sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Guiné 63/74 - P16680: Debates da nossa tertúlia (I): Nós e os desertores (17): que país terá acolhido o sold básico a aux cozinheiro Manuel Agusto Gomes Miranda ? Talvez a Holanda, em maio de 1970, com o apoio do Comité Angola de Amsterdão (Tino Neves, ex- 1º cabo escriturário, CCS / BCAÇ 2893, Nova Lamego, 1969/71)


Guiné > Região do Gabu > Nova Lamego > CSS/BCAÇ 2893 (1969/71) > O 1º cabo escriturário Constantino (Tino) Neves e o sold básico aux cozinheiro Miranda, em missão de PU - Polícia de Unidade. "A foto foi tirada no salão do cinema de Nova Lamego, numa festa de variedades, em que actuava uma cantora vinda da Metrópole, do Seixal, e eu estava de cabo de dia. Como o furriel destinado à Polícia da Unidade (PU) se tinha baldado, o oficial de dia, o capitão, comandante da CCS, mandou-me substituir o furriel, e assim aproveitei para ir assistir às variedades". (*)

Foto (e legenda): © Tino Neves (2007). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Telegrama enviado por Amílcar Cabral, em 15 de maio de 1970, para o Comité Angola, sedeado em Amsterdão, Holanda. (Cortesia dlo portal Casa Comum / Arquivo Amílcar Cabral).

Fonte: Casa Comum
Fundação Mário Soares
Pasta: 07070.117.043
Assunto: Jovens desertores
Remetente: Cabral, PAIGC
Destinatário: Angola Comité
Data: Sexta, 15 de Maio de 1970
Observações: Doc. incluído no dossier intitulado Telegramas.
Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral
Tipo Documental: Correspondência

Citação:
(1970), Sem Título, CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_34754 (2016-11-3)


1. Comentário  do Tino Neves [ex- 1º cabo escriturário da CCS / BCAÇ 2893, Nova Lamego, 1969/71] ao poste P16672 (*)

Olá,  Luis. Respondendo ao teu pedido sobre a identidade do Miranda, fiz a minha pesquisa sobre os dados que tenho sobre todos os militares da CCS/BCAÇ 2893, que consegui na altura em que comecei a organizar os convívios da Companhia.

Na História da Unidade tenho a referência ao único Miranda  da CCS que foi punido em fevereiro e março de 1970, com 10 (dez) dias de prisão disciplinar agravada em ambos os meses, ou seja 10 + 10 dias de prisão. 

Trata-se do Manuel Augusto Gomes Miranda, soldado auxiliar de cozinheiro nº mec. 084929/66. [,Como se vê, um velhinho de 1966!]

Nunca consegui saber o contacto dele nem onde residia. Como referi no poste em causa, alguém num dos convívios que organizei, me disse que ele após o 25 de Abril  regressou à terra dele e foi recebido como um herói. 

A quando do ataque de 15/11/1970 [a Nova Lamego] ele com toda a certeza já lá não estaria, pois a punição dele foi em fevereiro e março de 1970. 

Um abraço, Tino Neves


 2. Resposta do editor [Tabanca Grande]

Obrigado, Tino...  Tendo a punição sido dada em fevereiro de 1970 e agravada em março [, pelo Cmd Agrup 2957, de Bafatá], a  deserção do Miranda deve ter sido logo a seguir, talvez por volta de março/abril, uma decisão que só poderia ter sido tomada "a quente"... O Miranda era um animal acossado pelo medo, depois do que fez (ou do que foi acusado) e do "bullying" de que passou a ser vítima...

Mas quem nos garante que o Miranda  não tenha morrido "pelo caminho" ? O PAIGC não costumava "acampar" nos arredores de Nova Lamego... Não sabemos se ele foi levado para a região do Boé ou se foi logo encaminhado para Conacri... Amílcar Cabral adorava receber os desertores e os prisioneiros tugas...

Na Net não há rasto do seu nome... O que parece vir confirmar o provérbio popular, "de gente pobre até o rasto é triste"...

Mais próximo destas datas, encontrei no Arquivo Amílcar Cabral um telegrama, assinado por Amílcar Cabral, e com data de 15 de maio de 1970, dirigido ao Comité Angola, em Amsterdão, Holanda. Eis o teor do telegrama, em inglês:

"Please inform possibility receive two young desertors arriving by plane without visa. Cabral PAIGC"

[Tradução: "Por favor digam-nos da possibilidade de receber dois jovens desertores que irão chegar de avião sem visto de permanência".]

É possível que o nosso Manuel Augusto Gomes Miranda seja um destes 2 jovens desertores que o Amílcar Cabral, sem grandes condições logísticas para os receber, recambiou para a Holanda. Deve viver hoje na Holanda, e talvez até tenha a nacionalidade holandesa, a menos que tenha regressado a Portugal e viva ainda algures, numa terreola perdida atrás do sol posto...  È apenas uma pista... 

Talvez os arquivos do "Comité Angola", de Amsterdão, um das organizações holandesas que apoiavam os movimentos nacionalistas africanos que lutavam contra o colonialismo português (e contra o "apartheid" na África do Sul), possam confirmar ou informar esta nossa hipótese de investigação... 

Mas será que existem esses arquivos ? Existem... em holandês. Aqui: Archief Komitee Zuidelijk Afrika   [Angola Comitee/Holland Committee on Southern Africa 1961-1997]

Contrariamente aos portugueses, os holandeses guardam tudo o que tem interesse documental e serve os seus interesses...

___________

Nota do editor:

7 comentários:

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camaradas
Nunca entendi bem o que era isso de PU.
Talvez uma PM (Polícia Militar) envergonhada.
Neste caso parece que a PU teria de se haver com uma ou outra zaragata, uma ou outra boca foleira e nada mais.
Os soldados PU teriam que ter lucidez e físico para enfrentar um bêbedo da mesma unidade e pouco mais. Nada de grave como se vê.
Todavia, parece-me que mandar um básico/ajudante de cozinheiro, com aquele físico, para aquelas tarefas parece-me cómico.
Enfim, eram coisas giras da tropa daquele tempo...

Um ab.
António J. P. Costa

Tabanca Grande disse...

TO Zé, o nosso grã-tabanqueiro Constantinop Neves queria era assistir ao espetáculo de variedades... Ainda por cima a artista era da margem esquerda do Tejo, do Seixal, sua vizinha, portanto (ele é, segundo creio, da Cova da Piedade, Amadora). Ofereceu-se para comandar a equipa (é assim que se diz?) da PU...O soldado básico, que irá mais tarde desertar, também aproveitou para se livrar por umas horas dos tachos e panelas... E parece que tudo acabou bem, e em bem, não há registos de alterações à lei e à ordemnessa ocasião, em Nova Lamego...

Outros tempos... em que o serviço militar obrigatória era pressuposto ser um exercício de cidadania... Hoje os nossos putos sabem lá o que é isso da tropa e da guerra, que para a nossa geração rep«resentava 3 anos de vida...

Mantenhas...LG

José Marcelino Martins disse...

No tempo que estive no GACA 2, em Torres Novas, fui escalado para uma Ronda de Policia, depois passou a PU - Polícia da Unidade.
Fui ter com os Cabos Milicianos mais velhos e perguntei-lhes o que é que se fazia.
Resposta: "Policiamos as miúdas".

António José Pereira da Costa disse...

Pera aí, Luís!
Da Amadora sou e não fica perto da Cova da Piedade. Ora revê o google!
Aquela de policiar as miúdas faz-me lembrar os polícias da PSP que dizem: "O melhor serviço é o que fica por fazer".
Um Ab.
António J. P. Costa

Tabanca Grande disse...

Tó Zé, eu tamb+em vivo na Amadora, em Alfragide... Peço desculpa pela gralha ao Tino e demais leitores... Queria dizer Almada, do outro lado do rio. Bom fim de semana, boas leituras... e melhor escrita. LG

António José Pereira da Costa disse...

Ké iço?...
Alfragide? Alfragide é arrabaldes. Amadora é um núcleo duro citadino. Imdiações, limítrofes e arrabaldes não são AMADORA.
Ora vamos a rectificar...
Um Ab..
ANTÓNIO J. P. cOSTA

meusdvdsfilmes disse...

Quanto ao "PU" (Policia da Unidade), poucas vezes a "PU" era escalada para sair, ou mesmo no quartel. Só foi activada de propósito para o espectáculo de variedades, porque estavam lá as altas individualidades presentes e tinha-mos de mostrar "RONCO". Também quero esclarecer duas coisas. Não me ofereci (Voluntario) para o fazer, nem para comer o faria e apesar de eu não ser alto e espadagudo, nunca tive medo ou fugisse de uma boa briga. ah ah ah (risos). Abraços TINO NEVES