terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Guiné 63/74 - P15784: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (39): De 1 a 24 de Agosto de 1974

1. Em mensagem do dia 19 de Fevereiro de 2016, o nosso camarada António Murta, ex-Alf Mil Inf.ª Minas e Armadilhas da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973/74), enviou-nos mais uma das suas Memórias, a 39.ª.


CADERNO DE MEMÓRIAS
A. MURTA – GUINÉ, 1973-74

39 - De 1 a 24 de Agosto de 1974 (quinta-feira)

Parti finalmente de Bissau rumo à Metrópole e a casa, para gozar umas férias que, de tão merecidas, se prolongaram até à minha passagem à disponibilidade em 28 de Setembro/74, não mais retornando à Guiné.

Ironia das ironias, ao fim de 18 meses de comissão num território em que cada metro quadrado era, potencialmente, um bom lugar para se morrer, foi a caminho de casa que tive o meu último susto de morte. Sem exagero, vi-a mesmo ao lado. O avião em que seguia fez escala na Ilha do Sal em Cabo Verde, como era frequente. Tenho uma vaga lembrança de que estava uma tarde magnífica e de que nos fizemos à pista com aparente normalidade. Contudo, ao poisar na pista, o Boeing fê-lo batendo apenas com o trem de aterragem do lado direito e eu, à janela desse lado, julguei ver o reactor sob a asa que rasava o chão, chispar na pista. Fiquei sem fôlego. Entretanto, ainda em velocidade vertiginosa, o avião aponta a asa ao céu e vejo (vimos todos com terror) o reactor da asa oposta raspar junto ao chão desse lado. Até perder velocidade e estabilizar já próximo das instalações do aeroporto, foi assim a alternância entre as duas asas, e só aos poucos percebemos, com alívio, que era cada vez maior a distância do reactor ao chão. Com o avião parado quase dava para um homem em pé passar sob o reactor...

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Foi indescritível o país que vim encontrar na minha terra, neste mês de Agosto. Tão indescritível que me vou poupar a revelações do que, quase todos conheceram antes de mim, evitando ainda o risco de ser panfletário ou demasiado optimista quanto ao futuro que se avizinhava. Mas para quem como eu, nasceu e cresceu na mais cinzenta das ditaduras, num país amordaçado até ao sufoco, não posso deixar de revelar a mais doce das liberdades com que me deparei: a liberdade de expressão.

“Sei que estás em festa, pá / Fico contente”

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No final deste mês de Agosto/74, no dia 29, destaque para a ratificação do acordo com o PAIGC sobre a independência da Guiné, feita pelo Presidente da República António de Spínola.

Ainda no fim de Agosto e depois de ver gorado o meu regresso à Guiné, como dei conta anteriormente, fiquei algum tempo em estado de choque perante o facto consumado: o meu Batalhão tinha regressado à Metrópole durante o meu período de férias. Passado esse período difícil e arrumadas as diligências que se impunham, aos poucos, virou-se o meu pensamento para aqueles que não voltaria a ver e que me haviam suavizado os dias na Guiné. Ainda não eram as saudades a amolecer-me a alma, como ocorreria mais tarde, mas a lembrança penosa de que não me despedira de quem gostava e a dúvida do que terão ficado a pensar de mim. De facto, embora não houvesse motivos, poderia até parecer que me antecipara de forma calculada à saída da tropa de Nhala. De todos os que deixei sem um abraço, camaradas de armas e habitantes da tabanca de Nhala, ficou-me até hoje uma saudade profunda. Que caminhos terão seguido os meus soldados e os demais camaradas? Que será feito dos meus amigos e amigas da tabanca? É de alguns destes últimos que, com nostalgia, aqui deixo uma breve galeria.

Foto 1 – Nhala, 1973: Eu e o Manel, rapazinho inteligente e muito dedicado à tropa, que passava o dia quase todo no aquartelamento. Tinha uma especial consideração por mim e eu ajudava-o no que podia. 

Foto 2 – Nhala, 1973: Jomel, um caso de excepção na ajuda ao furriel enfermeiro, passava todo o seu tempo na enfermaria. Safado, ria-se quando o confrontávamos com a sua condição de muçulmano que comia do nosso rancho, desde as salsichas até ao pé-de-porco. 

Foto 3 – Nhala, 1973: Jarrai, “a bela”. Provocadora e esquiva, não permitia que lhe tocassem. Se tivesse acontecido haver uma Rainha Jinga na Guiné, seria ela.

Foto 4 – Nhala, 1973: Eu e a Rosa, minha primeira lavadeira. Competente mas trituradora de botões de fardamento, como só ela. 

Foto 5 – Nhala, 1974: A minha segunda e definitiva lavadeira, Fátima. Dedicada e delicada só tinha qualidades. E falava português... 

Foto 6 – Nhala, 1973: Mulheres recolhem água na fonte. 

Foto 7 – Nhala, 1973: Eu, na fonte junto de lavadeiras. 

Foto 8 – Nhala, 1974: Eu, na fonte cumprimentando uma bajuda. 

Foto 9 – Nhala, 1974: O Alf Mil Neto da CCAV 8351, na altura com o seu grupo em Nhala a dar apoio às obras na estrada A. Formosa-Buba. Aqui a dialogar com a Rosa, parece-me.

Foto 10 – Nhala, 1974: Mulheres e bajudas recolhem água e lavam o “corpinho”. 

Junto mais duas imagens que muito me tocam pela nostalgia de um tempo que eu vivi mas que passou à história. Digo-o sem falsos patriotismos e sem ambiguidade quanto ao fim desse tempo que, mais cedo ou mais tarde, teria de ocorrer.

Foto 11 – Nhala, 1973 em dia de coluna, com a bandeira lá no alto. 

Foto 12 – Nhala, 1973: Cerimónia do arrear da bandeira que ainda se repetiria por mais um ano, aproximadamente. Como se pode ver, estava um grupo de combate a entrar, que pára em sentido. Mesmo as mulheres que vinham da fonte com água à cabeça paravam nestas ocasiões, tal como os homens e as crianças. 

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Transcrevo a última parte da HU relativa a acontecimentos que já não testemunhei.

História da Unidade do BCAÇ 4513: 

Período de 01AGO a 20AGO74. [Na verdade, vai até ao dia 24]

AGO74/02 – Com uma cerimónia simples, inaugurou-se um novo campo de jogos de futebol de “cinco” no aquartelamento de A. FORMOSA. Este campo passou a chamar-se “Campo 1.º DE MAIO”.

- Comandante deslocou-se a BISSAU a fim de tratar assuntos relacionados com a desactivação da CCAÇ18 e PEL CAÇ NAT.

- Apresentou-se de licença disciplinar o Exmo. Major DIAS MARQUES, 2.º Comandante do Batalhão.

AGO74/03 – Iniciou-se o levantamento de todos os campos de minas do Subsector de A. FORMOSA.

- A secção do 19.º PEL ART sediado em A. FORMOSA regressou a BUBA. O 14.º PEL ART, sediado em CUMBIJÃ, foi deslocado para A. FORMOSA.

- Comandante regressou de BISSAU.

AGO74/05 – Comandante e 2.º Comandante deslocaram-se a COILBUIA e CUMBIJÃ.

AGO74/07 – Foi desocupado o Destacamento de CUMBIJÃ e entregue ao PAIGC. Da cerimónia constou o arrear da Bandeira Nacional e o hastear da Bandeira da Rep. GUINÉ-BISSAU, com honras prestadas por dois GR COMB da CCAV 8350 e um Bigrupo do PAIGC.

Estiveram presentes além do Comandante, 2.º Comandante, Oficiais, Sargentos e Praças do Batalhão, comissários do PAIGC, Comandante do 3.º CE, Autoridades Gentílicas e população.

AGO74/08 – Estiveram presentes em A. FORMOSA, o Exmo. Comandante do COP-5, acompanhado de alguns elementos do PAIGC entre os quais o Comissário JULINHO.

AGO74/09 – Foi desocupado o Destacamento de COLIBUIA e entregue ao PAIGC. Da cerimónia constou o arrear da Bandeira Nacional e o hastear da Bandeira da Rep. GUINÉ-BISSAU, com honras prestadas por dois GR COMB da CCAV 8350 e um Bigrupo do PAIGC.

Estiveram presentes além do Comandante, 2.º Comandante, Oficiais, Sargentos e Praças do Batalhão, comissários do PAIGC, Comandante do 3.º CE, Autoridades Gentílicas e população.

AGO74/10 – O Exmo. 2.º Comandante deslocou-se a BUBA e NHALA.

AGO74/12 – Por determinação do Comandante Militar deslocou-se para BISSAU, o Comandante deste TEN COR RAMALHEIRA, a fim de assumir novas funções.

Passou a comandar o Batalhão o Major DIAS MARQUES.

- Esteve presente em A. FORMOSA o Exmo. Major VEIGA DA FONSECA, a fim de tratar assuntos relacionados com a desactivação da CCAÇ 18 e PEL CAÇ NAT 55, 68 e 69.

AGO74/13 – Comandante Interino deslocou-se a BUBA, a fim de assistir a embarque de materiais para BISSAU.

AGO74/14 – O OF/OP/INFO deslocou-se a BUBA e NHALA a fim de tratar assuntos relacionados com evacuação de materiais.

AGO74/15 – Comandante Interino deslocou-se a BUBA a fim de assistir a embarque de materiais evacuados do Sector e com destino a BISSAU. - Esteve presente em A. FORMOSA Comandante AZEVEDO COUTINHO da Marinha de Guerra. AGO74/17

- Esteve presente em A. FORMOSA o Cap. FONSECA ALFERES da COM. UN. AFRICANAS a fim de tratar assuntos relacionados com a desactivação das Unidades Africanas do Sector.

AGO74/18 – Com a vinda do Tesoureiro de BISSAU, e em cumprimento da Circular 12/CMD do Comando-Chefe, processou-se à desactivação da CCAÇ18, com entrega de fardamento, armamento, munições e equipamento, recebendo todos os militares todos os seus vencimentos até 31DEZ74. Foram também desactivados nos mesmos moldes o 14.º PEL ART (14) e 2.º PEL BAAA 7040. Todas estas operações decorreram na melhor ordem.

AGO74/19 – Foram desactivados nos moldes da Circular 12/CMD os PEL CAÇ NAT 55, 68 e 69.

- O 1.º PEL/EREC 8840 regressou a BAFATÁ.

- O OF/OPER/INFO deslocou-se a BUBA e NHALA.

AGO74/21 – Foram desocupados e entregues ao PAIGC os Destacamentos da CHAMARRA e PATE EMBALO.

- Comandante Interino deslocou-se a BUBA a fim de assistir à evacuação de materiais para BISSAU.

AGO74/24 – O OF/OPER/INFO deslocou-se a BUBA e NHALA.

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Dado que nada mais consta da História da Unidade do BCAÇ 4513, nem do Resumo dos Factos e Feitos Mais Importantes da mesma Unidade, anoto mais quatro desactivações de aquartelamentos do Sector que aqui importa, transcritos, com a devida vénia, da publicação que fez no nosso Blogue, o Luís Gonçalves Vaz, filho do Cor Cav Henrique Gonçalves Vaz (1922-2001), último Chefe do Estado-Maior do CTIG (1973/74):

MAMPATÁ – 29 de Agosto de 1974;
ALDEIA FORMOSA – 31 de Agosto de 1974;
NHALA – 2 de Setembro de 1974
BUBA – 4 de Setembro de 1974

(continua)
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 Nota do editor

Poste anterior da série de 16 de fevereiro de 2016 Guiné 63/74 - P15755: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (38): De 10 a 31 de Julho de 1974

2 comentários:

Valdemar Silva disse...

Na foto do Arrear da Bandeira, aquele 'ombro arma' do militar em camuflado no lado
direito da foto, mais parece um 'ombro cacete' ou um 'ombro já estou farto disto', mesmo naquela data, a Bandeira merecia outra postura.
Lembro-me, em Nova Lamego, o meu Pelotão fazer as honras do Arrear da Bandeira, na rua e em frente da Porta d'Armas do Batalhão, de toda a gente parar, militares, civis, mulheres e crianças e viaturas, toda gente parava ao toque do clarim. Era assim em qualquer lado, tudo parava ao toque de Hastear ou Arrear da Bandeira.
Valdemar Queiroz

António Murta disse...

Só agora ao passar os olhos por este meu "Poste" reparo na legenda da fotografia nº 3, retrato da Jarrai: ... «Se tivesse acontecido haver uma Rainha Jinga na Guiné, seria ela».
Não, não é um trocadilho, escrevi isso por graça (e lisonja) mas referia-me mesmo à "Rainha" Ginga de Angola.
É certo que há fontes que a referem como «Jinga», mesmo em biografias, mas acho que não é a forma mais comum. Daí este meu reparo sobre o nome dessa mulher singular e poderosa dos séculos XVI/XVII de Angola.

A. Murta.