domingo, 12 de junho de 2016

Guiné 63/74 - P16195: Blogpoesia (452): "E, se de repente..." e "Minhas articulações...", por J.L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil da CCAÇ 728

1. "E, se de repente..." e "Minhas articulações...", poemas do nosso camarada Joaquim Luís Mendes Gomes (ex-Alf Mil da CCAÇ 728, Cachil, Catió e Bissau, 1964/66).


E, se de repente…

Nada fazia prever.
A mais tórrida canícula.
Muita vida morta
E tanta, quase a morrer.

Uma chuva grossa,
Esgaçando o céu,
Inundasse o chão,
Apagando o inferno?...

E se um moribundo,
Às portas da morte,
Saltar do catre,
Corre para a estrada
Anunciando ao mundo
Que jamais morre
E adora a vida?...

E, se o mar irado,
Um leão rugindo,
Cavando a cova
Ao barco que pesca,
Com uma fartura a bordo,
Sem tirte zuarte,
Como um cordeiro,
Se queda inerte?...

Só por acaso,
Clamará o louco.
Só por milagre,
Proclamará o crente.

Dois olhares diferentes
Para a mesma sorte.
Onde a verdade?…

Berlim, 11 de Junho de 2016
8h28m

Dia de sol

Jlmg
Joaquim Luís Mendes Gomes

************

Minhas articulações...

Entorpecidas, secaram minhas articulações todas.

Varre-me a mente uma letargia,
lânguida e morna.
Me deixo ir nela amorfo.
Quase adormeço e esqueço,
afinal, quem fui.

Toda a gente amada foi.
É o deserto sombrio e frio.
Nem um só cisco seco
de carvalho ou pinho.
É a aridez em força
que me força e esmaga.

Não consigo reagir.
Como folha morta eu vou
nesta corrente morta
que não me afoga.

Surjam raios do céu azul.
Desfaçam chuva em cataratas.
Reverdeça este chão sem chão.
Volte a terra húmida
onde as ervas nascem.

Quero ver outra vez flores
bailando ao vendo
e sorrindo ao sol.

Caia forte a vida em mim.
Me aqueça em fogo
estas articulações artríticas.
Quero voltar, de novo, às maratonas...

ouvindo Maria Betânia cantado "Sinhora Aparecida"... só Ela...

Berlim, 12 de Junho de 2016
11h27m

Jlmg
Joaquim Luís Mendes Gomes
____________

Nota do editor

Último poste da série de 5 de junho de 2016 Guiné 63/74 - P16167: Blogpoesia (451): "Cocciolo..." e "O talento...", por J.L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil da CCAÇ 728

2 comentários:

Antº Rosinha disse...

Só por Betânia já compensou o desperdício daquela «regata» desde o Tejo a Porto Seguro.
Gosto refinado J.L.Mendes Gomes

Tabanca Grande disse...

Camaradas:

E então a carta do "achamento" do Brasil, escrita pelo primeiro "etnógrafo" português, o Pero Vaz de Caminha, não valeu a viagem ? Se valeu!... A viagem e ida e volta!... Para não falar de outros grandes escritores, como o padre António Vieira, século e meio depois o "paiaçu" dos tupis, um dos grandes portugueses, tal como o Pero Vaz de Caminho, de que me orgulho enquanto ser humano, português e cidadão do mundo...

Vejam como o "escrvão"de el-rei observou e descreveu as "mulheres de lá", do Novo Mundo...
Que maravilha, essa descoberta do outro!... Que delícia!... Estamos em finais do séc. XV!

(...) Esse que o agasalhou era já de idade, e andava por galanteria, cheio de penas, pegadas pelo corpo, que parecia seteado como São Sebastião. Outros traziam carapuças de penas amarelas; e outros, de vermelhas; e outros de verdes. E uma daquelas moças era toda tingida de baixo a cima, daquela tintura e certo era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha tão graciosa que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições envergonhara, por não terem as suas como ela. Nenhum deles era fanado, mas todos assim como nós.

(…) Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim pelos corpos como pelas pernas, que, certo, assim pareciam bem. Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não pareciam mal. Entre elas andava uma, com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tingida daquela tintura preta; e todo o resto da sua cor natural. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência assim descobertas, que não havia nisso desvergonha nenhuma.

Também andava lá outra mulher, nova, com um menino ou menina, atado com um pano aos peitos, de modo que não se lhe viam senão as perninhas. Mas nas pernas da mãe, e no resto, não havia pano algum. (…)

(…) Entre todos estes que hoje vieram não veio mais que uma mulher, moça, a qual esteve sempre à missa, à qual deram um pano com que se cobrisse; e puseram-lho em volta dela. Todavia, ao sentar-se, não se lembrava de o estender muito para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior -- com respeito ao pudor. (…)


http://www.culturabrasil.org/zip/carta.pdf