domingo, 6 de junho de 2021

Guiné 61/74 - P22259: Blogpoesia (739): "Orgulho e Preconceito"; Encruzilhadas da vida" e "Fiz-me ao largo", da autoria de J. L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 728

1. Publicação semanal de poesia da autoria do nosso camarada Joaquim Luís Mendes Gomes (ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 728, CachilCatió e Bissau, 1964/66):


Orgulho e Preconceito

Grande parte do que reveste os nossos actos
é crosta espessa de preconceitos.
Inúteis. Deformantes.
Desviantes.
Fátuos e falaciosos.
Antinaturais,
contrários à transparência
e à verdade
que é lei geral da natureza.
Somos um misto
se usa chamar
de "corpo e alma".
Um ser minúsculo.
Que nos faz diferentes
e superiores no mundo.
Insatisfeito, querendo ser grande.
Todos diferentes.
Todos iguais.
Nem mais nem menos.
Sentimos a fome e a sede.
Sentimos a dor
que nos faz sofrer.
Parece um mal.
Na realidade não é.
É só a força
que nos faz lutar
e nos faz viver.
Tudo que temos e somos
é para ser melhor.
Com hierarquia.
Com equilíbrio.
O essencial primeiro.
Depois o resto.
Com peso e medida,
para não deformar.
Fazendo crer
o que não somos
e que o que temos
só a nós devemos.
Nada mais falso.
Tudo se aprende.
Desde o andar de pé
até o falar.
Desde o mais simples
ao mais complexo.
E nunca é demais,
Se for para melhor.

Berlin, 5 de Junho de 2015
6h45m
já reina o sol
Joaquim Luís Mendes Gomes


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Encruzilhadas da vida

Um dia, lá atrás, troquei de senda numa encruzilhada da vida.
Era um jovem, na esperança da aurora.
Seguia um sonho nascido na infância.
Influência do Abade velhinho que mais me marcou.
O Abade João.
Vivia como um pobre.
Desde miúdo, ajudava-o à Missa.
Sabia de cor aquela latinada toda,
Do Intróito ao Credo.
Ouvia-lhe as práticas, em palavras tão simples.
Falavam de Deus, num tom cordial.
Senti-me chamado.
Por ali era o caminho.
Mas, como, se tudo era caro e não havia tostão?
Não sei como, o seminário se me abriu e comecei a subir.
Mais de cem ao meu lado.
Diversas origens e maneiras de ser.
O céu se alargou de saber.
Língua latina, a mãe do português.
Ciências e história.
A história de Cristo.
Um exemplo a seguir.
Cada vez mais apertado.
Cheguei à teologia, um mar de valor.
Senti-me um homem.
Numa encruzilhada tremenda.
Dois rumos possíveis.
Medi minhas forças.
Supondo. Tudo dependia de mim.
Errei.
Um dia, peguei minha mala.
Aquele sonho de infância apagou.
Hoje, com honra, sou pai e avô,
Abençoado por Deus.


Berlim, 1 de Junho de 2019
7h39m - dia de sol titubeante
Jlmg


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Fiz-me ao largo

Alheio às vagas,
Fiz-me ao mar.
Fui para o largo.
Sem artes,
Sem redes.
Desarmado.
Uma vontade louca
De me ver solto.
Olhar de longe a terra,
E sua costa extrema,
No silêncio.
Pacata e submissa.
Ignorar as suas guerras.
Suas arruaças.
Como das estrelas
Eu estou alheio.
Ver nela o nascer do sol.
E se erguer para um céu azul.
Quero afastar-me,
A perder de vista.
Ficar só eu
E a vastidão do mar,
Uma parcela do infinito.
Vou começar de novo,
Do lado de lá.
Ganhar raízes,
Noutro chão puro.
Onde não haja ruas,
Mortas,
A fervilhar de carros,
Nem torres ao alto,
Só com janelas.
Colmeias vazias,
Estéreis,
Sem favos e sem abelhas.
Onde a rainha seja só
A natureza virgem,
Prenha de paz.
Quero viver na terra,
De pé e nu,
Como vim ao mundo
E começar do nada.
Ser pai Adão com nova Eva.


Berlim, 1 de Junho de 2014
6h52m
Joaquim Luís Mendes Gomes

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Nota do editor

Último poste da série de 30 DE MAIO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22237: Blogpoesia (738): "Apoteose"; Desafinar"; "Este segredo é meu" e "Há gemidos nas ruelas", da autoria de J. L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 728

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