sexta-feira, 10 de julho de 2015

Guiné 63/74 - P14859: Notas de leitura (735): “Guerra d’África, 1961-1974, Estava a guerra perdida?”, por Humberto Nuno de Oliveira e João José Brandão Ferreira, Fronteira do Caos, 2015 (1) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 24 de Junho de 2015:

Queridos amigos,
Voltemos à questão dita fraturante da guerra colonial que estaria perdida, ganha ou controlada.
Como se sabe, é um dos arremessos e pontos de honra dos nacionalistas radicais, que alegam ter havido traição, e com a retirada emergiram dramas sem conta a juntar a guerras civis extremamente sanguinárias, caos económico, tratamento iníquo com aqueles que tinham sido fiéis à bandeira portuguesa.
Todas estas tiradas emocionais de vez em quando passam a escrito, estamos diante de autores impreparados, aqui até se diz que Amílcar Cabral era mestiço e que fundou um partido em 1952 (deve ter sido por via digital, antes de chegar à Guiné nessa data, onde procedeu ao recenseamento agrícola com a mulher...).
Antes de vociferarem, leiam o livro de uma ponta à outra, é preciso abonar a idoneidade destes novos fanáticos, que nem à guerra foram.

Um abraço do
Mário


Mitos e enganos sobre o fim do Império Colonial português (1)

Beja Santos

Entre as chamadas questões fraturantes da sociedade portuguesa, o fim do Império Colonial português e a descolonização subsequente têm um peso desmesurado, entrechocam-se fatores emocionais, ideológicos e político-culturais por vezes extremados. Há os que pretendem alegar que o MFA, movido por uma questão corporativa, arrastou, de colaboração com forças da esquerda e esquerdistas, o país para negociações precipitadas e um abandono desalmado do que consideram apelar das nossas províncias ultramarinas. Este grupo, se bem que minoritário, porque constituído por nacionalistas-radicais que até desprezam a direita euro-satisfeita, argumenta que os teatros de operações ainda possuíam sustentabilidade, houve traição no abandono do Império que não era de pura exploração económica, que tratava muito bem os autóctones, esses descolonizadores foram os responsáveis diretos por guerras civis, assassinatos bárbaros e catástrofes económicas que se seguiram à retirada dos portugueses. Há, por seu turno, os que procuram estudar a guerra no contexto da situação internacional do seu tempo, acompanhando a evolução das elites africanas e a formação dos movimentos de libertação, dissecando as peculiaridades de cada um dos teatros de operações, o armamento e sustento, o comportamento da insurreição e da contrainsurreição, procurando descodificar o estado desses teatros de operações nomeadamente a partir de 1973. Foram precisas décadas depois da quebra do regime ditatorial para se conhecer como Marcello Caetano procurou negociar o cessar-fogo e o reconhecimento da independência da Guiné-Bissau e acirrou vários responsáveis para instaurar independências brancas em Angola e Moçambique. Pelo caminho, desvelou-se que o teatro guineense caminhava para o caos, perdera-se a iniciativa, a guerrilha possuía um armamento incomparável e o reconhecimento do Estado da Guiné-Bissau estava a preparar cenários que anteviam a humilhação das forças portuguesas. E estamos nisto, são pontos de vista irredutíveis.

É na sequência desta escrita dogmática dos nacionalistas radicais que se deve entender o livro “Guerra d’África, 1961-1974, Estava a guerra perdida?”, prefácio de Jaime Nogueira Pinto, por Humberto Nuno de Oliveira e João José Brandão Ferreira, Fronteira do Caos, 2015.

Jaime Nogueira Pinto que já escreveu a dizer que depois de muita reflexão descobrira que uma mais justa solução para a descolonização não andaria muito longe daquela que se viveu entre 1974 e 1975, vem agora exaltar esta iniciativa e até com inocência diz uma bojarda: “Até ao 25 de Abril de 1974, nunca se registou um caso de uma povoação ou um aquartelamento importante que tivesse sido tomado ou ocupado pelo inimigo”.

Trata-se de uma investigação sem contraditório, as duas premissas já trazem a conclusão, e descurando regras elementares da lógica dos textos, o leitor vai ter que suportar uma resposta detalhada, ainda que redigida na maior das indigências argumentativas aos comentários de dois coronéis a propósito de um seminário que ocorreu em Abril de 2012 no Instituto de Estudos Superiores Militares. Os ditos coronéis ter-se-ão insurgido a uma frase que no seu todo era falaciosa: “A situação nos três teatros está controlada pelas Forças Armadas portuguesas e era sustentável em termos militares”. Nunca se viu dar réplica num livro sem publicar o texto original. Um dos autores revela a sua compulsão em se falar de guerra colonial quando na verdade o que houve foi guerra em África, pelo caminho faz comparações terminológicas com guerra do ultramar e guerra de libertação, e tem uma saída para a designação de Guerra de África que ultrapassa o delírio: “A designação apresenta vantagens de caráter historiográfico. Na realidade, não existindo nenhum outro momento na História de Portugal, desde 1415, que designemos por Guerra de África parece, pois evidente que nenhuma outra classificação que lhe assenta de modo tão objetivo, claro e abrangente”.

É pena os autores não terem tido tempo para estudar a fundo a nossa gloriosa presença em África. Caso da Guiné, por exemplo, onde aportámos em meados do século XV e cuja independência, em 1974, irá marcar o fim do Império. Essa presença, até ao século XIX, confinava-se a praças, feitorias e presídios, uma meia-dúzia, pagando tributo de arrendamento. Fomos cedendo a Senegâmbia aos franceses e ingleses, a atual Guiné, que decorre da Convenção Luso-Francesa de 1886 acabou por ser um enclave no protetorado do Futa Djalon. Nas constituições portuguesas do século XIX nunca se fala na Guiné, fala-se me “Bissau e Cacheu”. Em simultâneo com o fim do tráfico dos escravos, móbil comercial dominante da presença portuguesa, assomam conflitos brutais entre Fulas e outros grupos, e como não havia ocupação portuguesa no interior as guarnições militares viram-se confrontadas com sucessivas guerras, não vale a pena enumerá-las, foram muitas. A acalmia só chegou com as campanhas militares do capitão Teixeira Pinto, de 1913-1915. A situação muda radicalmente com a chegada de Sarmento Rodrigues, ele aspirou transformar a Guiné numa colónia-modelo e teve sucesso. A economia da região era dominada por duas grandes empresas, a CUF e a Ultramarina, pertencente ao Banco Nacional Ultramarino. De Teixeira Pinto em diante, formaram-se alianças, conseguiram-se neutralidades. Se os autores se tivessem decidido a estudar a guerra da Guiné a fundo, teriam descoberto que ao longo de 1962 a insurreição abateu-se no Sul e quando em Janeiro de 1963 começou a luta armada, a posição portuguesa tornou-se periclitante, e assim foi até ao fim da guerra. Mas são coisas que os fanáticos pretendem iludir, exploram as emoções daqueles combatentes que viveram noutros cenários de guerra e que se deixam embalar por estas meias-verdades de que havia sustentabilidade para continuar o esforço de guerra, o que se passou foi a tal traição dos oficiais mancomunados com as forças de esquerda e esquerdistas. Como o livro é uma manta de retalhos, aproveitando até textos elaborados com outros propósitos, apanhamos com as acusações à retirada de Guileje. O autor não esconde o seu espírito onzeneiro: “O comandante do COP 5 (major Coutinho e Lima) voltou ao quartel apenas para saber pelos seus subordinados – em quem segundo o jornal da caserna não tinha grande comandamento – que o último ataque sofrido tinha destruído o posto de rádio e parte da artilharia. A retirada fez-se nessa noite, sendo feita em boa ordem de marcha e com todos os cerca e 500 elementos da população” e daí a questão sibilina: “Até que ponto haveria ação subversiva feita por eventuais infiltrados simpatizantes, idos da Metrópole?”.

Segue-se o documento do comando-chefe, reunião dos comandos de 15 de Maio de 1973, não há nenhum blogue que não tenha já reproduzido, mas dá para encher 60 páginas do livro.

(Continua)
____________

Nota do editor

Último poste da série de 6 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14840: Notas de leitura (734): A Guiné Portuguesa em 1928: Segundo o anuário da Escola Superior Colonial de 1929 (Mário Beja Santos)

6 comentários:

António José Pereira da Costa disse...

Pois é, Camaradas
Continuamos a lidar mal com a "guerra".
Perder? Nem a feijões!
E se não nos púnhamos a pau ainda ganhávamos "aquilo".
E o pior cego é sempre o que não quer ver e esqueceu que a História é todos os dias e é feita como se pode e não como gostaríamos que fosse feita.
Um Ab. e Boas Férias
António J. P. Costa

Antº Rosinha disse...

A história demora muitos anos a ser escrita e analisada.

Mas aqui neste blogsforanada a nossa guerra do ULTRAMAR está a ser bem esmiuçada para um dia alguem a escrever a frio.

Lamentavelmente a guerra de LIBERRTAÇÃO em crioulo, bailundo, mandinga e bacongo ninguem tem tempo para a escrever, talvez porque essa guerra ainda está a decorrer.

Sem falar na guerra de África, essa está para durar, para castigo também dos "descolonizadores exemplares".

Mas houve mesmo colonização e descolonização?

A Europa já está a começar a "pagá-las"

Nós, tugas, portugas, lusitanos aguentámos aquilo que podemos e que nos ditava a nossa consciência e o nosso instinto, porque é sempre com o instinto que nós funcionamos.

Continua BS

António José Pereira da Costa disse...

Tou dacôrdo, karago!
Somos os máiores!
Aguentámos mais tempo fomos os grandes descobridores e fornecedores autorizados de novos mundos ao mundo e outras coisas que tais...
Mas essa do complexo de culpa da Europa não compro.
Um Ab. e boas férias, se for o caso
António J. P. Costa

Antº Rosinha disse...

A culpa de a Europa ter um vizinho continente indefinidamente harmonizado, não é de facto de inteira responsabilidade da Europa colonialista, também temos que nos atirar à ONU, Rússia e EUA, principalmente.

Só que os vizinhos de África são os europeus, e a Europa será sempre a primeira a suportar a despesa, como já está a acontecer.

A Rússia, a China e os EUA, estão longe geográficamente e humanamente.

Anónimo disse...

quando alguém tem a mania que é o maior ("intelectual" o único amigo da guiné e o único que escreve livros")designando os livros de outros por livrecos e chamando-lhes nacionalistas radicais só porque não perfilham as ideias dele. neste caso o grande "patriota" e pelos vistos o único combatente na guiné e detentor da verdade da sua verdade claro que é o caso do MBSantos.Não há nada a fazer.E não só enxovalha os autores do livro como os que foram entrevistados no mesmo esquecendo-se
(Esquece muito quem nada sabe)que alguns deles deixaram sangue na guiné,Sim porque isto de designar por livreco um livro. só porque não está de acordo com as suas ideias do MBSantos. não me parece ético e honesto.Mas enfim ele é que sabe tudo sobre a guiné e outros lugares do continente africano.
CGaspar

Anónimo disse...

E ainda digo mais, é por esta e outras que desapareceram do blogue muitos camaradas,que não se reveem no blogue e outros nem sequer escrevem para ele como o caso dos Fuzos e Marinheiros (a não ser um ou dois pelos motivos conhecidos).
CGaspar