
Guiné-Bissau > Bissau > Quintal do "nosso embaixador" Patrício Ribeiro > Abril de 2026 > Uma papaieira (árvore caricácea que produz a papaia, nome científico Carica papaya). Há uma linda papaia madura (parece-nos, pela cor): impensável ser exposta, para venda, na banca de qualquer grande superfície cá do "Puto"... É como a batata-raiz-de cana, feia, rugosa, de olhos virados para dentro, difícil de cascar (aliás, coze-se com a pele), "anormal", por isso, "perdeu valor comercial" e deixou-se de cultivar... Mas hoje é produto "gourmet". O mercado é cruel... para os "pobres, anormais, feios, porcos e maus"...
Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
Papaia é a mais pequena, mamão a maior... são variedades da espécie Carica papaya...
Foto (e legenda): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
1. Papaia ? Mamão ? Ou papaia e mamão ? Vejamos a prova dos nove: o mercado é que faz os preços... e a língua as palavras. Mas a ciência tem também uma palavra a dizer Neste caso, a botânica...
De qualquer modo, nada como ir ao sítio onde se compra e venda estes frutos tropicais... que vêm do outro lado do Atlântico, o Brasil, o 2º maior produtor mundial (com destaque para os estados do Espírito Santo e Bahia).
A principal diferença está no tamanho e em pormenores como a forma, o sabor e a cor. No Brasil chamam mamão formosa ao fruto maior, e mamão papaia ao mais pequeno. O fornecedor é a Ftutana, uma conhecida grande empresa grossista do Brasil.
Em Portugal, o termo mamão designa as variedades maiores de Carica papaya (como o grupo Formosa). Ao fruto mais pequeno, em forma de pera, chama-se papaia propriamente dita (ou do tipo Solo).
Em Angola e Moçambique, o termo papaia é mais comum, enquanto no Brasil domina o vocábulo mamão. Em Cabo Verde e Guiné-Bissau, usa-se a palavra papaia. Nos PALOP começou-se a usar o termo mamão por influência brasileira. De resto, também encontrei, no hipermercado, mamão do Algarve, Mais pequeno que o brasileiro mas ao mesmo preço.
Duas curiosidades:
(i) uma, histórica: a papaia foi levada para a África e Ásia pelos portugueses e espanhóis durante a era dos Descobrimentos (a primeira "autoestrada" da globalização); e, hoje, países como a Índia e a Tailândia são grandes produtores;
(ii) outra, botânica: a Carica papaya é dioica (há plantas macho, fêmea e hermafroditas); os cultivares comerciais são hermafroditas (para produzirem frutos sem polinização cruzada).
2. Fui ao Auchan do Alegro, Alfragide, passe a publicidade, e constatei que, na banca da fruta tropical, havia, ontem, a seguinte oferta:
(i) mamão ("Papaya formosa", na etiqueta) (via aérea, Brasil) a 4,59 € / kg, pesando cada unidade cerca de 1,4/1,7 kg;
(ii) papaia (pequena, de tipo Solo) (via aérea, Brasil) a 4,79€ / kg, pesando cada unidade c. de 350/450 gr.
Há uma diferença de 20 cêntimos, que não sei explicar, e que pode ser apenas diária ( dependendo de campanhas de promoção, aspeto da fruta, etc.).
Só compro papaia às vezes, para saladas... E em dias de festa... É um luxo, para mais num país como o nosso que tem tanta variedade e riqueza de fruta ao longo de todo o ano, da pera rocha aos figos, dos morangos às clementinas, do melão à melancia, das romãs às laranjas, das uvas às maçãs, das ameixas às castanhas, das nêsperas aos alperces, em esquecer as frutas subtropicais e até tropicais da Madeira e Açores, bem como do Algarve... (O abacate. por exemplo, está a tornar-se o "ouro verde" do Algarve, com exportações crescentes para a Europa; e a Alfarroba, camaradas ? O antigo "chocolate do pobre", que também era comido por burros e cavalos, é hojé produto "gourmet": antigamente, a alfarroba era usada como substituto do cacau, hoje é usada em chocolates finos, gelados e até cerveja.)
Voltando à papaia (e ao mamão)... Comparei, pesei... e fotografei. Não comprei, nem provei...
Os dicionaristas podiam aproveitar estas subtilezas da vida real (introduzidas pela globalização) e não dizer apenas que a papaia e o mamão são sinónimos... Enfim, a língua é felizmente sempre maior, mais complexa, mais dinâmica, mais viva, mais rica que todos os dicionários juntos. A vida passa a perna aos lexicógrafos, aos dicionaristas, aos botânicos, aos produtores, aos grossistas, aos consumidores...
Botanicamente, tanto o mamão (grupo Formosa) como a papaia (mais pequena, muitas vezes chamada de mamão tipo Solo) pertencem todos à mesma família, e à mesma espécie: Carica papaya.
- grupo Formosa: esta variedade distingue-se por ser maior e mais pesada (pode chegar aos 2kg ou 3kg), ter uma polpa mais firme e uma casca mais resistente, o que o torna ideal para transporte (casca mais dura, e por isso é mais exportada);
- além do tamanho, mais alongado, tem polpa alaranjada e sabor suave;
- o nome Formosa está ligado à ilha de Taiwan (antigamente chamada Formosa), onde foram desenvolvidos muitos dos híbridos que consumimos hoje, como o famoso Tainung nº 1.
4. A diferença é a mesma em relação, por exemplo, à maçã bravo-de-esmolfe e a maçã reineta, são variedades distintas, embora ambas pertençam à mesma espécie botânica (nome científico: Malus domestica Borkh).
Onde estão as deiferençsa ? São cultivares (variedades) diferentes: a maçã bravo-de-esmolfe (DOP); é uma variedade tradicional portuguesa, autóctone da região de Penalva do Castelo, conhecida pela sua polpa branca, macia, doce e muito aromática; a maçã reineta é geralmente mais ácida, firme e muito utilizada na culinária.
_________________
Onde estão as deiferençsa ? São cultivares (variedades) diferentes: a maçã bravo-de-esmolfe (DOP); é uma variedade tradicional portuguesa, autóctone da região de Penalva do Castelo, conhecida pela sua polpa branca, macia, doce e muito aromática; a maçã reineta é geralmente mais ácida, firme e muito utilizada na culinária.
Outro exemplo: o ananás e o abacaxi (que comiamos bastante na Guiné). A espécie é a mesma (Ananas comosus, nome científico).
O ananás (dos Açores e da Madeira, por exemplo) é mais arredondado, cultivado em estufas, colhido ao fim de 18 meses: o da Madeira mais doce e aromático (cultivado em estufas de vidro) (DOP); o dos Açores, mais ácido e perfumado (cultivado em estufas de pedra vulcânica). (Parece haver uma rivalidade amigável entre as duas regiões autónomas sobre qual o melhor ananás do mundo...)
O abacaxi, cultivado ao ar livre em climas tropicais (como na Guiné-Bissau), é tipicamente mais doce e alongado, com polpa amarela.
Uma pergunta final ao leitor: se o mamão e a papaia (ou o ananás e o abacaxi) são a mesma espécie, porque é que o mercado os trata de forma diferente? Será que, no fundo, a língua e a economia são também 'cultivares' da mesma realidade?
(Pesquisa: LG + Net + IA / Le Chat Mistral AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto: LG)
Nota do editor LG:
Último poste da série > 4 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27985: Em bom português nos entendemos (31): Carica papaya: Papaieira, mamoeiro, papaia, mamão, ababaia...
Último poste da série > 4 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27985: Em bom português nos entendemos (31): Carica papaya: Papaieira, mamoeiro, papaia, mamão, ababaia...





4 comentários:
Não será a designação "supermercadense" que nos poderá tirar dúvidas quanto à correcta designação dos produtos que tenham à venda...
A alfarroba, antes de estar "na moda", a maior parte dela era dada aos burros quando não apodrecia no chão (que a "comia").
Não foi só a "papaia-mamão" que os movimentos marítimos portugueses de Seiscentos dispersaram pelo mundo; talvez o mais visível seja o coqueiro.
Nomes, palavras, coisas... modas, como um "Acordo Ortográfico" que, legalmente falando, nem sequer está em vigor.
A fruta mais cara (mais exibível!) é a que, em cada momento, estiver "na moda".
È como a história da batata-raiz-de cana... Que passou a estar na moda, depois de "praticamente extinta" na minha terra...
Mas, Alberto, ainda não a encontras nas "grandes superfícies"...Era comida dos pobres, no meu tempo de menino e moço, era usada na matança do porco (sarrabulho), na batatada de peixe seco...É uma batata, feia como o caraças, com "os olhos virados para dentro, têm de ser cozidas com a pele"...Mas têm um sabor único...Até há pouco era exclusiva da Lourinhã, havendo 3 ou 4 produtores.
Para quem quiser saber saber mais sobre #batataraizdecana... Tiro o quico ao Raul Reis que "salvou" aquela que pode ser a batata mais antiga da Europa, trazida pelos portugueses do Novo Mundo...
Existirão, no mundo, mais e 7, 5 mil variedades (cultivares) de maçã "registadas"... Para prová-las todas, comendo todos os dias uma diferente, eu levaria mais de 20 anos da minha vida...
Esta incrível diversidade deve-se a uma característica genética da macieira, a sua espantosa "heterozigosidade"... O que quer dizer o palavrão ? As sementes de uma maçã quase nunca produzem uma árvore igual à "mãe", daí o aparecimento, ao longo do tempo e nos diferentes lugares, de novos híbridos e variedades locais.
A heterozigosidade é a condição em que um indivíduo possui dois alelos diferentes para um determinado gene (ex: Aa); é um indicador fundamental de diversidade genética populacional, frequentemente associado a maior capacidade adaptativa e saúde; valores altos indicam alta variabilidade, enquanto a baixa heterozigosidade sugere endogamia.
Enviar um comentário