quinta-feira, 31 de março de 2016

Guiné 63/74 - P15920: Memória dos lugares (337): Cuntima, junto ao Senegal... Imagens do antigo quartel (Patrício Ribeiro, Impar Lda, Bissau)


Foto nº 1 > Rua principal de Cuntima


Foto nº 2 > Antigo quartel de Cuntima: depósitos de água


Foto nº 3 > Antigo quartel de Cuntima: marca da passagem do 4º Gr Comb, "Xonés", da CART 3360 (não temos, salvo erro, nenhum representante desta subunidade na Tabanca Grande)


Foto nº 4 > Antigo quartel de Cuntima: marca da passagem do BENG 447 (Bissau)


Foto nº 5 >  Antigo quartel de Cuntima: a equipa da Impar Lda em trabalho (1)


Foto nº 6 > Antigo quartel de Cuntima: a equipa da Impar Lda em trabalho (2)


Foto nº 7 > Antigo quartel de Cuntima: mais marcas da passagem das NT


Foto nº  8 > Antigo quartel de Cuntima:o vice-administrador Samba Candé [, da vila de Cuntima], ex- milícia português, no local onde morreu o seu grande amigo,  o cabo Machado, assim como o furriel Dorindo, em um dos ataques com morteiros.


1. Estas fotos foram-nos enviadas recentemente pelo nosso amigo e camarada Patrício Ribeiro [,foto à esquerda: português,natural de Águeda,criado e casado em Angola, com família no Huambo, ex-fuzileiro em Angola durante a guerra colonial, a viver na Guiné-Bissau desde 1984, fundador, sócio-gerente e director técnico da firma Impar, Lda; também conhecido carinhosamente como "pai dos tugas"]

 De vez em quando ela pega  na máquina fotográfica (ou no telemóvel?)  e tira umas chapas sobre os "sítios de nenhures", os bu...rakos onde nos meteram ou nos metemos, entre 1961 e 1974... Para a gente, masoquista como nós, "matar saudades"... Cuntima foi um deles... O quartel era protegido por um pelotão de artilharia. E tinha uma delegação da PIDE/DGS... Era um ponto importante para a segurança da província. Vejam aqui fotos da época, dos nossos camaradas Vitor Silva e Humberto Nunes...  (*). Há mais de meia centena de referência no blogue sobre Cuntima. Mas é preciso saber procurá-las: o Blogger só nos mostra meia dúzia. Pesquisar também no Google > Imagens > Cuntima Guiné.

Quem esteve em Cuntima foi o Vasco [Correia] Lourenço, hoje cor inf ref (ex-cap inf, CCAÇ 2549, Cuntima e Farim, julho de 1969/junho de 1971]. E quem sabe mais de Cuntima é o nosso camarada Carlos Silva, dirigente da ONGD Ajuda Amiga [e nosso grã-tabanqueiro, de longa data: jurista, foi fur mil inf, CCAÇ 2548/BCAÇ 2879, Jumbembem, 1969/71; tem mais de 90 referências no nosso blogue].

Refira-se ainda, e por fim, que Cuntima, dois anos depois da independência da Guiné-Bissau, em novembro de 1976, foi palco de cenas de terror e violência de Estado, a execução sumária e pública de dois antigos milícias, "cães dos colonialistas", por ordem do famigerado comandante Quemo Mané, cenas essas  aqui já reconstituídas num poste memorável e corajoso do nosso amigo Cherno Baldé (**), um poste que merece ser lido e relido: na altura teve cerca de meia centena de comentários.

Dos 42 graus, no mato...

Junto algumas fotos da vila de Cuntima (e em especial do antigo quartel das NT).

É também uma pequena homenagem aos que aqui viveram, aos que aqui morreram, aos que agora aqui agora trabalham.

Tenho pena… mandei deitar abaixo a casa onde estava instalado o gerador no tempo português.

Vou lá instalar,  no furo feito pelos Portugueses junto à casa, uma bomba solar 50 m3/dia, um reservatório de 30 m3, vai levar diversos fontanários, espalhados pela vila e pela tabanca mais próxima, para abastecimento de água.

Caminho difícil, os 33 km de Farim até lá, terra de ninguém… onde mandam os que lá estão…

Em uma das fotos [foto nº 8], pode ver-se um antigo abrigo, e junto está o vice-administrador da vila Samba Candé, ex-milícia português, no local onde morreu o seu grande amigo, o Cabo Machado, assim como o Furriel Dorindo, em um dos ataques com morteiros. [Não há indicação de data nem da subunidade] (***)

Abraço,
Patrício Ribeiro

IMPAR Lda
Av. Domingos Ramos 43D - C.P. 489 - Bissau , Tel, 966623168 Guiné Bissau
Tel / Fax 00 351 218966014 Lisboa 
www.imparbissau.com
impar_bissau@hotmail.com



Guiné - Mapa de Colina do Norte (1956); Escala 1/50.000 - Localização de Cuntima

Infogravura: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
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Notas dos editores

(*) Vd. alguns dos nossos postes com imagens e outras memórias de Cuntima:

22 de setembro de 2009 > Guiné 63/74 - P4993: Memória dos lugares (44): Cuntima, na fronteira com o Senegal (Ex-1º Cabo Vitor Silva, CART 3331, 1970/72)

17 de março de 2008 > Guiné 63/74 - P2657: Cuntima nos tempos da CART 3331 (1970/72) (Vítor Silva)

6 de setembro de 2012 >  Guiné 63/74 - P10340: Álbum fotográfico do ex-Alf Mil Art Humberto Nunes (3): Cuntima

3 de Setembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10320: Álbum fotográfico do ex-Alf Mil Art Humberto Nunes (2): Cuntima

(**) Vd. poste de 25 de junho de 2013 > Guiné 63/74 - P11762: Memórias do Chico, menino e moço(Cherno Baldé) (45): Horror e terror em Cuntima, em novembro de 1976: a revoltade um grupo de antigos milícias, a execução pública de Soarê Seidi e de AbbaroCandé, por ordem do histórico comandante do PAIGC, Quemo Mané (Recordações deDemburri Seidi, tradução e texto de Cherno Baldé)

(***) Último poste da série > 27 de março de  2016 > Guiné 63/74 - P15907: Memória dos lugares (336): Cancolim, subsetor de Galomaro (Rui Baptista, ex-fur mil, CCAÇ 3489 / BCAÇ 3872, 1972/74) - Parte I

2 comentários:

Antº Rosinha disse...

Quando chegavam à Guiné independente os cooperantes portugueses, professores, médicos etc. queixavam-se com a crise das faltas de tudo e desanimavam por falta de água, de luz de telefone e de batatas.

Então os malandros que viviam lá há muitos anos, acalmavam-nos dizendo-lhes que o mais difícil eram os primeiros 10 anos.

Então não é que repetiam as comissões que ultrapassavam os tais 10 anos?

É caso para dizer que este nosso patrício, Patrício Ribeiro, é a prova provada que África deve tornar-se mesmo um vício.

Coitados dos javalís!

Tabanca Grande disse...

Umm texto de antologia, camaradas, que merece ser revisitado!.. Aconteceu em Cuntima, em novembro de 1976!...LG
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25 de junho de 2013 > Guiné 63/74 - P11762: Memórias do Chico, menino e moço(Cherno Baldé) (45): Horror e terror em Cuntima, em novembro de 1976: a revoltade um grupo de antigos milícias, a execução pública de Soarê Seidi e de AbbaroCandé, por ordem do histórico comandante do PAIGC, Quemo Mané (Recordações deDemburri Seidi, tradução e texto de Cherno Baldé)

(...) Não foi preciso ouvir mais e, se calhar nem era preciso, o Comandante levantou-se e, com a frieza de quem estava habituado a tomar decisões graves, disse que pelos comprovados actos de rebeldia e traição à Pátria, os dois homens deviam ser fuzilados e imediatamente.

Ao ouvir as palavras “pá mata!” da boca do Chefe militar, a assistência ficou literalmente congelada. A rapidez e a dureza da decisão tinham surpreendido tudo e todos, mas quem conhecia o Comandante Quemo Mané durante a luta, sabia que com ele tudo era simples, rápido e demolidor como o turbilhão de vento em dia de tornado tropical. A semelhança da grande maioria dos Comandantes do PAIGC, apesar de rotundo analfabeto (2), subira na hierarquia militar por mérito próprio, distinguindo-se pela sua coragem, brutalidade e violência extremas, uma inteligência fora do comum e pelos sucessos acumulados nas operações que dirigia.

Deram ordens para que todos fossem presenciar o acto no centro da aldeia, mas antes de os levarem, um grupo de homens do partido dirige-se ao local onde estava o Comandante a fim de interceder a favor do Comité da aldeia, provavelmente, pela lealdade e serviços prestados no passado. Assim, no local da execução da sentença, só compareceu o assustado Sissão, diante de uma dupla de homens armados com metralhadoras de fitas metálicas, contendo perto de uma centena de balas. O caso não era para menos.

Tudo estava a postos, os dois guerrilheiros com as armas apontadas, o Sissão à frente, com as mãos amarradas e olhos fixos nos seus carrascos, a população em pé, envolta em silêncio e no céu o Deus dos homens a registar mais uma crueldade humana. O Comandante da zona que ficara retido pelos colegas do partido para deliberar sobre a sorte do Comité, ao entrar no recinto, grita para os dois executantes:
- O que estão a espera, acabem com eleǃ

Os tiros sucedem-se ensurdecedores, o corpo de Sissão é projectado para trás com o impacto das balas das metralhadoras que continuaram a cuspir fogo até transformar o corpo num autêntico manto de retalhos. A poeira e o cheiro acre da pólvora invadiram o recinto. De seguida, um dos guerrilheiros pega no corpo inerte do defunto Sissão, tendo-o arrastado até ao pé da família, diz a estes:
- Aqui está o corpo do vosso cão, agora podem levá-lo, se quiserem! (...)