
1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 24 de Março de 2026:
Queridos amigos,
A primavera irrompeu entre horas de chuvisco, um céu de chumbo ou acinzentado e aquelas nesgas de luz que confiámos que iriam perdurar. Importava ver o estado do casebre do Reguengo, para o qual há já uma perspetiva de conservação e restauro, e não resisti a ir ver o jardim, cheguei pachorrento e sem nenhuma vontade de, no mínimo, arrancar ervas ou limpar bolores. Quem diria que me esperava um festival de cor? E até as árvores de fruto resistiram aos temporais, é isso que se mostra em primeiro lugar. Andava há meses para ir visitar a exposição de um marionetista nascido no Bombarral e com obra consagrada, José Carlos Barros, nome sonante nesta dimensão teatral. E não escondo que, de forma subliminar, vos convido a visitar este deslumbrante Museu do Bombarral.
Abraço do
Mário
Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (251):
Uma sonata para a primavera, imagens para canonizar a terra úbere e um marionetista genial
Mário Beja Santos
Voltei ao meu casebre no Reguengo Grande, impunha-se a avaliação dos estragos e desgastes maiores, incidências do temporal. Haverá a revisão dos telhados, há alguns bolores pelas paredes, cheguei em hora ensolarada, escancarei janelas, vou deixar para mais tarde a avaliação inadiável, mais tarde ou mais cedo tenho de pôr janelas e portas novas, enfim, despesas que não se compadecem com as guerras em curso e as que mais virão. Vou até ao muro contemplar o estado do vale, e não resisto a maravilhar-me com um dos pessegueiros dos meus vizinhos de baixo, começou a cantilena da explosão primaveril. Açodado pelo presente que a Natureza trouxe, desço até ao jardim pedregoso, respiro de alívio porque a glicínia já tem algumas folhas, os jarros estão imaculados, as frísias andam desvairadas, crescem anarquicamente, as laranjeiras estão murchas, tudo se perdeu com os temporais, mas também não regateiam surpresas, há sinais de nova vida. Pois bem, partilho convosco um jardim que não é de Éden, tem laborioso historial, é mais do que certo e seguro que os ancestrais do meu vizinho Henrique removeram muita pedra para que aqui houvesse coisas de alimento doméstico. E lá vou lampeiro, concelebrar a chegada da primavera, pelo calendário começa amanhã, aqui anunciou-se mais cedo.
É o fim do dia, quando dou com estas negas de luz, promissoras de um radioso dia seguinte, dou comigo a pensar numa situação que vivi nos finais da década de 1990, num bairro de Bruxelas, chamado Ixelles, vinha de uma reunião, um tanto apressado, avião de regresso pelas nove e meia da noite e queria ainda fazer compras, nisto paro em frente a uma casa de antiguidades que anunciava liquidação, deu-me para ficar pasmado com uma peça de loiça alemã, Meissen, a proprietária veio cá fora, em preço de liquidação eram 2.500€, agradeci muito, a senhora convidou-me a entrar, para não entrar em pormenores saí dali ajoujado com uma aguarela metida numa bela moldura, o tema é de uma paisagem eriçada tendo ao fundo uma casinha com uma luz acesa numa janela, escusado é dizer que o valor metafórico que mesmo nos piores momentos a esperança nunca morre. O fundamental é que entrei num avião da TAP empunhando uma moldura de respeitoso tamanho, um saco com víveres e uma maleta com as coisas próprias de quem anda uns dias fora de casa. Quem não gostou da brincadeira foi uma hospedeira que me disse à saída do avião que jamais esqueceria as vezes sem conta que tinha andado com aquele quadro em bolandas para servir o catering. O que interessa é que às vezes ando com o juízo toldado e tudo se altera quando me ponho diante deste quadro que tenho à entrada de casa e que comprei impulsivamente numa loja em liquidação na rua Dublin, um companheiro para toda a vida, tal como aquela luz que eu avisto do casebre do Reguengo Grande.
Peitoral e Máscara. Materiais: fibra de vidro, ferro, latão, plástico, têxteis e madeira, fez parte do espetáculo Desgraças de 2008, foi exibido no Festival Internacional de Títeres, Segóvia, 2008.
Visitei esta exposição no dealbar da primavera, é por isso que a ponho em consonância com a surpresa que o meu jardim zen me dera na véspera.
_____________
Nota do editor
Último post da série de 4 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27889: Os nossos seres, saberes e lazeres (729): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (250): Palácio de Belém, o menos conhecido de todos os antigos palácios reais (Mário Beja Santos)
























.png)
.png)






