quinta-feira, 9 de julho de 2015

Guiné 63/74 - P14857: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (V Parte): Brá, SPM 0418

1. Parte V de "Guiné, Ir e Voltar", enviado no dia 5 de Julho de 2015, pelo nosso camarada Virgínio Briote, ex-Alf Mil da CCAV 489 (Cuntima), e Comando do 2.º curso de Comandos do CTIG (Brá), CMDT do Grupo Diabólicos (1965/67).


GUINÉ, IR E VOLTAR - V

Brá, SPM 04181

Inferno na mata em frente a Brá. O sol queimava ainda não eram 9 da manhã.
Quicos à legionário pelo pescoço abaixo, trinta e tal tipos desapareciam pelo chão.
A cento e tal metros, Saraiva, Miranda, Moita, Mário Dias e outros, estrategicamente colocados, vigiavam-lhes os movimentos.
Um rabo mais levantado, pau pau nos troncos das palmeiras. Aqueles filhos da puta quase que me acertavam, viste? Cuidado com os gajos, pá! E vim eu de Guileje, grita o Vilaça! Pau pau, para o gajo que piou. Sai, sai daí, Vilaça, os tipos agora não te largam! Saio como, pá? Que merda!

Mata em frente a Brá

Quico a espreitar por um lado da palmeira, pau pau, outra vez no tronco.
Vão ali dois gagos aos esses, não os largue, assape-lhes, o Saraiva para um dos outros. Projécteis a bater no chão, lascas da terra a saltar, buum buum, granadas ofensivas a cair-lhes aos lados.
Olhos a cuspirem ódio no meio da poeirada. Estes cabrões não me largam! Um dos desesperados, localiza a palmeira onde se abrigava o capitão. Levanta suavemente o cano da G3 e tira a folga ao gatilho lentamente até a bala ir por ali fora e desaparecer no tronco, a pouco mais de dois metros do chão, talvez.
Um silêncio a durar minutos, ninguém se mexia.
Estão à espera de quê, meninas? Nada, nem um pio.

Tinha acabado de jantar no hotel Portugal com o Toni, com quem matara saudades do Porto. O Toni Ramalho tocava no conjunto do Toni Hernandez que fizera e ainda fazia furor entre a malta nova, a animar as festas em Santo Tirso, Riba d’Ave, Vizela, Guimarães, um pouco por todo o Norte. Viera de férias, e claro, falava da metrópole. Ora então, Toni, abre lá!

Hotel Portugal, Bissau

Com os olhos brilhantes, ouvira-o cantarolar o "Calhambeque" e "E que tudo o mais vá pró inferno", do Roberto Carlos, Love me Tender do Elvis the Pelvis, a Sylvie Vartan, pá, o Johnny Holliday, Les garçons et les filles da Françoise Hardy, já ouviste? Les Quattre-cents coups, grande filme do Truffaut! Qual filme de guerra, pá, é a história de um miúdo, de 14 ou 15 anos para aí, que passa a vida no desenrascanço, os pais não querem saber dele, passa a vida a golpar para ir ao cinema. Duas horas para aí, sempre a ouvir!

O curso de comandos chegara ao fim. Segunda-feiraeira começava a preparação dos novos grupos. Os nomes já estavam escolhidos, os Centuriões herdavam os sobreviventes dos Fantasmas do Saraiva, os Apaches os dos Camaleões do Godinho, os Vampiros o 4.º grupo que não existia anteriormente e os Diabólicos ficavam com o pessoal dos Panteras do tenente Pombo.
Quatro semanas cheias, com muita emoção, actividade física até mais sim, andar na mata de noite e de dia como deve ser, aprender a assobiar de noite, como pôr a arma a olhar, tentar distinguir os sons à noite e de dia, ligar disparos a armas, sentir ricochetes, chicotadas altas e baixas, projécteis a bater nas árvores, exercícios, repete, outra vez, táctica no terreno, sempre com fogo real. Trabalho nocturno todas as noites, granadas a toda a hora e em todo o lado, até debaixo da almofada da cama, montagem e desmontagem de minas e armadilhas, travessia de bolanhas, tiro de todas as posições, instintivo para alvos móveis, tiro-a-tiro, rajadas curtas de 3 a 5, disposição para emboscadas e golpes de mão, uso e manutenção dos rádios AN PRC/10, AVF, Hitachi, National, prática de primeiros socorros, injecções nas veias, intramusculares, intradérmicas até.
Nos intervalos da instrução no mato faziam por praticar uma alimentação rica em proteínas. Pão, se tivessem, e se não tivessem mais nada que se desenrascassem, que arranjassem na natureza. Apanhavam moscas e gafanhotos, tiravam-lhes as asas, pão fechado depressa, para aproveitar tudo.
As tribos da Guiné, Fulas, Balantas, Mandingas, Papeis, Manjacos, Felupes, Bijagós e o que se sabia da posição deles face ao conflito, utilização de guias, tudo embrulhado com muita mentalização, tanta que quando estavam a dormir eram acordados pela Voz, precedida de música alta, ritmada, intensa. Depois da Voz, música suave ajudava-os a adormecer.
Ao fim de semana descansavam. Iam para o mato executar golpes de mão a acampamentos do PAIGC que o Saraiva tratava de lhes arranjar nas 2.ª e 3.ª Repartições
De uma das vezes voaram num Dakota para leste, Canquelifá, foram procurar uma base da guerrilha no Piai, na fronteira com a Guiné-Conacri e em duas outras vezes foram para o triângulo do Oio, um na área de Bissorã, o outro entre Mansoa e Mansabá. O pessoal, à volta de 20 oficiais e sargentos enquadrados por comandos naturais da Guiné, Mamadú Jaló, Marcelino, Kássimo, o Tomás Camará e poucos mais, portara-se bem.
Sentia-se bem preparado, tinha a consciência que estava mais forte, já que tinha que ser, podia fazer uma guerra como devia ser.

Porta de armas do quartel de Brá. 
© Foto do autor.

O quartel de Brá era enorme. Era melhor que estivessem sós, mas repartiam sem grandes problemas as instalações com os Adidos e com o Batalhão de Artilharia 733. As instalações eram boas, limpas todos os dias. Os quartos seguidos, num edifício térreo de frente para a messe, uma rua de alcatrão bem tratado no meio, um campo de volei ao lado.

O interior do aquartelamento de Brá. Messes em frente, à direita. 
© Foto de Mário Dias.

No edifício à direita pernoitavam os oficiais dos comandos. Para lá da mata em frente ficava a base aérea e o aeroporto de Bissau.

As traseiras davam para terra batida, capinada uns dias antes que ainda cheirava a fresco, o arame farpado a pouco mais de 200 metros, junto à estrada alcatroada que ligava Bissau a Mansoa e que se ramificava depois em estradas de terra batida, picadas como lhe chamavam, para Bissorã uma, para Mansabá a outra, formando os dois lados do famoso triângulo do Oio, albergando pequenos mas numerosos acampamentos Inimigos em volta da base de Morés, destruída e logo de novo levantada noutro lugar próximo.


O aeroporto de Bissalanca a escassos quilómetros era um entretimento, iam lá tomar café, ver as chegadas dos voos semanais da TAP, as hospedeiras de saia travada a descerem as escadas do avião, o pessoal novo a chegar, chamavam-lhes maçaricos, periquitos meses depois, quase todos em rendição individual, as caras deles, coitados, e as jovens mulheres recém-casadas ao encontro dos maridos, corações descontrolados, mortos por as apertarem, beijos envergonhados, os olhares invejosos dos outros nas pernas delas.
No bar do aeroporto, o Paul Anka, às vezes, fazia o fundo, Only you.
No quarto que repartia com o Vilaça, herdado do Saraiva e do Godinho, adormeceu embalado com a música ritmada da ventoinha do tecto.
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Nota:
1 - Serviço Postal Militar e nome de código atribuído à CªCmds.

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Incidentes em Bissau

Nada de admirar, estamos na época das chuvas. O chumbo do céu a bater no alcatrão, até fumo subia! Voltou ao quarto a correr, no gravador a Rita Pavone "Perché, perché, la domenica mi lasci sempre sola"... Vilaça na cama, olhos no tecto, cantava com ela, oh Rita, grande Rita, canta, sua desgraçada, abre-me bem essas goelas!
Sem saber o que fazer, voltou a deitar-se, os Centuriões2 outra vez na mão.
As coisas não andavam famosas em Brá, nem tudo estava a correr bem. O capitão Rubim ameaçava demitir-se, pirar-se deles. Acima de tudo estava farto, cansado de ver por um canudo as promessas do Comando Militar.

Do Porto nada de notícias. A última carta que tinha recebido não lhe deixara muitas esperanças. Que não sabia se a coisa ia dar certo, que estava com dúvidas, que se calhar era melhor fazer uma pausa na escrita. A retaguarda ameaçava ruir, sentia falta de pé. Nestes meses todos, habituara-se a vê-la como se fosse a boa consciência que tinha deixado lá. Recebia cartas regulamente, todas as semanas, era um ritual pegar nelas, retirar-se para o quarto, abri-las, cheirá-las, pô-las por data, deitar-se na cama, ouvi-la.
Já há tempos que mantinham essa correspondência. Escreve para aqui, escreve para acolá, conheceu-a já nem se lembrava bem como. Gostou dela desde o início. A figura batia com o que escrevia. Foi para os Açores até que acabou por ser mobilizado.
Nos dias de férias da mobilização, antes do embarque, foi despedir-se. Daquele turbilhão de acontecimentos em tão poucos dias recordava o momento em que se separaram na Avenida dos Aliados, na paragem dos eléctricos, frente à Arcádia. Se um dia viesse a casar, era com ela que gostaria. Interessado, escrevia-lhe com regularidade, dava-se a conhecer melhor. Ela dava-lhe notícias, geralmente optimistas, do trabalho, da faculdade, da vida no Porto.
Mantinha-o ligado à vida real.

A Guiné estava a ser uma coisa estranha, um trambolhão de acontecimentos absurdos, uns atrás dos outros. Ia abatendo os dias para as férias cada vez mais próximas, mantinha-se mais ou menos equilibrado, parecia ter ganho até uma imagem de bom senso naquela barafunda.
Escrevia para alguns amigos e para um conhecimento de Angra. Esporádicos, do género como tens passado, vai correr tudo bem, o tempo passa depressa, nós por cá vamos andando.
De Angra, a correspondência era diferente, trazia-lhe recordações daquela liberdade, daqueles meses loucos, de Setembro quase até ao Natal do ano passado. Tanta liberdade, meu Deus, tanta asneira, nem sabia como saíra dali incólume, manchado saíra de certeza.
Todos, mas todos os regulamentos do Exército tinham ido para o tecto. O trabalho que teve para arranjar aquele conhecimento, quase que desistira, chegou até a pensar oferecer-se voluntário para sair dali, nem que fosse para a Guiné. O tempo que gastou atrás dela, a chuva que apanhou à noite a subir a pé para o Monte Brasil3, sem nada, nem uma esperança. Mais de 15 dias seguidos, ela sempre com cara de pau, conversa só se fosse para chamar a polícia. Amanhã é dia de última tentativa, andava a repetir há dias.

Ao fim de duas semanas, o tempo que se perdeu, ela lá se dispôs a conhecer o quartel. Ele, feito burro, acreditou que estava perante uma santa, mostrou-lhe a relíquia da capela do quartel, uma igrejinha dos tempos de um Filipe de Espanha, as muralhas, até o dístico "Antes mortos livres que em paz sujeitos", tão ingénuos como ele afinal.
Finalmente conseguiu convidá-la para uma partida de bilhar na sala de oficiais.
As portas fechadas, que o comandante ainda não saíra, taco na mão, puseram-se a jogar bilhar livre.
Ela, quase do tamanho dele, mas muito melhor proporcionada, que vistosa nem se fala, a cor da pele que as açorianas têm, quando pegava no taco, o vestido a subir por ali acima. Meu Deus. As bolas difíceis, então aquele tripé ou lá como se chama, não está aí? Nem associava nada, aquela maravilha toda estendida em cima do pano verde, e ele definitivamente arrumado no jogo.
O taco na mão dela, o cabelo comprido em cima dos olhos. Perdeu o sentido do jogo, de oficial de dia também, ia até perdendo a compostura se ela não lhe diz, hoje não. Hoje não, porquê?
Ora porque não, nem hoje nem amanhã, depois de amanhã vamos a ver, ele sem perceber, mais burro que nunca, ela a sorrir. Nem um beijo, nem nada? E ela, mas quem pensas tu quem sou? Tudo a ruir, o castelo também se calhar, tanto esforço para nada. Hit the road, Jack, o Ray Charles a estrear a grafonola comprada dias antes no PX4.

E subitamente, dois dias depois, ficou a saber quem ela era, o jogo todo aberto. Uma loucura dali para a frente. Por acréscimo, nem é bom falar nisto, pusera-se a poupar dinheiro à tropa, dando prémios aos melhores recrutas. Quem fizer 20 flexões, quem correr os 100 metros antes dos 20 segundos, quem se apresentar melhor, quem fizer isto tudo, dois dias de dispensa!
Num dia, lá para as 11 da manhã, estava a despachar o pequeno almoço e o expediente, tudo ao mesmo tempo, o 1.º sargento disse-lhe, talvez não seja má ideia, meu aspirante, avisar o pessoal do rancho, quase metade da companhia de recrutas está de licença estes dias todos.
Uma vergonha, nem lembrar quanto mais para contar. Tributo à gente boa daquelas ilhas, que terra tão abençoada!
As cartas desse conhecimento traziam-lhe os cheiros da Ilha, o capacete da humidade daqueles dias em Setembro, a vontade de preguiçar, os banhos sem roupa no mar dos Biscoitos5, naquelas manhãs e tardes em que as ondas iam e vinham, mansas, embrulhadas na bruma. O gosto da areia na boca, as mordidas naqueles seios minúsculos, os bicos enormes, o beijo até sentir as coxas dela a apertar-lhe o pescoço. Cartas perturbadoras, claro, de esquecer.

"Morreu um tipo de um país qualquer6, o Salazar decretou 3 dias de luto e lá estamos nós a ouvir música de mortos com a nossa bandeira a meia haste.
Custa-me engolir estas histórias quando os nossos mortos estão a ser ignorados.
Fala-se no próximo baile de finalistas, que vai ser uma festa de arromba. Alguns dos nossos vão roncar com as namoradas ou com os arranjinhos. O Parreira anda todo satisfeito, até o Quintanilha, aquele alferes dos páras mandou vir da metrópole um fato de cerimónia! Quando estive de férias em Lisboa logo a seguir à formação dos grupos, os Fantasmas accionaram uma mina e foi o que se sabe, 9 dos nossos já lá estão. Entre eles o meu grande amigo Artur. Morrem-nos 9 homens e a Emissora Nacional continua a twist e a ié-ié. É isto que me custa engolir. E ainda por cima, cabo-verdianos e alguns guineenses não vêem com bons olhos a nossa presença nas festas deles”, descarregava o Miranda, mais que irritado.

Mas que raio estava aqui a fazer? A Guiné não lhe estava a dizer nada, não a sentia como sua, sentia-se um intruso. Até com os civis brancos, poucos, talvez três dúzias, se calhar nem tanto, para além da cor da pele, de comum não sentia nada. E até lhe parecia que a sua presença era bem vinda como comprador, só isso.
Na esplanada do Bento7, a 5.ª rep. como também era conhecida, bebia cerveja com mancarra, num grupo de meia dúzia de alferes e furriéis comandos. Um terá dito, depois, que naquela noite, na Associação Comercial de Bissau, havia o baile dos finalistas da Escola Técnica. Outro lembrou-se de perguntar se alguém recebera convite. Eu não, tu não, aquele também não. Ninguém se lembrou de nós, como pode ser? Queres ir? Vamos.

Edifício da Associação Comercial e Industrial de Bissau. 
© Foto do autor.

Dentro da Associação, no enorme salão de baile, finalistas e professores da Escola Técnica de Bissau, familiares e convidados, todos animados a dançarem ao ritmo da orquestra do maestro Reis Pereira, viram alterado o programa por volta da meia-noite.
Os poucos elementos policiais, que se espalhavam pelas escadas de acesso ao andar de cima, tentaram barrar-lhes a entrada. Não conseguiram. Quando os dançantes os viram entrar em fila, fizeram alto e o baile parou. Depois, ninguém soube bem como tudo começou.
A princípio, as frentes pareciam bem delimitadas, a maioria dos participantes em festa de um lado e a meia dúzia de intrusos do outro. Com o decorrer das hostilidades, as duas partes em confronto clarificaram-se ainda mais. Quando se começaram a ouvir vivas ao camarada Presidente Amílcar o conflito alargou-se para a via pública, até que um pelotão da PM entrou em acção. Trinta e tal tipos com escoriações para o hospital, a polícia civil e a PIDE também metidas, vidros e loiças em cacos, cadeiras e mesas partidas, uma noite que nunca mais acabava.
Mesmo em frente ao Palácio do Governo, onde, soube-se depois, da janela, o Governador via aqueles gajos darem-lhe cabo da psico. Uma vergonha!
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Notas:
2 - Jean Lartéguy, escritor panfletário das acções da Legião Estrangeira na Indochina e na Argélia Francesas.
3 - Castelo de S. João Baptista, antiga fortaleza, onde estiveram presos muitos oposicionistas ao regime que vigorou em Portugal até ao 25 de Abril.
4 - Armazém da USAF na Base Aérea da Terceira.
5 - Freguesia do Concelho da Praia da Vitória
6 - John Kennedy, presidente dos E. U. América.
7 - Cervejaria com esplanada na baixa de Bissau, muito frequentada por militares.

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Nino? Sentido!

Nove horas da noite, grupos em sentido na parada. Porta fechada num gabinete. O capitão pergunta aos comandantes dos grupos os porquês de tanto atraso da formatura. Para que horas estava marcada a instrução dos grupos? Às 21? E que horas têm? 21h02? Às 21h00, 1 ou 2 minutos depois são outras horas, ou não? Um minuto, meu capitão, resmunga baixo um! Uns bardamerdas é o que vocês são, os gajos fazem o que querem de vocês!
O meu grupo estava pronto às 5 para as nove, diz-lhe outro.
Saraiva pára, vira-se de frente, olha-o de baixo para cima, dispara, ouça lá seu alferesinho de merda, você acha que não sou capaz de o pôr daqui para fora ao murro e pontapé?
Não devia ter falado, meu capitão, agora já estou avisado.
Saraiva tira a boina, o alferes não lhe larga os olhos. O capitão passa a mão pelo cabelo, três afastam-se ligeiramente a olharem para o lado, o outro segue-lhe os movimentos.
Esta, suas meninas, esta, martela o capitão, com a mão virada para o tal, é a única, a única atitude que um comando pode ter! Falamos mais tarde, alferesinho, agora todos à minha frente, 20 flexões para cada um, grupos incluídos.

Capitão Maurício Saraiva, com os "Apaches" ao fundo. Brá, Setembro de 1965.

O capitão Maurício Saraiva, promovido a capitão por distinção, até então o único vivo com a Medalha de Valor Militar em Ouro, depois de duas cruzes de guerra, tinha metido o chico8, estava em Lisboa na Academia Militar.
Aproveitara as férias para vir a Bissau dar-lhes instrução operacional, e sair com eles para o mato durante o curso de comandos para oficiais e sargentos do CTIG.
Foi um dos fundadores dos comandos da Guiné. Tinha estado em Angola, com o Godinho, os irmãos Roseira Dias, o Miranda e outros. Depois formou o grupo dos Fantasmas e com ele percorreu a Guiné de uma ponta a outra.
Deixou fama pela forma como fazia a guerra, por vezes parecia encará-la como se fosse uma brincadeira. Fazia que retirava, dava às vezes até sinais de fuga descontrolada, como se quisesse animar o IN a mostrar-se confiante. Escondia-se com o grupo, paciente, uma ou duas horas se fosse preciso. E depois, Fantasmas ao ataque! Uma série de êxitos coroavam-no e era objecto de mal disfarçada homenagem, numa altura em que a regra era ver as NT recolhidas a posições defensivas.

Mas nem sempre as coisas correram bem. Tanta intrepidez e desafio também lhe trouxeram sérios problemas.
Novembro de 64, dia 28. Perto da fronteira com a Guiné-Conacri, na estrada de Madina do Boé para Contabane, a uma escassa centena de metros do pontão sobre o rio Gobige, os Fantasmas detectaram uma mina anti-carro.
Levantaram a mina e simularam o rebentamento. Ficaram emboscados nas proximidades cerca de 2 horas. Viram um grupo IN aproximar-se e afastar-se logo que deram pela presença de mulheres na estrada. Uma hora depois viram um elemento IN a fugir. Afinal, estavam em igualdade de circunstância, todos sabiam da presença uns dos outros. No dia seguinte voltou com o grupo ao local. Meteu-se com alguns soldados no Unimog mais pequeno à frente, e encaixou o resto do grupo no Unimog maior atrás. A primeira viatura passou, a outra, uma dezena de metros atrás, não. Pisou uma mina. A viatura incendiou-se, as munições explodiram como foguetes num arraial minhoto e do depósito de combustível saía fogo. Quase todos os homens foram projectados a arder. Sete mortos logo ali e três feridos graves. Regressaram doze a Bissau. Com o grupo dizimado, poucos dias depois arrancou com os restantes para uma operação.

Já quase no final da comissão, em Cameconde, lá para o sul. No diário do furriel João Parreira, um deles, podia ler-se:  
“6 Maio 65. Saímos às 15h00 para a operação “Ciao”, num Dakota até Cacine e depois em viaturas até Cameconde, onde já se encontrava um pelotão à nossa espera. O Capitão Rubim foi connosco. Saímos às 19h00 em direcção ao objectivo. Segundo as informações que nos foram fornecidas, a base IN era composta por cerca de 80 homens bem armados, comandados por Pansau Na Isna, chefe militar, adjunto do João Bernardo Vieira, de etnia Papel, mais conhecido pelo Comandante Nino.
Já na madrugada do dia 7, a poucos quilómetros do objectivo demos indicações ao pelotão para permanecer ali e esperar pelo nosso regresso, com a missão de proteger a nossa retirada ou dar-nos apoio, caso fosse necessário. Assim, seguimos silenciosamente até perto do acampamento, situado na mata a sudoeste de Catunco. Apesar de termos feito uma aproximação cuidadosa, fomos detectados por uma sentinela. Tentámos assaltar o acampamento. Mas eles estavam bem preparados, reagiram ao nosso fogo e o tiroteio prolongou-se. Quando o fogo deles abrandou, entrámos por ali dentro e vimos material abandonado durante a fuga. Oito armas, cunhetes de munições, granadas, petardos, equipamentos, minas, fardas, e muitos documentos, entre os quais um caderno que pertencia a um tal Armindo Pedro Rodrigues, com elementos importantes da Ordem de Batalha do PAIGC.
Carregados com o nosso material e com o que tínhamos capturado, regressámos para junto do pelotão de recolha. Juntámo-lo e começamos a vê-lo em pormenor. Faltava o aparelho de pontaria de um morteiro, até então ainda não apreendido na Guiné.
O Morais afiançava tê-lo visto lá. O tenente Saraiva chamou o Amadú e o Morais e disse-lhes para voltarem ao acampamento. Embora estivéssemos conscientes do perigo, arriscámos, partindo do princípio que o IN se tinha retirado após as baixas sofridas. O Morais perguntou quem é que queria ir com ele e com o Amadú. Ofereci-me bem assim como o capitão Rubim, o furriel Matos e mais 7 camarada, 10 no total.
De novo no interior do acampamento a arder. Vi uma árvore gigante, com umas cavidades enormes. Espreitei para dentro de uma, o Morais para a outra, à procura de material, e o restante pessoal, por ali perto, fazia o mesmo. Subitamente, rajadas de metralhadora e granadas de bazuca caíram-nos em cima. Uma destas rebentou entre nós. Um pequeno estilhaço partiu a coluna do Morais, que caiu sobre uma fogueira. Eu fui atingido no lado direito das costas, mas na altura nem localizei o ferimento.
Vi o Morais a morrer quando o olhei de relance. Um vago murmúrio, depois mais nada, um ar sereno no rosto, pareceu-me. Deitei-me e reagi ao fogo, mas passado pouco tempo fiquei sem força no braço, a G-3 ficou muito pesada, e depois já nem o gatilho conseguia apertar. Passei a espingarda para o braço esquerdo e fiz fogo, mas julgo que não fui nada eficaz. Os outros 8 camaradas, embora ligeiramente, foram todos atingidos. Depois os restantes elementos do Grupo foram lá buscar-nos. Junto do pelotão de apoio, injectaram-me morfina. Tinha perdido muito sangue. Prestaram-me os primeiros socorros em Cacine.
Fomos evacuados para Bissau. Eu de barriga para baixo, bem atado, com mais uma injecção de morfina, e o Morais, morto, cada um em macas de lona, encaixados no exterior do heli9. Durante o trajecto, e em duas localidades diferentes, na minha sonolência ouvi rajadas de metralhadora que me pareceram passar rente ao helicóptero. Pareceu-me uma eternidade a viagem até ao hospital de Bissau, onde, depois de me terem operado, fiquei internado.
8 Maio. O Marcelino foi o primeiro a vir ver-me ao Hospital. O crucifixo que eu trazia ao peito era uma crosta, uma grande cruz de sangue seco. Pedi-lhe que o lavasse.
9 Maio. Muitos camaradas me visitaram hoje, o major Dinis, o tenente Saraiva, o alferes Pombo, os furriéis Matos, Moita e o Miranda, claro. Da parte da tarde vieram a D. Beatriz Sá Carneiro, mulher do Comandante Militar e a D. Mariana do MNF10.
O Morais era órfão de pai. No caso dele correu tudo no mesmo sentido. Mal. Não era necessário a presença dele nesta operação, já tinha acabado a comissão. Em Brá tentaram persuadi-lo, mais que uma vez, a não ir. Tantas vezes, que diferença vai fazer sair mais uma, insistia. Não embarcou com o Batalhão a que pertencia, por ter combinado que esperava que o tenente Saraiva e os furriéis Matos, Moita e Ilídio acabassem a comissão. A estes faltavam-lhes apenas 15 dias. Imaginava o regresso à Metrópole, todos juntos num navio, como se regressassem de um cruzeiro de férias.
O Miranda recebeu o corpo no Hospital. Foi ele com o Mário Dias, o Fabião e o Ilídio que o lavaram, vestiram e deitaram no caixão. Fizeram uma colecta para a compra do caixão de chumbo. E coincidência, morreu no mesmo dia em que o seu Batalhão de origem desfilava em Lisboa, com a missão cumprida.”
Claro que, fosse para onde fosse, o Saraiva trazia com ele esses e outros acontecimentos, como se uma auréola o enfeitasse.

Quando reentrou em Brá, para passar o tal mês de “férias”, apresentaram-lhe os novos que estavam a frequentar o curso e pessoal já bem conhecido dele, o capitão Rubim, o sargento Mário Dias, os furriéis Miranda, Moita, Matos, Fabião, o João Parreira, o cabo Marcelino, os soldados Kássimo, Tomás Camará, o Adulai Jaló e outros.
Dos novos conhecia um ou outro, e aos que não conhecia tinha algum tempo à frente para os ver trabalhar no mato e depois veria a quem entregaria o crachá.
Passava a vida a pô-los em sentido. Uma volta na conversa e lá vinha o Nino à baila. O Nino, estão a olhar para mim?
O Nino11, que porra, estes gajos são todos surdos? O Nino, ele a insistir e os alferes com falta de entendimento. Sentido, porra! Aqui nos comandos quando se fala no Nino, toda a macacada, vocês também, saltam como uma mola, estejam onde estiverem, não interessa, põem-se a pé! Em sentido!
E foi assim que se fez escola, dali para a frente, sempre que alguém pronunciava o nome do Nino, os outros punham-se em sentido.

Uma vez, em Biambe, na zona do Oio, uma tempestade como não havia na memória deles, tinha partido o grupo em dois, aí pela uma da madrugada, noite negra como só em África quando o céu está todo tapado. Um, sozinho, lá encontrou o trilho depois de andar a tactear o chão. Daqui não saio, vou-me mas é sentar!
A chuva não parava, pareciam pedras a cair, faziam tanto barulho no camuflado que receou que o denunciassem. Ainda bem que só tinha as cuecas debaixo, menos peso para carregar. Nada de sinais, nem de trás nem da frente. Esta é boa, onde é que os gajos se meteram, que merda, assobiou baixo, a imitar o pássaro que afinaram no curso. Nada de respostas, minutos a passar, chuva em barda. Estou frito, estou mesmo perdido, o coração como um cavalo a galope, até sentia calor, olhava para todo o lado e só via escuridão, pirilampos nem vê-los, nada, só ouvia o barulho da água a bater. E agora, o que faço? Eles hão-de dar pela minha falta, não me vão deixar aqui. E se não derem?
Calma, esperas pelo nascer do dia, viras as costas ao Sol, cortas mato, nada de trilhos, sempre em frente, até à estrada Mansoa-Bissorã, escondes-te, há-de aparecer uma coluna um dia destes, quase todos os dias passam. Depois é só saltar para a estrada e pronto. E se a guerrilha te vê, o que é que fazes? Pois. Minutos a durarem horas, o coração outra vez.
Um pequeno som, pareceu-lhe, serão eles, ou estarei a sonhar? Um assobiar baixinho. É isso, são eles, nunca mais vinham, assobia também, assobio cada vez mais próximo, uma mão, o Kássimo, o Saraiva atrás. Então e os outros? O capitão, danado, a bufar, e os outros? Kássimo à frente a assobiar, dentro do trilho, foram andando para trás, mãos no cinturão do da frente. Encontraram o capitão Rubim e o alferes Vilaça, os dois sentados, costas com costas. A dormir na forma, ah?

No outro sábado o Saraiva encontrou os quatro alferes sentados, tinham acabado de almoçar na messe de Brá. E o programa para hoje, qual é, perguntou. Vou até Bissau espairecer, diz um, outro vou mas é dormir com a cama, a correspondência a preocupar o terceiro, o quarto, sei lá? Ele arranjava um melhor, têm 5 minutos para se equiparem para sair.
Levou-os para o aeroporto, os motores já quentes do Dakota pronto para descolar. Foram para leste, Nova Lamego até Canquelifá, perto da fronteira com a Guiné-Conakri. Chegaram com o Sol quase a ir-se. Esperaram fechados dentro do avião, os motores parados.
Abriram-lhes as portas, entraram directos para uma GMC com as lonas corridas. Meteram-lhes lá dentro queijo partido aos bocados e pão. O Saraiva, gargalhada baixa, a pedir os cantis, para encher de água fresca, disse. O meu não precisa, está cheio até cima, nem se ouve, mesmo que o abane, diz um. Passe, o capitão a insistir. Que a marcha ia ser longa, cerca de 20 km, e a água vai ser decisiva.
Ouçam bem, só bebem quando eu der sinal, todos a beber ao mesmo tempo.

© Foto do Júlio Abreu. Com a devida vénia.

Carvão negro na cara e nos braços, pareciam manjacos e mandingas. Pôs-se o sol, meteram-se no mato, dois a dois, trilhos fora, quilómetros e quilómetros, a noite toda.
Comandos ao ataque, o Saraiva desalmado a gritar, como gostava de começar o dia. Fizeram-se a eles, por ali dentro, as casas de mato com 2 ou 3 gajos que nunca lhes tinham sido apresentados a pisgarem-se. Depois, um dos intrusos passou à história. Da gargalhada. Quando sentiu os projécteis de uma metralhadora pesada inimiga a bater lá em cima nas árvores, até disse para os outros, olha a NT a apoiar! Os outros a rirem-se, uma força danada dentro deles. No caminho do regresso lembraram-se da genica que sentiram, estamos numa forma do caraças, não estamos?
Nunca souberam de onde tinha vindo tanta gana, se calhar tinha sido quando o capitão, finalmente, autorizou meterem água, devia ter vitaminas. A certa altura do caminho de retirada, começaram a ficar sem forças. Estranharam, nunca lhes tinha acontecido, não acertavam com o trilho, não era só um, eram todos. Menos o capitão. Alguns paravam, encostavam-se às árvores, queriam sentar-se, os olhos para cima. Quem parar fica para trás, o Saraiva lá à frente, na esgalha. Em pequenos grupos foram chegando. Em Canquelifá, uma cerveja gelada, boca abaixo, duma vez só. Alguns só acordaram com os motores do Dakota e um ou dois nem assim. A caminho do avião, pareciam zombies, em coluna por um, pelo campo fora.

Da outra vez, mandou tapar-lhes os olhos com algodão, fita adesiva e um lenço negro por cima. Só tiram os lenços e o adesivo quando eu mandar. É para ver se adivinham para onde vamos passar o fim-de-semana. Viaturas pela estrada fora, para onde havia de ser, para o Oio. Quando entraram em Mansoa, pararam. Então, quem é amigo? Para onde vamos então? Toca a tirar os lenços, olhos e ouvidos bem abertos agora. Foram por ali fora até Bissorã. A mesma história do queijo e do pão, uma cerveja para cada um, cantis cheios de água, por aqueles trilhos, a noite toda.
Um cigarro agora é que sabia bem. Pois, também a mim me apetecia estar na praia de Carcavelos, ao sol com a miúda, os ouvidos dele em todo o lado. Fumas no fim do fogo. O dia clareou, estavam no sítio certo, as casas de mato em frente. Os guerrilheiros é que faltaram à chamada naquela altura. Não saímos daqui enquanto os gajos não aparecerem, o capitão a provocá-los. Vieram mais tarde, quando já não dava muito jeito, mas arranja-se sempre qualquer coisa, que remédio. Um daqueles alferes integrado na equipa do furriel Moita, apanhado num campo de mancarra, com nada para se abrigar, ou estava com pressa de regressar a Bissau, ou tinha visto no cinema uma cena parecida, chateou-se, aqui vou eu, quem quiser que venha. Quis lá saber da parelha e da equipa, meteu-se por aquelas casas de mato dentro. Depois ficou lá dentro sozinho, sem saber bem o que fazer. Os companheiros daquele fim-de-semana encontraram-no a olhar para o ar, para os ramos das árvores a abanarem com as balas. Estes gajos nunca mais aprendem, porra, 20 flexões aí já, o Saraiva oportuno como sempre. Agora sim, podem fazer fogo com o isqueiro, toca a fumar!
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Notas:
8 - Dizia-se dos milicianos que passavam ao Quadro Permanente.
9 - Allouette II
10 - Movimento Nacional Feminino.
11 - Considerava o Nino como um verdadeiro chefe militar e, apesar de inimigo, merecedor de respeito.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 7 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14845: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (IV Parte): Comandos do CTIG

10 comentários:

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camarada
Ainda conheci a D. Mariana (Mayer de Brito) do MNF.
Quando voltei, em 1971, para me cobrir de glória pela 2ª vez, já ela não andava por Bissau.
Era também a Senhora do "Turismo" em Bissau. Fosse lá isso o que fosse... O Turismo era na Marginal e há uma foto no blog daquelas em postal ilustrado com cores devidamente borradas onde se vê o respectivo edifício.
A diferença entre o Bissau desse tempo e o de 1968 e especialmente o de 1971/73 é enorme, especialmente devido ao trânsito automóvel - constituído na sua maioria por veículos militares e de militares - e pedonal onde os militares eram no máximo número.
Creio que estas fotos ainda dizem respeito ao tempo em que havia paz em muitos sítios. Depois...
Conheci o Cap. Saraiva que me pareceu sempre muito reservado e muito empenhado na "guerra", embora tenha dificuldade em entendê-lo.
Sei que foi ferido com uma mina A/P em Moçambique e ouvi dizer que terminou os seus dias trabalhando no Ar Líquido.
Um Ab.
Anyónio J. P. Costa

Cherno AB disse...

Caro Virginio,

Obrigado por partilhar connosco uma parte das tuas/vossas notas, memorias e sentimentos. Pela forma breve como as notas sao apresentadas deduzo que se trata de uma pequena parte, a ponta do Iceberg, do que foi realmente a vida de um Comando no CTIG. Eh com prazer e com o maior interesse que estou a acompanhar os teus postes que ja vao na V parte mas, parece que so agora comecou.

Nos fomos criancas que foram submetidos as vicoissitudes (virtudes e maleficios) da Guerra e como tal a nossa vida ficou impregnada dela ate ao tutano e os Comandos eram o nosso modelo a seguir e, quanto mais perigoso, melhor. Integravam os grupos de Comandos (primeiro e segundo curso) soldados (infelizmente ja falecidos) originarios da minha terra, que certamente tera conhecido, por ex. Alanso Cande, Guela Balde, Mamadu Balde (Alferes) com ultima morada em Damaia, Lisboa.


O Virginio, contrariamente ao Amadu no seu livro, fala dos Comandos mas, nao acrescenta a palavra 'africanos'. Gostaria de saber se existe uma razao para isso (?). Outra questao eh: Quando eh quem teria inventado o conceito de "Os Comandos africanos" na Guine? Os Comandos em angola e Mocambique teriam a mesma designacao? Na parte final da Guerra nas tres frentes(73/75) o que distinguia um Comando da Guine dos outros Comandos?

Com um abraco amigo,

PS/: Espero pelos proximos episodios.

Cherno AB

Anónimo disse...

O furriel Amtónio Morais pertenceu á C.Caç 412 em rendição individual e eis como:
Em vinte e poucos de Setembro de 1963, o Sr. Pereira do Enxalé apareceu em Bafatá dizendo no Comando de Batalão 506, que tinha sido contactado pelo PAIG a fim de pagar o tributo de guerra. Ora com todos os receios resolveu abandonar as casas e vir para Bafatá, seguindo posteriormente para Farim. O Comando determinou uma operação no Enxalé (Operação Toro Verde)para onde seguiu a C.C 412, companhia operacional,com dois pelotões, o 1º e o 3º,uma Autometralhora Fox do Esquadrão 385 e uma secção de morteiros pesados que pertencia ao Batalhão. Seguiram por aldeia de Geba, Mato Cão, Enxalé,passaram o rio S. Belchior, em direção a Portogole. Mas num alto chamado Flora encontraram umas abatizes.
Então o Furriel José Inácio Pinheiro(Setúbal)* do 1º pelotão,Minas e Armadilhas, foi verificar e atiraram-lhe duas granadas que o feriram muito tem morrido por falta de assistência aérea para a evacuação. Está sepultado em Bissau. Ele havia estado em Sare Bacar destacado, pelo que a experiência de operações de mato era de facto muito pouca
Foi pedida a sua substituição, tendo sido destinado o famoso toureiro Óscar Romano. Este como não queria ir para a Guiné, contactou diversos furriés, mas só o António Morais se ofereceu com a contrapartida de QINHENTOS CONTOS. Passado um mês apresentou-se na CC.412, tendo seguido para Camamudo. Quando veio o pedido de voluntários para os Comandos, Ele, o furriel Armando Teixeira**, os Soldados Isidro António Roios, David Cibrão e o cabo José Ferreira, todos da 412, ofereceram-se.
Quando já no regresso embarcados no Uige, chegados a Lisboa a 9 de Maio de 1965 (fez este Maio pp 50 Anos) viemos a saber que o António Morais tinha morrido numa operação dos Comandos
* O Pinheiro era muito conhecido pois foi Campeão Nacional de Ténis de Mesa
** O Armando Teixeira, 2º Sargento Mil foi á Operação Mar Verde-Konakri , natural de(Cerva-Ribeira de Pena)

Anónimo disse...

Alcidio Marinho

Anónimo disse...

"O pessoal, à volta de 20 oficiais e sargentos enquadrados por comandos naturais da Guiné, Mamadú Jaló, Marcelino, Kássimo, o Tomás Camará..."
CORRIGIR: Adulai Jaló e não Mamadú Jaló.
As minhas desculpas.
VBriote

Anónimo disse...

Caro Cherno AB

Obrigado pela sua mensagem. No tempo do General Schulz não havia a designação do Comandos Africanos. Havia Comandos, europeus e guineenses. Mais tarde, em Julho de 1969, no tempo do Gen. Spínola, por proposta do major Almeida Bruno, formou-se a 1ª CªCmds Africanos, comandada por João Bacar Jaló. Com o decorrer do tempo e dos resultados obtidos formaram-se as 2ª e 3ª Cªas Cmds Africanos. E Cmds Africanos porque todos os militares, desde soldados a capitães eram guineenses. Constituiu-se assim o Bat. Cmds Africanos. Os militares europeus que acompanhavam os Guineenses eram o Comandante do Batalhão (TenCor. A. Bruno e mais tarde o major Raul Folques). Para além destes cada CªCmdsAfricanos tinha um oficial europeu, um capitão, que acompanhava como consultor as operações no terreno. Há opiniões que defendem que a breve prazo também o BatCmds Africanos seria comandado por um oficial Guineense.
E para finalizar eram destacados para a Guiné CªsCmds formadas em Lamego que, depois de estágio no teatro de operações participavam, muitas vezes, com Cmds Africanos em acções militares (Cumbamori, Conacri, etc...).
Em Angola e Moçambique a situação não era exactamente a mesma, mas havia tropas constituídas por militares angolanos e moçambicanos.
Espero ter respondido à sua questão. Um abraço do V Briote

Anónimo disse...

Caro Alcídio Marinho,

Obrigado pelo seu precioso esclarecimento. Fica registado para a história.
Um abraço do
VBriote

Luís Graça disse...

Mensagem enviada à amiga KLucaian Saraiva
9 jul 2015 21:45


Querida amiga;


Veja aqui a notável série do Virgínio Briote, "Guiné, ir e voltar"...Tem muito interesse para a história do seu tio e dos comandos do CTIG... E a propósito, veja se tem mais fotos do seu tio...

Ainda não tive tempo de lhe substituir a sua foto de perfil, tarefa que me pediu.... Peço desculpa, mas o tempo é escasso para os múltiplos afazeres, bloguísticos e académicos... a escassas três semanas de férias escolares... Na Universidade, paramos em agosto...

Um beijinho. Luis Graça

Anónimo disse...

Luciana Andrade Guerra

10 jul 2015 04:26

Olá boa noite! Saudades do meu tio!!!

POR FAVOR TIRE ESSA FOTO HORRÍVEL !! Risos. Eu agradeço, é bem rápido e fácil. Jogue a antiga no lixo.

Eu tenho algum DNA do meu tio... somos apressados e determinados.
Desejo muito sucesso para vosso Blog. Da próxima vez que for a Lisboa aviso para vos conhecer.

Trabalho imenso e Tb não tenho muito tempo. As fotos que tenho são de família. Meu tio era uma pessoa incrível.

Um abraço e espero que substitua logo essa minha foto.

Grata, mandem notícias. Eu vou ver com atenção “Guiné, ir e voltar”...

Luciana Saraiva

Costa Abreu disse...

Caro Briote,
Cada novo capitulo que leio, cada vez recordo mais destes bons tempos, recordar e bom pois representa que ainda estamos vivos, sobre a a ultima foto que esta publicada era a minha equipa, o militar alto que esta do lado esquerdo era um alferes meliciano e o outro era um furriel tambem meliciano os 2 piriquitos estiveram 3 semanas na minha equipa para se aclimatarem e aprenderem o que era a Guine. Eu sou o que esta a seguir a eles, espero pelo proximo capitulo pois cada vez se torna melhor
Julio Abreu
Grupo de Comandos Centurioes
Ex-Guine Portuguesa