quarta-feira, 8 de julho de 2015

Guiné 63/74 - P14850: Tabanca Grande (469): Tibério Borges, ex-Alf Mil Inf MA da CCAÇ 2726 (Cacine, Cameconde, Gadamael e Bedanda, 1970/72)

1. Mensagem do nosso camarada e novo amigo Tibério Borges, ex-Alf Mil Inf MA da CCAÇ 2726, Cacine, Cameconde, Gadamael e Bedanda, 1970/72, com data de 28 de Junho de 2015:

Caro Vinhal
Sou Tibério Borges que esteve na Companhia de Caçadores 2726 em Cacine de 70 a 72 e, pelo que sei do Luís Paulino, viajámos no mesmo barco, Ana Mafalda, de Lisboa para Bissau.
Posto militar: Alferes Miliciano
Especialidade: Infantaria

De S. Miguel fui estudar para a Terceira. Daqui para o Continente.
Regressei a S. Miguel de onde tive que ingressar na Tropa, Mafra e daqui para os Comandos em Lamego.
De seguida fui para Tancos tirar minas e armadilhas.
Regressei a S. Miguel para formar companhia no BII 18.

Antes de embarcarmos para a Guiné passamos por Setúbal para tirar o IAO.
Depois do desembarque em Bissau fomos para Cacine / Cameconde onde alternávamos mensalmente.
Fui deslocado para Gadamael mais de um mês assim como para Bedanda.

Feita a tropa passei à vida civil e depois de alguns meses em S. Miguel fui para Luanda onde estive 3 anos na vida civil.
Regressei a S. Miguel em Junho de 75. Trabalhei 3 anos na CTM (Companhia de Transportes Marítimos) tendo concorrido à TAP onde estive 20 anos.
Reformei-me por imposição aquando o fecho da delegação em Ponta Delgada em princípios de 2000.
Neste longo espaço de tempo em S. Miguel estive no Brasil (Rio e S. Paulo), Canadá (Mississauga), América (Nova Inglaterra com artesanato).
Portugal de Norte a Sul.
Europa: Itália, Suiça, Checoslováquia, passando por Zurique, França (S. Genis Laval – Lyon), Espanha (Rio de Honor).

Com um abraço
Tibério

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2. Comentário do editor

Caro camarada Tibério Borges
Bem aparecido na nossa tertúlia onde és recebido de bom grado.
Em poucos dias és o segundo português insular a apresentar-se no Blogue. Felizmente temos entre nós alguns açorianos (assim de repente só me lembro de um madeirense, o Inácio Silva, meu camarada da CART 2732) que prezamos especialmente, por serem pessoas também especiais, já que vivem em pequenas ilhas dispersas no Atlântico, para muitos pequenas demais, que os leva à emigração. Por esse mundo fora, especialmente no continente americano, honram o nome de Portugal, e por isso a nossa especial estima e consideração.
O meu particular apresso também aos madeirenses, com que convivi cerca de 28 meses, e entre os quais fiz amizades para a vida.

Não só as nossas Companhias viajaram juntas a partir do Funchal, no "paquete" Ana Mafalda, até à Guiné, como nós os dois nos devemos ter cruzado em Tancos - Casal do Pote - no mesmo Curso de Minas e Armadilhas, o XXXIII, entre 20 de Outubro e 28 de Novembro de 1969.

Mandaste no teu mail de apresentação um excelente texto de memórias, ilustrado com muitas fotos, a que chamaste "3 Anos nas Forças Armadas", que comecei aqui mesmo a publicar.

Que mais te posso dizer? Que espero te sintas em casa e participes comentando o que por aqui se vai escrevendo. Não sei as tuas memórias se esgotam no texto que agora enviaste, se não, esperamos a continuação das mesmas.

A partir de hoje tens mais umas centenas de amigos para trocar impressões e conversar sobre aquilo que nos marcou, e que os "outros" já estão fartos de ouvir.

Deixo-te um abraço de boas-vindas em nome da tertúlia e dos editores Luís Graça, Magalhães Ribeiro e eu mesmo.

Ao teu dispor
Carlos Vinhal

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3 anos nas Forças Armadas (1)

Tibério Lopes

Após os estudos que fiz fiquei um ano esperando por ser chamado a cumprir o serviço militar obrigatório. Neste ano de espera estive a trabalhar na Clínica do Bom Jesus. Em Março de 1969 fui para Mafra a fim de fazer a recruta.

Tenho fotos de há quarenta anos e muita coisa já não me lembro. Meu irmão Mariano e eu entramos ao mesmo tempo para Mafra. Tínhamos acabado de estudar. Por isso entramos mais tarde para a tropa. Lembro-me de nos terem ido buscar a Lisboa aonde chegamos de barco dos Açores. As portas do quartel estavam fechadas e tivemos que esperar. Ao entrarmos uma alta patente falou-nos das nossas instalações que cheiravam a bafio. Algo de muito esquisito pairava no ar. Começava a minha odisseia. Sabia-se que morria muita malta nova no Ultramar. No dia seguinte foi a distribuição da farda. Foi vestir o que nos deram. Tudo ficava desproporcional.

Tibério e Mariano Borges

Ouvia-se falar de muita coisa sobre o que era ou não regulamentar usar. Do lado de fora do quartel os comerciantes vendiam quépis o que era mais atraente do que o que nos davam adentro muros. Lembro-me de um dos militares do quadro nos encontrar fora e nos avisar que deveríamos portar-nos de maneira a não deixar mal o militar, isto referindo-se ao nosso vestir. De facto mais parecíamos uns fantoches do que militares. Mas era o que nos davam. As nossas mães não estavam ali do lado de fora do quartel prontas a intervirem no arranjo da roupa. Sei que houve um grupo que adquiriu quépis que não eram regulamentares mas quando saíamos, acabávamos por o usar às escondidas.

Pelotão de Mafra

Os Exercícios começaram. Era ainda inverno. Sair da camarata onde se dormia em beliches era tomar uma lufada de ar fresco. Mas estava frio. E as ordens eram para se cumprir. Deitar no chão! Nem que fosse em cima de lama ou água. Uma ética completamente diferente daquela a que estávamos habituados. Era a preparação para a guerra. Tudo era estranho e um mundo completamente diferente nos esperava. Claro que é preciso enquadrar tudo isto no tempo. Mas como muita coisa já está escrita sobre o antes vinte e cinco de Abril dispenso esse enquadramento.

Foram cerca de três meses a tirar a recruta. Os nossos fins de semana eram no quartel. Via os continentais a saírem para as suas famílias e regressarem no Domingo à noite. Num desses muitos fins de semana lembro-me dum colega de pelotão me levar até sua casa em Santarém e para a refeição desenterrar uma garrafa de vinho. Acho que se conservava mais fresco. As finanças não abonavam pelo meu lado e como tal era tudo dentro do quartel. Meu irmão e eu lá saímos mas com rédea muito curta. Tempos muito difíceis. Penso que pedi uns dinheiros ao meu pai para lhe pagar depois. Mas os treinos eram puxados. O nosso instrutor era um tenente. O meu fito era não perder a recruta porque fazer a tropa abaixo de oficial, no meu caso, era mau. Por isso dei tudo por tudo e foi de tal ordem que a dada altura o instrutor veio dizer-me que me preparasse para ir para os Comandos em Lamego. Ora eu não fazia a mínima ideia do que me estava a dizer. O que me lembro foi que tirei informações de colegas que me foram elucidando do que já tinham ouvido falar sobre essa tropa. Pintaram-me o quadro de negro e fui ter com o tenente a dizer que não queria ir para Lamego. Mas foi o mesmo que nada. Ele já tinha decidido. Estavam a pedir elementos para os comandos e eu já estava incluído nesse grupo. Mal sabia eu o que me esperava. No final da recruta fomos a Ericeira fazer o almoço de despedida.

 Almoço de despedida

Três meses depois estava em Lamego. Guia de marcha para o Porto e daqui de comboio para a Régua. Era a vapor. Lento mas bonita a paisagem. Fui admirando a natureza numa mística que eu nem sabia qual. Ah! Lembro-me de ter parado em Coimbra. Uma colega da Clínica estava a tirar o curso de parteira e parei para darmos uns dedos de conversa. Seria a minha futura mulher. Coisas do destino. Em Lamego estive uma semana sem nada fazer pois a especialidade só começaria depois. Passeei. Conheci Lamego.

Lamego

Foi uma boa semana mas o que se iria passar a seguir não era rebuçado nenhum.

O Capitão Jaime Neves estava a presidir esta unidade. O Carapeta era instrutor. Um sargento que esteve na Índia aquando o colapso de Goa, Damão e Dio. Outros. Havia um outro sargento que fisicamente parecia o Golias. Pois isto aqui era a doer. Os exercícios começaram. Era de dia de noite a qualquer hora. Carreira de tiro com fogo real. Simulação de guerra com fogo real. Até petardos. Foi aqui que fiquei sem o tímpano dum dos ouvidos. Ainda hoje sofro as consequências disso. Vestidos de farda, arma, cartucheiras, munições (acho que granadas, também) e botas, lá marchávamos de noite desde Lamego para a Régua onde no rio nos banhávamos em águas paradas a cheirar mal e cheias de rãs. Também passávamos por buracos onde as tripas de animais faziam parte da merda a que ficávamos a cheirar. Visitas ao cemitério depois da meia-noite fazia parte do programa. Aqui o terror era o tema e lembro-me que ao saltar os muros logo de início afocinhei, resultado dum arame no caminho para logo de seguida apanhar uns bons socos com luvas de boxe do tal sargento Golias. Vozes a surgirem das campas. Mas para a frente era o caminho. Estava escuro como breu. No fim do cemitério saltei para cima dum muro e logo apareceu uma voz de comando para saltar para o incerto e tenebroso vácuo. Era baixo ou alto? Aquela sensação de pensarmos que vamos saltar para muito alto quando afinal não era. Uma sensação terrível. A “psico” era ambientada com a música “Mãezinha” sei que estás a chorar… não chores. Deitados de papo para o ar na parada a olhar a estrelas e a ouvir esta música. Destruir, preparando a malta para uma guerra de guerrilha. Três dias deixados no mato sem sabermos onde estávamos e apenas com coordenadas para regressarmos a casa depois de termos que passar por objectivos. Eram os dias da “sobrevivência”.

Lembro-me que neste trajecto fomos parar a um sítio onde um homem estava em obras numa casa. Soubemos que tinha estado no ultramar pois fomos lá pedir de comer. A fome era negra. Rato como já era, o dono da casa e nós ao entrarmos dentro e ele ao ir buscar algo para enganar a fome, um dos nossos elementos ia vasculhar mas não deu tempo porque o dono logo deu meia volta e nos avisou para estarmos sossegados. Depois de uma cavaqueira amena continuamos o nosso percurso comendo a fruta que apanhávamos por aqueles sítios. Sei que era verão e muita água bebi duma canalização de alimentação de águas para a rede pública. Como consequência apanhei uma insolação. Três dias de cama a tremer de frio em pleno verão.

Foram três meses de duro exercício. Sei que me correspondia com uma senhora minha amiga e minha segunda mãe, Maria Teves. Por ter tido um filho na Guiné foi avisando-me que onde eu estava era bom não me deixar levar pelo espírito que cultivavam nestas unidades porque depois no terreno a morte estava esperando por nós. Estávamos a ser formados para tropa de intervenção. Sei que foi aqui que andei pela primeira vez de helicóptero. De facto o espírito de camaradagem que adquirimos era fora de série. E no meu interior comecei a desenhar o meu sofisma. Chegar ao fim da recruta era meu objectivo. Três minutos antes de acabar um balde de água fria gelou o nosso espírito. Um dos nossos colegas, um furriel, tinha acabado de levar um tiro apanhando a aorta num exercício final de meia lua onde os homens da ponta cruzaram fogo entre si. Uma hora depois estava morto. Um exercício mal efectuado pelo sargento que tinha estado na Índia. A malta ficou mesmo em baixo. Acho que nem ao funeral fomos. Já nem me lembro.

Um papel chegou até nós para o assinarmos. Dizia que éramos voluntários. Bolas!
Assinei o “não” e todos ficaram a olhar de lado para mim.
E foi assim que deixei de ser comando.

Enviaram-me para Tancos a fim de tirar minas e armadilhas.
Devo ter estado em Tancos cerca dum mês. Ensinaram-me a técnica de manejar explosivos, mostraram-me algumas minas e a maneira de as armar e já não sei que mais.

Tancos - Casal do Pote

Uma coisa é certa. Fui bem preparado para ir para o ultramar. Pelo menos para me defender. A vitória duma guerra baseia-se no medo que cada tem e que faz tudo para se defender. Existem pessoas que através de leis se aproveitam desta situação para juntar milhares de pessoas que as colocam num determinado terreno para matar outros. Tirando algumas excepções na história da humanidade impor ideais numa guerra é utopia. O medo é a base da guerra. Todos têm o buraquinho no fundo das costas. O resto é fanfarronice.

Mas a filosofia da guerra é discutível e como tal vamos a factos. Enquanto estive em Tancos andei a conhecer os arredores. Lembro-me de ter ido ao Castelo de Almourol e à Barquinha. Aqui havia um café onde se podia passar umas horas aos fins-de-semana que se convertiam sempre em ver os continentais irem para junto da família e eu, Açoriano, a ficar nos aquartelamentos.

Terminado este tempo de instrução enviaram-me para S. Miguel a fim de ingressar nos métodos de formação de companhia. Disponibilizaram-me vinte e cinco homens e dois furriéis em vez de três para dar formação. Era inverno. Arrifes, BII 18.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 4 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14834: Tabanca Grande (468): José Jorge de Melo, ex-Alf Mil da CCAÇ 1498/BCAÇ 1876 (Có, Jolmete, Ponate, Bula e Minar, 1966/67)

4 comentários:

Luís Graça disse...

Tibério, recebe um alfabravo (abraço) especial do fundador do blogue... Açores e açorianos: temos mais de 130 referências no blogue... Podia citar, de cor, alguns camaradas da Região Autónoma dos Açores (. incluindo São Miguel) que estão formalmente integrados na Tabanca Grande, cumprindo as regras de admissão... Não quero fazê-lo porque vários outros ficariam de fora... O Carlos Vinhal já te apresentou e muito bem, como só ele sabe fazer... Este é um dos muitos pelouros que ele aqui tem...

Gostei de ouvir a palavra "continental"... Na realidade, há muito mar (e desconhecimento) a separar-nos. Conto contigo para reforçarmos a ponte que nos liga à tua terra e à diáspora açoriana...

Um xicoração fraterno. Luis Graça

Luís Graça disse...

Tibério, és o grã-tabanqueiro nº 693... Fizemos agora a atualização da lista alfabética dos membros da Tabanca Grande (vd. coluna do lado esquerdo do blogue)... Toma boa nota, é apenas uma curiosidade... Aqui todos somos iguais, a antiguidade nem sequer é um posto... Até 31 de maio de 2006 tínhamos 111 "tertulianos"... Usamos o termo para designar um membro da nossa "tertúlia"... Pessoalmente gosto mais do termo "grã-tabanqueiro", membro da Tabanca Grande, a tal que é melhor do que o Panteão Nacional... A brincar (, cultivamos o hunmor de caserna), dizemos, aqui para nós, que mais vale um camarada vivo do que um herói... morto.

Boa noite, aí por São Miguel. Luis

José Diniz C.de Souza e Faro disse...

Um grande abraço ao Tibério. Estive em Cameconde com Obuses 10,5 de Abr de 68 a Jun69. Ainda apanhei a Compª Açoreana comandada pelo Cap. Estrela Soares que deve ter sido rendida pela CCAÇ 2726. Guiné 68/70. J.D.Faro ex Fur.Milº Artª. Saudações.

Tibério Borges disse...

Luís Graça e toda a equipa deste imenso blog.
É um prazer poder contactar com o mundo informático inserido neste blog e aprender com todos os que por aqui passam. A historicidade aqui englobada dá uma noção exacta da realidade de então e de hoje num movimento contínuo de vidas que passaram pelas mesmas localidades com vivências diferentes. Os meus parabéns por este documento fabuloso que é o vosso e nosso blog. Esta rede comunicativa entre todos os ex-combatentes, para não falar de outras vertentes, é de facto uma profunda sensibilidade humana, factor derivante de espaços de vida em situações as mais difíceis: a guerra. Ao ler diferentes narrativas que sentidas nos nossos encontros anuais da Comp. Caç. 2726 (e não só - já estive com os Bedandenses)fica-nos o aprofundamento de relações humanas extraordinárias. E o ser humano vive muito os afectos. Fomos 4 organizadores do último encontro aqui em S. Miguel que durou 5 dias, no ir e voltar, com um programa que agradou muito a quem se deslocou a esta maravilhosa ilha. É bom saber que fizemos o melhor. Isso acontece com muitas outras companhias. Nota-se nos mais diversos encontros por esse país fora e fora dele.
Mais uma vez, parabéns e um grande abraço
Tibério Borges