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| Estátua em bronze do Bocage. Café Nicola, Rossio, Lisboa. Autor: Marcelino de Almeida (1929) |
Esta, é mais uma do Bocage, que me foi contada, se não erro, na tropa ou já na Guiné. Nunca a esqueci, passados mais de 50 anos, o que é caso raro em matéria de repertório de anedotas.
De facto, também não sou bom a lembrar-me das anedotas. Faltam-me sempre aqueles detalhes que dão o picante à(s) história(s)... É como os coentros nas ameijoas à Bulhão Pato ou nas favas soadas...ou o piri
num franguinho grelhado.
Na altura já conhecia os célebres versos do "Calafate" ou "Cantador de Setúbal", sobre "A Quinta da Panasqueira", publicados no poste P27990 (*), por via da célebre "Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica" (seleção, prefácio e notas de Natália Correia, 1965), que li clandestinamente. (Não consegui apanhar a 1ª edição, vivia na província, o livro foi rapidamente confiscado.)
Neste caso, que vou reconstituir de cor, ainda hoje desato a rir pelo absurdo e caricato da situação. É uma anedota, caro leitor, que mete, com a sua licença,... m*rda. Logo, é humor... escatológico. Mas que tem perfeito cabimento na nossa série "Humor de Caserna".
À parte o anacronismo, a anedota tem piada porque ilustra o talento de improvisador, de repentista, que a tradição oral atribui ao poeta sadino, frequentador do Botequim do Nicola, no Rossio, em Lisboa.
O Botequim do Nicola (cuja fundação remonta a 1787, em pleno reinado de Dona Maria I (que vai de 1777 a 1815) era o centro das tertúlias intelectuais e conspiratórias de Lisboa. E das rusgas da polícia (Intendência-Geral da Polícia da Corte e do Reino, criada pelo Marquês de Pombal, em 1760). O Botequim ( do italiano botteghino, diminutivo de bottega, loja), foi fundado por um italiano chamado Nicolau Breteiro, vulgo Nicola. Posteriormente o negócio foi assumido pelo português José Pedro Silva, que manteve o nome do estabelecimento.
(Fonte: Wikipedia > Café Nicola
Só tem graça porque, além da dita m*rda, mete o Bocage, um botequim e uma ventoinha de teto (ou ventilador elétrico).
Ora, este equipamento (precioso num território como a Guiné, no nosso tempo, a par do frigorífico a petróleo) só será inventada em 1882, mais de 3/4 de século depois da morte do Bocage (1805).
Portanto, há aqui um anacronismo: naquele tempo, nos finais do séc. XVIII, ainda não havia eletricidade, não podendo haver por isso ventoinhas (muito menos de teto)... Mas devia haver "buracos" para ventilação e respiradores, nos edifícios pombalinos...E isto passa-se na baixa pombalina, no Rossio...
De resto, as ruas da capital eram iluminadas por candeeiros a azeite, num sistema criado a partir de 1780 pelo intendente da polícia Pina Manique. (Depois do azeite, veio o petróleo, o gaz e finalmente a eletricidade; o funcionário camarário que acendia e apagava os "lampiões", antes da iluminação elétrica, eram os "vaga-lumes", popularmente mais conhecidos como "caga-lumes").
À parte o anacronismo, a anedota tem piada porque ilustra o talento de improvisador, de repentista, que a tradição oral atribui ao poeta sadino, frequentador do Botequim do Nicola, no Rossio, em Lisboa.
O Botequim do Nicola (cuja fundação remonta a 1787, em pleno reinado de Dona Maria I (que vai de 1777 a 1815) era o centro das tertúlias intelectuais e conspiratórias de Lisboa. E das rusgas da polícia (Intendência-Geral da Polícia da Corte e do Reino, criada pelo Marquês de Pombal, em 1760). O Botequim ( do italiano botteghino, diminutivo de bottega, loja), foi fundado por um italiano chamado Nicolau Breteiro, vulgo Nicola. Posteriormente o negócio foi assumido pelo português José Pedro Silva, que manteve o nome do estabelecimento.
O cliente mais mais conhecido na época foi o nosso poeta, de seu nome completo Manoel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), de ascendência francesa, cuja vida, aventurosa e boémia, mas também militar e literária, ainda hoje está mal documentada: sabe-se, por exemplo, que foi oficial da marinha de guerra, andou pela Índia e pelo Brasil, até começar a ter problemas com a Inquisição e a polícia do Intendente Pina Manique...
José Silva, o proprietário do Botequim do Nicola, terá sido uma espécie de mecenas do poeta, apoiando-o na fase terminal da sua vida, com o poeta já doente e pobre.
O Botequim, mais tarde Café Nicola, continuou a ser um ponto de encontro de escritores, jornalistas e políticos, atravessando vários regimes e épocas. Sofreu remodelações ao longo do tempo. Na II Guerra Mundial, foi um dos cafés de Lisboa onde se misturavam refugiados, escritores, espiões e polícia política.
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Retrato gravado a buril e água-forte por Joaquim Pedro de Sousa. Fonte: Wikipedia |
Em 1929, a fachada foi redesignada pelo arquiteto Manuel Norte Júnior. Foi também inaugurada uma estátua do poeta, em bronze, da autoria de Marcelino de Almeida.
Em 1935, o interior foi modernizado em estilo Art Déco, pelo arquiteto Raul Tojal, com pinturas a óleo de Fernando Santos (1892-1965) que retratam cenas da vida de Bocage.
Estas intervenções deram ao Nicola o aspeto que ainda hoje se pode admirar, sendo atração turística, "loja histórica" e património da cidade de Lisboa.
O Café Nicola, enquanto marca, também se expandiu: no fim do século XIX e início do XX, abriram filiais em várias cidades portuguesas (como Coimbra e Figueira da Foz), e hoje existem 13 cafés e quiosques com o nome Nicola em Portugal (incluindo a minha terra, Lourinhã).
(Fonte: Wikipedia > Café Nicola
2. Mas vamos à anedota (*): num dia de calor, estava o Bocage no Nicola com o seu grupo de tertúlia, mesmo no centro da sala.
Entrou um sujeito, a correr, "muito à rasca" (sic), a perguntar ao empregado onde era a "caganeira"... "Ao cimo das escadas", respondeu maquinalmente o "garçon". O sujeito subiu as escadas já com as calças na mão. Mas, com a atrapalhação, não deu com a retrete. Aliviou-se no primeiro buraco que encontrou...
Desceu as escadas, mais descontraído, e a assobiar, enquanto ajeitava calmamente as calças e a jaqueta... Mas, para seu espanto, havia um reboliço enorme de mesas e cadeiras, com os clientes a fugirem para a rua, aos berros.
O cheiro tornou-se insuportável e, ao sentir o odor, e sobretudo ao levar com os salpicos de m*rda na cara, no cabelo e na camisa (branca) de janota, o Bocage levantou-se de um salto e declamou, alto e bom som, em cima de uma mesa, estes versos em redondilha maior que ficaram para a história:
Pelo cheiro não é fruta,
Nem p'la cor é farinha,
Quem foi o filho da puta
Que cagou na ventoinha?!
Desceu as escadas, mais descontraído, e a assobiar, enquanto ajeitava calmamente as calças e a jaqueta... Mas, para seu espanto, havia um reboliço enorme de mesas e cadeiras, com os clientes a fugirem para a rua, aos berros.
O cheiro tornou-se insuportável e, ao sentir o odor, e sobretudo ao levar com os salpicos de m*rda na cara, no cabelo e na camisa (branca) de janota, o Bocage levantou-se de um salto e declamou, alto e bom som, em cima de uma mesa, estes versos em redondilha maior que ficaram para a história:
Pelo cheiro não é fruta,
Nem p'la cor é farinha,
Quem foi o filho da puta
Que cagou na ventoinha?!
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Nota do editor LG:


1 comentário:
Depois de uma noite de patuscadas no café Nicola, Bocage regressou a casa a pé, na Travessa André Valente, no Bairro Alto. A casa ainda existe. Na escuridão da noite foi assaltado, o ladrão apontou-lhe uma arma e perguntou-lhe:
"Quem és? De onde vens, para onde vais'"
Bocage respondeu:
"Sou o poeta Bocage,
venho do Café Nicola
e vou para o outro mundo
se disparas a pistola."
abraço
António Graça de Abreu
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