Guiné-Bissau > Bissau > Hotel Coimbra > 31 de março de 2026 > De novo, na Guiné-Bissau, em 2026, o nosso João Melo, aqui à direita, em primeiro plano, com a Inês Allen (ao fundo, de pé) e os "metralhas de Empada"
Escreveu o João Reis Meçlo, na sua página do Facebook, no passado dia 3 de abril de 2026, 12:41:
"A jovem Inês Allen, filha do nosso camarada e antigo combatente Xico Allen, tem com muito empenho mantido a cooperação iniciada pelo seu pai na Guiné-Bissau, mesmo após a sua ausência com principal incidência em Empada. Quis o acaso, que desta vez nos cruzássemos em solo guineense!
Estão assim todos os "Metralhas de Empada" e os "Tigres de Cumbijã" em uma sintonia perfeita.
Fica aqui um registo desse encontro, feito na passada terça-feira, 31 de março no Hotel Coimbra em Bissau. Um bem-haja a todos!"
Fotos (e legendas): © João de Melo (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
1. Postagem do nosso camarada João Melo (ou João Reis de Melo) (ex-1º cabo cripto, CCAV 8351, "Os Tigres do Cumbijã", Cumbijã, 1972/74). na sua página do Facebook, em 26 de abril de 2026, 13:38; natural de Alquerubim, Albergaria-A-Velha, distrito de Aveiro, profissional de seguros, vive em Alquerubim, Albergaria-a-Velha; integra a Tabanca Grande desde 1/3/2009.
O "Meu" 25 de Abril
por João Reis Melo
Hoje celebramos o dia em que Portugal voltou a respirar. O dia em que um povo inteiro acordou com a notícia que mudaria para sempre o seu destino. O dia em que a coragem falou mais alto do que o medo, e em que a esperança venceu o silêncio: o 25 de Abril de 1974.
A essa data, eu era militar, servia a Pátria na antiga Província da Guiné (atual Guiné-Bissau), no meio de uma guerra longa, dura e cheia de incertezas, e das quais a mais preocupante, na altura, era a possibilidade de poder não voltar.
Casualmente, estava de férias em Portugal, já com 17 meses de comissão. E foi aqui, longe do teatro de guerra, mas perto do coração do país, que assisti ao início do fim de um tempo que parecia não ter fim.
Há datas que não pertencem apenas ao calendário, pertencem à memória, à identidade e ao futuro de um país. O 25 de Abril é uma dessas datas.
O 25 de Abril trouxe-nos algo que muitos julgavam impossível: entre elas, o fim da guerra do Ultramar e o regresso da esperança.
Mas Abril não foi apenas um acontecimento militar. Foi, acima de tudo, um ato de cidadania coletiva. Foi o povo nas ruas, os cravos nos canos das espingardas, os abraços entre desconhecidos, a alegria que transbordava das janelas e das praças. Foi a certeza de que ninguém pode calar para sempre um país inteiro.
Hoje, passados tantos anos, Abril continua a chamar por nós:
- Chama-nos a defender a liberdade, porque nenhuma conquista é eterna;
- Chama-nos a proteger a democracia, porque ela vive do nosso compromisso diário;
- Chama-nos a combater a desigualdade, porque a liberdade só é plena quando chega a todos;
- Chama-nos a participar, a questionar, a sonhar, a agir.
Abril, trouxe-nos a liberdade, não só de expressão, mas de futuro. De repente, abriu-se um caminho novo, onde antes só havia desgaste, medo e resignação.
Para quem viveu a guerra, como eu, o significado foi ainda mais profundo. Foi o fim, de uma realidade pesada e o início de uma reconciliação com a vida, com as famílias e com o próprio país. Para quem esteve lá, para quem viveu o conflito por dentro, aquele dia teve um significado impossível de esquecer.
Hoje, mais do que recordar, importa tudo fazer o que esteja ao nosso alcance para que os vindouros não tenham de passar por tudo o que os seus ascendentes foram obrigados a passar.
Celebrar Abril não é repetir slogans, é assumir responsabilidades. É garantir que nunca mais haverá portugueses impedidos de pensar, de falar, de votar, de ser. É lembrar que a liberdade não é um dado adquirido: é um trabalho permanente.
É também reconhecer aqueles que, antes de nós, arriscaram tudo. Os que foram presos, perseguidos, censurados. Os que lutaram nas sombras para que hoje pudéssemos viver à luz. Os que acreditaram que Portugal podia ser maior do que o medo.
Portugal nunca poderá esquecer os cerca de 10 mil jovens portugueses que, quando se despediram das famílias, nunca imaginariam que seria a última vez. Dos mais de 20 mil feridos graves e inválidos.Dos c. 150 mil jovens que vieram e mantiveram distúrbios e sequelas psicológicas.
Também não devemos esquecer os mais de 45 mil civis e guerrilheiros dos movimentos de libertação, que perderam a vida durante os 13 anos que duraram os conflitos.
A melhor homenagem que lhes podemos prestar é continuar a construir o país que imaginaram: um país mais justo, mais solidário, mais culto, mais livre.
Eu tinha tudo para ter de odiar a terra em que me serviu de lar em ambiente de guerra, durante quase dois anos. Particular e inexplicavelmente, acontece exatamente o contrário: faço hoje, juntamente com a minha esposa Maria do Carmo, visitas quase anuais, de voluntariado junto de umas centenas de alunos das escolas da aldeia de Cumbijã, na Guiné-Bissau, onde estive estacionado a cumprir o serviço militar obrigatório.
Hoje, ainda posso sentir o cheiro daquela terra africana, quente e húmida, com aqueles odores que se entranham na alma, resultado de uma miscelânea de odores, desde as flores da goiaba, do mango e do caju, misturados com o da lenha queimada que serve diariamente de fonte de calor nas suas cozinhas. Cozinhas essas, feitas sobre três pedras poisadas no chão….
Hoje, ainda posso recordar aqueles olhares de felicidade e esperança no futuro que guardo desde poucas semanas atrás, dia em que vim de junto deles; é para mim um lenitivo para continuar e, dentro das minhas possibilidades, manter enquanto a vida me o permitir.
E porque Abril não é passado, é futuro. E o futuro constrói-se todos os dias, com cada gesto, cada escolha, cada voz.
Por tudo isto, neste 25 de Abril, deixo uns apelos simples:
- Que nunca deixemos de lutar pelos valores que nos trouxeram até aqui;
- Que nunca deixemos que o medo substitua a esperança;
- Que nunca deixemos que o silêncio substitua a palavra;
- Que nunca deixemos que a indiferença substitua a participação.
Porque naquele dia, ganhámos muito mais que o fim de uma guerra. Ganhámos um novo começo. E enquanto houver memória, verdade e coragem no coração de Portugal… o 25 de Abril nunca acabará.
Viva a Liberdade. Viva a Democracia. Viva o 25 de Abril!
Alquerubim, 25 de Abril de 2026
João Reis Melo
(Revisão/ fixação de texto, negritos,
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4 comentários:
João, tinhas tudo para odiar aquela terra...Eu também, todos nós, afinal... Durante anos, fizemos tudo para esquecer... Depois houve clique qualquer... E aqui estamos a falar uns com os outros...
Já vi que lá voltaste este ano e és o "homem grande do Cumbijã "... Aceita essa homenagem com naturalidade...
Aproveito também para saudar a Inês Allen... Admiro a sua determinação nesta causa e a sua ternura pelos pais.
.... " Que nunca deixemos...... " Pois essa é a certeza dum mundo melhor.
Abraço
Eduardo Estrela
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