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terça-feira, 5 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27990: Humor de caserna (261): "Apalpar a fruta" (neste caso, a "papaia"...)

Guiné > Zona Oeste > Região do Oio > Mansoa > BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) >   O alf graduado capelão, padre José Torres Neves, a "apalpar a fruta", neste caso, a papaia, que ainda estava verde... 

Em segundo plano , parece-nos ser o  padre franciscano Júlio do Patrocínio, da missão católica de Santa Ana de Mansoa (fundada oficialmente  em 1953). 

 O Ernestino Caniço diz que não lhe parece que seja nem um nem outro, o seu amigo  José Torres Neves (hoje missionário da Consolata, reformado, à beira dos 90 anos) nem  o Júlio do Patrocínio.  Deviam ser então dois graduados, à civil, da CCS/BCAÇ 2885, presumimos nós.

Guiné > Região do Oio >  Mansoa > CCS/BCAÇ 2855 (1969/71)  > O alf mil Pires (à esquerda), com o oficial de dia (em segundo plano) e o alf graduado capelão José Torres Neves,  examinando a "cobiçada" AK-47 dos "turras")


Fotos do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.

Fotos (e legendas): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. A expressão “apalpar a fruta”, com a sua inequívoca conotação brejeira, veio-me à ideia ao revisitar esta fotografia: dois militares à civil, em Mansoa, junto de uma papaieira generosa, um deles em gesto que não deixa de convidar ao duplo sentido. (Podiam ser o "nosso capelão" José Torres Neves, de costas e óculos escuros, mais o pároco de Mansoa, mas o Ernestino Canioço diz que não...)

De qualquer modo, a foto foi tirada pelo então jovem capelão castrense José Torres Neves, da CCS/BCAÇ 2855, de quem temos vindo a divulgar um notável espólio da Guiné (cerca de 400 fotografias). Hoje, missionário aposentado, à beira dos 90 anos, foi testemunha atenta, e sensível, de um tempo duro.  Na outra fotografia, vemo-lo a examinar uma AK-47 apreendida aos guerrilheiros do PAIGC: um padre entre a cruz e a espingarda, entre o cuidado das almas e a materialidade da guerra.

Mas voltemos à “fruta”, à "papaia"...(que em português são duas das dezenas de expressões do calão para a genitália feminina, a par de "catota", em crioulo da Guiné-Bissau).

A expressão levou-me a recordar um poeta popular do século XIX, analfabeto, calafate de profissão, natural de Setúbal, de resto conhecido como o "Calafate" ou o "Cantador de Setúbal": António Maria Eusébio (1820-1911). Dele nos ficaram alguns dos mais saborosos exemplos da nossa poesia erótico-satírica mas também jocosa, na melhor tradição popular que já vem das medievais  "cantigas de escárnio e maldizer".

Não por acaso, um dos seus poemas mais conhecidos foi selecionado pela Natália Correia para a sua célebre Antologia da Poesia Erótico-Satírica Portuguesa (1966), obra que o regime de António de Oliveira Salazar tratou de rapidamente proibir. 

Num país onde até o riso e a malícia eram policiados, aquela antologia foi uma pedrada no charco e uma lufada de ar fresco. A 1º edição esgotou-.se antes que a PIDE lhe pudesse pôr a mão em cima.

Recordo bem o escândalo da época: livros apreendidos, moral oficial ofendida, zelo censor muitas vezes exercido por servidores do regime, incluindo militares que serviram connosco no CTIG. 

Tudo isto num contexto em que a sociedade portuguesa vivia sob uma capa de puritanismo hipócrita, enquanto a vida real seguia, como sempre, outros caminhos (recorde-se o escândalo dos "Ballet Rose" , em finais de 1967, cuja denúncia  levou o advogado e politico da posição Mário Soares á prisão em Caxias e depois ao desterro, em São Tomé).

É também por isso que esta série  “Humor de Caserna” faz sentido: porque, mesmo em contexto de guerra, os homens (e algumas mulheres, as enfermeiras  paraquedistas) do CTIG souberam preservar algo de essencial, que era a capacidade de rir, de insinuar, de jogar com as palavras, de não perder a humanidade.

Já aqui em tempos tinhamos scrito, em comentário ao poste P4065 (*): 

(...) O humor (temperado q.b.) era, na Guiné, na BA 12 ou em Bambadinca, o nosso talismã, a nossa mezinha, o nosso amuleto mágico, o nosso cinto de segurança, o nosso cordão detonante, a nossa "droga"... contra as balas de amigos e inimigos, contra a costureirinha, contra a Kalash, contra o RPG, contra o Strela (ainda não o havia no meu tempo, sou mais velhinho do que tu, Miguel...), contra o tédio, contra o desânimo, contra o medo, contra a desesperança dos dias, contra as abelhas, contra os mosquitos, contra o cozinheiro, contra o vagomestre, contra o sargento, contra o RDM, contra o capitão, contra o comandante, contra o Com-Chefe, contra os que, de um lado e do outro, glorificavam a guerra e a a morte, enfim,  contra Deus e contra o Diabo.(Passe a blasfémia, que nalguns países de fundamentalismo religiso daria pena de morte!) (...)

E retomando a expressão “apalpar a fruta”… com licença do dono ou da dona, que o respeitinho continua a ser muito bonito (e o riso ainda é mais!)... 

Para quem não conhece o "Calafate" (já aqui de resto  citado, na caixa de comentários ao poste P4065 (*), publicamos hoje, na montra principal do blogue, os divertidos versos sobre “A Quinta da Panasqueira”, pequena obra-prima de malícia e engenho.

Que tristeza era então, a de um país, ou melhor, de uma elite dirigente, beata, balofa, hipócrita, inquisitorial, falsamente puritana, que tinha acabado, em 1963, de mandar fechar as "casas de passe" e de pôr fim à proibição do casamento das... enfermeiras (que vigorava desde os anos 40).

A famosa Antologia, da Natália Correia, foi uma pedrada no charco e uma lufada de ar fresco numa sociedade que precisava cada vez mais  de respirar o ar fresco da liberdade...que só virá oito anos depois.
.

A Quinta da Panasqueira

por António Maria Eusébio, o "Calafate"

Mote

Fui apalpar as gamboas
Que a quinteira tem na quinta,
Já tem marmelos maduros,
O seu bastardo já pinta.

Glosa

Sou mestre na agricultura,
meu saber ninguém disputa,
gosto de apalpar a fruta
quando está quase madura…
Gosto do que tem doçura;
Quero e gosto das mais pessoas
para apalpar coisas boas
da quinta da Panasqueira,
com licença da quinteira,
fui apalpar as gamboas.

Por toda a parte que andei,
dei cambalhotas e saltos,
depois de apalpar pelos altos,
pelos baixos apalpei.
Por toda a parte encontrei
fruta branca e fruta tinta;
para que a dona não se sinta
nunca direi mal da boda,
apalpei a fruta toda
que a quinteira tem na quinta.

Neste tão lindo arvoredo
não há fruta como a sua,
foi criada em boa lua
para amadurecer mais cedo.
Menina, não tenha medo
que os seus frutos estão seguros,
ou sejam moles ou duros
todos a têm em estima,
na sua quinta de cima
já tem marmelos maduros.

Tem uma árvore escondida
Num regato ao pé de um poço,
que dá fruta sem caroço
chamada gostos da vida.
Dessa fruta pretendida
que a menina tem na quinta,
se acaso tem uva tinta
a menina dê-me um cacho,
que na sua quinta de baixo
o seu bastardo já pinta.

A resposta da quinteira

Mote

Fui apalpar os tomates
que tinha o meu hortelão,
mostrou-me o nabal que tinha,
meteu-me o nabo na mão
.


Glosa

Sou mestra na agricultura,
tenho terra para cavar,
gosto sempre de apalpar
se a enxada é mole ou dura.
Ser amiga da verdura
não são nenhuns disparates;
enchi alguns açafates
de tomateiros de cama
depois de apalpar a rama
fui apalpar os tomates.

As sementes tomateiras
nascem por dentro e por fora
semeiam-se a toda a hora
dentro de fundas regueiras.
Tão brilhantes sementeiras
dão gosto e satisfação.
Dentro do meu regueirão
dão-me as ramas pelos joelhos
que tomates tão vermelhos
que tinha o meu hortelão!

Só de vê-los e apalpá-los
faz andar a gente louca
faz crescer água na boca
e a língua dar estalos.
Meu hortelão tem regalos,
tem hortaliça fresquinha
no vale da carapinha
tem um tomateiro macho,
abriu-me a porta de baixo
mostrou-me o nabal que tinha.

Tinha grelos e nabiças,
tinha tomates graúdos,
tinha nabos ramalhudos
com as cabeças roliças.
Tão brilhantes hortaliças
meteram-me a tentação;
era franco o hortelão,
deu-me uma couve amarela
para me dar gosto à panela,
meteu-me o nabo na mão.

(Versos brejeiros e satíricos,
cantigas para guitarra).


Fonte: Antologia de Poesia Erótica e Satírica Portuguesa - Selecção, prefácio e notas de Natália Correia, 3ª ed. Lisboa: Antígona / Frenesi, 1999. [1ª ed., 1966],pp. 278-281. (com a devida vénia...)

(Revisão / fixação de texto: LG)

________________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 21 de março de 2009 > Guiné 63/74 - P4065: As Nossas Queridas Enfermeiras Pára-Quedistas (7): Os tomates do Capelão da BA 12, Bissalanca... e outras frutas (Miguel Pessoa)

(...) No meu tempo na Guiné, os tomates do capelão da BA12 eram muito cobiçados, muito por culpa das nossas enfermeiras pára-quedistas que, sempre que podiam, faziam uma colheita na horta que o padre A... mantinha junto à igreja da Base.

Era generalizada a opinião, entre quem deles se servia, de que os tomates do nosso capelão, embora pequenos, eram sumarentos e saborosos e enriqueciam qualquer salada. E sabe-se o gosto que o pessoal tinha por tudo o que lhe lembrasse a metrópole. E era vê-los a "deitar abaixo" uma saladinha feita com tomates fresquinhos, acabadinhos de apanhar. (...)

20 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Teve alguma notoriedade local, regional e até nacional, o poeta popular setubalense António Maria Eusébio, "O Calafate" (1820-1911).

(i) nasceu a 15 de dezembro de 1820 e morreu a 22 de novembro de 1911 (portanto, viveu durante toda a monarquia constitucional);

(ii) tinha por ofício o calafeto de barcos no Sado;

(iii) embotra analfabeto, criava de improviso cantigas sentimentais, brejeiras, jocosas ou satíricas, que eram acompanhadas à guitarra;

(iv) fazia também outros tipos de letras que podiam ser de homenagem a pessoas por quem nutria admiração, ou ainda, pro ocasião de festas e procissões;

(v) quando já lhe não foi possível continuar o seu trabalho de calafate, e não tendo outro meio de subsistência, "as suas canções foram editadas e vendidas em folhetos, por ele próprio e pelos amigos durante ocasiões festivas e comemorações religiosas, tanto na região de Setúbal, como noutras";

(vi) muita da sua produção literária era "conservada através dos amigos que memorizavam rimas suas ou então as escreviam";

(vii) o "o Calafate" acabou por atingir uma "grande notariedade"; diversos jornais (como o "Jornal de Setúbal", em 1868, difundiram as suas criações poéticas; em 1901, foi publicada uma compilação dos seus versos, juntamente com algumas notas biográficas e um prefácio elogioso de Guerra Junqueiro, em edição da niciativa do general Henrique das Neves; durante as comemorações da morte do poeta Bocage, em 1905, foram editados em folheto, versos de António Maria Eusébio, dedicados ao grande poeta de Setúbal;

Fonte: adapt de e-cultura.pt | Centro Nacional de Cultura, com a devida vénia...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Hélder, ribatejano de nascimento, setubalense por empréstimo, engenheiro e provedor do blogue:

Por certo que conheces este poeta popular setubalense...Um "discípulo" do Bocage, mesmo não sabendo ler nem escrever...Tem rua na tua nova terra...Quando nasceu (em 1820), o Bocage já tinha morrido 15 anos antes...

O Bocage, mestre do Calafate ? Para quem "não sabia ler nem escrever", o Calafate tinha uma matemática intuitiva na cabeça, que só podemos classificar de genial. Como outros poetas populares, nomeadamente alentejanos, ele dominava a estrutura da décima (estrofes de dez versos) e a arte de glosar o mote com uma precisão cirúrgica!

Fui apalpar as gamboas
Que a quinteira tem na quinta,
Já tem marmelos maduros,
O seu bastardo já pinta.


E a resposta da quinteira, da Quinta da Panasqueira;

Fui apalpar os tomates
que tinha o meu hortelão,
mostrou-me o nabal que tinha,
meteu-me o nabo na mão.


Parece fácil, senhor engenheiro...Mas, manter a rima e a métrica (em redondilha maior, de sete sílabas métricas), é um trabalho de engenharia poética que muitos doutores por extenso nunca conseguiriam alcançar...

E depois o que torna esta poesia popular uma verdadeira obra de arte é o facto de ela ser... marota, pícara, brejeira, sem nunca ser porca, pornográfica. É o humor refinado do povo.

Repara: A Quinta da Panasqueira é "inatacável"... Os coronéis da censura do Estado Novo, a menos que tivessem "mentes perversas" (e tinham!) é que seriam capazes de cortar este texto, no nosso blogue.

O poeta ("hortelão) e a "quinteira" utilizam a metáfora agrícola de forma brilhante. Tudo ali é botânica, agricultura e jardinagem: as gamboas, os marmelos, a uva "bastardo", os tomates, as regueiras, o nabo, o nabal...

Quem quiser ler apenas a história de uma horta e de um pomar, tem ali um tratado de agricultura familiar (!)

.Mas, claro, o sorriso de orelha a orelha de quem lê, vem daquela "segunda leitura" óbvia, marota, pícara, cheia de sensualidade. É o erotismo camuflado de folclore, onde a "porta de baixo" e a "quinta de cima" ganham uma geografia emocional muito própria. É, quanto a mim, erotismo do melhor!...E isso não escapou à Natália Correia...

E depois tens outra coisa que me surpreendeu: a resposta da quinteira é um assombro de "igualdade de oportunidades". O "Calafate" estava longe de ser um machista, um misógino.. Mostra que a mulher na poesia popular não era um sujeito passivo; ela responde com o mesmo tom, a mesma estrutura impecável, o mesmo vigor satírico e uma audácia que rivaliza perfeitamente com o Calafate. Se ele foi "apalpar as gamboas", ela não ficou atrás, foi "apalpar os tomates"...Bolas, isto foi escrito há 130, 150 anos ou mais...E não a "fruta" e os "legumes" desta quinta não perderam frescura...

O "Calafate" herdeiro do Bocage ? Talvez, a herança espiritual, o génio satírico, a procura de liberdade, enfim, a "escola" de Bocage estavam de tal forma impregnados nas ruas, nas tabernas, nos cais, nos barcos do Sado e nos estaleiros de Setúbal, ao longo do liberalismo do séc. XIX, que seria impossível ao Calafate não beber dessa fonte.

Hélder, gostava de saber mais versos dele...Vê se descobres por aí... E, tu que és o provedor do blogue, diz-me lá se não é uma peça de bom "humor de caserna" para ilustrar a foto, do padre Zé Neves Torres, a "apalpar a fruta" (neste caso, a "papaia"). Ele ou outro dos nossos "tugas" de Mansoa..Não me admirava nada que aparecessem críticas a denunciar a "libertinagem" do nosso blogue...

Alberto Branquinho disse...

Luís
Ainda é cedo para o Helder poder responder, mas aproveito para dizer que, embora conhecesse parte dos versos, não sabia que eram do Calafate.
Por outro lado, não sei sabes da existência da palavra "Panasqueira" como o nome de umas minas existentes no distrito da Castelo Branco.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Em 30/12/1968, a RPTdeu a notícia da cerimónia de inauguração do busto do poeta sadino António Maria Eusébio (1820-1912), conhecido como Calafate, da autoria do escultor e arquitecto Castro Lobo, no Parque do Bonfim, em Setúbal. E mostrou o busto e os versos que foram inscritos no monumento.. Infelimente, o vídeo (1'38''), a preto e branco, é mudo (está disponível em RTP Arquivos).

Sinopse: "Populares assistem à cerimónia e aplaudem; individualidades discursam; Peres Claro, bisneto do poeta, e Luísa Claro Braga, neta do homenageado, descerram o busto; busto; inscrições na base da estátua; copa de árvore."

Inscrição no monumento dedicado "Ao Cantador de Setúbal", e que é um verdadeiro testemunho de vida e de sabedoria:

"Nunca fui mal procedido,
Nunca fiz mal a ninguém,
Se acaso fiz algum bem,
não estou disso arrependido.
Se mau pago tenho tido,
são defeitos pessoais.
Todos seremos iguais
no reino da eternidade.
Na balança da igualdade
Deus sabe quem pesa mais."

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Em 30/12/1968, a RPTdeu a notícia da cerimónia de inauguração do busto do poeta sadino António Maria Eusébio (1820-1912), conhecido como Calafate, da autoria do escultor e arquitecto Castro Lobo, no Parque do Bonfim, em Setúbal. E mostrou o busto e os versos que foram inscritos no monumento.. Infelimente, o vídeo (1'38''), a preto e branco, é mudo (está disponível em RTP Arquivos).

Sinopse: "Populares assistem à cerimónia e aplaudem; individualidades discursam; Peres Claro, bisneto do poeta, e Luísa Claro Braga, neta do homenageado, descerram o busto; busto; inscrições na base da estátua; copa de árvore."

Inscrição no monumento dedicado "Ao Cantador de Setúbal", e que é um verdadeiro testemunho de vida e de sabedoria:

"Nunca fui mal procedido,
Nunca fiz mal a ninguém,
Se acaso fiz algum bem,
não estou disso arrependido.
Se mau pago tenho tido,
são defeitos pessoais.
Todos seremos iguais
no reino da eternidade.
Na balança da igualdade
Deus sabe quem pesa mais."

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Há diversos poemas do Bocage, eróticos, satíricos ou jocosos, que lhe são indevidamente atribuídos... O mesmo se passa com as anedotas. Mas estas ainda hoje, passados mais 220 anos da sua morte, que fazem as nossas delícias... Como, por exemplo, esta:

Conta-se que um frade, indignado com os versos libertinos, licenciosos, anticlericais, de Bocage, o confrontou um dia:

— Senhor Bocage, o senhor não tem vergonha de escrever essas obscenidades?

Ao que Bocage retorquiu:

— Padre, e o senhor não tem vergonha de as ler?

Piada: É o truque clássico, de passar de acusado a acusador... O poeta não assume a culpa, antes a devolve interlocutor (e ao leitor).

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Esta também é deliciosa, o onselho que o Bocage dá a um jovem poeta:

Cheio de ilusões, o jovem poeta pede conselhos a Bocage sobre a forma como alcançar a fama. Bocage, sempre cínico, cáustico,. sarcástico, resumiu-lhe a fórmula:

— Escreve mal, vive pior, e morre cedo. Assim, serás imortal!

Piada está na sátira à posteridade literária... Como se a fama "post mortem" (como a do Camões ou do Fernando Pessoa, e do próprio Bocage) fosse um prémio de consolação para uma vida mal vivida.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Esta também é deliciosa, o onselho que o Bocage dá a um jovem poeta:

Cheio de ilusões, o jovem poeta pede conselhos a Bocage sobre a forma como alcançar a fama. Bocage, sempre cínico, cáustico,. sarcástico, resumiu-lhe a fórmula:

— Escreve mal, vive pior, e morre cedo. Assim, serás imortal!

Piada está na sátira à posteridade literária... Como se a fama "post mortem" (como a do Camões ou do Fernando Pessoa, e do próprio Bocage) fosse um prémio de consolação para uma vida mal vivida.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

É talvez um dos nossos escritores (afinal, mal conhecidos, mal lidos, mal tratados...) em que a lenda supera a obra ... As anedotas do Bocage, verdadeiras ou não (como sabê-lo, hoje ?!), são parte do mito que o rodeia!

Muitas delas têm um toque de humor negro ou irreverente, típico do seu estilo de vida boémio, libertário, marginal, transgressor.

Esta, da Marquesa, é uma obra-prima de humor:

Há um poema satírico, que lhe é atribuído (tenho que confirmar), sobre uma marquesa que, diziam as más línguas, tinha amantes de todas as idades. Num dos versos, Bocage terá escrito:

"A Marquesa tem um gosto esquisito:
Gosta de verde… e de maduro!"

Onde está piada ? No jogo de palavras entre "verde" (jovem, inexperiente) e "maduro" (experiente, com "tarimba")... É um exemplo do seu humor erótico, sem nunca ser explícito, tal como nos versos do Calafate que publicamos neste poste.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Mas a resposta ao futuro Dom João VI também merece destaque:

D. João VI, ainda príncipe regente, no Rio de Janeiro, terá perguntado a Bocage:

— Oh, Bocage, porque é que o senhor não escreve como o Camões?

E o Bocage, sem se intimidar nem pestanejar:

— E Vossa Alteza, porque é que não reina como D. Sebastião?

Tabanca Grande Luís Graça disse...

E, por fim, para acabar por hoje... Esta tétrica, pungente...~

Numa altura em que está miserável, no catre, doente e pobre, perguntam-lhe:

— Oh, Bocage, não tens medo de morrer?

Apo que ele responde:

— Morrer? Não. O que me assusta é que me enterrem vivo!… Porque com esta fome e estes miasmas que me devoram o corpo, até os vermes me hão de fugir, com nojo de mim...

Piada: Puro humor negro misturado com a autodepreciação, típica de quem viveu quase sempre à beira do abismo.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

I. Obrigado, Alberto, nunca lá fui, mas sei que as Minas da Panasqueira são ainda hoje uma referência na história da nossa indústria mineira...

Conheço alguma coisa do setor, fiz um estudo de caso sobre a Somincor - Minas de Neves Corvo, em Castro Daire... (mais exatamente sobre a política de saúde e segurança no trabalho, nos anos 1990).

A Panasqueira fica nos concelhos de Fundão e Covilhã.

(...) É uma mina que labora há 120 anos de maneira praticamente ininterrupta, com forte impacto na identidade, história e sociedade actual da Beira Interior. É também uma referência no sector do volfrâmio à escala mundial, não só pela qualidade e volume de produção, duração e capacidade de adaptação da exploração; mas também pela maturidade das soluções técnicas tanto a nível da mina como a nível de processamento do minério.

Os principais minérios lá explorados são o volfrâmio, o estanho e o cobre.(...)


II. Significado e origem da palavra:

panasqueira
(pa·nas·quei·ra)

substantivo feminino

1. Terreno onde cresce panasco. = PANASCAL, PANASQUEIRO

2. [Popular] Terra sertaneja e pouco civilizada.

3. [Portugal: Trás-os-Montes] Nevoeiro; cerração.
etimologia Origem: panasco + -eira.

"panasqueira", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2026, https://dicionario.priberam.org/panasqueira.

Eduardo Estrela disse...

Tive na infância um amigo que andou na primária comigo cujo nome de família era Panasqueira.
E já agora Luís. Rectifica o teu comentário SFF.
Minas de Neves Corvo, como tu melhor que eu sabes, é no concelho de Castro mas o Verde.
Abraço
Eduardo Estrela

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Pois, claro, Eduardo, Castro Verde!...Há Castro Daire por detrás da serra de Montemuro, mas é quando eu estou em Candoz. Na Lourinhã, vejo a serra de Montejunto. Em Alfragide, a serra de Sintra... Bolas, troquei a geografia... Peço desculpa aos nossos geógrafos emocionais...

Anónimo disse...


‪‪‪Virgílio Teixeira‬‬‬‬ (by email)
5 mai 2026 17:51

Nova noticia para mim!

Desculpem me a minha ignorância, Bocage todos conhecem ´

# Eu sou o Bocage

Venho do Café Nicola

e vou para o outro mundo

se disparais a pistola #

Calafate é uma arte na construção de barcos e Naus de madeira.

Exemplo em Vila do Conde, com a Nau Quinhentista ancorada na Doca para visitas.

Quando lia este e-mail, estava a dar na RTP2, uma notícia dos calafates na arte dos barcos dos descobrimentos.

Aqui há muitas referências a CALAFATES, seja nome de pessoas, alcunhas, e nome de ruas e outras exposições.

Quando aqui cheguei em 1969, ainda assisti às construções de barcos e as obras dos calafates!

Estava longe de saber o nome do cantor de versos e cantares à desgarrada entre homens e mulheres!

São muito interessantes a mistura de humor e sensualidade...

Gostei muito de ler isto e vou procurar mais, usando a minha Nora que é Técnica de Alfândegas e museus.

Vou indagar.

O Hélder, agora homem de Setúbal, do famigerado Mourinho, deve saber ou procurar mais informações.

A ligação ao capelão a apalpar a fruta [à moda do Porto] até pode ser interessante.

Até logo

Virgílio Teixeira

Tabanca Grande Luís Graça disse...

calafate
(ca·la·fa·te)

substantivo masculino

1. Operário que calafeta ou veda com estopa alcatroada as juntas de navios, aduelas, tampos de pipa, etc.

2. [Botânica] Planta arbustiva (Berberis ruscifolia) da família das berberidáceas.

3. [Ictiologia] Peixe perciforme (Umbrina cirrosa), da família dos cienídeos, de corpo comprido, ligeiramente achatado lateralmente e prateado, com borda posterior do opérculo preta e nadadeira caudal triangular, encontrado em águas atlânticas costeiras de pouca profundidade, junto de fundos rochosos e arenosos. = CALAFATE-DE-RISCAS, CORVINA, VIÚVA

4. [Ornitologia] Ave passeriforme (Padda oryzivora) da família dos estrildídeos, endêmica da Indonésia. = PARDAL-DE-JAVA

5. [Brasil: Rio de Janeiro] Vento forte de leste junto à costa.

etimologia Origem: etimologia duvidosa.

"calafate", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2026, https://dicionario.priberam.org/calafate.

(negritos e itálicos: LG)

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Não sou bom a contar anedotas, ao vivo, à volta da mesa...É uma arte. Mas gosto de as escrever e recriar... Esta, é mais uma do Bocage, que me foi contada ou li há muitos anos, e de que nunca me esqueci...Ainda hoje desato a rir pelo caricato da situação,

É uma anedota, caro leitor, que, com a sua licença, mete merda, logo, é humor... escatológico. Com a ventoinha (ou ventilador eléttrico), que só será inventada em 1882, tem mais graça. Mas o Bocage morreu em 1805. ..Portanto, há aqui um anacronismo: naquele tempo não havia eletricidade, não podendo haver portanto ventoinhas... Mas havia ventilação e respiradores, nos edifícios pombalinos...

Àparte o anacronismo, a anedota tem piada porque ilustra o talento de improvisador, de repentista, que a tradição oral atribui ao poeta sadinom frequentador em Lisboa, do Café Nicola.

O local ou o cenário era o Nicola, no Rossio, em Lisboa. Ou melhor: o Botequim do Nicola (cuja fundação remonta a 1787). Era o centro das tertúlias intelectuais e conspiratórias de Lisboa. E das rugas da polícia (Intendência-Geral da Polícia da Corte e do Reino, criada pelo Marquês de Pombal, em 1760).

O Café Nicola foi fundado por um italiano chamado Nicolau Breteiro, conhecido como Nicola. Posteriormente o negócio foi assumido pelo português José Pedro Silva, que manteve o nome do café. O cliente mais mais conhecido foi o nosso poeta, de seu nome completo Manoel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805). José Silva, o proprietário do Café Nicola, terá sido uma espécie de mecenas do poeta, apoiando-o na fase terminal da sua vida, com o poeta já doente e pobre.

O café continuou a ser um ponto de encontro de escritores, jornalistas e políticos. Adquiriu o aspecto atual em 1935, quando foi reconstruída em estilo Art Déco segundo planos do arquiteto Raul Tojal. Desde então, algumas pinturas a óleo do pintor Fernando dos Santos (1892–1965) mostram cenas da vida de Bocage. O Café Nicola é hoje uma das atrações turísticas e património da cidade de Lisboa.

(Fonte: Wikipedia > Café Nicola

Mas vamos à anedota: num dia de calor, estava o Bocage no café com o seu grupo de tertúçia, mesmo no centro da sala . Entrou um sujeito, a correr, "muito à rasca", e a perguntar ao empregado onde era a "cagadeira"... "Aoo cimo das escadas", respondeu maquinalmente o "garçon" O sujeito subiu as escadas já com as calças na mão. Mas não deu com a retrete.. Aliviou-se no primeiro buraco que encontrou...

Desceu as escadas, mais aliviado, e a assobiar... Mas, para seu espanto, havia um reboliço de mesas e cadeiras, com os clientes a fugirem para a rua...

O cheiro tornou-se insuportável e, ao sentir o odor, e sobre tudo ao levar com os salpicos de merda na cara, no cabelo e na fatiota (branca) de janota, o Bocage levantou-se de um salto e declamou, alto e bom som, estes versos em redondilha maior que ficaram para a história:

P'l cheirada não é fruta,
Nem p'la cor é farinha,
Quem foi o filho da puta
Que cagou na ventoinha?!

Alberto Branquinho disse...

Ih! Ih! Eh! Ah! Ah! Ah!
Com esta, hoje vou dormir melhor.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Hélder, obrigado pelas dias que já me mandaste sobre o "Calafate"... Mas há uma ligação ao fado que me interessa conhecer...Isto deve estar documentado aí Setubal... Li na Net, via IA, que:

(i) ficou célebre por cantar o fado nas tabernas e ruas de Setúbal, acompanhado à viola por Josué Ferreira (seu compadre) e à guitarra portuguesa por Francisco de Jesus, conhecido como "Carga d'Ossos";

(ii) o seu estilo era satírico, jocoso e erótico-satírico, tradição que remonta às cantigas de escárnio e maldizer;

(iii) embora não escrevesse, os seus versos eram memorizados e, mais tarde, transcritos por amigos ou pela neta:

(iv)em 1901, o general Henrique das Neves publicou "Versos do Cantador de Setúbal", com prefácio de Guerra Junqueiro;

(vg) há o legado dele em Setúbal: a sua vida e obra foram recentemente destacadas em exposições na Biblioteca Pública de Setúbal; além disso, o seu nome está imortalizado na toponímia da cidade, com uma rua e uma pracetA...

Ainda sobre o fado em Setúbal no tempo do "Calafate": o fado que Calafate cantava era um "fado vadio", de rua, de taberna, de improviso, partilhando memórias da cidade e sendo uma forma de "jornal falado" da época.

Estudei o "fado vadio" no Bairro Alto, em 1978... Ou o que restava dele...Com a "gentrificação" do bairro, mataram tudo, a começar pela memória... A tasca onde eu ia, a "Princesa da Atalaia", deve ser agora loja de moda feminina...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Helder, obrigado pelas "dicas'... Queria eu dizer..

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