sexta-feira, 17 de junho de 2016

Guiné 63/74 - P16211: Banco do Afecto contra a Solidão (16): Destino marcado: camaradas, sucede que, tendo sido um combatente e depois um grande lapidador de diamantes, esgotei as minhas baterias... Estou doente... Aguardo a guia de marcha para o Lar de Runa!... (Mário Vitorino Gaspar, ex-Fur Mil At Art, Minas e Armadilhas, CART 1659, Gadamael e Ganturé, 1967/68)

1. Mensagem,  de 11 do corrente, enviada, por Mário Gaspar (ex-Fur Mil At Art,  Minas e Armadilhas, CART 1659, Gadamael e Ganturé, 1967/68),  e que estranhamente nos soou a "despedida"...  

O Mário arranjou, ao fim de vários anos de espera, uma vaga no Lar dos Veteranos Militares de Runa, mais conhecido por Asilo de Inválidos Militares de Runa.no concelho de Torres Vedras: 

Caros Camaradas da Tabanca

Após a ter partido para aquelas terras, lá no fundo do horizonte, tive de caminhar para a outra linha. Com a mão estendida consigo alcançá-la. Mas é guerra, o único tremor de terra que me quebrou. Parti… Feito em cacos. Com arame e cola pensei vir a ficar... como era… Estúpido que fui.

No dia 6 de novembro de 1968, acendi um fósforo, outro de seguida e queimei os sonhos. A nuvem parecia inicialmente ser cor-de-rosa, ficou como alcatrão, e foi nessa escuridão que permaneci. Atravessei o mundo, de uma ponta a outra. Eu que lera bibliotecas, nem uma linha de escrita a uma amiga ou amigo. 1969… 70… 71… 72… 73, e… alegria das alegrias: – O meu filho Carlos Pedro já não vai para a guerra.

Nunca desistira da luta. Já em janeiro de 74 havia estado numa greve. Escrito no Caderno Reivindicativo: – Considerando que o preço das batatas é de 4$00, valor igual para a Empregada de Limpeza; para o Serralheiro; Escriturário; Lapidador de Diamantes ou mesmo Director da Empresa. Primeiro: 2.500$00 de aumento “per capita”!

Escrever; ler; ir ao Cinema e Teatro? Nada disso, estava dedicado somente ao trabalho. Não havia tempo a perder. Era o carrossel. “Olha aquela menina de amarelo… Mais uma volta, outra ainda”. Sem atropelos atinjo o topo da pirâmide em meros 2/3 anos. “Entrava mudo e saía calado. Parei quando o meu amigo Jorge Manuel Alves dos Santos, Presidente da Associação APOIAR – Associação de Apoio aos Ex-Combatentes Vítimas do Stress de Guerra – ambos fundadores, era eu Secretário da Direcção Nacional, me diz: – Vamos fundar um Jornal e vais ser o Director!
Respondi que não, como nunca fui pessoa de desistir, nem de oferecer como voluntário… Aceitei. E fui Director. Deixara de escrever “na queima dos sonhos – em novembro de 1968, estávamos em dezembro de 1995. Vinte e oito anos (28). E não parei de escrever… Até a exaustão e os leitores ficarem fartos… Fartos mas de mim.

E as frases que alguém escrevera: – “Se não fosse eu… Enfim, o que seria de mim” – “A guerra continua dentro de mim” ou, entre outras: – “Uso-me… Mas não sou para usar”!

Já entretanto comprara um novo traje… Não o de luzes, mas o mesmo que ainda visto. Com um sorriso no colarinho, com um nó da teia de aranha no lugar da gravata, aliás esse nojento bicharoco – animal de estimação do futuro – que em garoto me habituei a adorar. E as baratas? Um pontapé e o bicho virado ao contrário – não de avesso – esse é outro bicho. Mas a barata fica assim, dando à perna e…

Mas recordo também outro, o percevejo – para não falar do “chato”. O camarada coronel Matos Gomes deve recordar, julho de 1966 em Lamego, nos Rangers: – “É chato, é chato... Sambinha chato, mas é... chato o sambinha que é mesmo chato.

Não havia quem desse a volta, mesmo que Oficiais e Sargentos Milicianos, dessem com todas as botas e partissem todos os apetrechos que repeliam tais vómitos… Chamavam àquele barulho ensurdecedor de música.

Pois e os “corredores da morte”; “corredor de Guileje”; o outro “corredor que atravessava, também da morte, quando manuseava minas e armadilhas”; o “corredor da morte do meu coma” e este último “corredor da morte – o Lar de Runa”.
Este último não vou perdoar aos Dirigentes Associativos de Combatentes, por não ser local no País onde se coloque alguém, depois de tanto Quartel ao abandono, nunca pediram para acabarem com o Lar de Runa. Fica longe do nada… Mais perto Torres Vedras e são 6/7 quilómetros. Vou acabar por morrer num local bem semelhante a Gadamael Porto… E não há bajudas. Muito teria a acrescentar.

Não falo das condições, mas da localização.

Tinha tanto a acrescentar no Blogue àquele novo desafio que só tardiamente tive conhecimento, do tempo perdido naquela inglória zona de Cacine a Mejo e Guileje – julgo pertencerem ao Sector 2, com sede em Buba.

Não são horas para estar acordado. Estou no final de uma Operação… E estou deveras cansado. Como dizia o meu amigo Raul Solnado:
– “Senhor, estou farto”.
E outra dele: – “Sejam felizes”!

Um abraço para a Tabanca Grande.
Mário Vitorino Gaspar

PS - Ainda não estou em Runa. Aguardo a Guia de Marcha.

Envio um poema meu declamado pelo amigo João Moutinho Soares. [, ficheiro áudio em formato não compatível; terá que ser oportunamente convertido para vídeo;  optamos por reproduzir apenas a letra do poema, que o autor nos mandou, ontem, com uma explicação adicional,  de uma cruel lucidez, sobre as circunstâncias (dolorosas) em que decidiu aceitar a vaga que obteve no Lar de Runa],


Nu

por Mário Vitorino Gaspar

Se ficar nu… Despido.
Tirar a máscara.
Ser rosto esculpido
Na estátua… Que se encara;
Se for diamante polido
E jóia ou moeda rara,
Ser estátua ou diamante
Melhor seria… Amante.

E se for um livro perdido
E a página toda riscada,
A história não faz sentido
E acaba por não ser nada.
Se for sopro de ar vertido.
Vento ou sonora trovoada,
Se for o nu da lágrima só
Caída na gravata com pó
 

E se for o riso da criança
Ou mesmo se for… O choro
Será o sinal da confiança.
Se for lágrima? Eu decoro
Por acaso for… A fiança.
Nota musical solta do coro.
Criança e lágrima é riso,
E neste mundo é preciso
Bebés… 
Nus e choramos
Crescemos… E amamos.



Lar dos Veteranos Militares, Runa, Torres Vedras (foto gentilmente cedida por Mário Gaspar)
_____________

Nota do editor:

Útimo poste da série > 18 de outubro 2011  >  Guiné 63/74 - P8920: Banco do Afecto contra a Solidão (15): O caso do José António Almeida Rodrigues, ex-prisioneiro de guerra (entre Junho de de 1971 e Março de 1974): uma história de coragem e de abandono (José Manuel Lopes)

7 comentários:

Anónimo disse...



Camarada e amigo Mário Gaspar

Estejas onde estiveres com melhores ou piores momentos, uns mais outros menos, todos vamos sofrendo essas variações de humores, procura libertar-te de dores de cabeças e fantasmas. Escreve em prosa ou em em verso, tu escreves bem, não deixes entupir o teu cérebro com palavras caladas. As palavras caladas, são areias duras que entopem a circulação cerebral e podem provocar muita dor. Procura dar uns passeios a pé pelo campo pois activam a circulação sanguínea de todo o corpo, fortalecem os músculos das pernas e põem-nos em contacto com a natureza , a nossa mãe primordial que nos acalma e afaga quando a procuramos.
Vai escrevendo para o blogue, mesmo que por vezes não te pareça, há muitos camaradas, como eu, que gostam de te ler e saber como vai a tua vida. Luta por ti, luta pela tua vida, afinal tu na guerra em Gadamael ou cá a ajudar a fundar a Assoçiação Apoiar, sempre foste um guerreiro. Saúde e um grande abraço.

Francisco Baptista

António Murta disse...

Camarada Mário Gaspar.

Atenta nas palavras sensatas e muito bonitas do Francisco Baptista.
Eu subscrevo-as e não diria melhor.

Não percas o contacto (vive!) e vai dizendo alguma coisa.
Eu gostava muito. E por certo os demais.

Grande abraço.
António Murta.

Tabanca Grande disse...

O Mário é um grande lutador, mas saúde tem-lhe pregado partidas... Ele explicou-me em mensagem de 17 do corrente, que me autorizou a publicar, mas da qual me limito a retirar este excerto:

(...) "Sucede que estou cheio de doenças. Desde ao Stress Pós Traumático; Parkinson (diziam que era Alzheimer); coluna de cima aos pés; apneia do sono; vários problemas pulmonares, desde pneumoconiose a ter o oxigénio nos limites e necessitar em breve de dormir com oxigénio; depois de operado às cataratas, tenho glaucoma; surdez crónica – devido aos rebentamentos do morteiro, distraído num ataque “rebentarem-me os tímpanos”. Depois trabalhei em diamantes e a surdez aumentou. Tenho as pernas e pés com feridas, de vez em quando rebenta um balão e faz uma chaga, nem sinto os pés e as pernas. E mais e mais. Tomo una 40 comprimidos por dia. Não durmo. Rebentei mesmo… A solução um Lar. (...)

Ele precisa, neste momento,de uma palavra de conforto, afeto, apreço, solidariedade!

José Botelho Colaço disse...

Mário um abraço, subscrevo o lindo e simpático comentário do "Gentleman" Francisco Baptista só é pena que não te possa devolver a saúde o que mais precisas neste momento.
Eu próprio quando me revejo: Vejo a nossa geração de ex-combatentes da guerra do ultramar em fim de ciclo o que se lamenta mas certo dia teremos que aceitar e tomar a barca do barqueiro de caronte.

Mais um abraço e tu como experiente ex-militar é necessário reunir todas as tuas forças existentes para enfrentares e derrotares este último ataque.

Colaço.

Anónimo disse...

Camarada

Que a "força" do Francisco de Brunhoso, do Colaço, veterano de 63, do Murta, e afinal

de todos nós, que te animem...

Estamos juntos, Camarada !!!

Jorge Rosales

Mário Vitorino Gaspar disse...



Camaradas da Guiné, sou um Combatente e serei sempre um combatente. Antes de partir para a Guiné em Janeiro de 1967 já tinha muito tempo de Serviço Militar. Lutei sempre. Fiz tudo na vida. Venci as batalhas, mesmo nos piores dias. Era um Furriel Miliciano. Os Milicianos tinham orgulho em sê-lo. Levei comigo uns Livros, um deles não sabia o título mas recordo a história como se o tivesse lido nestes dias. Pois é um Livro de Urbano Tavares Rodrigues. Conheci-o num Lançamento de um seu Livro e mais tarde participei num Colóquio em 1996 - Abril. Felizmente tenho uma mente com a dureza do diamante e mais forte que aquele terreno ferroso na Guiné. Existia ferro à superfície.
As Minas e Armadilhas foram difíceis de passar esses tempos a olhar para uma Mina. Amigos mortos - o Vítor José Correia Pestana lançou-se sobre uma granada que ele montara, sabia que ia rebentar. Um herói e foi considerada a sua morte por ACIDENTE. O maior acidente é termos estado naquela guerra, como diz o escritor "Aprendemos a sermos Homens", alguns de nós éramos meninos. Temos de ter força. Se cairmos... De pé. Embora estejamos numa idade um pouco trágica, temos de levantar a cabeça. Runa - o Lar de Runa não tem razão de existir. Fica longe, não é sítio para se morrer. Os Senhores responsáveis deveriam ter encerrado o Lar e colocá-lo dentro de uma terra com vida... Aquilo é um deserto bonito mas não deixa de ser um deserto. Os Lares Militares de Oeiras é dentro de Oeiras e existe um no Porto. Tantos Quartéis desactivados e não há um em Coimbra, Braga, Santarém. Gastam mais dinheiro no fornecimento da alimentação, gastam combustível. Senhor estou farto, como dizia o bom Raúl Solnado. Despeço-me com uma frase dele: Que sejam Felizes.
Mário Vitorino Gaspar

Ricardo Figueiredo disse...

Meu caro Mário Gaspar,

Apesar das maleitas que te afectam ,apesar de estares , como dizes ,no deserto ,nesse Lar de Runa , impessoal e espartano ,não te deixes vencer por essas situações. Combate-as ferozmente , com heroicidade e a arma que o nosso Blogue colocou à tua e nossa disposição ,tem uma força enorme ,tem a força dos vencedores.
Tu , és um vencedor !
Não te deixes ir abaixo e quando isso acontecer,escreve no blogue , solta o teu grito,pois estão aqui os teus camaradas,os teus amigos ,os teus irm\aos de armas ,a apoiarem-te com toda a sua solidariedade.
Um grande abraço , Combatente,
Ricardo Figueiredo