo o símbolo [i] à vogal anterior fechada, presente em si, minuta ou táxi. Trata-se da assimilação (fenómeno fonético que torna iguais ou semelhantes dois ou mais segmentos fonéticos diferentes) do som [i] de p[i]riquito pelo som [i] de per[i]qu[i]to.

A dissimilação, fenómeno mais frequente em português e inverso da assimilação, é tratada na resposta pronúncia de ridículo, ministro ou vizinho.

Ver também: pronúncia de ridículo, ministro ou vizinho, pronúncia de bolor

Helena Figueira, 06/11/2006

(Excertos)

Valdemar Silva disse...

Julgo que no caso do "periquito", assim chamados aos novatos chegados à Guiné, se deveu ao aparecimento dos primeiros com fardamento camuflado, que pelo seu colorido se assemelhava a um periquito.

Não percebo a necessidade do realce 'estiveram à altura'. Então houve situações de não terem estado à altura?

Valdemar Queiroz

Tabanca Grande Luís Graça disse...

A tua explicação, Valdemar, parece-me aceitável: a malta do caqui amarelo eram os macaricos, tal como em Angola. Com as primeiras fardas camufladas, na Guiné,//// os novatos passaram a periquitos (e não papagaios...). Falta uma explicação para o termo "checa" (Moçambique).

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Na época o pássaro devia ser abundante nas já era capturado pelos naturais da Guiné. ...Talvez o Cherno nos possa explicar melhor.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Espero que em Portugal esteja na lista das espécies proibidas de compra e venda. Lembro-me de ver militares na Guiné com periquitos ao ombro. Hoje temos outra sensibilidade para ver estes casos.E muito mais informação e conhecimento sobre a fauna e a flora.

Valdemar Silva disse...

Luís, isso é que é: às 03,42 e agora 10,03 a entrar na Tabanca, calhando boa terapeuta para descontrair.
Parece que checa vem dum dialeto de Moçambique e quer dizer estar de caganeira, que também passou a ser utilizado para alcunhar um novato, ou alguém sem experiência, em qualquer actividade. Por isso, talvez também eram assim alcunhados os militares chegados a Moçambique.
Quanto aos periquitos no ombro dos soldados, ainda vá, que outros pássaros não tinham essa sorte. O Cândido Cunha bem chamava de assassinos a quem se entretinha com a G3 a apurar a pontaria com tudo o que fosse pássaro poisado no arame farpado. Em Guiro Bocari havia uns pássaros rabudos de penas bonitas e de voo curto, que eram os escolhidos como alvo por se colocarem mais a jeito. Coitados, com o arame farpado a uns trinta metros e sem haver grande proibição aos tiros sem razão, eram abatidos que nem tordos.

Força contigo
Valdemar Queiroz

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Pois é, Valdemar, com esta história de ter de ir para o IPO, de manhã, "de reto limpo e cheia a bexiga", estou a tornar-me novamente mocho, como nos meus tempos de estudante e de militar...na Guiné. Ab, e obrigado pela dica sobre os "checas" de Moçambique, que desconhecia... Luís