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segunda-feira, 6 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27894: Notas de leitura (1911): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 2 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Tenho para mim que estas cartas entre pais e filhos, e as memórias que deixaram, possuem um natural encanto e abrem uma nova janela à investigação. Julguei à partida que se tratava de uma incursão original, acabo agora de saber, por email recebido do Dr. João Horta, da Biblioteca da Liga dos Combatentes que há investidas precedentes, a saber: «Nós, os filhos da Guerra» referente a memórias de Frederico Valarinho, Âncora Editora, e «Sobretudo a Agonia – Angola, Memórias de uma Guerra Íntima» da autoria de Celso Braga Rosa, Edições Afrontamento. O livro Querido Pai, ainda vai dar pano para mangas, depois atiro-me a estas duas obras aqui referidas. Se porventura o leitor conhecer mais iniciativas desta índole, peço-lhe a amabilidade de me indicar o título e a editora.

Abraço do
Mário



Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 2

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

Damos seguimento às conversas já havidas com Albano Mendes de Matos e José Afonso da Silva Neto, entra agora na nossa sala de conversa Hernâni Pereira da Silva Anjos, foi oficial do Quadro Permanente, a filha mais nova, Alexandra, refere o pai como pessoa com grandes interesses culturais e intervenções literárias. Fala do casamento dos pais que se tinham conhecido na Índia, era então capitão, já tinha feito uma comissão em Macau. A filha não consegue encontrar a razão pela qual o pai ficou sete anos na Índia.

Hernâni é promovido a major e mobilizado para Angola, parte com a família em 1964. Quatro meses após o regresso a Angola é mobilizado para a quarta comissão, em Moçambique, a família já não o acompanha. Ao longo da comissão vai escrevendo à filha tratando-a sempre por “minha muito adorada filhinha”, diz coisas como estas: “Tu ainda te lembras de mim? Sabes como eu me chamo? Lembras-te das brincadeiras que eu tinha contigo? Sabes tu, minha filhinha, que eu ando com os vossos retratinhos no bolso e todos os dias os vejo várias vezes?” Hernâni adoece e é internado, o hospital militar deteta, na sequência de problemas de coração será evacuado para Lourenço Marques e depois para Lisboa. Quando chega, Alexandra é avisada na escola “Pego na pasta e já fui, de bata vestida. Cheguei e estava lá aquele homem, para mim era um estranho. É tudo relativo para uma criança, um ano é uma eternidade, quanto mais dois.”

Segundo a filha, o pai chegou a ser violento com a mulher, houve divórcio, o pai morreu depois de uma operação ao coração. Após a morte da mãe, Alexandra ficou com uma pequena caixa de madeira onde estão guardadas as cartas que os pais trocaram entre si. Alexandra não teve coragem para as ler.

Temos agora a história de Mário Umberto Faria pela narrativa de seu filho Paulo, escritor e tradutor. "Sempre Excelentes e Valorosos" são as palavras que definem a divisa do Batalhão de Caçadores 1939, constituído por 632 homens incluindo três médicos milicianos e um capelão. Um dos médicos é Mário Faria, o destino é Moçambique. Mário parte com 29 anos e deixa a família em Lisboa, três filhos pequenos e a mulher grávida.

A Companhia de Caçadores 1798, a que pertence Mário, parte para Muôco, Mário permanecerá em Moçambique 796 dias. Observa Paulo:
“O meu pai escrevia muito à minha mãe. E a minha mãe escrevia muito ao meu pai. Escreviam muito, talvez duas mil cartas e aerogramas. Pelo que a minha mãe me contou, ficou tudo guardado num saco, um saco enorme que estava na dispensa da casa onde nós morávamos. E, numa dada altura, mudámos para este prédio, onde hoje ainda moro. Nessa mudança, pelo que a minha mãe me contou, estavam a arrumar a casa e a certa altura a minha mãe apercebe-se de que o meu pai sai. Ele sai e ela tem um pressentimento e vai à dispensa ver o saco. O saco já não estava lá. O meu pai, sem dizer nada pôs o saco no lixo. O meu pai já devia ter decidido, na cabeça dele, que queria virar aquela página, não queria que ninguém visse aquilo.”

Segundo Paulo, o pai escrevia para todos sem distinção dos filhos, escrevia com muita frequência, e vai identificando sempre o lugar onde está e data a correspondência. Enumera os presentes que compra para os filhos, deles vai recendo notícias. Faz desenhos na correspondência. E o pai regressa, e Paulo rememora. Existe a história da unidade e Paulo conversou com os homens da Companhia a que o pai pertenceu.

Mário nunca falou a sós com o filho sobre a guerra. Voltando ao assunto da destruição das cartas, Paulo observa: “Ele deve ter contado coisas que o impressionaram muito, o suicídio do tal soldado, provavelmente ter-lhe-á contado a história da consulta que fez e dos seus remorsos… E, portanto, ele não queria que alguém fosse depois ler aquilo, queria contar a história à sua maneira, com distanciamento e com calma. Era uma pessoa que se controlava, um homem de ferro, só o vi comovido no funeral da mãe, foi a única altura.”

Paulo ficou com as agendas do pai, e assim pode ler que Mário vacinou centenas de nativos contra a varíola, anotava quantas unidades de vacina ele recebia na Companhia, e quando se deslocava aos aldeamentos para as administrar. Foi nessas agendas que Paulo soube do soldado que se suicidou. Mário escreveu na agenda, na circunstância: “Dia mais negro da comissão até agora. Sinto-me o mais infeliz dos homens por me ver metido nesta porcaria. Poderei vir a esquecer o dia de hoje?”. Mário nunca foi aos almoços de confraternização com os militares da sua Companhia ou do Batalhão. Paulo começou a ir após a morte do pai. Aquele médico, como muitos outros, estava numa posição sempre difícil, havia muita gente a querer que ele os livrasse de irem para o mato.

Quando a conversa termina, Paulo arruma as fotografias dispersas, reúne as agendas e os papéis que mostrara e diz às autoras: “A guerra, no fundo, foi uma maneira de chegar ao meu pai. Digamos assim, foi uma espécie de atalho. Quando o meu pai morreu, percebi que tinha de escrever sobre ele.”

Iremos seguidamente falar de Abílio Santiago Cardoso, oficial de artilharia, com três comissões e de Amável Velez Serra que se alistou como voluntário aos 19 anos de idade, concluiu a escola do Exército.

Ana Vargas e Joana Pontes
A família de Albano de Matos. A neta Inês, a mulher Judite e a filha Rita, assunto que se abordou no texto anterior, fotografia do jornal Expresso, com a devida vénia

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 30 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27872: Notas de leitura (1909): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 3 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27885: Notas de leitura (1910): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (9) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27893: Esposas de militares no mato (7): Teixeira Pinto, ao tempo do Francico Gamelas, ex-alf mil cav, cmd Pel Rec Daimler 3089 (1971/73) - Parte III


Foto nº 1 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto


Foto nº 2 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto >  Maio de 1973 > Casa  de tipo colonial, situada na avenida. Em primeiro plano, a Maria Helena Gamelas, a um mês de regressar à metrópole, já grávida.


Foto nº 3 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto >  Janeiro de 1972 > "Extremo norte da Avenida. Dentro do perímetro da estátua a Teixeira Pinto, o alf mil  Francisco Gamelas e o alf mil Joaquim Correia Pinto, meu camarada de quarto. Nesta zona situavam-se as casas de comércio de libaneses." (Pela data, janeiro de 1972, o Joaquim Correia Pinto deveria pertender à CCS/BCAC 3863 (1971/73).


Foto nº 5 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Janeiro de 1972 >  Extremo Sul (à saída do aquartelamento) da avenida de Teixeira Pinto (Vd. foto nº 4) . Na abertura para a direita, a 50 metros, ficavam os correios, com serviço de telefone


Foto nº 6 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Junho de 1972 > Saída de Teixeira Pinto para o Pelundo (a nordeste de Teixeira Pinto).



Foto nº 7A e 7 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Janeiro de 1972 > "Cine Canchungo, situado no início da avenida, próximo do Quartel, sobre a via ascendente (esquerda), numa praça que se abria entre o Cine  e a Casa da Assembleia do Povo, edifício paralelo a este, sobre a esquerda da fotografia. A antiga vila foi elevada a cidade pelo Ministro do Ultramar, Silva Cunha,  em 24 de julho de 1973."


Foto nº 8 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Janeiro de 1972 > "A 'oficina' do Pelotão Daimler,  É visível o 1º cabo mecânico David Miranda que fazia o 'milagre de manter as viaturas sempre operacionais. 

"Chegámos a ter  duas ou três Daimlers, vindas da sucata de Bissau, para  'canibalizar'. Ao trabalho do Miranda muito ficou a dever o sucesso do Pelotão". (Em segundo plano, "a casa do chefe da PIDE/DGS".) 


Foto nº 9 > Lisboa > Cais da Rocha do Conde de Óbidos > 11 de outubro de 1973 > O regresso do Pel Rec Daimler 3089 > Da esquerda para a direita,  José Eduardo Alves,  Gonçalo Garcia Pedroso, David da Silva Miranda, Lino Pereira Barradas, Manuel Lucas dos Santos, José Gabriel Caloira...


Foto nº 10 > Lisboa > Cais da Rocha do Conde de Óbidos. > 11 de outubro de 1973 > O regresso do Pel Rec Daimler 3089  > Da esquerda para a direita, Manuel Teque da Silva, Ademar Peres Marques, Luís Soares da Silva e Fernando Cândido Silva.

No regresso do Pel Rec Daimler 3089, faltam o Alberto da Conceição (que também viajou connosco mas não ficou nesta foto de grupo), o José Matos (evacuado para a metrópole na primeira metade da comissão), o Manuel Ferreira (que substituiu o José Matos, e que ficou ainda lá, a completar o tempo de serviço) e o 1º sargento Rui Baixa (que ficou na Guiné).

Fotos (e legendas): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. O Francisco Gamelas foi um dos nossos camaradas que casou e levou a esposa, a Maria Helena (ou Lena) (*), para o "mato", neste caso Teixeira Pinto, sede de circunscrição (equivalente a concelho, vila elevada a cidade em julho de 1973), onde já havia algum cheirinho de civilização: por exemplo, um cinema, uma escola, um posto médico,  ruas alcatroadas, algumas casas comerciais,  electridade (de gerador), lavadouro público, etc.

De seu nome completo, Francisco António da Costa Vieira Gamelas,  nasceu em Aveiro, em 1949, formou-se em engenharia eletrotécnica (ISEP, 1969), esteve na Guiné, em Teixeira Pinto, em 1971/73, como alf mil cav, a comandar o Pel Rec Daimler 3089, ao tempo do BCAÇ 3863, do CAOP1  e da 35ª CCmds.
 
Depois de reformado (foi quadro superior da PT),  tem-se dedicado à escrita, à poesia e ao ensaio histórico-sociológico: 
  • "O apelido Gamelas: um património histórico e sociológico de Aveiro" (2009); 
  • "Lavradores do Vilar ou o casamento inter-pares como estratégia de sobrevivência" (2014) (ambos publicados pela ADERAV - Associação para o Estudo e Defesa do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro);
  •  "Outro olhar - Guiné 1971-1971" (a sua "primeira incursão nas áreas da poesia e da crónica".
Vive em Aveiro. Entrou para a Tabanca Grande em  19/5/2016. Tem cerca de 6 dezenas de referências no blogue.


Capa  do livro de Francisco Gamelas ("Outro olhar - Guiné 1971-1973. Aveiro, 2016, ed. de autor, 127 pp. + ilust.   


2. Neste seu livro, "Outro olhar - Guiné 1971-1973",  pode encontrar-se uma detalhada descrição da Teixeira Pinto daqueles tempos (pp. 16 e ss-.)

(...) "Implantada na planície, a meio da metade litoral norte da Guiné, entre os rios Cacheu, a norte, e Mansoa, a sul, mais próxima do último e dele recebendo a visita das suas águas na bolanha (...), a sua parte nobre e mais recente desenvolveu-se a partir da abertura de uma larga avenida em linha recta, com orientação aproximada norte-sul, que ligava o primitivo aldeamento do Canchungo ao quartel erguido a sul do povoado, a cerca de seiscentos metros de distância. 

"O quartel albergava as sedes de uma batalhão [o BCAÇ 3863] e de um CAOP [1]. Este com uma companhia de forças especiais - comandos [a 35ª CCmds]. 

"Na avenida, ou a ela chegados, sediavam-se os serviços disponibilizados, próximos do quartel. (...) 

"De ambos os lados erguiam-se casas de habitação de aspecto colonial, tendencialmente as melhores da cidade. Que me recorde, em nenhuma delas habitava uma família nativa". (...)


3. O Francisco ainda se lembra do nome da sua lavadeira, a Aline (**): era uma verdadeira "instituição", pertencente à "cavalaria", passava do velhinho "alfero das Daimler" para o periquito que o vinha render... 

Dedica-lhe inclusive um ternurento poema, "A minha lavadeira Aline" (p. 54), que voltamos a reproduzir  a seguir.

O autor também tem inclusive, no livro, duas fotos da sua "Aline" com a sua "Lena"... 

A Maria Helena Gamelas, quando chegou a Canchungo, também herdou muito naturalmente a Aline... E, calhar, lá em casa, a Aline também fazia o resto da lide doméstica, já que a Maria Helena era.professora de português na escola local, não era apenas a senhora do senhor alferes...

Curioso, noutros territórios como Angola ou Moçambique, havia maior tendência para recorrer aos homens para os serviços domésticos... Caso dos "mainatos", em Moçambique, que lavavam e engomavam a roupa... 

Sabemos que muitas das nossas praças, no TO da Guiné, ganhando mal, não se podiam dar ao luxo de ter uma lavadeira (poderia custar 50 a 100 pesos por mês)... Muitos lavavam a sua própria roupa, que também não era muita... Sempre poupavam patacão... para a cerveja. 

E ao fim da comissão (se durasse até ao fim da comissão), a roupa  estava feita em farrapos,de tanto uso e de tanto ser batida na pedra da margem do rio...Aliás, velhinho que se prezasse andava com o camuflado todo esfarrapado e desbotado...

Por outro lado, havia graduados, privilegiados, que tinham morança fora do quartel... Em Bissau, em Bambadinca, em Bafatá, em Teixeira Pinto, em Nova Lamego e em muito poucos mais sítios, por razões de segurança... Nalguns casos eram casados e podiam ter uma "empregada doméstica", como o caso do Francisco e da Lena...
 

A minha lavadeira Aline

por Francisco Gamelas

A Aline “herdou-me”.
(Para uma nativa, um nome estranho.
Deveria ser investigado.)
Eu estava designado
no testamento, num desenho
a propósito: um periquito. Contou-me

o alferes que fui substituir
que também tinha sido “herdado”.
A Aline era uma instituição.
Geração após geração
houve sempre o cuidado
de se lhe atribuir,

desde o seu tempo de bajuda,
o alferes das Daimlers.
Bonita tradição.
E por que não
se, entre todas as mulheres,
ganhou o posto sem ajuda?

Fui eu quem ganhou
com a “herança” da Aline.
Presença bem esmerada,
roupa sempre limpa e asseada,
é a manjaca que define
o seu sentir do que “herdou”.

Francisco Gamelas

In: "O
utro olhar - Guiné 1971-1973",
ed. de autor, Aveiro, 2016, p. 53


4. O testemunho do Francisco Gamelas (que, de resto, já era formado em engenharia pelo ISEP - Instituto Superior de Engenharia do Porto) é um retrato vivo daqueles tempos, cheio de deliciosos detalhes que só quem lá esteve se pode lembrar e descrever. 

A história da Aline, a lavadeira que se tornou quase família, é um exemplo perfeito de como, mesmo no meio da guerra, no mato, se criavam laços humanos profundos e rotinas que davam alguma normalidade à vida.  

A figura da Aline, pela foto e pelo poema,  é fascinante. Ela não era apenas uma lavadeira: era uma ponte entre dois mundos. O facto de o Francisco se lembrar do nome dela (!), quatro décadas depois, e de lhe dedicar um poema, mostra como essas relações iam além do serviço doméstico. Eram relações de confiança, dependência mútua e até afeto.

Tal como em Bambadinca e noutros sítios, as lavadeiras "passavam" de um militar para outro, como se fosse parte do posto, e de acordo com a hierarquia militar.  A lavadeira de um antigo capitão não podia " baixar de posto", passando a trabalhar para um alferes... 

O mesmo se passava em Angola, segundo o testemunho do meu amigo Jaime Silva, alferes paraquedista. Isso reflete uma realidade comum nos diferentes TO da  guerra colonial: as populações locais adaptavam-se à presença estrangeira, criando pequenos negócios ou serviços que, por sua vez, tornavam a vida dos militares e suas famílias um pouco mais suportável.

Na Guiné, ao contrário de Angola ou Moçambique, as mulheres (fulas, mandingas, manjacas...)  teriam um papel mais ativo,  assumindo sobretudo a tarefa de lavadeiras.  Eram oriundas, de resto, de sociedades patriarcais, onde o lugar da mulher estava mais codificado.  Elas eram donas da economia doméstica.

Histórias como a da Aline ou da Maria Helena (***) são fragmentos de humanidade que a guerra não conseguiu apagar. Elas mostram que, mesmo em situações extremas, as pessoas criam laços, constroem rotinas e encontram formas de existir,  resistir e sobreviver.
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Guiné 61/74 - P27892: Boas amêndoas e melhores Páscoas de 2026 - Parte II: A minha segunda feira de Páscoa em Vila do Conde (Virgílio Teixeira)


Vila do Conde > Março de 2026 > Aqueduto 


Vila do Conde > Março de 2026 > Antigo Mosteiro de Santa Clara

Fotos (e legendas): © Virgílio Teixeira (2026). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem de Virgílio Teixeira, ex-alf mil SAM, do BCAÇ 1933 (Nova Lamego e S. Domingos, 1967/69), natural do Porto a viver em Vila do Conde:

(i) domingo, 5/04/2026, 14:00 

Luís, selecionei este belo poema de Miguel Torga (*), para enviar a todos os meus familiares, amigos e conhecidos...

Assim, se puderes e não te entalares com as amêndoas, podias colar nos comentários esta mensagem, extensível aos  nossos camaradas deste grande blogue.

Boa Páscoa para ti e familia e para toda a nossa grande familia da nossa guerra.

Pergunto para quem sabe mais disto?

Quais as diferenças essenciais entre a nossa guerra de sublevação e terrorismo no mato nas nossas ex-colónias, longe das nossas casas, e estas guerras modernas, dentro das nossas casas?

Cumprimentos a todos,
Abraço, vt


(ii) segunda, 6 de abril de 2026, 13:53


A Páscoa também se celebra por cá na segunda feira.

É dia de tradição ancestral, o povo ir passar o dia em piqueniques pelos concelhos de Vila do Conde e Póvoa de Varzim.

É mais feriado do que sexta feira e Domingo. Só os bancos abrem pois já fecharam na quinta feira.

Há muitos sítios celebres para os ajuntamentos de amigos, familiares e outros. Come-se as coisas que levam de casa com o pão comprado ontem. É norma a Regueifa tradicional.

Fazem as tradicionais queimadas, os churrascos tudo bem comido e bebido. Se chove ou frio, fazem na mesma.

Não conheço a história desta tradição, aliás em meio século aqui nunca fui a estes convívios, não só porque não apreciamos e as condições, já se sabe é tudo no monte. A minha mulher não gosta, e as crianças não gostavam porque havia muitas moscas, formigas e outros insectos.

Fizemos alguns piqueniques, mas em locais onde oferecessem as condições mínimas. Os meus filhos já na idade adulta nunca soube destas andanças. Mas é um convívio saudável quando tudo corre bem, sem discussões inúteis de desporto, política ou Igreja.

Os locais são dentro das matas, das árvores, debaixo de eucaliptos na falta dos grandes poilões.

Há caminhos, picadas abertas pelos convivas e muita verdura nesta época de primavera.

Os restaurantes fecham, alguns cafés abrem e aqui no centro juntam-se as famílias e crianças na grande feira da Páscoa. Eu vou comer o meu bacalhau assado no Forno, à moda da minha chefe Manuela. É não há igual. Eu também fazia muitas vezes mas agora estou mais preguiçoso.

E assim se passa mais um dia com céu um pouco nublado e normal. O compasso ainda não o vi, quer ontem no almoço na casa do meu filho e hoje não ouço as sinetas, também não há muito tempo que não beijamos a cruz!

Sinais dos tempos.
Bom almoço,  Luís e família bem como todos os camaradas.

Virgílio Teixeira
Dia 6 Abril 2026

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Nota do editor LG:

(*) Vd. poste de  4 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27888: Boas amêndoas e melhores Páscoas de 2026 - Parte I: "Páscoa", poema de Miguel Torga, enviado por Mário Beja Santos

Guiné 61/74 - P27891: Parabéns a você (2473): Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Op Especiais da CART 3492 / BART 3873, Pel Caç Nat 52 e CCAÇ 15 (Xitole, Mato Cão e Mansoa (1971/73)

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Nota do editor

Último post da série de 4 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27886: Parabéns a você (2472): Agostinho Gaspar, ex-1.º Cabo Mecânico Auto da 3.ª CCAÇ / BCAÇ 4612/72 (Mansoa, 1972/74)

domingo, 5 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27890: Esposas de militares no mato (6): Teixeira Pinto, ao tempo do Francico Gamelas, ex-alf mil cav, cmd Pel Rec Daimler 3089 (1971/73) - Parte II

Foto nº 1


Foto nº 1A 

Guiné > Região do Cacheu > Rio Mansoa > João Landim > Junho de 1973 > O rio Mansoa em João Landim e a jangada que fazia a sua travessia. Primeiro entravam as viaturas, depois as pessoas. Bissau ficava a cerca de quinze quilómetros e para a "peluda", o fim da comissão, faltavam, ainda quatro longos meses. A Helena regressaria mais cedo a casa, o Francisco só chegará a Lisboa a 11/10/1973, no T/T Niassa, com os seus rapazes do Pel Rec Daimler 3089.


Foto nº 2A


Foto nº 2

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. outubro  de 1973 > Na hora da despedida... Da esquerda para a direita:

(i) cap Lema (CAOP1 ?) (o CAOP 1 foi transferido para Mansoa em 1/2/1973) (e, com ele, o nosso camarada António Graça de Abreu); 

(ii) alf mil médico Mário Bravo ), cirurgião, reformado, nosso grão-tabanqueiro (vive no Porto);

 (iii) comandante do BCAÇ 4615/73,  que rendeu o BCAÇ 3863, ten cor inf Nuno Cordeiro Simões;

 (v) ten cor inf António Joaquim Correia, comandante do BCAÇ 3863 (que terminava a sua comissão);

(vi) alf mil médico Viana Pinheiro (deve ter vindo substituir o dr. Pio de Abreu);

(vii) alf mil Francisco Gamelas (comandante do Pel Rec Daimler 3089, 1971/73);

 (viii) major inf João José Pires (2º comandante do BCAÇ 3863); 

(ix) alf mil Correia Pinto ( de que batalhão?);

 e (x) Maria de Jesus, mulher do alf mil médico Albino Silva (que não aparece nesta fotografia).



Foto nº 3

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. 1971/73 > Vista aérea de Teixeira Pinto (hoje, Canchungo). Em primeiro plano, as instalações militares.


Foto nº 4

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. 1971/73 > Vista aérea de um reordenamento, não identificado, obtida em viagem até Bissau


Foto nº 5

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > CCS/BCAÇ 3863  (1971/73) >  Junho de  de 1973 >  Imagens da visita do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Portuguesas (CEMGFA) , gen Costa Gomes, a Teixeira Pinto... Em segundo plano, o cinema local, do lado direito a "avenida principal" da vila.


Foto nº 6

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > CCS/BCAÇ 3863  / 35ª CCmds / Pel Rec Daimler 3089  (1971/73) > Março de 1972 >  "Durante a protecção aos trabalhos de desmatagem das margens, ou da pavimentação, da estrada entre Teixeira Pinto e o Cacheu. Eu, nas costas de uma Daimler, tendo do meu lado esquerdo o então Furriel Comando Paquete e à minha direita o então Alferes Comando Alfredo Campos, comandante do Pelotão da 35ª a que ambos pertenciam.

"O  fur mil 'cmd' Paquete, da 35ª CCCmds, infelizmente já não está entre nós. Segundo informação do Ramiro de Jesus, também ele ex-fur mil comando da 35ª CCmds, natural de Aveiro (e, portanto, meu conterrâneo), o Paquete, depois do regresso à metrópole, morreu atropelado por um comboio em Vila Franca de Xira."

Fotos (e legendas): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. O nosso camarada Francisco Gamelas foi dos que casou e levou a esposa, a Maria Helena (ou Lena), para o "mato", neste caso Teixeira Pinto, sede de circunscrição (equivalente a concelho), onde já havia algum cheirinho de civilização: por exemplo, um cinema, uma escola, um posto médico, ruas alcatroadas, algumas casas comerciais,  electridade (de gerador)...

De seu nome completo, Francisco António da Costa Vieira Gamelas.  nasceu em Aveiro, em 1949, formou-se em engenharia eletrotécnica, em 1969, esteve na Guiné, em Teixeira Pinto, em 1971/73, como alf mil cav, a comandar o Pel Rec Daimler 3089, ao tempo do BCAÇ 3863, do CAOP1  e da 35ª CCmds.
 
Depois de reformado da PT (onde foi quadro superior), tem-se dedicado à escrita, à poesia e ao ensaio histórico-sociológico: 
  • "O apelido Gamelas: um património histórico e sociológico de Aveiro" (2009); 
  • "Lavradores do Vilar ou o casamento inter-pares como estratégia de sobrevivência" (2014) (ambos publicados pela ADERAV - Associação para o Estudo e Defesa do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro);
  •  "Outro olhar - Guiné 1971-1971" (a sua "primeira incursão nas áreas da poesia e da crónica".
Vive em Aveiro. Entrou para a Tabanca Grande em  19/5/2016. Tem cerca de 6 dezenas de referências no blogue.

 

Capa  do livro de Francisco Gamelas ("Outro olhar - Guiné 1971-1973. Aveiro, 2016, ed. de autor, 127 pp. + ilust.  O design é da arquiteta Beatriz Ribau Pimenta. Tiragem: 150 exemplares. Impressão e acabamento: Grafigamelas, Lda, Esgueira, Aveiro.

O livro, feito de pequenas crónicas e poemas, e profusamente ilustrado com as fotos do álbum da Guiné, é dedicado "à memória de Maria Helena" e às as "nossas filhas Sara Manuel e Maria João e os nossos netos Sara, Francisco José e João Gil".

Sobre a sua primeira esposa, Maria Helena, já falecida, e sua companheira da aventura guineense, o Francisco escreveu um belíssimo poema "Amor em tempo de guerra" (pp. 99/101), de que já reproduzimos no poste anterior (*):

 As poucas mulheres que seguiram o seus maridos na Guiné foi por amor e companheirismo. "Éramos jovens. Sentíamo-nos imortais", escreveu o Francisco. A guerra criava, para a nossa geração, uma "urgência emocional", o tempo era curto, a vida podia ser breve (bastava uma mina A/C ou uma emboscada do IN ou uma morteirada de 120 em ataque ao aquartelamento)... Estar juntos, mesmo em condições adversas, valia o risco. Para algumas mulheres, pode ter sido também uma forma de escapar â tristeza do quotiano em Portugal. Para uma ou outra como a Maria Helena, professora, foi também uma forma de se sentir útil.

A escola local em Teixeira Pinto precisava de docentes, e o exército, se não incentivava, pelo menos tolerava a presença de civis, mulheres (e até filhos), para "humanizar" a vida no "mato". De resto,no àmbito da política spinolista "Por uma Guiné Melhor", as "senhoras professoras" eram bem-vindas. E a mulher portuguesa, mesmo inferiorizada no Estado Novo, podia aliar algum idealismo e aventura. Em todo o caso, foram mulheres, portuguesas, de coragem.

A Guiné, apesar dos seus riscos (guerra, paludismo, doenças infetocaontagiosas, stress, desconforto, recursos de saúde limitados, isolamento, dificuldades de tramsportes...) representava uma aventura exótica, um mundo desconhecido. O Francisco Gamelas escreve sobre isso: "aproveitando os intervalos de alguma normalidade para nos inventarmos como casal". Havia uma espécie de romantismo trágico em viver ali, como se a guerra tornasse o amor mais emociante e  intenso.

A Lena e o Francisco, apesar de tudo, tinham algum espaço de privacidade: viviam ao lado da escola, no edifício  destinado ao diretor. Provavelmente frequentavam a messe de oficiais.  De qualquer modo, o  círculo de convívio era muito restrito. O ambiente era fortemente masculinizado. As saídas da vila tinham os seus  riscos, e o contacto com a população local era limitado.  A "normalidade" a que o Francisco se refere era frágil: um jantar no messe, uma ida ao mercado local, ou uma sessão de cinema (com dois ou três anos de atraso em relação à programaçãpo de Lisboa).

Sendo comandante do Pel Rec  Daimler 3089, o Francisco tinha a sua vida operacional. E a Lenba ficou grávida da sua primeira filha,  a Sara, que não nascerá todavia em Teixeira Pinto ,mas já em Aveiro. Náo devia haver sequer obstetras na Guiné!...

Havia isoalamento. O corrreio podia demorar quinze dias (apesar do SPM ser um bom serviço). As notícias da metrópole (e do mundo)  chegavam com atraso. A solidão era quebrada pelo convívio entre as poucas mulheres europeias que havia nestas paragens mas também com as mulheres locais  (que também viviam sob alguma tensão). 

Todas pagaram algum preço. Mas cremos que o balanço final foi positivo, nesta fase das suas vidas, sendo jovens  e recém,casadas...  O poema do Francisco Gamelas responde, em parte, a esta pergunta:

"Foi aqui, no Canchungo, / e nestas condições que aceitámos, / que o nosso amor floriu". 

Para ele e para a Maria Helena, valeu a pena pelo amor, pela família que criaram, pela intensidade da vida que viveram. 

Mas não sabemos como foi, noutros casos...As mulheres que passaram pela Guiné não escreveram (ou pelo menos não publicaram). A única exceção, que nos vem à cabeça, é a da Maria Dulcineia (Ni) (***) que esteve em Bissorã até junho de 1974 e apanhou, pelo menos, dois ataques do PAIGC com "foguetões 122mm".

Estas históris são fragmentos de humanidade no meio  do caos que é sempre a guerra, em qualquer época e lugar. Elas mostram que, mesmo em tempos de violência, a vida, com os seus amores, medos e esperanças, continua.

Sobre a outra senhora, Maria de Jesus, que aparece na foto no. 2, não sabemos mais nada: 
seria esposa do alf mil médico Albino Silva...  (Não haverá aqui troca de nomes ?)

E nós continuamos em próximo poste.

(Continua)  

sábado, 4 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27889: Os nossos seres, saberes e lazeres (729): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (250): Palácio de Belém, o menos conhecido de todos os antigos palácios reais (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Sim, é de facto o menos conhecido de todos os antigos palácios reais. Há, contudo, uma razão de ser. Foi, ao longo de quase duzentos anos, uma quinta de veraneio, lugar de reis e princesas. Marca-o a singularidade de ter sido o único palácio a resistir intacto ao terramoto, facto que não lhe alterou a discrição. Aqui viveram D. Carlos e D. Amélia enquanto foi rei D. Luís. Com a República, instalou-se aqui a presidência, foi escolhido para a residência oficial do Chefe de Estado. Mas continuou fora dos circuitos de visita, incluindo o Estado Novo. Foi na presidência do General Ramalho Eanes que o Palácio de Belém abriu as suas portas ao público. Com Mário Soares e Jorge Sampaio a utilizar o Palácio de Belém exclusivamente como local de trabalho, houve uma vontade de aproximação aos cidadãos, mais tarde com substanciado na criação do Museu da Presidência da República. Está belissimamente conservado e pode muito bem acontecer que na visita guiada onde estiver o leitor apareça ali de rompante o novo inquilino, quando os visitantes estiverem no gabinete de trabalho do Presidente, frente à mesa onde ele às terças-feiras recebe o Primeiro-ministro.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (250):
Palácio de Belém, o menos conhecido de todos os antigos palácios reais

Mário Beja Santos

Era uma visita guiada, não quis perder a oportunidade de conhecer o Palácio depois de visitar o Museu da Presidência; os antigos combatentes têm visita gratuita. O Palácio é monumento nacional desde 2007 e desde 1910 é sede da instituição presidencial. Na livraria do Museu deu-me para comprar um livro sobre os azulejos, estuques e tetos do Palácio de Belém. Foi aqui que fiquei a saber que é o único Palácio que resistiu intacto ao terramoto de 1855. Dá-se a explicação que o Palácio tinha uma importância inconstante no conjunto dos restantes palácios reais, os constrangimentos continuaram pelo facto de ser a residência oficial do Chefe de Estado. Esteve até recentemente fora dos circuitos de visita. Foi no segundo mandato do General Ramalho Eanes que o Palácio abriu as suas portas ao público. Mário Soares e Jorge Sampaio passaram a utilizar o Palácio de Belém exclusivamente como local de trabalho. A abertura do Museu e a inclusão do Palácio nos circuitos de visita motivaram um crescente interesse em estudar todo o património e daí as monografias sobre todo o seu acervo, caso desta dedicada aos azulejos, estuques e tetos.

O Museu da Presidência detém milhares de peças, entre objetos pessoais, retratos, presentes de Estado e condecorações. O seu Arquivo integra milhares de documentos que testemunham a vida publica e familiar da maioria dos Presidentes da República. Este Museu também tem a seu cargo a valorização do Palácio da Cidadela de Cascais, bem como uma significativa coleção de carros que serviram os Presidentes da República, a coleção está exposta no Porto, no Museu de Alfandega.

A visita permite conhecer a galeria dos retratos oficiais, os símbolos nacionais associados à República, os presentes de Estado, as Ordens Honoríficas e o acervo dos trabalhos de Paula Rego para os quadros que estão expostos na capela do Palácio.

Posta a visita ao Museu da Presidência segui para o Palácio de Belém, começou-se pelo Jardim do Buxo e pela varanda, obviamente que se entrou pela Sala das Bicas.

As galerias com os retratos dos Presidentes da República. Na altura da minha visita ainda não tinha sido colocado o retrato do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa feito por Vhils, rompendo com a tradição de quadros com pinturas a óleo, desta feita elaborado com troços de jornais.
Jardim do Buxo, vendo-se ao fundo, antes da estátua de Afonso de Albuquerque, o Tejo
Na varanda do Palácio de Belém estão patentes uma série de painéis, os maiores representam dois dos doze episódios dos trabalhos de Hércules, são dos últimos anos do século XVII, com restauros dos séculos XVIII e XX. Neste painel temos Hércules lutando com uma das aves de rapina do lago de Estinfália, na Arcádia, episódio relativo ao sexto trabalho. O herói recebeu ordens para expulsar do lago as terríveis aves com o bico de bronze. Neste painel azulejar ele é representado em pé armado da habitual clava com a qual tenta suprimir o animal.
Este painel evoca o segundo trabalho do herói, de pé, enfrenta e mata a hidra de Lerna, serpente aquática de sete cabeças. Ele veste a pele de leão e levanta a clava em direção à serpente.
Neste painel temos Hércules e a égua de Diomedes, ilustração do oitavo trabalho do herói que tem como missão eliminar as éguas do rei Diomedes, animais selvagens que se alimentavam de carne humana, o herói é representado de pé tentado dominar o equídeo. Na mão direita, ele segura a clava e na esquerda segura a corrente com a qual prende a égua pelo bridão. Hércules veste já a pele do leão de Nemeia, foi o seu primeiro trabalho.

A publicação que eu adquiri sobre azulejos estuques e tetos do Palácio de Belém refere que no século XIX houve um notório desinteresse pelos azulejos. Tanto a varanda como a Sala das Bicas são referidas sem se abordar o azulejo. Foi necessário chegar ao adiantado século XX para se ouvirem comentários altamente elogiosos, como o do arquiteto e historiador de arte Aires de Carvalho que, a propósito dos azulejos da fachada que terão sido colocados em 1778, conclui: “Esses belíssimos painéis de azulejos que felizmente ainda perduram e são inspirados em gravuras seiscentistas com assuntos mitológicos, se não conhecêssemos as contas e que foram pintados expressamente para aplicar nos espaços entre portas e janelas, poderíamos pensar que seriam originais e do século XVII.” Os azulejos da fachada estão dispostos em 14 painéis de grandes dimensões. Cada apinel representa em tamanho natural, uma figura mitológica. Este conjunto tem sido descrito, erradamente, como uma ilustração de Hércules, porque Hércules é, com efeito, a figura que mais se destaca e que é representada em vários painéis.

Confesso que me emocionei profundamente com esta capela do Palácio que alberga oito obras de Paula Rego denominadas O Ciclo de Vida da Virgem Maria. O Presidente Jorge Sampaio não apreciava grandemente esta capela vazia e numa visita a Londres, em 2002, convidou a artista a tal desempenho, ela aceitou prontamente, no Museu da Presidência podemos ver o acervo dos esboços, mas é na capela que podemos testemunhar a genialidade destas oito pinturas a pastel.
Quem vai ser recebido pelo Presidente da República entra no Palácio pela Sala das Bicas, é aquela que vemos mais frequentemente na televisão. Chama-se assim por ter ao fundo duas bicas que deitam água para umas bacias de pedra. A Sala das Bicas também dá acesso à Arrábida, isto é, a zona reservada à vida privada do dia-a-dia do Presidente da República, ele tem direito de morar aqui com a sua família ou sozinho.
A Sala Dourada precede as Salas Império e dos Embaixadores. É uma sala sumptuosa, com mobília encomendada para o casamento do Príncipe D. Carlos, em 1886. Num quadro da escola de Rubens, Cristo triunfando sobre a morte.
No Jardim da Cascata temos os viveiros que D. Maria I mandou construir para os seus pássaros exóticos. Por baixo deste jardim encontram-se as jaulas onde antigamente viviam leões e outros animais ferozes.
O Palácio de Belém conserva nos salões nobres um diversificado conjunto de tetos decorados que incluem um belíssimo exemplar ornamental barroco, que aqui se mostra, está na Sala das Bicas, mas há igualmente teto com pintura mitológica na Sala Dourada, teto com revestimento neoclássico na Sala Império, isto é só uma lembrança para que quando for visitar o Palácio de Belém não se esqueça de olhar para cima.
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Nota do editor

Último post da série de 28 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27866: Os nossos seres, saberes e lazeres (728): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (249): Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 2 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27888: Boas amêndoas e melhores Páscoas de 2026 - Parte I: "Páscoa", poema de Miguel Torga, enviado por Mário Beja Santos



Páscoa

Um dia de poemas na lembrança
(Também meus)
Que o passado inspirou.
A natureza inteira a florir
No mais prosaico verso.
Foguetes e folares,
Sinos a repicar,
E a carícia lasciva e paternal
Do sol progenitor
Da primavera.
Ah, quem pudera
Ser de novo
Um dos felizes
Desta aleluia!
Sentir no corpo a ressurreição.
O coração,
Milagre do milagre da energia,
A irradiar saúde e alegria
Em cada pulsação.


Miguel Torga, in Diário XVI

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Guiné 61/74 - P27887: Esposas de militares no mato (5): Teixeira Pinto, ao tempo do Francico Gamelas, ex-alf mil cav, cmd Pel Rec Daimler 3089 (1971/73) - Parte I


Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > A Maria Helena Gamelas  e a lavadeira, manjaca, Aline, que os comandantes dos Pel Rec Daimler "herdavam" (*)


Francisco Gamelas, ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 3089 (Teixeira Pinto, 1971/73), adido ao BCAÇ 3863 (1971/73); é engenheiro eletrotécnico de formação, quadro superior da PT Inovação, reformado, vive em Aveiro: autor de "Outro olhar - Guiné 1971-1973" (Aveiro, 2016, ed. de autor, 127 pp, ilustrado.


Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Março de 1973 > Habitação nativa típica, na tabanca de Cachungo. Em primeiro plano, a Lena.


Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Janeiro de 1972 > Edifício do ciclo preparatório do ensino secundário e casa do director (à esquerda). Foi nesta casa que o casal Gamelas se instalou. A Maria Helena Gamelas foi a professora de português no ano lectivo de 1972/73. Em frente, do outro lado da rua, ficavam as camaratas dos soldados da 35.ª CCmds.


Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto >  Outubro de 1972 >  Venda livre no meio da Avenida. À esquerda a Maria Helena Gamelas.



Guiné > Região de Cacheu > Teixeira Pinto > cv. 1971/73 > Vista aérea de Teixeira Pinto

Fotos (e legendas): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. O nosso camarada Francisco Gamelas foi dos que casou e levou a esposa para o "mato" (**), neste caso Teixeira Pinto, sede de circunscrição (equivalente a concelho), onde já havia algum cheirinho de civilização: por exemplo, um cinema, uma escola, um posto médico, ruas alcatroadas, algumas casas comerciais, electridade (de gerador)... Estava lá o CAOP1, a CCS/BCAÇ 3863 e diversas subunidades, incluindo o Pel Rec Daimler 3089. Nesta altura também lá esteve a jovem esposa de um médio, de que falaremos na parte II.

Nota  biográfica > Francisco António da Costa Vieira Gamelas:

(i) nasceu em Aveiro, em 1949:

(ii) formou-se em eletrotecnia (Instituto Superior de Engenharia do Porto, 1969);

(iii) esteve na Guiné, em Teixeira Pinto, em 1971/73, como alf mil cav, a comandar o Pel Rec Daimler 3089, ao tempo do BCAÇ 3863 (onde foi médico o nosso camarada Mário Bravo) e do CAOP1 (a que pertenceu o nosso camarada António Graça de Abreu; em fevereiro de 1973, o CAOP 1 foi transferido para Mansoa):

(iv) fez a sua carreira profissional na PT Inovação como quadro superior de telecomunicações;

(v) está reformado;

(vi) tem-se dedicado à escrita, à poesia e ao ensaio histórico-sociológico: "O apelido Gamelas: um património histórico e sociológico de Aveiro" (2009); "Lavradores do Vilar ou o casamento inter-pares como estratégia de sobrevivência" (2014), ambos publicados pela ADERAV - Associação para o Estudo e Defesa do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro;

(vii) em 2016 publicou "Outro olhar - Guiné 1971-1971" (a sua "primeira incursão nas áreas da poesia e da crónica";

(vii) vive em Aveiro;

(viii) entrou para a Tabanca Grande em  19/5/2016;

(ix) tem cerca de 6 dezenas de referências no blogue.

 

Capa  do livro de Francisco Gamelas ("Outro olhar - Guiné 1971-1973. Aveiro, 2016, ed. de autor, 127 pp. + ilust.  O design é da arquiteta Beatriz Ribau Pimenta. Tiragem: 150 exemplares. Impressão e acabamento: Grafigamelas, Lda, Esgueira, Aveiro.

O livro, feito de pequenas crónicas e poemas, e profusamente ilustrado com as fotos do álbum da Guiné, é dedicado "à memória de Maria Helena" e às "nossas filhas Sara Manuel e Maria João e os nossos netos Sara, Francisco José e João Gil".

Sobre a sua primeira esposa, Maria Helena, já falecida, e sua companheira da aventura guineense, o Francisco escreveu um belíssimo poema "Amor em tempo de guerra" (pp. 99/101), de que reproduzimos um excerto (***):

(...) “Mesmo assim, amor, decidimos casar
e começar a nossa vida em comum
neste reino de guerra sempre latente
aproveitando os intervalos
de alguma normalidade
para nos inventarmos
como casal.
Éramos jovens.
Sentíamo-nos imortais
apesar da evidência em contrário.(...)

(...) Foi aqui, no Canchungo,
e nestas condições que aceitámos,
que o nosso amor floriu,
que nos fomos aprendendo
na partilha permanente,
nas cumplicidades do presente
e nela germinou a semente
que foi crescendo
no teu ventre,
sangue do nosso sangue,
carne da nossa carne,
até nos acrescentar
em forma de rebento
a quem demos o nome de Sara
Então,
passámos a ser uma família”.

Este poema do Francisco Gamelas, sobre o  "amor em tempo de guerra", é um testemunho comovente e raro desse lado mais íntimo e humano da guerra colonial, e merece uma análise mais detalhada na Parte II.

Há muito que não tenho notícias dele. Mas espero que ainda nos leia. Desejamos-lhe a ele e à família uma boa e santa Páscoa.

(Continua)
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