quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Guiné 63/74 - P16678: Manuscrito(s) (Luís Graça) (100): O desertor

A bordo do T/T Niassa,
viagem Lisboa-Bissau,
24-29 de maio de 1969



O desertor


por Luís Graça



Alguém se lembra de abrir uma garrafa de champagne

(um espumantezeco nacional, de cabaré), 
como se a malta tivesse acabado de atravessar a linha do Equador,
em alegre cruzeiro de meninos de colégio fino,

fardados a rigor, 
pelo Atlântico Sul.

Com um sorriso verde-amarelo, 

também participas
nesse ritual de iniciação, 

ao passares o triste Trópico de Câncer,
a caminho da Guiné,
erguendo bem alto a tua taça:
 Afinal, estamos todos no mesmo barco! –
comentas tu,  para o teu parceiro do lado.
– Sim, estamos todos no mesmo barco, camarada!

A bordo come-se e bebe-se o dia todo, 
para matar o tédio,
para suportar a angústia da viagem,
para fazer o lastro
e sobretudo para não se dar parte de fraco.

– Não há gajas!  – queixa-se  alguém.

Mas há os viciados da lerpa e do king. 
E os oficiais superiores  divertem-se 
com o tiro ao alvo na popa do navio,
enquanto a malta da turística escreve cartas, 
aos pais, namoradas, noivas e mulheres,
cartas já molhadas de lágrimas salgadas
e doridas de saudades.

A
s praças vomitam nos porões,
um riacho de água verde-escura escorre pelo convés,
todo o navio fede, 
tresanda a merda,
e, no meio do cheiro nauseabundo,
há um desgraçado de um desertor que vai a ferros,
qual gado levado para a feira grande da tua terra, em setembro.
Fora apanhado na fronteira de Vilar Formoso,
e recambiado para Santa Margarida,
ainda a tempo de apanhar o comboio-fantasma
até ao Cais da Rocha Conde de Óbidos 
onde o esperava o Niassa. 
– De mal o menos, ó básico,
vais p'rá Guiné,
como auxiliar de cozinheiro,
tens o posto mais ínfimo da tropa,
mas sempre é melhor do que ser atirador
ou ficar a apodrecer 
no presídio militar de Elvas ou Penamacor.

Pobre dele,  o desertor,
alvo da chacota da maralha,
chamam-lhe maricas,
um gajo sem tomates para ir p'rá guerra…
É um velho truque da instituição militar
que das tripas sabe fazer coração,
que da merda sabe tecer nervos de aço...
 
– Lembrem-se, seus cabrões, 
vocês são a fina flor da nação! – 
massacrava-te o tenente Esteves,
na parada em Tavira, 
no Curso de Sargentos Milicianos…

Versão revista, 1/11/2016

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1 comentário:

Tabanca Grande disse...

Com o nosso inquérito sobre os "desertores" a chegar ao fim, tudo indica que, no TO da Guiné, de 1961 a 1974, os graduados (furriéis, alferes, e até capitães) aproveitavam a "porta aberta" da metrópole para "dar o salto"...

As praças, essas, "saltavam o arame farpado", benziam-se três vezes e entravam pelo mato fora... Seria o que o Deus quisesse!...

Convenhamos, não haverá muitas histórias de heroísmo a contar pelos tugas que desertaram na "frente de batalha", pelo menos no pequeno terrritório da Guiné,q ue era do tamanho do Alentejo (na maré vazia)... E alguns fizeram-no por razões muito prosaicas: tinham a justiça militar à pega!...