quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Guiné 61/74 - P23531: O nosso querido mês de agosto, pós-pandémico: o que é ser português, hoje? (5): Acordei com alguma inveja de ver os meus netos, neerlandeses, partir de regresso das férias em Portugal... (Valdemar Queiroz)


Valdemar Queiroz, minhoto por criação, lisboeta por eleição, ex-fur mil, CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70; aqui, na foto, em Contuboel, 1969. 


1. Trancado em casa, em pleno agosto (aquele que deveria ser "o nosso queridp mês de agosto"), por causa da sua DPOC de estimação, desolado por ver partir os seus netos, filho e nora de volta para os Países Baixos (depois de umas sempre curtas férias em Portugal), o nosso querido amigo e camarada Valdemar Queiroz não desiste de enriquecer (ou complexificar)  as respostas à pergunta (tramada, para os portugueses) que é a de saber o que quer dizer "ser português", aqui e agora, "hic et nunc"... Aqui ficam cinco dos seus comentários de antologia:


(i) 11 de agosto de 2022 às 16:03 (*)

O que é ser português ?

Mas, depois de três dias de viagem a atravessar a França e, por não aguentar mais tempo, uma directa de San Sebastian pra chegar a Bragança. Ufff!, chegar a Portugal, e começar logo a sentir a diferença do calor, do cheiro, ver o céu azul, tudo diferente mas nunca esquecido, e ouvir 'bócê nem sabe o calor pro aqui'.

Depois, é só passar por Valverde, Vale do Porco, Vilar de Rei e chegar a Mogadouro, estacionar a autocaravana no Parque de Campismo e descansar para viajar em Portugal.

Parece que estes emigrantes dos anos 2000 já não se sentem emigrantes, antes vão trabalhar para outras paragens...mas a razão é sempre a mesma: um país com mais conventos que palácios e fábricas ter mar à porta de casa.

Assim cá chegaram os meus netos, filho e nora para passar férias vindos dos Países Baixos. (...)


(ii) 13 de agosto de 2022 às 02:13 (**)

Sempre me fez muita confusão ver os neerlandeses ir à casa de banho e não lavar as mãos. Nunca me deram uma explicação, talvez seja por causa do tempo frio.

Depois, lembrei-me de ter lido uma crónica de um estrangeiro em Lisboa no séc. XVIII,  que dizia que os portugueses parecem estar a cometer pecados a qualquer hora, estão sempre a lavar as mãos. Dizem que nos ficou do tempo dos árabes, tal como o "Se Deus quiser" (Insha' Allah") por tudo e por nada.

(iii) 13 de agosto de 2022 às 18:28  (***)

E sobre moinhos também há para escrever.

Do latin molinu apareceu o português 'moinho', que perdeu o l intervocálico e o galego 'muiño' também. Não é muito diferente do latim o espanhol 'molino', o catalão 'moli' e o francês 'molin'. Em alemão 'müle' e em neerlandês 'molen'.

Com 'moleiro', do latim molinariu, foi um pouco diferente, por em galego ser 'muiñeiro', em espanhol 'moinero', em catalão 'moliner' e em francês 'meunier'. Os alemães dizem 'müller' e os neerlandeses 'molenaar'.

Agora, o querer ir ao Restaurante "De Hoop" num moinho em Bavel (NL) e perguntar por molen, môlen, mólen, e uuuu? molin, molino, e uuuu? ah! móla,  respondeu-me a senhora indicando o caminho. 

Os vizinhos flamengos que povoaram os Açores,  também levaram para as ilhas os seus conhecimentos na construção de moinhos que ainda por lá se encontram.

Os neerlandeses, não digo os holandeses por haver moinhos sem ser nas províncias da Holanda do norte e do sul, aproveitando as suas "estradas" de água construíram moinhos de vento junto dos muitos canais que utilizam para tudo e mais alguma coisa. São uma força motriz para as mais diversas actividades.

E temos o célebre "Molin Rouge" em que as velas ao vento são as pernas em movimento das bailarinas de can-can.

PS -  Sem pretender ser um letrudo e escrever como que velas ao vento, desculpem a confusão da explicação, que não será nenhuma novidade para a rapaziada da nossa idade.


Meu caro Fernando Ribeiro:

... "Ser português ... é dar porrada na mãe" ... e o resto que eu transcrevi, são palavras de parte de um interessante texto humorístico, de Guilherme Duarte, com o título genérico "O Fado de ser Português".

O estigma dar "porrada" na mãe ficou-nos por causa do D. Afonso Henriques ter batido a mãe na batalha de S. Mamede. É o que dizem e sempre se prestou para textos de humor.

O texto completo do "O Fado de ser Português" tem frases com piada e com alguma verdade.

Abraço e saúde da boa.

Hoje acordei com alguma inveja de ver os meus netos partir de regresso das férias em Portugal. Inveja de outros os poderem ver todos os dias.

O Camões chamava invejosos aos portugueses? Só poderia ser por nos aventurarmos à procura de novas rotas das especiarias com inveja dos muçulmanos, venezianos e genoveses o fizessem no Mediterrâneo. 
Ou antes a inveja era dos outros por não serem como o D. Sebastião e o Vasco da Gama?

Ou por sermos invejáveis? Ou até, dividindo bem as orações, a INVEJA final pode estar relacionado com outro canto. não sei por nunca ter sido bom a português.

Ah, também tenho inveja não poder respirar como deve ser....talvez por ter inveja de ver os outros fumar quando tinha 15 anos !!

Inveja em neerlandês é jaloezie (lê-se: iáluzi) que quer dizer ciúmes, e invejar é benijden (lê-se: beneida).

Saúde da boa (sem invejas)
_____________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de 10 de agosto de 2022 > Guiné 61/74 - P23512: Notas de leitura (1473): Eduardo Lourenço (1923-2020): afinal, quem são os portugueses, e o que significa ser português? (José Belo, Suécia)

18 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Valdemar, temos enquanto povo algumas características do chamado "transtorno de personalidade bipolar", uma doença crônica, dizem os psis, que se caracteriza pela alternância entre dois polos, a depressão e a euforia....

Pois é, depois da "lua cheia" da primeira metade de agosto, vem o "quarto minguante"... Os dias ficam mais curtos, as férias estão a acabar, os filhso e netos regressam às Franças, às Alemanhas, às Suiças, às Inglaterras, aos Países Baixos, tudo para lá dos Pirinéus...

Tens razão numa coisa: já não somos um povo de emigrantes...Aprendemos, no duro, o sentido daquele lugar comum: "A felicidade está onde a gente a põe, mas a gente nunca a põe onde está"... Trabalhavámos como uns desalamdos em França para, com as economias, fazermos a nossa casinha na terra, melhorar a vida e trazer de volta os filhos... Depois dá-nos o badagaio, e os filhos casam em França, não querem mais voltar (a não ser em férias) e os netos já não falam português...

Olha, Valdemar, continua a estudar o teu neerlandês... sem deixares de passar, aos teus netos, a imagem de que Portugal é fixe e saber falar português é importante no mundo global...

Antº Rosinha disse...

A malta da nossa geração que para escapar ao Ultramar foi d'assalto para a França vive num dilema, com casa cá e casa lá, e na casa dos 70 e 80, a pouquinha coisa que mantem alguns cá é a proximidade do Lar de idosos da aldeia.

Os filhos e netos vão desligar-se em maioria disto, logo que os velhos desapareçam com os pés para a frente.

Alguns dos septuagenários, ainda tentaram uma casa nas praias, fora dos interiores beirões e transmontanos, a maioria aliás, para atrair os seus jovens, antes o surf que hortinha que faz calos, e isso foi uma tentativa com algum sucesso pelo menos para a vinda no verão.

Mas foi tanta a percentagem de beirões e transmontanos da nossa geração que foram para a França, e que escaparam à guerra e foi tanto dinheiro que veio e vem, que é uma pena não serem mais bem atendidos e cativados pelas autarquias moribundas do interior.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

A tragédia atual de Portugal, além da decadência demográfica (seríamos incapazes hoje de mobilizar um milhão de mancebos para a guerra do ultramar) é a litoralização... Começou no final dos anos 50 quando ainda metade da população activa vivia no setor primário (agricultura, silvicultura e pescas)...

E depois os incêndios: em 40 anos ardeu metade de Portugal...
.
.

António Duarte disse...

Confesso que gostei das tuas reflexões.
Força na escrita com humor, que para tristezas basta o telejornal.
Abraço
António Duarte
Cart 3493 e ccaç 12
Dez 71 a jan 74

Abilio Duarte disse...

Olá Valdemar,

Vejo que estiveste coma tua família neste verão. Porreiro.

Já vi que estás no WatsApp, já te mandei umas brincadeiras.

Agora , explica me, porque é que os holandeses, deixaram de ser chamados holandeses???

As tuas melhoras. Abraço

Abílio Duarte.

Fernando Ribeiro disse...

Oh, diabo! Já bebi demais! Já estou a ver o retrato do Valdemar Queiroz a dobrar...
https://grandesescolhas.com/pesquisa-de-vinhos/quinta-vale-santa-luzia-2/ (bebi isto, passe a publicidade).

Agora a sério. Antº Rosinha, a emigração portuguesa para França, Alemanha, Luxemburgo, etc., durante os anos 60 e princípios dos 70, deveu-se em parte à fuga à guerra do Ultramar, é verdade que sim. Mas isso só foi em parte, que nem sequer foi a mais importante. A maior parte dos portugueses que emigraram para Franças e Araganças fizeram-no para fugirem à miséria em Portugal. Já tinham a tropa feita (inclusive no Ultramar), para poderem voltar à Santa Terrinha sempre que quisessem, poderem gozar as suas "vacanças" junto dos seus pais, avós e demais familiares, e poderem construir as suas casas "tipo maison", que eram enormes e desconfortáveis, mas mostravam aos seus conterrâneos quanto as suas vidas tinham melhorado "lá fora". Se eles tivessem emigrado para "fugirem à guerra", não poderiam voltar a Portugal enquanto durasse o regime do Estado Novo, que parecia estar "de pedra e cal".

Anónimo disse...

Meu caro Valdemar,
Não pretendo reconfortar-te com este meu comentário, pois o que sentimos pelos nossos netos vai para além da nossa compreensão.
Pois eu também vi os meus 3 netos rumarem a Lisboa. Uma cidade da Europa cada vez (para mim), mais distante deste meu PORTO de abrigo.
O importante é que estejam bem, seja lá onde estiverem.
Tudo do melhor para ti meu bom amigo.
Joaquim Costa

Valdemar Silva disse...

Não sei a razão de raramente estar mal disposto, mal disposto no sentido de dizer 'não me chateies que isto hoje está mau', já que com o outro mal disposto dizia 'estou à rasca da cabeça'. Talvez por isso, estou a aguentar, com algum sofrimento, esta chatice da DPOC.
Eu sempre fui melhor com números que com letras, doutra forma gostava de escrever umas coisas tudo dentro do não alarmismo da treta e com um pouco de humor.
Como p.ex.: quando em Milfontes era para os pouco endinheirados e campistas, havia uma casa estilo supermercado dos campistas que tinha um anúncio "vende-se gelo fresquinho", com certeza não podia ser outra coisa diziam os clientes. Ah sim, sabe lá você se o gelo do Manel Toi não é de hoje, pode bem ser requentado,* respondia o dono.
Esta é em honra ao mês de Agosto.

Meu grande amigo Abílio Duarte
Imagina tu que te chamavam espanhol ou galego em vez de português?
Em tempos toda a Península Ibérica era a Espanha, com vários vários Reinos, de Portugal e dos nossos irmanos do catano deixaram de ser Castela e Leão, Astúrias, Galiza, Catalunha e passaram a ser Espanha, e até nós por causa do invejoso D. Sebastião passamos a ser espanhóis. Espanhol o caraças diziam os portugas eu sou português.
Mais ou menos assim aconteceu na Holanda, que se chamava e sempre se chamou Nederland, mas como foram os de Amesterdão a fundar a Companhia das Índias, que pertencia à província da Holanda, vaguearam por todo lado e ficaram sempre a ser os "holandeses" todos os seus habitantes doutras províncias. Holandês o caraças dizem os da Frísia ou de Brabante. Nós seguimos os franceses do Pays-Bas para Países Baixos, por terem sido várias províncias/cidades autónomas, mas até podíamos mudar para Nederlândia (do latim) que estava mais correcto.
Uff!!! e agora nem uma loira com espuma
Um grande abraço.

Obrigado António Duarte, para a próxima conta a história do passeio de barco a remos de um cego, um vesgo e um zarolho.

Luís Graça não me trates assim com tanto a dar nas vistas que os outros caros combatentes da guerra na Guiné podem ficar invejosos. Obrigado

Saúde da boa
Valdemar Queiroz

* requentado, queria dizer que o Manel Toi voltava a fazer gelo com a água do gelo derretido.




'

antonio graça de abreu disse...

Adoro loiras com espuma, nerlandesas, suecas, até japonesas se pintarem o cabelo. Desculpem o machismo, as mulheres, sempre lindas, não importa a cor são, como dizia Louis Aragon, são "l'avenir de l'homme.", ou seja o passado, o presente, o futuro de todos nós.

Abraço,

António Graça de Abreu

Valdemar Silva disse...

Caro Fernando Ribeiro, que raio de nome haviam de arranjar para um tinto que faz ver a dobrar. A Santa Lúcia de Siracusa deve estar a achar piada.
Há duas expressões que por cá são ditas com naturalidade: as pessoas de origem das ex-colónias dizer 'no tempo colonial' e os mais velhotes dizer fui pra França 'para fugir da miséria'.

Obrigado Costa, meu caro conterrâneo que já pisou em Afife as mesmas pedras que eu pisei em criança.
E lá foram os meus luso-neerlandeses na sua casa rolante. Os meus netos já estão crescidos e prometeram vir sozinhos visitar-me. Vamos ver.


Graça Abreu, parece que as inuítes com costela dinamarquesa são loiras com os olhos em bico, quanto à espuma não sei não, mas não é por isso que deixam de aprender português.

Saúde da boa
Valdemar Queiroz

Fernando Ribeiro disse...

Caro Valdemar Queiroz,
A Áustria tem várias províncias: Salzburgo, Tirol, Estíria, etc. Entre elas, há duas que são chamadas Áustria (Österreich em alemão), que são a Alta Áustria (Oberösterreich) e a Baixa Áustria (Niederösterreich). Contudo, qualquer vienense ou caríntio não se sente menos austríaco pelo facto de não ter nascido numa dessas duas províncias. Sentem-se todos igualmente austríacos e esta é uma questão que nem sequer se põe entre eles. Nem sequer se põe!

Eu até era capaz de aceitar que se chame neerlandês a um holandês. Agora chamarem ao país "Países Baixos" no plural é que é o cúmulo. «Ah, e tal, os franceses»... Então, se os franceses se atirarem a um poço, nós também vamos ter que nos atirar?! A palavra Nederland está no singular ou não está? Então qual é a dúvida? Está tudo doido!

Valdemar Silva disse...

Caro Fernando Ribeiro
Não sou entendido em História, apenas um curioso com algum autodidatismo.
Mas, não será muito diferente da História que isso dos Países Baixos se tenha passado com extensão do Ducado da Borgonha.
O Ducado da Borgonha ficava nas terras altas do norte da França, depois passaram a ser Senhores das terras lá de baixo Holanda, Bélgica e Luxemburgo. E foi um passo para a Holanda ser Terras=Pays d'embas=aqui de baixo, passanfo em francês/romance a Pays-Bas. Nós e os espanhóis utilizamos via francesa Países Baixos.
Mas, sempre que víamos um carro com matrícula amarela e uma identificação NL dizíamos holandeses dos Países Baixos por convencidos que a Bélgica também era dos 'Baixos'.
O país é o Reino dos Países Baixos, Nederland, e como grandes comerciantes/oportunistas que são consideraram que a Holanda não são só as províncias Holanda do Norte e do Sul, e fizeram uma grande campanha para o país se chamar Nederland.
Mas, também se tratam para inglês ver Netherlands, por acaso por cá bem se podia chamar Nederlândia como em latim
O meu neto chama-se Zee Adrianus, utilizando um diminutivo em honra ao avô e por sermos católicos. Zee quer dizer Mar, Adrianus único Papa holandês, e pronunciado Zéii à alentejano. Até existe a província da Zeeland = Terra do mar, por estar numa zona de várias pequenas penínsulas com o Mar do Norte
A primeira vez que fui à terra dos meus netos Bavel (Breda) havia festejos dos 500 anos da localidade. Por todo o lado havia cartazes '500 jaars....ONZE...' Onze?, queria dizer '500 anos temos orgulho na NOSSA terra', ONZE=NOSSA, interessante.

Uff!, mas o que é que isto tem a ver com guerra da Guiné.
Pois, pois os holandeses tentaram várias vezes tomar Bissau mas parece que não conseguiram ou não valia a pena o negócio, virando-se para o cacau de São Tomé e nós a vê-los passar. E ainda por cima protestantes de empresas privadas da Companhia das Índias, enriquecendo com o nosso cacauzinho que tanto nos custou a criar.

Saúde da boa
Valdemar Queiroz

Valdemar Silva disse...

Rectifico
...grande campanha para o país se chamar Nederland.

"Em 2019, o governo dos Países Baixos lançou uma campanha para que a nação seja mundialmente conhecida pelo seu nome correto e que o topônimo "Holanda" seja evitado para fazer menção a todo país.
Em 1 de Janeiro de 2020, a Holanda passou a ter um novo logotipo e a designar-se oficialmente por Netherlands, i.e., Países Baixos."
in Internet

"Atualmente, o símbolo usado por órgãos oficiais era o de uma tulipa com a palavra “Holland” (Holanda, em inglês). Uma escolha que, segundo um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, não fazia sentido. “É um bocado estranho promover apenas uma pequena parte dos Países Baixos, ou seja, a Holanda”, refere, citado pelo The Sydney Morning Herald."
in Observador

Parece que a questão, bem à holandesa, é em relação de como são promovidos comercialmente em inglês. Internamente o país é tratado por Nederland
p. ex.: nos seus selos postais é Nederland a identificação.

Uff!, Mas que grande preocupação e nem sequer sei ao certo de havia algum produto de origem holandesa na reção de combate.

Valdemar Queiroz

Fernando Ribeiro disse...

Caro Valdemar,
Em português, a palavra "país" não tem exatamente o mesmo significado que a palavra francesa "pays", que além de "país" também significa "região" ou mesmo "terra". Se em português tivessem posto o nome de "Terras Baixas", por exemplo, à ex-Holanda, eu não estaria aqui a reclamar e a protestar. Agora "Países Baixos" é que não! É um completo disparate, é um ridículo galicismo. Portanto, vou continuar a chamar "Holanda" à Nederland! Só para chatear.

Eu não sei como eram as rações de combate na Guiné, mas imagino que fossem mais ou menos iguais às que eu mesmo consumi nas semanas de campo aqui na Metrópole, com frutas cristalizadas, sumos Frami, etc. As que eu consumi em Angola durante as operações eram um bocado diferentes, para pior.

Uma vez, durante uma operação em Angola, abri uma lata de carne de vaca de uma ração de combate e encontrei lá dentro uma magnífica mosca varejeira morta, juntamente com a carne que, por si só, já tinha um aspeto repugnante. Uma coisa era certa: a conserva era boa, pois a mosca estava muito bem conservada... Deitei logo a lata fora com toda a força, claro. Devo ter batido o recorde do mundo do lançamento... da lata. A conserva de carne em questão tinha sido produzida por uma empresa de Benguela, de cujo nome não me recordo, nem quero recordar. Eu nem quero imaginar como seriam as condições de higiene com que as conservas daquela empresa eram fabricadas. Enfim, era como o povo diz «o que não mata engorda», e para a tropa qualquer merda era boa. Até as moscas.

Julgo que todas as conservas das rações de combate em Angola eram produzidas na própria Angola, excetuando umas latas de sumo de goiaba, que eram sul-africanas. Estas conservas de sumo de goiaba sabiam horrorosamente mal; sabiam a lata que não se podia. Ninguém conseguia beber o raio do sumo, que também era objeto de campeonatos do lançamento da lata...

Valdemar Silva disse...

Caro Fernando Ribeiro
Essa questão dos Países Baixos, só os portugueses, espanhóis e franceses assim se referem à Holanda ou melhor dizendo à Nederland que traduzido: neder=mais baixo land=país.
Nos 25 estados membros da UE, são mais os que referem Holanda do que Nederland.
A tradução do francês ainda é do tempo francês/romance, para ser no plural deveria ser Les Pays-Bas, Pays-Bas simplesmente é País-Baixo. O que eles querem é ser comercialmente The Netherdands em vez de Holland, referindo que a Holanda não são só as Províncias Holanda Norte e Sul.


As rações de combate que recebíamos, para saídas superiores a um dia ou mesmo sair cedo de manhã e voltar ao anoitecer, julgo que eram feitas na Manutenção Militar, em Lisboa.
Os soldados fulas da nossa CART11, os Lacraus, embora desarranchados também tinham direito a ração de combate nesses casos. A Manutenção Militar, ou melhor dizendo o Comando da MM, não estava informada/queria lá saber dos soldados de religião muçulmana, e por isso os nossos soldados trocavam as latas de carne por conservas de sardinha e até as bisnagas de queijo a latas leite-chocolate por serem de "leite de porca". Evidentemente três furriéis, tês 1º Cabos e um transmissões não chegava para a troca com todos.
A ração, conseguindo aquecer a carne até não era má de todo, pelo menos um dia!
Também era distribuído pão à saída que era logo consumido de imediato.
O 1º. Cabo Rochinha do meu Pelotão (julgo que já faleceu) nas primeiras saídas levava vinho no cantil, mas depressa passou a levar água por não se aguentar com a sede.

Saúde da boa.
Valdemar Queiroz

Valdemar Silva disse...

Queria dizer: The Netherlands

Valdemar

Fernando Ribeiro disse...

Caro Valdemar Queiroz,
Os seus soldados fulas faziam jejum no mês do Ramadão, apesar da atividade operacional que eram obrigados a fazer? Eu faço esta pergunta porque, numa das companhias do meu batalhão em Angola, havia um alferes moçambicano que era muçulmano. Quando chegou o mês do Ramadão, ele tentou fazer jejum no primeiro dia e teve imediatamente que desistir, porque o esforço físico extremo a que a sua atividade operacional o obrigava era completamente incompatível com jejuns. Explicou ele o seu não cumprimento do Ramadão da seguinte forma: «Deus é misericordioso e sabe que eu tentei, mas não consegui. O cumprimento do Ramadão era superior às minhas forças e poderia colocar em risco a minha própria vida. Deus não há de querer que eu morra e estou convencido de que me vai perdoar». De resto, esse alferes era um bom muçulmano e já tinha feito a sua peregrinação a Meca.

Valdemar Silva disse...

Sim, os nossos soldados fulas faziam jejum no Ramadão, principalmente os mais velhos, os putos- soldados talvez para não faltar ao respeito. Eles eram desarranchados, e quando íamos destacados em reforço para defesa de outras tabancas eles levavam as suas mulheres e bianda, não utilizavam o "refeitório" com os soldados metropolitanos. As nossas operações eram de curto tempo dois dias/uma noite e eles tinham grande capacidade de sofrimento, mas não me lembro de pormenores com alimentação/jejum do Ramadão.

Saúde da boa
Valdemar Queiroz