sexta-feira, 30 de julho de 2021

Guiné 61/74 - P22417: Passatempos de verão (22): A fábula da cabra Joana de Nhacobá e do cão rafeiro Tigre do Cumbijã, obrigados a coexistir pacificamente até ao final da guerra


Guiné > Região de Tombali > Cumbijã > CCAV 8351 > O encontro, não muito amistoso, da cabra “Joana” que trouxemos de Nhacobá no dia da operação Balanço Final, com o “rei” do destacamento do Cumbijã - o cão rafeiro “Tigre”... Com o tempo lá foram partilhando o protagonismo. Foto: cortesia do Carlos Machado.

Foto (e legenda): © JOaquim Costa (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. A foto da cabra Joana de Nhacobá e do cão rafeiro Tigre do Cumbijã, da autoria do Carlos Machado, é um espanto!... Um "instantâneo" muito feliz!...

Dá para os "miúdos da escola" (aqui ou na Guiné-Bissau) escreverem uma fábula sobre a "estupidez da guerra" ou qualquer coisa parecida... (O que é que será mais parecido com a "estupidez da guerra" ?  A guerra e a estupidez.).

Ou então dá, também, para os nossos leitores escreverem uma história para os seus  netos, partindo das suas memórias já muito esbatidas daquela terra, que era outrora era verde e vermelha, e estava a ferro e fogo... 

Leitores de Portugual, leitores da Guiné-Bissau, ou outros, que a "estupidez da guerra" é de todos os tempos e lugares... Fica aqui o desafio, retomando uma série, já antiga,  do nosso blogue, "Passatempos de Verão", ams inactiva desde 2017 (**).

A cabra Joana de Nhacobá foi apanhada pelo pessoal da CCAV 8351, justamente em Nhacobá, tabanca até então controlada  pelo  PAIGC,  no "corredor de Guileje", no decurso da Op Balanço Final (17-23 de maio de 1973). Nhacobá era um lugar de importância estratégica para ambos os contendores.

Foi levada, a Joana,  para Cumbijã, sendo obrigada a coexistir, pacificamente, com o cão rafeiro, o "Tigre de Cumbijã", mascote do pessoal. Não sabemos como esta história acabou, a pequena, insignificante, história destes dois animais domésticos. 

Enfim, mais uma pequena história que não cabe na grande História com H. Ou será que cabe (ou devia caber) ?... Talvez um dia os senhores historiadores se lembrem de juntar, aos homens, as cabras e os cães, que os acompanhavam na paz e na guerra. Tal como os vírus, bactérias, parasitas, protozoários, fungos e bacilos que os dizimavam, aos homens e aos seus animais domésticos.

O Valdemar Queiroz comentou (**): 

"A cabra Joana e o cão Tigre,,, Até dava uma fábula, 'tá bem, mas atenção que as crianças são curiosas e poderiam atirar com: a Joana ao ataque e o Tigre encolhido. Ou os habituais reparos: mais uma a deitar abaixo a nossa tropa (um tigre) a encolher-se a um ataque no IN (uma cabra)." (...)

O nosso editor Luís Graça, mauzinho, também deu a sua dica (**): 

"Aposto que a cabra Joana acabou no prato dos Tigres do Cumbijã. Chanfana, de cabra velha. Mesmo nascida depois da guerra,  no final, em 1974,  já devia ser dura que nem um corno. Se assim foi, e o Joaquim confirmará, a pobre Joana terá sido um dos últimos despojos do império. Como a malta não comia cão (a menos que houvesse algum macaense na CCav 8351), o resultado só pode ter sido Tigre 1, Joana 0. Mas pode haver outras narrativas"...

E são essas narrativas, de preferência sob a forma de "fábulas", 
bem humoradas, mais ou menos infantis, politicamente incorretas, que esperamos da parte dos/as nossos/as leitores/as... 

Para já o poste não tem numeração (, será o P00000, volante, de modo a aparecer todos os dias em destaque na página de rosto do blogue). Queremos assim dar oportunidade (e visibilidade) aos nossos leitores para que os seus  talentos literários (incluindo a sua imaginação e sentido de humor) se manifestem, este fim de semana, de preferência sem quaisquer entraves nem  censuras...

Toda a gente já leu ou ouviu uma fábula do grego Esopo ou do francês La Fontaine... Fábula (latim fabula, -ae, conversa, lenda, conto, narrativa) tem várias aceções ou significados. Por exemplo: 1. [Literatura] Composição literária, em verso ou em prosa, geralmente com personagens de animais, com características humanas, e em que se narra um facto cuja verdade moral se oculta sob o véu da ficção.

Fonte: "fábula", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021, https://dicionario.priberam.org/f%C3%A1bula [consultado em 29-07-2021].



Mandem os vossos textos (, curtos, dois ou três  parágrafos, meia página A4) para os endereços dos nossos editores que estão de serviço neste final de julho / princípio de agosto do ano da (des)graça de 2021:

(i) Luís Graça (Lourinhã):

luis.graca.prof@gmail.com

(ii) Carlos Vinhal (Leça da Palmeira / Matosinhos):

carlos.vinhal@gmail.com


2. Operação Balanço Final, Região de Tombali, Nhacobá, Sector S2, 17 a 23Mai1973


Com a finalidade de ocupar Nhacobá, S2, em que intervieram forças das CCaç 3399, 3ªC/BCaç 4513/72, CCaç 18, CArt 6250/72, CCav 8351/72, 2° Pel Art (10,5 cm), 14° PelArt (14 cm), e 1 Pel/ERec 3431, quando se deslocavam no itinerário Cumbijã-Nhacobá, tiveram 2 contactos com o inimigo de que resultaram 7 mortos para este e 1 morto, 5 feridos graves e 9 ligeiros para as NT. 

Foram apreendidas ao inimigo 1 esp autom "Simonov", 3 esp autom "Kalashnikov", 1 esp "Mauser", l LGFog "RPG-7" e 1 gran de LPFog  "RPG-7", além de material diverso.

Três dias depois pelas 09H50 as nossas forças foram emboscadas por um grupo IN na região próxima de Guileje. As NT sofreram 1 morto, 1 ferido grave e 2 ligeiros. O inimigo sofreu baixas prováveis.


Fonte: Excertos de: CECA - Comissão para Estudo das Campanhas de África: Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974) : 6.º Volume - Aspectos da Actividade Operacional: Tomo II - Guiné - Livro III (1.ª edição, Lisboa, Estado Maior do Exército, 2015), pág. 304

7 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Pormenor importante: que idade teria a Joana em maio de 1973 ? As cabras podem chegar aos 15-18 anos.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Ou seja: mais que os cães...

Valdemar Silva disse...

Sem querer fabular, as cabras podem chegar aos 15-18 anos, conforme a idade em que estejam prenhas. Se estiverem prenhas duram mais uns tempos.
Em Nova Lamego, a minha CART.11 comprou uma cabra, não sei se a nível do Vagomestre Ferreira se a nível particular de alguns camaradas, para um repasto que agora não me recordo.
Quando o "magarefe"/cozinheiro se preparava para matar a cabra reparou que ela estava prenha e deu-lhe mais um tempo de vida até parir a cria, depois sempre haveria uma cabra e um cabrita, comentou.
Por isso a "Chica" ainda viveu mais uns tempos a fazer-nos companhia, e como grande espertalhona subia umas escadas até à nossa messe para comer pão com manteiga connosco ao pequeno almoço.
Assim, uma cabra pode muito bem viver mais ou menos anos conforme esteja ou não prenha no "limite" da idade.


Abraços
Valdemar Queiroz

Antº Rosinha disse...

Luis Graça, nem fazes ideia qual foi o fim da maioria dos cães, catchurro?, que vadiavam em Bissau, para onde teriam imigrado vindos do interior com o fim da guerra colonial.

A pequena Bissau duplicou ou triplicou de gente e com as pessoas teriam vindo também os seus fieis amigos.

Passados anos, ainda muitos cães, abandonados, sarnentos, esfomeados, esqueléticos, morriam atropelados e sepultados em montões de pedras de laterite (hábito que nunca entendi a explicação), nas ruas esburacadas de Bissau.

Num tempo em que não havia bianda para as pessoas , menos para os cães.

Mais ou menos em 1981/2, tinha terminado em Bissau, esse espetáculo muito desagradável.

Este comentário não é próprio para o que pretendes, porque era mesmo desagradável.

À parte a fome , que sei explicar, a quantidade de cães e o "funeral" falta-me alguma coisa para a explicação completa.

Unknown disse...


A cabra Joana e o cão rafeiro Tigre


Era uma vez, numa terra distante, de uma beleza que se entranhava no corpo e alma, como a areia no corpo numa tarde de vento na praia,. Aqui viviam duas famílias desavindas por causa de uma bandeira (quando forem mais crescidos vão perceber porquê… ou talvez não). Uns eram a família “IN” outros a família “Tigre”

Os arrufos eram constantes com investidas ousadas a casa uns do outros tentando a expulsão dos mesmos.
Entretidos nestes arrufos os DDT. Impondo a sua lei decidiram (,sem os consultar) que os Tigres investiriam em força sobre a família IN, impondo a sua lei.

Assim foi, mas com perdas irreparáveis e inocentes de um lado e do outro.

Como é comum, desde os primórdios, quem vence tem direito aos despojos: Arroz, cigarros, fósforos (que se acendem riscando na sola da bota estilo John Wayne), livros escolares com mensagem estilo Estado Novo (mas cujos heróis eram outros) e uma cabra que chamou a atenção pela sua indignação pela invasão da sua privacidade levantando as patas a qualquer um sem receios.

Esta irredutível cabra, passou a fazer parte do despojos pelo que nos acompanhou até casa. Aqui quem reinava era o cão rafeiro “Tigre” pelo que no dia da chegada foi apresentada ao rei. Não foi um encontro fácil e só não se chegou a vias de facto dada a pronta atuação da guarda pretoriana.

Esta irredutível cabra ganhou a simpatia de toda a população, ou quase já que em todo o lado há ovelhas ranhosas.

Tinha esta irreverente cabra 4 predadores:

(i) O rei Tigre que nunca aceitou partilhar o protagonismo com este estranho animal. Contudo, neste caso não sei quem era o predador de quem?

(ii) O Vago Mestre Ferreira que fitava a Joana com os olhos vermelhos de quem já a está a ver a ser esfolada e transformada em estilhaços de carne para o arroz:

(iii) Os três agricultores improváveis , estes com razão, já que a Joana não resistia às viçosas alfaces saltando a cerca das 3 hortinhas lambusamdo-se com a frescura das mesmas com a indignação dos seus donos.

Na defesa da Joana passou a haver, 24 sobre 24 horas, um guarda costas, armado de G3 com bala na câmara.

Foi assim que a mesma resistiu até ao dia em que abandonamos a nossa casa a caminho de Bissau, em que todos, sem exceção, verteram uma lágrima, já com saudades da Joana e do Tigre.

Não sei o que aconteceu depois, mas temo que esta história, infelizmente, dos relatos que nos foram chegando, não acabou nada bem

Ao que parece nem os macacos se salvaram....

Joaquim Costa

Valdemar Silva disse...

...a "Chica" ...... subia umas escadas até à nossa messe...

Escadas para a nossa messe?
Em Nova Lamego, a minha CART.11 "Os Lacraus" estava sediada no Quartel de Baixo ocupando as traseiras do mais importante edifício colonial de toda a Zona Leste, incluindo Bafatá.
O edifício que na parte principal, a parte da frente, funcionava a Administração Regional estava dividido "ao meio" com a parte das traseiras ocupadas como Quartel, ou melhor dizendo no piso superior das traseiras estava o Comando, Secretaria e dormitório de Oficiais e Sargentos havendo uma bela varanda, em parte ocupada pela Messe de Oficiais e Sargentos, com acesso por uma larga escadaria. Era por esta escadaria que subida a cabra "Chica" para comer pão com manteiga.
Nas fotografias do Abílio Duarte publicadas nos P11097 e P22160, e outra no P15827, pode-se ver como era a varanda da Messe e a escada de acesso.
Normalmente no Quartel só estava um Pelotão e a tropa especialista, o resto dos Pelotões estavam sempre fora em intervenção/reforço em toda a zona leste.

Actualmente todo o edifício, todo e bem recuperado, é ocupado pelo Governo Regional do Gabu.

Valdemar Queiroz

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Joaquim,gostei da tua versao que só agora li para não "enviesar" o meu texto, entretanto publicado como sendo a fábula no.1. Sei que não vais gostar do desfecho, mas segui a minha intuição... O teu público a seguir.