sábado, 5 de novembro de 2016

Guiné 63/74 - P16686: Debates da nossa tertúlia (I): Nós e os desertores (18): Mais um caso "atípico", o de David [Ferreira de Jesus] Costa, ex-sold at art, CART 1660, Mansoa, 1967/68 (Virgínio Briote)


Capa do livro Desertor ou patriota : a extraordinária aventura de um soldado raso / David Costa. - 1ª ed. - Vila Nova de Gaia : Ausência, 2004. - 157, [2] p. : il. ; 21 cm. - (Passado recente ; 3). - ISBN 989-553-078-1 [Preço, 12 €]


1. É uma história do "arco da velha", rocambolesca, trágico-cómica, absurda, kafkiana, impiedosa... de um homem, um camarada nosso, que bebeu o cálice da amargura, na sequência de uma leviandade que lhe custou a liberdade, a honra e anos de vida.... Que lhe poderia ter custado, inclusive, a vida!


Desertor, sim, técnica e juridicamente falando... Mais um desertor "atípico", usado e abusado pelo PAIGC [e aqui, o português e médico, Mário Pádua, também não fica bem, na fotografia... ou será que na guerra revolucionária vale tudo ?!... O PAIGC tem obviamente todo o interesse em instrumentalizar, politizar, aproveitar, para efeitos de propaganda, a "infeliz" deserção do David Gomes...

Em boa verdade,  o pobre do David Costa desertou e não desertou... Foi apanhado pelo PAIGC fora do seu aquartelamento, por estar desorientado, emcionalnamente perturbado, à beira do "burnout", da exaustão física e emocional...  Não se entregou ao PAIGC, fez o "número" que lhe convinha quando foi feito prisioneiro... E manteve esse "número" por uns tempos. Passou a ser considerado, lisongeado, ganhou inclusive a liberdade... E aqui brincou com o fogo, mais uma vez...

A "carta à mulher"  que é dura de roer... Será possível que um homem, com a craveira intelectual, humana e profissional, do dr. Mário Pádua, lhe tenha feito "essa maldade" ? Um guineense ou um caboverdiano do PAIGC podia fazê-lo... Mas um português sabia que o David tão cedo não poderia juntar-se livremente à mulher e aos filhos... O David, meu caro dr. Mário Pádua,  não era um intelectual, um antifascista, um homem politizado, informado, consciente!... Era, tão apenas, na época, um pobre diabo de um soldado raso... [, Enfim, não sei se esta história está mal contada,  ou mesmo se a  versão dos acontecimentos não pode estar  enviesada pela distância temporal: o livro é publiavdo em 2004, quase 40 anos depois dos factos ocorridos]...

É uma história ao mesmo tempo exemplar... que merece ser revista, revisitada, relida, meditada... O David Costa, David Ferreira de Jesus Costa, de seu nome completo, ex-sold at art, CART 1660 (Mansoa, 1967/68), redime-se, do seu passado de "déserteur malgré-lui" [, desertor, por mero acaso, ou à força],  escrevendo um livro de memórias, que já foi aqui objeto de recensão crítica, primeiro pelo  por Virgínio Briote (*) e, mais tarde,  por Mário Beja Santos (**).

Por ser a primeira,  e a mais antiga, vamos reproduzir aqui a "nota de leitura" que o o nosso querido editor, hoje jubilado , V. Briote, escreveu em 2008, acrescido de alguns comentários de um camarada do David Costa, o ex-1º cabo Jorge Lobo, feitos na altura ou em 2010, no poste do Beja Santos (**).



Desertor ou Patriota, de David Costa: da brincadeira ao pesadelo... 

por Virgínio  Briote



A extraordinária aventura de um soldado raso


David Costa nasceu na freguesia de Fânzeres, concelho de Gondomar, a 12 de dezembro de 1945. Incorporado em julho de 1966, casado à pressa para ver se se livrava da mobilização, nem com um filho recém-nascido e outro a caminho escapou. Como ele diz a certa altura, só os cegos e os paralíticos podiam ter alguma esperança.

Tudo começou em Fevereiro de 1967. No cais da Rocha Conde de Óbidos ouviu a prelecção habitual:
– Soldados de Portugal! É grande a vossa honra, pois a Pátria chama-vos a defender aquelas terras tão orgulhosamente portuguesas.

Embarcou no Uíge num daqueles dias frios para cinco dias depois respirar o ar quente de Bissau. Nem deu tempo para dar uma volta pela cidade. Encaixotados nas viaturas, lá rumaram, ele e os camaradas, a caminho de Mansoa.

Um tipo cheio de sorte. Ainda em Lisboa deram-lhe a notícia:
– O teu serviço vai ser trabalhar na secretaria, incorporado na CART 1660.

Em Mansoa encontrou-se com os velhinhos do BCAÇ 1912, que não deixaram passar a oportunidade de praxar a periquitada:
– A vossa chegada não tarda vai ser condignamente festejada...Não vai faltar molho! – E, de facto, assim aconteceu.

Numa daquelas noites, a gozar o cinema ao ar livre, aí vai aço, tugas de um raio! “Corríamos inseguros à procura de qualquer coisa que nos abrigasse”, remata o infeliz amanuense condutor que, afinal, estava a ver que também sobrava alguma coisa para ele.


Uma brincadeira de mau gosto, que lhe saiu cara


Mas nessa noite como em outras que se seguiram estava longe de adivinhar o que, dezenas de anos depois, chamou “a extraordinária aventura que eu vivi”. Foi no fatídico dia 17 de maio de 1967 que começou a odisseia do David. Brincalhão, cheio de arte e manha, era o encarregado do transporte do correio, o que o levava a Bissau sempre que havia avião.

“Tudo não passou de uma simples brincadeira com uma carta mal fechada, da qual caíra uma foto de uma linda rapariga. Com essa fotografia, destinada ao Floriano, resolvi fazer umas graças, exibindo-a como troféu de grande conquistador que eu era. Brincadeira de mau gosto, certamente, imperdoável também, com certeza, mas que me saiu tão cara!...”

Condenado pelos camaradas que lhe viraram as costas, resolveu ir dar uma volta pela povoação. Foi andando, diz ele, a matutar, acabrunhado, andando até dar por ela que era noite e já estava fora de Mansoa e sem sequer vislumbrar qualquer referência. Em pânico, desorientado, meteu-se pelo mato, andou para trás e para a frente e para os lados possivelmente, até que pela madrugada viu um holofote a girar. Era um destacamento das NT que ele não fazia ideia qual fosse.

Entra, não entra, arrisca a entrar por baixo do arame farpado, a desaparecer pelo chão, quando lhe vem à cabeça a ideia de poder ser visto à distância por alguma sentinela que, certamente, não o identificaria e, o mais certo, pensou para ele, "fura-me todo".

Escapa-se do aquartelamento (ao longo de toda a história vê-se que conjuga o verbo escapar de trás para a frente) e decidiu internar-se no mato ao encontro, não sabia ainda, de uma pequena coluna da guerrilha. Estava ele a dizer “Tem calma David!”, quando uns vultos estacam à frente dele. Curvados, observam-lhe a cara, murmuram entre eles, até que um se chega à frente de um David a tremer por todos os lados.
–  Que andas aqui a fazer fora do quartel?
– Fugi, ontem à noite –  saiu-lhe pela boca, sem pensar, diz ele.

Apanhado pelo PAIGC, levado para o Morés e, depois, para o Senegal. Começa assim a odisseia do soldado raso David Costa. Levado pelo comandante Alexandre Dias Correia e mais seis elementos bem armados e equipados com fato camuflado, dirige-se à mata de Morés. Sempre bem tratado pela guerrilha e pela população, conhece José Landim, que se apresenta como chefe militar da base de Morés.

Depois foi a viagem por trilhos, bolanhas e ribeiros, em direcção ao Senegal. No trajecto ainda conheceu em Iracunda, bem perto do Olossato, o Aristides Pereira, futuro Presidente da República de Cabo Verde que, contente pela deserção do soldado, o abraçou e tratou com muita simpatia. Foi aí que assistiu a uma sessão política, que o deixou boquiaberto. Acarinhado por todos, rumou novamente em direcção à linha de fronteira, conduzido pelo comandante Alexandre Correia e pelos seus homens. Dois ou três dias depois chegaram.

Antes de embarcar numa camioneta que o aguardava, chorou abraçado ao comandante, que à despedida lhe disse:
– Vai em paz e que Deus te acompanhe. Obrigado por seres dos nossos…

Em Ziguinchor teve honras de ser recebido por Luís Cabral e pelo Mário Pádua, um médico português que desertara do Exército Português em Angola e tratava agora dos feridos e doentes do PAIGC. Levaram-no a um alfaiate, tirou medidas para um fato, comprou camisas e sapatos, fumou Craven-A e Rothelmans, parecia-lhe tudo surreal, diz ele.

Numa noite, após jantar com Luís Cabral, duas senhoras e o Mário Pádua, este entrou-lhe no quarto e perguntou-lhe a quem queria dar notícias. Que pergunta! O David não parava de pensar na sua jovem mulher. Então, o Pádua passou-lhe para as mãos uma carta escrita e uma folha de papel de avião em branco com o respectivo envelope.

“Quando me deixou só, comecei a ler aquela folha e fiquei muito desanimado. À medida que a ia lendo, ia perdendo a vontade de continuar. Não entendia nada de política, mas qualquer um perceberia que aquela carta era uma condenação. Eu ia dizer à minha mulher para não se preocupar comigo. Que estava muitíssimo bem e não me faltava nada. Que tivesse confiança, pois mais tarde ou mais cedo iria ter comigo, onde quer que eu estivesse. E pelo meio destas mensagens cheias de esperança dizia-se que quem tinha a culpa de tudo era Salazar…Que Salazar e Tomás eram doidos e o Cardeal Cerejeira também. Mesmo ignorante, logo percebi que jamais voltaria a Portugal sem problemas gravíssimos…”, escreve o David no seu livro.

Fez o que lhe sugeriram, copiou com a sua letra a folha que o Pádua lhe entregara. Depois o David continua a contar as atribulações que diz ter passado. Deram-lhe uma espécie de dinheiro de bolso e deixavam-no passear sozinho. Dias depois, diz ter escrito uma carta para a mulher,  contando a sua própria versão e pedindo que fizesse a entrega da carta no QG, no Porto.

A aventura no Senegal continua em Dakar para onde foi levado e conhece na sede do PAIGC um tal José Augusto, natural de Braga, ex-apontador de morteiro de uma unidade militar portuguesa, que desertara em tempos e que vivia no Senegal com a mulher e a avó.


Da Gâmbia até Bissau: o início de outro pesadelo, 
incluo a célebre chapada de Spínola


A odisseia do David no Senegal acaba num convento em Dakar, levado por um padre que o encontrara desanimado numa igreja. Não falta nesta história uma freira, jovem e bonita… Foi, aliás, através das freiras que obteve um passaporte e foi levado para Bathurst, Gâmbia, de onde depois de ter enviado um telegrama ao Comando Chefe das FA em Bissau, regressou numa avioneta civil à Guiné.

Bom, depois começou outra história. Prisão, interrogatórios, julgamento, condenação por deserção, chapada de Spínola... 

Ironia ou não, o David regressou em 20 de junho de 1971 no mesmo navio que, em fevereiro de 1967, o transportara para a Guiné...Passou à disponibilidade em 29 de agosto de 1971.



2. Seleção de comentários


Jorge Lobo  [ex-1º cabo at art, CART 1660 (Mansoa, 1967/68), nosso grã-tabanqueiro desde  10/1/2011]

[24 de novembro de 2010 às 14:56 
Jorge Lobo


Fui colega do David Costa,   na CART 1660,  em Mansoa,  e assisti ao vivo e a cores ao incidente que levou o rapaz a desertar do quartel e bem assim, acompanhei o caso até ao meu embarque para a metrópole, tendo mesmo o escoltado e assistido ao vivo ao seu julgamento no tribunal militar de Bissau.

Tudo se começou na caserna. O 1º cabo enfermeiro Chantre vinha-se queixando não ter recebido duas cartas de datas diferentes ambas com foto da namorada. Quem por norma trazia o correio era o David Costa mas, naquele dia  (trágico para o David) não tinha sido ele a ir a Bissau trazer o correio onde mais uma vez, a namorada enviava ao Chantre uma 3ª foto sua dentro da carta.

Desta vez então, o Chantre recebeu a carta e feliz com a foto,  mostrava-a aos colegas de caserna.
Porém, uns dias antes, o David...tinha mostrado a um dos colegas uma foto igualzinha à que o Chantre acabava de receber e mostrava a esse mesmo colega que já tinha visto a outra foto nas mãos do David.

Daí até se descobrir que tinha sido o David quem violou as cartas com as fotos anteriores, foi um pequeno passo. Ao ver-se descoberto, o David desapareceu do quartel e,  a partir daí, só ele mesmo sabe o que se passou.

Depois dele ter regressado, três meses depois do início da sua odisseia, contou-nos lá em Mansoa a versão da sua aventura de forma diferente a uns e a outros dos colegas.(Isto já em prisão, claro.)

Sinceramente,  eu passei a desacreditá-lo e mais desacredito hoje em dia, depois de ler em diversos blogs da internet, versões diferentes, segundo parece deixadas por si ou com o seu conhecimento.

Há coisas que não coincidem. Nuns lados ele diz que passou por uns locais e noutros porém fala em outros bem diferentes... Num lado diz que dormitava quando foi capturado pelo IN, e noutras ele diz ter-se esbarrado de frente com os guerrilheiros do PAIGC.

Tambem me parece estranho como é que ele foi parar a Morés, quando ele tinha dito que,  ao sair de Mansoa.  tinha entrado na estrada de Bissorã,  a qual o levaria a um destino bem diferente de Morés.
Estas e outras contradições tornaram o seu livro pouco credível.


Jorge  Lobo [.23 de novembro de 2010 às 21:36 ]

Caro David Costa, sou o 1º cabo  Lobo,  da CArt 1660,  e presenciei toda a cena da carta com a fotografia da namorada do Chantre, isto na caserna da CArt 1660,  em Mansoa.

Sabia vagamente o que te aconteceu mas não com todos esses pormenores. Em Bissau quando de cabo de dia antes da partida para a Metrópole, cheguei a levar-te as refeições ao presidio.

Desejo do coração que tenhas já esquecido a pior parte dessa tua odisseia e que sejas muito feliz na companhia dos teus.

David Costa [6 de dezembro de 2014 às 14:21]

Sou o David Costa e lembro-me perfeitamente de ti,  cabo Lobo, recebi com agrado tuas palavras e envio te um grande abraco com muitas saudades e o desejo de um dia te encontrar. Abraço David

Jorge  Lobo [ 30 de setembro de 2016 às 15:10 ]

Só hoje li a tua mensagem,  amigo David! Também espero um dia destes encontrarmo-nos algures para bater um papo e matar saudades daqueles tempos longínquos da guerra na Guiné. 

Admiro o teu sacrifício ao teres passado mais do dobro do tempo que o pessoal da CArt 1660 passou na Guiné. Ainda hoje recordo com mágoa as palavras daquele coronel,  juiz do tribunal militar, quando ele dizia que foste condenado a 2 anos, um mês e ...um dia de prisão. quando uma semana depois a nossa companhia regressava à metrópole. 

Muita coisa aconteceu na minha e na tua vida nesse entretanto,  entre 11 de novembro de 1968 até à altura em que tu regressaste depois dessa tua odisseia digna de um qualquer Alexandre o Grande....

 Um grande abraço e,  se me quiseres contatar,  podes faze-lo através do meu facebook  Jorge Pereira,  https://www.facebook.com/jorge.lobo.77715 

E depois combinaremos algo. Até breve, amigo. Jorge Lobo, 1º cabo, 1º pelotão da CART  1660. (****)

_________________

Notas do editor:

(*) Vd, poste de 28 de outubro de 2008 > Guiné 63/74 - P3371: Bibliografia de uma guerra (35): Desertor ou Patriota, de David Costa: da brincadeira ao pesadelo... (V. Briote)


17 comentários:

Tabanca Grande disse...

Parece ter havido, pelo menos, dois padrões de deserção nas unidades (companhias ou equivalentes) que foram mobilizadas para o TO da Guiné:

(i) há quem deserte, antes do embarque. na metrópole, ou já depois, mas na altura das férias: caso de diversos graduados (furrieis, alferes e até capitães, em geral milicianos), invocando razões de "objeção de consicêncis". ou agindo por razões político-ideológicas"; é uma a decisão "a frio", çlaneada, pensada, amadurecida; e há uma "retaguarda" de apoio (redes, no interior do país e no estrangeiro);

(ii) por outro lado, e sobretudo, entre as praças, há quem deserte, "a quente", "saltando o arame farpado", por te ter metido numa "encrenca" qualquer, não aguenta mais viver no quartel no seio dos seus camaradas, etc.

É o caso do David Costa,ou do soldado básico auxiliar de cozinheiro Miranda, em Nova Lamego... Parece ser também o caso dos 3 grumetes da base naval de Ganturé... A "politização" vem depois, com a "mãozinha" do PAIGC e das organizações que no exterior "apoiam" os desertores e refratários da guerra colonal (a começar pela Frente Patriótica de Libertação Nacional, em Argel).

Faço aqui um apelo:

Camarada, se tiveste conhecimento de algum caso de deserção na tua unidade (companhia ou equivalente), ocorrido antes ou depois do embarque para o TO da Guiné, escreve e manda-nos um pequeno texto, com factos concretos, datas, nomes, lugares, etc.

O crime de deserção foi amnistiado logo a seguir ao 25 de Abril. Não há razão para não falarmos hoje, abertamente, desses casos, que são públicos e notórios... Não queremos nem podemos julgar ninguém, apenas conhecer o que se passou, à nossa volta, no nosso seio, na nossa unidade...

Ao fim de quase 50 anos, ainda temos dificuldade em falar, com serenidade e objetividade, daqueles camaradas que abandonaram as nossas fileiras... Não os queremos glorificar nem diabolizar. Queremos apenas descrever e conhecer este fenómeno...

Não deixemos que sejam os outros, a começar pelos historiadores que não fizeram a guerra, a falar de nós e por nós, do alto das suas cátedras, por muito legítimo (e desejável) que se faça investigação académica sobre estes e outros problemas da guerra colonial ...

Nesta como noutras matérias que nos tocam de maneira muito sensível e especial. temos também uma palavra a dizer... E antes que seja tarde...

O editor, LG

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camarada

Concordo com as considerações que fazes acerca das duas "causas" da deserção no "TO daquela PU". No essencial foi assim. Haverá excepções? Se calhar... mas poucas.
Porém, parece-me que o perfil psicológico contava muito na tal deserção "a quente". Parece-me que havia uma certa desorientação ou, pior ainda, o que as autoridades do tempo não queriam aceitar, uma grande falta de convicção. E esta será a razão fundamental desta forma de deserção.

Um Ab e bom fds
António J. P. Costa

Tabanca Grande disse...

Não será muito difícil listar as unidades (companhias ou equivalentes) com casos de deserção no TO da Guiné... É trabalho de arquivo, de consulta das histórias das unidades, etc., mas também de memória (dos ex-combatentes)...Temos que começar pelo nosso blogue, como estamos a fazê-lo agora... Imfelizmente as mil unidades que passaram pelo TO da Guiné não estão todas aqui representadas, no nosso blogue...

No TO da Guiné, os desertores tinham que ser prisioneiros ou hóspedes do PAIGC e depois passar por um dos dois páises vizinhos: Senegal ou Guiné-Conacri.

Em relação às deserções na metrópole antes do embarque ou nas férias, acredito que o trabalho de pesquisa é mais difícil...

Anónimo disse...

O Dr Pádua gosta muito de se fazer passar por "Santo" e aquele ar supostamente de homem de bem e ainda mais bem falante tem induzido muita boa gente em erro.Mas é o costume deste tipo de gente que se faz passar por muito humano, mas escondem muita coisa.E se porventura conhecem os camaradas ou ex-camaradas de partido.Eles falarão
se quiserem falar verdade.Que é para não me chamarem má língua ou outra coisa.
F.Benevides

Antº Rosinha disse...

"Mário Pádua, também não fica bem, na fotografia... ou será que na guerra revolucionária vale tudo ?!..."

Também este médico foi "estudante do império", nem se pode considerar desertor, porque se adivinha que sempre esteve do outro lado, não sejamos ingénuos

Eramos todos portugueses do Minho a Timor, mas havia aquela meia dúzia, ultramarinos como os angolanos Lara, Pepetela, ou guineenses ou Caboverdeanos como Aristedes ou os Cabrais, e ainda uns afro-luso-goeses, de várias gerações, o caso, que sabiam que os metropolitanos eramos o elo mais fraco, (também a jogar à bola)

Tivemos muitos ultramarinos, e bons, do nosso lado, mas essa meia dúzia (MPLA, FRELIMO, PAIGC) viram cedo,de que lado "estavam os ventos".

Mas ainda é cedo para escrever a história.

E a história também fará o seu julgamento.

Quem não deve ter medo da história são aqueles que foram de Quanza, Uige ou Vera Cruz mais os africanos que estavam com estes.

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camarada

"Mário Pádua, também não fica bem, na fotografia". Nem tem que ficar. Ele é do "insidioso ardiloso e mauzinho In". Nunca tinha ouvido falar dele, mas creio que seria um dirigente do PAIGC e, portanto, colaborou numa operação psicológica. Não vejo bem o que queria com uma carta escrita num tom e, talvez com palavras que não eram as de quem assinava e que a mulher respectiva detectava que não era autêntica. Para além de dar notícias à família, nas entrelinhas da carta não vejo outra vantagem, mas para isso bastava que deixasse o próprio corresponder-se com a família. A menos que esta carta fosse para ser exibida nas "instâncias internacionais".
Admito que fosse "estudante do império", e que sempre esteve do outro lado.
Não li o livro e parece-me que história, a partir da deserção, está mal contada
O episódio da carta desviada é absolutamente deplorável porque revela infidelidade e falta de camaradagem e, principalmente, por ter sido cometido por um homem casado e pai de filhos.
Mesmo à luz da constituição de 1933 era crime.

Um Ab.
António J. P. Costa

Tabanca Grande disse...

Não, o Mário Pádua não era dirigente do PAIGC, foi médico ao serviço do PAIGC (em Boké e em Ziguinchor). É também desertor... Viu e viveu muito... Voltou para Portugal, escreveu as suas memórias... Tens aqui um "nota de leitura" do livro...


23 DE JULHO DE 2012
Guiné 63/74 - P10184: Notas de leitura (383): "No Percurso das Guerras Coloniais 1961-1969", de Mário Moutinho de Pádua (Mário Beja Santos)

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2012/07/guine-6374-p10184-notas-de-leitura-382.html

Anónimo disse...

De: Fernando Gouveia
Data: 5 de novembro de 2016 às 19:23
Assunto: Desertores



Carlos:

Os dois casos de desertores que considerei no inquérito não sei muito bem se realmente o são ou não, face ao que tem sido dito e repetido no blogue.

Se consideras que realmente o são, talvez seja assunto interessante para "alimentar o voraz blogue".

O primeiro caso é o descrito no poste P4637, sobre um elemento pertencente ao EREC, ao nosso lado em Bafata, que vindo de férias não mais voltou. Como digo nesse texto talvez a sua decisão tivesse a ver com a morte de dois camaradas, calcinados, dentro de uma FOX, uns tempos antes, lá para os lados de Piche.

O outro caso, referido no meu livro "Na Kontra Ka Kontra", a páginas 139 foi-me contado, como autêntico, pelo próprio, de que não sei o nome, durante um almoço na "Tabanca dos Melros".

Ficará ao teu critério fazer um poste com essa matéria, e da forma que entenderes.

Um grande abraço.
Fernando Gouveia

Tabanca Grande disse...

Fernando, mais um caso em que se aproveita as férias para se desertar... O militar em questão, desta vez, é um praça... Tenho ideia que os condutores auto das Fox eram 1ºs cabos... Confirma se a história se passa realmente em 1969, com o EREC 2350, ou com o que se lhe seguiu, o EREC 2460 (1969/71), este sim, do meu tempo...

O EREC 2350 acabou a comissão em 1968 ou 1969 ?... Julgo que eles são de 1966/68... Preciso de confirmar... Tu conviveste com os dois...

Temos um camarada do EREC 2460, o o nosso grã-tabanqueiro Manuel Mata (que vive no Crato)... Vou-lhe perguntar se houve algum caso de deserção no tempo dele... ou de ouviu deste caso, passado, como tu dizes, com o EREC 2350.

Obrigado, Fernando.

Tabanca Grande disse...

Sim, esta história só pode ser do EREC 2350, que foi rendido pelo EREC 2460 em novembro de 1969. Reli os postes do Manuel Mata, ex-1º cabo do EREC 2460. O EREC 2350 já estava em Bafatá quando o Fernando Gouveia chegou ao Cmd Agrup 2957.

Tabanca Grande disse...

Fernando, peço desculpa. troquei os nomes: trata-se do EREC 2640, a que pertenceu o 1º cabo Manuel Mata...e nâo EREC 2460, que não existe... Foi o 2640 que substituiu em finais de 1969 o EREC 2350... Peço deculpa aos dois...LG

Anónimo disse...

Subscrevo tudo o que o Ant+onio Rosinha escreve.Em relação ao Pádua e a outros tantos como ele,são todos humanos e com grande "visão" incluo o Luis Cabral também.
Deixaram os respectivos povos na situação que todos nós conhecemos.E depois também eles desertaram para Portugal abandonando o povo de quem diziam gostar muito e pelo
qual diziam lutar.Em relaão ao Pepetela não me esqueço de que em Cabinda em situação
muito critica impediu com os seus homens (numa atitude muito humana para quem sõ lutava contra o Salazar e não contra os portugueses)que fossem socorridos os feridos
que caíram numa emboscada, e por lá agonizaram.
Carlos Gaspar

Antº Rosinha disse...

Pessoalmente conheci um desertor guineense, ou que ficou para a história da Guiné como desertor, e que levou com ele uma avioneta de Bissau para Conacry.

Tinha o seguinte currículo popularmente conhecido na sociedade de Bissau:

Era furriel da força aérea, guineense, da minha idade, portanto foi para a Força aérea antes da Guerra do Ultramar.

Era guineense de uma família antiga «colonialista» que se foi amestiçando.

Como era menino bonito e inteligente, era um desperdício ir lutar para o mato como os indígenas.(isto o povo pensava em crioulo, mas eu traduzo)

Foi de armas e bagagens estudar com bolsa para a Jugoslávia e regressou com bagagem pesada, canudo de engenheiro/arquitecto, após a independência.

O PAIGC, reconhecido atribui-lhe mais que uma pasta governamental, e também agradecido o governo português também lhe concedeu bolsas de estudo para os filhos nos pupilos do exército em Lisboa.

Já faleceu em acidente com arma de caça

Chamava-se Tino, Tino Lima Gomes.

Era um português como milhares de transmontanos, açoreanos, angolanos, etc., nunca foi indígena, nasceu «assimilado».



Anónimo disse...


António José Pereira da Costa
5 nov 2016 22:17


OK Camarada

Acho que a reedição [da "nota de leitura" sobre o livro do Mário Pádua] vem a propósito.

O relato do médico não me espanta.

O ambiente dos oposicionistas no estrangeiro era o de um saco de gatos ou ninho de víboras, conforme se queira. Já tenho essa certeza há alguns anos.

E quem joga assim só merece perder.

O ambiente nas bases dos guerrilheiros do Senegal ou na Rep. Guiné era muito mau como se pode ver.

Não entendo como é que os guerrilheiros se lançavam ao combate nas condições que se descrevem e que muitos de nós comprovámos sempre que os capturávamos e antes de irem para a Ilha das Galinhas.

Começo a pensar que era uma questão de racismo a que se juntava um fanatismo instilado por documentos como aquela "carta" que o Amílcar escreveu após a morte daquele ex-cabo miliciano em Madina do Boé de que falámos num post anterior.

Como é que era possível que suportassem tantas privações, mesmo nas bases de apoio?
Como já disse seria bom que os actuais dirigentes do PAIGC se mostrassem dignos dos sacirfícios dos seus compatriotas.

Um Ab.
António Costa

Tabanca Grande disse...


Luís Graça
5/11/2016 23:02

Tó Zé: não queria estar na pele deste médico, que de resto trabalhou,
até há poucos anos, aqui ao meu lado, no Hospital Pulido Valente...

São os efeitos preversos, não esperados, de muitas decisões humanas:
por exemplo, desertar... Por isso dizemos que de boas intenções está o
inferno cheio...

Ab. Luis

Anónimo disse...

António José Pereira da Costa
6 nov 2016 09:37 (há 5 horas)

Obviamente que sim, que podes publicar o meu comenta´rio!

Como se prova, a deserção tem custos e exige, para além da decisão do momento, a capacidade de suportar as respectivas consequências: colaboracionismo, passagem à acção sobre os nossos, suportar a desconfiança daqueles para quem desertámos, etc.

E naquela situação em que a "carga ideológica" era muito pesada, mais ainda. Como se viu, mesmo a adesão à causa contrária tinha pesados custos, mesmo para quem queria colaborar. Há alguns casos exemplares como o "francês" que optou pela nacionalidade guineense (Konakry) e que alguns anos depois se deu bastante mal.

E há o caso piloto Veloso e do respectivo mecânico que fugiram com avião e tudo para a Tanzânia e que não se deram assim tão mal...

Um Ab.
TZ

Manuel Luís Lomba disse...

Camarada e patriarca Luís: O cálculo de 150 desertores na Guerra da Guiné, na restrita acepção do termo, não peca por grossura, pecará por excesso.
E já agora trago à colação a minha história referida a deserções. A milícia de Buruntuma ia fazendo clandestinamente uns "roncos" além fronteira, que em regra chateavam os altos comandos da retaguarda (coisas da iniciativa do valente camarada Simas, recentemente falecido) e um dia foi-nos mandado pelo chefe máximo, salvo erro ou omissão o então capitão Carlos Fabião, um matulão de nome Malan Sanhá, creio que de etnia manjaca, com o rótulo de muito promissor, fluente em francês e muito curioso, e a ordem de o explorar e promover. Como ele não tinha qualquer tipo de relação local, eu e o Simas desconfiamos e apenas o destacávamos para a segurança avançada nocturna: dávamos-lhe um cantil de vinho e uma granada ofensiva, para ele lançar à mínima percepção da presença do IN; o resto seria connosco. Pouco tempo depois,o promissor milícia Malan Sanhã desertou.
Era a época da colheita do amendoim para a Casa Gouveia e coube-me a sua protecção na zona de Gundagá. Ouviu-se um tiro, senti uma queimadura no lado esquerdo do pescoço, cujos resquícios ainda conservo - a bala passara-me ao lado da cabeça; uma semana depois voltei à mesma região, soou um tiro e senti um impacto nas cartucheiras do mesmo lado, queimando-me a pele: a bala passara ao lado e abaixo do peito.Estava referenciado como comandante das milícias e atribuí-o ao desertor Malan. Para concluir; mostrei os efeitos ao Simas e o meu julgamento: O gajo atirou-me prá cabeça e falhou; atirou-e para o peito e falhou também. E recebi de resposta: - Trata de engordar, para ele acertar melhor...
Manuel LuísLomba