terça-feira, 1 de novembro de 2016

Guiné 63/74 - P16667: (Ex)citações (321): Os Refractários, os Objectores de Consciência e os Desertores (António Carvalho, ex-Fur Mil Enf da CART 6250/72)

1. Mensagem do nosso camarada António Carvalho (ex-Fur Mil Enf da CART 6250/72, Mampatá, 1972/74), com o seu ponto de vista em relação a quem de algum modo se furtou à ida para a guerra do ultramar:


Os Refractários, os Objectores de Consciência e os Desertores 

A guerra que Portugal enfrentou nos territórios ultramarinos, durante quase toda a década de sessenta e metade da década seguinte, condicionou a vida de largas centenas de milhares de jovens portugueses que tiveram que interromper o curso normal das suas vidas para, ao serviço da Pátria ou de uma doutrina forjada pelos donos da Pátria, combaterem as insubmissões dos povos das nossas colónias africanas.

Não foi uma tarefa fácil, nem de efeitos inócuos esta guerra imposta aos jovens desses tempos, hoje alquebrados sob o peso dos sacrifícios físicos e pelas feridas do corpo e da alma que de lá trouxeram. Não admira, por isso, que muitos fossem os que, atempadamente, (fala-se em 200.000) ainda antes de darem o nome ou antes da inspecção, tivessem atravessado fronteiras para se evadirem ao cumprimento do serviço militar que, quase sempre, correspondia ao embarque para uma das três frentes de guerra. Eram os chamados refractários.

Outros, (talvez 8000) já no decurso do serviço militar, antes do embarque ou já depois de provarem alguns meses de guerra, repudiavam aquela vida e, na primeira oportunidade, lá iam eles, para qualquer país onde encontrassem guarida. Eram os desertores.

Havia ainda os objectores de consciência cujas ideias religiosas ou filosóficas os impediam de combater.

Numa malha mais fina, havia também os que, com a protecção de gente poderosa, “arranjaram” doenças para sair do mato e ficar internados durante mais ou menos meses até à desmobilização definitiva.

 O meu propósito não é julgar nenhum deles. Não devo nem posso fazê-lo. Porquê? Julgar os outros não é tarefa fácil, muito menos quando eles não estão presentes para se defenderem. Menos ainda quando eu, se tivesse tido oportunidade, também me teria eximido ao cumprimento da minha comissão na Guiné. Na hora da última formatura, no quartel de V. N. de Gaia, antes da partida para Lisboa, faltava um alferes que nunca mais apareceu, mais tarde, ainda antes de meio ano de comissão, outro alferes aproveitou a vinda de férias para não mais voltar ao mato. Não os nomeio por uma questão de respeitar o seu bom nome, porque eles fizeram o que entenderam ser a melhor opção e eu bem gostava de os reencontrar para lhes dar um abraço.

Esta minha confissão perante os meus camaradas do Blogue Luís Graça servirá para ajudar a sair do limbo aqueles camaradas que têm algum rebuço em aparecer no nosso meio. Eles tomaram a atitude que julgaram correcta para se libertarem daquele ambiente de sofrimento. Eu só não o fiz porque não pude.

MEDAS: 2016/10/30
Carvalho de Mampatá
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Nota do editor

Último poste da série de 20 de outubro de 2016 > Guiné 63/74 - P16620: (Ex)citações (320): Fiquei triste e revoltado com a imagem da piscina do QG de Bissau, parecia um SPA!... Era uma afronta para estava no mato (Armandino Oliveira, ex-fur mil, CCS / BCAV 1897, Mansoa, Mansabá e Olossato (1966/68; vive no Brasil há 40 anos)

3 comentários:

Marcelino disse...

Tenho muito respeito, quer por quem cumpriu o seu "dever" respondendo ao chamamento e participou na guerra, independentemente das motivações de cada um, quer por aqueles que se recusaram a fazê-lo, por opção de consciência ou outra.
Assim, partilho da opinião do Carvalho, meu caríssimo amigo e bom camarada

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camaradas

Não entendo o pudor de se falar e nomear os que não aceitaram continuar ou até começar a guerra.
Não se julga. Constata-se o facto. E quem o cometeu certamente o assumirá. De outra forma há algo que não está bem. Digo eu...

Um Ab.
António J. P.Costa

Anónimo disse...


Caro Pereira da Costa e camaradas:
Reflectindo melhor sobre o assunto, sob o estímulo do comentário do Pereira da Costa, talvez pudesse ou devesse falar no nome dos dois alferes desertores da minha companhia, do mesmo modo que nomeio, se vier a propósito, os outros camaradas que se aguentaram por lá, até ao fim. É que, na verdade, o que eles fizeram não tem nada de condenável nem de censurável, eles apenas se recusaram a combater...não se passaram para o outro lado nem lutaram contra nós (que eu saiba). Mesmo assim posso pensar que eles não gostarão que lhes refira os nomes, não por terem cometido uma falta mas, simplesmente, por terem tomado uma atitude dissonante com o comportamento comum. A história faz-se com os comportamentos comuns e incomuns, e são estes últimos os que aceleram as suas mudanças.
Um abraço, com todo o respeito e amizade.
Carvalho de Mampatá