sexta-feira, 25 de maio de 2018

Guiné 61/74 - P18676: Notas de leitura (1069): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (36) (Mário Beja Santos)

Mais uma imagem alusiva a empréstimos sobre penhores, que foi praticada pelo BNU na Guiné


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 21 de Dezembro de 2017:

Queridos amigos,
Temos algo de novo, há mais pequena indústria, a produção de mancarra, de arroz e de coconote segue imparável, estamos ainda muito longe de falar no caju; e percebe-se que não há um resquício de interesse na exploração dos recursos haliêuticos, parece que ninguém ainda pensava naquela importante plataforma de onde a Guiné-Bissau hoje recebe bons proventos; há cada vez mais comerciantes, a concorrência é desenfreada. E o quadro politico alterou-se em 1958, temos a Guiné Conacri e o Senegal integrou-se provisoriamente na Federação Mali.
Veremos adiante que se descobriu finalmente que a Guiné tem outras riquezas: a bauxite e provavelmente o petróleo. Disso, o relatório do BNU dará conta, como veremos no próximo texto.

Um abraço do
Mário


Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (36)

Beja Santos

No tocante ao relatório de 1957, o gerente do BNU refere-se do seguinte modo à situação da praça:  
“Pode dizer-se que no ano findo não houve qualquer factor a influir sensivelmente no panorama da situação comercial. A produção de mancarra, em que quase assenta a economia da Guiné, foi ligeiramente superior; a do coconote, inferior, e a o arroz também um pouco menor, mas esta talvez compensada por uma maior colheita de milho. A exportação não atingiu o valor do ano anterior, muito embora se tivesse aproximado, mas a importação aumentou em cerca de 20 mil contos, o que consideramos normal devido às exigências do Plano de Fomento e das maiores necessidades da população. Este equilíbrio permitiu que o comércio mantivesse o grau de solvência verificado nos últimos, continuando, no entanto, a notar-se a falta de desafogo entre os comerciantes chamados pequenos, pela tendência cada vez mais acentuada de desenvolverem os seus negócios e de ampliarem e beneficiarem as suas instalações”.

Também nesse ano o gerente resolve expor com largo detalhe qual a situação das colheitas, não sem antes voltar a referir-se às instituições bancárias existentes na Guiné. Escreve ele:
“Não há nesta província outra instituição bancária além do nosso Banco. Existem no entanto três instituições – Caixa Económica Postal, Caixa de Previdência dos Funcionários Públicos da Província da Guiné e Montepio das Alfândegas da Guiné – que fazem algumas operações com características bancárias, tais como empréstimos garantidos por letras e por hipoteca, principalmente a particulares e a funcionários, mas de reduzida importância. Nos últimos anos tem sido pequeno o desenvolvimento destas três instituições, pelo que julgamos desnecessário fazer quaisquer outras referências à sua atividade”.

Como passou a ser repetitivo este tipo de considerações sobre as instituições bancárias, depreende-se que o BNU pretende estar ciente de quem pratica negócios bancários e em que quantidades. Vejamos agora como o relator dá conta da situação das colheitas:
Falando da mancarra, diz que a economia da Província assenta na agricultura do indígena e na colheita dos produtos espontâneos que ele vai buscar à floresta, a mancarra é cultivada como produto de rendimento. E adianta que ao contrário do que muitos dizem, a produção desta oleaginosa tem vindo a aumentar ao longo dos anos.
E adianta as seguintes considerações:
"É uso identificar-se a produção anual de mancarra com a tonelagem da exportação ano mesmo período, o que não corresponde à realidade, porquanto há que considerar a parte que o indígena consome em natureza, a que é guardada para sementeira no ano seguinte e ainda uma boa quantidade que é exportada clandestinamente para o vizinho território francês.
A parte que é exportada clandestinamente é susceptível de variar de ano para ano, por depender de várias circunstâncias, principalmente da diferença de preços que nos últimos anos tem sido de modo a encorajar o nosso indígena a transportar às escondidas a sua mancarra para o território francês”.

Vê-se que está perfeitamente documentado, consultou atentamente as estatísticas, e com igual profundidade vai referir-se à produção orizícola:
“O arroz, que é a base de alimentação da população indígena; que, por movimento interno, vai melhorar a alimentação das populações do interior – cuja agricultura de subsistência é à base de milho – permitindo que dediquem maior esforço à cultura da mancarra: que veio animar extraordinariamente o comércio interno; um autêntico ‘oiro branco’, como já lhe chamam na Guiné – para os indígenas e civilizados que da sua exportação clandestina e ‘mercado negro’ interno tiram sentidos lucros.
Como já foi dito em relatórios anteriores, a produção anual situa-se em 100 mil toneladas, mas cremos que em 1957 não foi atingida essa quantidade, pois muito antes do fim do ano sentiu-se falta de arroz, principalmente em Bissau, onde as bichas eram enormes, diariamente, à porta dos estabelecimentos, chegando a ser confrangedor ver o povo perder horas sem conto só para conseguir 1 ou 2 quilos do seu alimento número um, em prejuízo dos seus trabalhos domésticos e outros.
E só não chegou a verificar-se falta a ponto de haver necessidade de o importar porque o Governo da Província tomou severas medidas de fiscalização.
Vem a propósito informar que durante os primeiros meses deste ano o Governo da Província, pelos Serviços de Agricultura, executou grandes trabalhos de defesa, enxugo e recuperação de terras baixas com vista ao alargamento da cultura do arroz, trabalhos esses levados a cabo nas áreas dos postos de Tite e S. João, da circunscrição de Fulacunda”.

Espraia-se igualmente sobre o coconote e óleo de palma, o outro valor económico e com peso de realce no comércio externo. Informa que continua em vigor um programa traçado pelo Governo para a valorização da riqueza destes produtos, continuavam a ser distribuídas milhares de plantas de viveiros de palmeiras de Samatra, tinha sido ampliados os palmares do Biombo, igualmente foram implantados vários alfobres no Posto Agrícola do Pessubé assim como na delegação agrícola de Catió. E finalizava a sua exposição do seguinte modo: “Pelas informações atrás prestadas em relação a cada um dos principais produtos, e pelas que tivemos ocasião de fornecer mensalmente, pode-se dizer que o ano agrícola foi bom”. Logo de seguida o relatório introduz uma novidade, a indicação de preços de venda dos produtos importados, dá três preços: para o queijo holandês, 60$00 o quilo, a lata de sardinhas 4$50 e o toucinho 28$00.

Algo estava acontecer no desenvolvimento industrial, tudo miudinho, é certo, mas o relatório dá como em elaboração várias fábricas de descasque de arroz e de amendoim, distração de óleos vegetais, de descasque mecânico do coconote, refrigerantes, gelo e carpintarias. E pormenoriza: “Dentro das instalações industriais têm realmente interesse económico dois blocos, um pertencente à firma António Silva Gouveia e o outro à Sociedade Comercial Ultramarina. O primeiro está situado no Ilhéu do Rei e o segundo na zona industrial da cidade de Bissau. No da firma Gouveia, existem fábricas de descasque de arroz e de amendoim e um estaleiro naval e no da Sociedade Comercial Ultramarina pratica-se o descasque de arroz e de amendoim e extraiam-se óleos vegetais, projetando-se também montar uma fábrica de sabões”.
E dá o seguinte remato ao discurso:
“A indústria na Guiné, que até há pouco tempo se apresentava modesta, mostra tendência para um apreciável desenvolvimento, não só pela preocupação e interesse que se nota haver por parte dos industriais em ampliar e valorizar as suas instalações, como ainda pelos constantes pedidos de concessão de alvarás para exploração de ramos já exercidos e de novas iniciativas”.
É um relator muito esclarecido, sabe que Álvaro Boaventura Camacho pediu alvará, e fora-lhe concedido, para instalar na sua propriedade de Cufar uma nova fábrica de descasque de arroz, e fora igualmente concedido alvará à Cobornel – Companhia de Borracha da Guiné – para uma lavagem de cauchu.

Não deixa de ser curiosa a formulação que apresenta no seu relatório quanto aos comerciantes exportadores:
“Os chamados ‘grandes’, cujas instalações principais se encontram localizadas em Bissau e nalguns centros do interior, é onde são encontrados os produtos destinados à exportação. Estes comerciantes mantêm uma rede de estabelecimentos comerciais por toda a Província, disputando com os outros comerciantes a compra dos produtos ao indígena. Este tipo de comerciantes concede grandes créditos em dinheiro e mercadorias aos pequenos comerciantes intermediários, recebendo destes, em pagamentos desses financiamentos, todos os produtos comprados durante a campanha. Na maioria dos casos, os créditos concedidos em dinheiro são garantidos por meio de penhores mercantis que, aliás, não passam de penhores simbólicos, porque, em regra, quando é celebrado o contrato e feito o financiamento, normalmente não existem as garantias pignoratícias, as quais só pouco a pouco são efectivamente constituídas com os produtos que vão sendo adquiridos com o dinheiro emprestado”.

1958 é tempo de mudanças, há novas soberanias à volta da Guiné portuguesa e essa informação é descrita na situação da praça, no seguinte contexto:
“Apesar da ampliação das actividades comerciais da Província, com o aparecimento de novas firmas, melhoramento das instalações e alargamento da rede de sucursais de outras já existentes, o comércio não obteve a melhoria de situação a que esse desenvolvimento deveria conduzir. E para isso contribuíram:
a) O fraco índice do poder de compra das populações indígenas;
b) A concorrência adveniente do número exagerado de comerciantes em relação à população;
c) A importância excessiva;
d) A intromissão de caixeiros-viajantes da Metrópole, que não só vendem directamente aos comerciantes retalhistas os artigos das firmas suas representadas, como ainda importam outros em nome de qualquer comerciante amigo, que vendem ambulantemente pela Província a preços competidores, em virtude dos menores encargos a que estão sujeitos;
e) Fatores de rodem política: a independência de Guiné Francesa e o ingresso do Senegal na Federação Mali. Estes vizinhos territórios absorviam grande parte dos artigos importados por esta Província, contrabando esse que diminuiu grandemente.
f) Todas estas circunstâncias se reflectiram na liquidação dos compromissos, que se fez mediante sucessivas prorrogações e amortizações”.

Mas esse ano foi igualmente importante para a Guiné, começou a falar-se em bauxite e petróleo, como iremos ver na segunda parte do relatório de 1958.

(Continua)

Fotografia do régulo Mamadu Sissé, um dos lugares-tenentes de Teixeira Pinto
Imagem do grande fotógrafo Domingos Alvão, tirada na Exposição Colonial do Porto, 1934

Túmulo de Mamadú Sissé, Guiné Portuguesa

Um relevante acontecimento social, a chegada do avião a um aeroporto de terra batida
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Notas do editor:

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1 comentário:

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camaradas

Um tri-motor Junker - 52 de fabrico alemão.
Voaram até ao início da guerra.
Reparem: toda a gente de capacete colonial.
Os sipaios de Cacine usavam estes capacetes. Pareciam feitos de cortiça.
Estes capacetes apareciam também nos livros impressos em Upsala e distribuídos ao PAIGC como símbolos do colonialismo.

Um Ab.
António J. P. Costa