quarta-feira, 1 de março de 2017

Guiné 61/74 - P17095: Memórias boas da minha guerra (José Ferreira da Silva) (41): Dimensões guerreiras

Catió em festa, devido à cerimónia da entrega da Flâmula de Ouro à Cart 1689 
(Foto do Fur Mil Condeço da CCS do mesmo Bart 1913)


1. Em mensagem do dia 10 de Fevereiro de 2017, o nosso camarada José Ferreira da Silva (ex-Fur Mil Op Esp da CART 1689/BART 1913, , Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), autor do Livro "Memórias Boas da Minha Guerra", enviou-nos mais uma das suas Memórias Boas da Guerra.


Memórias boas da minha guerra

41 - Dimensões guerreiras

Quando a minha CART 1689 se juntou ao seu BART 1913 em Catió, em finais de Julho de 1967, já tínhamos passado por variadas situações de combate. Digamos, até, que, por via disso, fomos recebidos no Batalhão com uma assinalável simpatia, envolta numa aura de admiração, tendo, para isso contribuído, também, a atribuição à Companhia da “Flâmula de Ouro do CTIG”, que foi recebida, solenemente, em Catió.


Inicialmente, tivemos um tempo de adaptação e de conhecimento da zona. Saíamos com um ou mais pelotões da Milícia comandada por João Bacar Djaló. À saída tínhamos que passar por Príame, povoação anexa a Catió, onde essa Milícia estava sediada. Numa das primeiras passagens tivemos logo a oportunidade de conhecer essa figura lendária, que, amigavelmente, se disponibilizou a conhecer-nos. Sabendo da sua fama de grande combatente, eu quis satisfazer a minha curiosidade:

Cap. João Bacar Djaló

- Comandante, quantas Operações já fez?
Ele olhou-me, puxou a camisa para cima, mostrando as marcas dos ferimentos; de seguida arregaçou as mangas, continuou a mostrar e respondeu:
- 218.
E acrescentou:
- 218 com porrada! Só conto as que deram porrada. Como vês, tenho o corpo todo marcado. Cheguei a ser pisado pelo Comandante Nino para confirmar de que eu estava morto, no meio de outros mortos, quando caímos numa emboscada, aqui perto de Camaiúpa. E eu a ouvi-lo dizer: - Está morto e bem morto!


Umas semanas mais tarde, tivemos uma série de Operações visando o apoio à desmatação da zona do cruzamento de Camaiúpa. Viemos a saber que se tinha em vista abrir todo o itinerário até junto ao rio, em frente e a caminho de Bedanda.
Um dia propuseram-nos ir mais longe. Aí, já a mobilização foi mais abrangente. Sei que a malta da CART 1687, sediada em Cufar, também lá estava. E, como sempre, lá seguiam na frente elementos da Milícia, comandada por João Bacar - o que nos dava uma agradável sensação de segurança. Fizemos a progressão nocturna, muita lenta e carregada de cautelas. Não era para menos, uma vez que estávamos a arriscar imenso, em zona extremamente perigosa, controlada pelo IN. A dada altura, sem informação que o justificasse, a pausa tornou-se bastante prolongada. A apreensão era enorme, embora o silêncio e a escuridão nos acalmassem. De repente, ouve-se um estrondo medonho. Parecia que deflagrara ali mesmo à nossa beira. E logo outro e outro, ainda mais perto. Ficámos atordoados e paralisados, sem saber o que fazer.
Todavia, não demorou muito a viragem de rumo. Viemos a saber que o João Bacar havia detectado uma emboscada do IN e que os estrondos eram dos Obus 14 de Cufar. O nosso Capitão, que era de Artilharia, forneceu as coordenadas e orientou a correcção dos disparos. Quando amanheceu, já estávamos perto de Camaiúpa. Dali até Catió sentimo-nos mais seguros e nada mais aconteceu.

Obus 14

Já próximo de Príame, vimos os miúdos, saltitando de alegria a virem ao encontro de seus pais, soldados milícias. Tal como os filhos dos meus vizinhos, quando os pais regressavam a casa, cansados do trabalho na agricultura, agarrando a enxada ou o gadanho do pai, para ajudar, estes penduravam a G3 do pai pela bandoleira, esticavam-se para se fazerem mais altos, mas as coronhas batiam no chão. Um pouco mais adiante viam-se as mulheres, à espera, enquanto murmuravam de satisfação ao verem que a família se mantinha intacta.

Chegados ao quartel, estranhámos o interesse das altas patentes e do pessoal da CCS, que nos esperavam ansiosos. Soubemos então que os estrondos dos obuses e as transmissões haviam alarmado toda a estrutura militar, incluindo as altas esferas de Bissau. O nosso Capitão ainda tentou suavizar a situação. Virando-se para o Comandante de Batalhão:
- Meu Coronel, não demos um único tiro e não ouvimos um único tiro do IN. Apenas pedimos o disparo dos obuses, porque o João Bacar garantiu que os turras estavam emboscados adiante, à nossa espera.

O Coronel, pousando a mão no ombro do Capitão, encaminhou-se para o seu gabinete, enquanto lhe murmurava:
- Está tudo em alvoroço. Todos acreditam que houve um grande combate e aguardam ansiosamente pelos resultados. Que havemos de fazer?

Já procurei saber mais pormenores desta Operação no livro/História da CART 1689. Porém, ao contrário das outras Operações, não consigo fazer a ligação correcta à minha memória. Acredito que o registo exista, mas, por certo, não correspondendo às circunstâncias que recordo.

JF Silva da Cart 1689
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Nota do editor

Último poste da série de 3 de fevereiro de 2017 > Guiné 61/74 - P17019: Memórias boas da minha guerra (José Ferreira da Silva) (40): 4 - O amigo Mohammed de Santa Maria da Feira

2 comentários:

Jorge Portojo disse...

Recordei o Quartel de Catió e o João Bacar.
Tanto quanto me apercebi, vcs vinham de Cufar para Catió ? Se sim, quando partiram para Cufar que caninho percorreram ? De Bedanda ?
Para o caso não interessa nada e é só mais uma boa história. do Zé Ferreira.
Um abraço

Silva da Cart 1689 disse...

Caro amigo Portojo.
Nós costumávamos fazer as colunas para Cufar, mas não passávamos de Camaiúpa. A malta de lá patrulhava até ali. Camaiupa ficava ao lado de Cufar e, por vezes, em Ops, eles vinham aí juntar-se a nós. Seguia-mos então para norte, para os lados de Cabolol e Caboxanque. Em outros casos, outras Ops, partia-mos de lá de Cufar, também para norte e, por vezes, seguia-mos pelo Rio Cumbijã, para os lados de Bedanda (zona do Cantanhez).
Um abraço