sábado, 12 de junho de 2021

Guiné 61/74 - P22276: Os nossos seres, saberes e lazeres (455): Na Sertã, no dia em que aqui recebi a primeira dose da vacina (2) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Maio de 2021:

Queridos amigos,
Foi um dia em cheio, passeou-se a preceito, a vacina não fez mossa, nem um simples ardor no braço, por ali se andou vivaço, subindo e descendo, sabendo de ciência certa que muito mais fica para ver quando se vier à segunda dose. Não se esconde o quanto se gosta desta região do chamado Pinhal Interior, presta-se homenagem aos edis que procuram a todo o transe embelezar este rincão de grande património vegetal, cuja importância para a História de Portugal se foi diluindo, aqui batalharam ordens militares em tempos da formação do país, há muito mais do que património natural, basta consultar o roteiro turístico da Sertã para perceber que não é digno de uma visita de médico. Há muito para ver, tudo farei para vos mostrar o ateliê de Túlio Victorino e o Seminário das Missões em Cernache do Bonjardim. Há capelas merecedoras de visita, há belas pontes, pelourinhos, Pedrógão Pequeno é uma aldeia de xisto e não se faz favor nenhum em pôr a Igreja Matriz da Sertã entre as mais belas igrejas de Portugal. Para quem gosta de arquitetura, convém recordar o génio de Cassiano Branco, o edifício da Câmara lembra por fora uma construção convencional, com reminiscências francesas e italianas, por dentro fica-se de boca aberta com a ousadia do traço e uma modernidade que ainda hoje perdura.

Um abraço do
Mário


Na Sertã, no dia em que aqui recebi a primeira dose da vacina (2)

Mário Beja Santos

Só para recordar que durante cerca de 20 anos mantive os pés em dois concelhos, Pedrógão Grande e Sertã. Foi experiência edificante, fazia o Vale do Cabril em ambas as margens do Zêzere, umas vezes começava na Cotovia, a admirar as vertentes pedregosas, descia pela Ponte Filipina e mudava de concelho, ou vice-versa. Gostei também sempre de ir à Barragem da Bouçã e escolher entre Figueiró-dos-Vinhos e a Sertã. Aqui experimentei todas as estações do ano, quer no silêncio da floresta, os vales adormecidos na invernia, o gemido das árvores repuxadas pela ventania, passei à procura das primeiras flores da Primavera, banhei-me nas praias fluviais, andarilhei à volta da Albufeira do Cabril, isto quando pousei noutro tipo de permanência no antigo bairro da EDP, o fim do dia é de uma esplendente luminescência e o casario de Pedrógão Pequeno ganha forma de presépio. E o médico de família que apostou na minha saúde até aos 150 anos deu conforto àquele telefonema que me convocava no dia tal e a horas tantas para receber a primeira vacina contra o Covid, nas instalações dos Bombeiros da Sertã. Tinha então despachado qualquer forma de habitação nos dois concelhos, quedando-me num lugarejo em Tomar. Foi com a maior alegria que daqui rumei bem cedo em direção à Sertã, uma viagem em que se enche os olhos com oliveiras e pinheiros, eucaliptos e sobreiros, castanheiros e azinheiras. Jurei que em definitivo iria conhecer as entranhas do edifício camarário sertaginense, projeto de Cassiano Branco, foi acontecimento de truz, que culminou com a visita àquelas salas onde a edilidade toda decisões, impossível não começar a narrativa do dia de hoje sem vos mostrar o pendão da Sertã, seguramente bordado a seda, veja-se tal beleza e harmonia de elementos. Volta-se à Carvalha, por ali se deslocam transeuntes em remanso, como a Natureza se pode disciplinar, transformando-se numa área de lazer que obtém o aplauso de todos. Fica-se ali a contemplar as águas, passeia-se de uma margem para a outra, há murmúrios de cascatas, olha-se para o alto para o Convento de Santo António, que já se conheceu em mau estado e que foi objeto de uma intervenção de truz, dá gosto por ali passear, não fica atrás das boas pousadas de Portugal.

E desce-se para cumprimentar o antigo professor, o Padre Manuel Antunes, um pensador de alto nível, como é que aquele franzino de gente, quase um besnico, de voz macia, um tanto ciciante, as mãos sempre elevadas, dominava perfeitamente o anfiteatro com os seus alunos de cultura clássica ou civilização romana? Era uma sageza de quem sabia encadear os dados da civilização da cultura, naqueles tempos o máximo de ilustração seriam os slides, mas nem a esse recurso o douto jesuíta se apoiava, era tudo aula magistral, as mãos pontificavam, pareciam desprendidas do corpo hirto, homem de grande singeleza e de comprovada cultura universal. Deixou saudades nos seus alunos, e neles me incluo, ninguém tem nada a perder em ler os seus trabalhos, felizmente editados pela Fundação Calouste Gulbenkian.

E Manuel Antunes é o nome da Biblioteca Municipal que foi criada ainda no século XX na dependência da Fundação Calouste Gulbenkian, instalada então no rés-do-chão dos Paços do Concelho. Com a reabilitação da antiga Casa dos Magistrados, a biblioteca ganhou autonomia em outubro de 2007 e o nome do patrono chegou cinco anos depois. Visito-a com deleite e cumplicidade, ali apresentei um livro, peço livros emprestados e já fui honrado com o convite para participar num dos maiores festivais literários de Portugal, a Maratona de Leitura. Não é uma biblioteca só destinada a requisitar livros ou ler jornais e revistas, quem a dirige tem espantosos programas de animação sociocultural e daí a reputação que a biblioteca ganhou e que extravasa o espaço do pinhal interior. Toca, pois, de a mostrar no seu interior e pôr em imagem um espaço ambientalmente amável e que se aproveitaram embalagens de plástico para ver crescer famílias de catos, que belo achado de reciclagem, vale a pena aqui fazer leitura com tal moldura vegetal.

Chegou a hora do piquenique, refere-se a moldura admirável da ribeira da Sertã, por ali a vista se espraia e mordisca-se o pão e come-se a fruta a contemplar aqueles terraços a que a memória se associa aos passeios que se fazem percorrendo a região de Proença até Vila Velha de Ródão, e nunca me canso de pasmar com o labor na construção daqueles terraços a que se arrancaram os pedregulhos não sei para cultivar quais alimentos, pressinto que era centeio, cá em baixo nos valados era lugar de milho e produtos de terra, crucias para a autossubsistência. Batemos com a mão no peito a falar no património material e imaterial, queremos mais e mais reconhecimento, nunca vi a defesa destes terraços marcadores de civilização, não tivessem sido estes agricultores a contrariar terra tão agreste, aqui se fixando com denodo e criando vínculos imemoriais, e teríamos um deserto humano, mesmo que tivesse sido vasto o coberto florestal. São obras do passado que caíram no esquecimento, ponto final, e a vista se regala a ver estes terraços que aformoseiam a encosta que beija a ribeira da Sertã.

Daqui se parte para uma outra romagem de saudade, a caminho do Zêzere, há uma paragem em Pedrógão Pequeno, inevitável uma curta visita ao Moinho das Freiras, atravessa-se a Albufeira do Cabril e entra-se em Pedrógão Grande. Nunca entendi muito bem como a edilidade não é capaz de exibir o seu baú patrimonial: há ruínas romanas, belas capelas no espaço da Devesa, há até para ali perdido no mato um forno romano, o centro histórico guarda vestígios medievais, a Igreja-Matriz é soberba, o património da Misericórdia soberbo é, creio que a generalidade de quem por ali passa desconhece o Museu Pedro Cruz, não foi artista transcendente mas deixou obra com significado, e o concelho guarda em Vila Isaura museus privados com património valiosíssimo, falta um roteiro para convidar o visitante a mergulhar em tanta oferta. Há pouco tempo, o meu amigo Aires Henriques, que detém em Vila Isaura (nos Troviscais) esse espólio soberbo que tem a ver com o povo ratinho, a presença dos primeiros republicanos, artefactos maçónicos, e muito mais, escreveu uma brochura sobre o seu espólio judaico, bem rico, que gostaria de ver exposto no Centro Histórico de Pedrógão Grande, a par de outros objetos culturais do seu património. Não sei o que irá acontecer, e lamento por tanta displicência na política cultural deste concelho.

E percorrendo as ruas deste Centro Histórico vou até à biblioteca cumprimentar gente muito amiga e visitar o espaço construído à memória de uma adorada filha que faleceu em 2009. E termina esta primeira visita, seguir-se-á a segunda vacina, e já se tomou nota do muito que há a ver na próxima viagem. Agora que o maranho da Sertã é marca protegida a nível nacional, tem selo de Indicação Geográfica, espera-se que com o desconfinamento no dia da segunda vacina se possa almoçar um tão suculento manjar, no intervalo das visitas que por ora se organizam no papel. Mas até lá o viandante não para, vai de seguida falar-vos de uma espantosa exposição que está no Museu do Neorrealismo em Vila Franca de Xira intitulada Representações do Povo, exposição talentosa coordenada pela sua diretora científica, Raquel Henriques da Silva.

(continua)

Na sala da Assembleia Municipal, acima de mobiliário de outros tempos, com o estadão do coro cravejado, o brasão da Sertã
A Alameda da Carvalha beneficiou desta ponte que aproxima espaços complementares, dá gosto por aqui passear num folgado espaço de entretenimento que permite espetáculos ao ar livre e com a imensidão florestal em círculo envolvente
A ribeira da Sertã sombreada, é fotografia, não é quadro a óleo, fiquem sabendo
Junto da Ponte Filipina o murmúrio das cascatas em perene mergulho das águas
Uma intervenção de bom gosto, um convento transformado em hotel, grande beleza
Um pormenor da Biblioteca Municipal Manuel Antunes
Espaço para ler jornais e revistas
Um achado da reciclagem, garrafas de plástico a fazer de vasos adornando magnificamente um espaço de lazer e leitura
Cultivo em socalcos à beira da ribeira da Sertã
A mansidão das águas num espaço idílico
Uma inevitável romagem de saudade à Biblioteca Municipal de Pedrógão Grande
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Nota do editor

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