sexta-feira, 1 de abril de 2016

Guiné 63/74 - P15925: Memória dos lugares (337): Cancolim, subsetor de Galomaro (Rui Baptista, ex-fur mil, CCAÇ 3489 / BCAÇ 3872, 1972/74) - Parte II: "Passei lá alguns maus bocados, com duas idas ao hospital, mas também lá tive alguns bons bocadinhos"...



Foto nº 10 A > "Os Vingadores", o meu pelotão  (2.º Pelotão da CCaç 3489),  prontos para uma patrulha. Ficámos com este nome porque quase sempre nos tocava ir em busca do IN após os ataques ao aquartelamento


Foto nº 10 B > "Os Vingadores", o meu pelotão  (2.º Pelotão da CCaç 3489)...


Foto nº 8 > Um posto de sentinela em Cancolim


Foto nº 11 > Mais uma partida para o mato de "Os Vingadores" em 15 de  abril de 1972, após uma flagelação a Cancolim à hora do almoço... Não gostávamos que o Juvenal Amado lá levasse o capelão... Não sei porquê, o homem dava-nos azar... Sempre que lá ia, Cancolim embrulhava"...


Foto nº 13 > Segurança à picada entre Cancolim e Sangue Cabomba


Foto 14 > Preparação para uma coluna a Bafatá (parte do 2.º Pelotão)


Foto nº  15 > O estado em que ficou a viatura (Unimog 404) que caiu numa mina em 14 de agosto de 1972 na picada,  no regresso de Bafatá a Cancolim (deixou-me 40 dias, todo partidinho, no HM 241 de Bissau – além de mim tivemos mais 16 feridos,  entre eles dois camaradas que tiveram de ser evacuados para o HMP de Lisboa)


Foto nº 3 A > Vista aérea de Cancolim: ao fundo do lado esquerdo, o heliporto... Além das instalações, veem-se alguns troços do perímetro de valas, abrigos e espaldões... Não havia artilharia, só morteiro 81...


Foto nº 3 B > Outra vista aérea de Cancolim: em segundo plano, a tabanca, anexa ao quartel...

Fotos (e legendas): © Rui Baptista (2009) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados.


1. O Rui Batista (ex-fur mil, CCAÇ 3489 / BCAÇ 3872, Cancolim, 1972/74)  mora em Póvoa de Santo Adrião, Loures, com 65 anos de idade, está reformado, é lisboeta, sendo os pais oriundos de Arganil. e é nosso grã-tabanqueiro desde 9/12/2009.
 

Já aqui nos contou parte das andança e desandanças pelo TO da Guiné (*)... A primeira parte da comissão são mais intranquila.  Cancolim era um buraco lá no sector de Galomaro...
 

"O resto da comissão, principalmente os últimos 7 ou 8 meses de 1973, foi bem mais calmo. O último ataque a Cancolim foi em 20 de Janeiro de 1974. Nesse dia o IN veio de manhã, quase junto ao arame, mas apesar de muitos de nós andarem a jogar futebol, conseguimos fazer com que batessem em retirada deixando um morto no terreno".

Foi parar ao hospital duas vezes:

"A primeira vez que fui parar ao Hospital Militar de Bissau foi devido a uma febre que ninguém conseguiu identificar. Cheguei lá a 6 de Junho de 1972 e saí quase um mês e meio depois". (...)

"A segunda vez foi pouco tempo depois da primeira, foi logo na coluna seguinte a me irem buscar a Bafatá, dia 14 de Agosto de 1972. Não era a vez do meu Pelotão fazer a coluna. Quem estava na escala era o 1.º Pelotão,  comandado pelo Capitão;  este alegando que não se sentia bem e como eu tinha estado fora da Companhia algum tempo, conseguiu convencer-me a substituí-lo dessa vez".

O Rui confessa que não gostou  muito da ideia mas lá foi, contrariado... E tinha razões para temer que aquele fosse um dia aziago...

"Após a saída de Bafatá,  comecei a sentir que algo não ia correr bem. Ao chegarmos a Sangue Cabomba fui colocar o saco do correio (a mais sagrada das coisas para nós) na última viatura, e dei algumas indicações aos condutores de como iríamos proceder à passagem das zonas mais perigosas do resto do percurso até Cancolim.

"Foi exactamente no último bocadinho do troço onde nos podiam emboscar que deflagrou a mina colocada na picada. A partir desse momento não me lembro de muita coisa, sei que ainda dei instruções ao homem do rádio para pedir o batimento da zona e também de pedir uma arma e água a um elemento da população e deste me dizer que a mina não era para mim ("Furriel desculpa a mina não era para ti" – foi o que me ficou gravado na mente)."...

A seguir o Rui foi evacuado de heli para Bafatá...

"Recordo ainda de desmaiar sempre que me agarravam no ombro partido e de me terem posto numa maca dentro de numa DO. Acordei em Bissau quando me estavam a cortar o camuflado e voltar a desmaiar quando me agarraram no ombro para radiografar, acordei ao fim de três dias todo ligado e entubado na sala de observações. Estive hospitalizado 40 dias"...
Balanço da explosão da maldita mina: 17 feridos, dois deles evacuados para Lisboa.

"Até aqui só escrevi sobre coisas menos boas, mas também existiram algumas bem divertidas como, por exemplo,  aquela de eu ter pedido uma ZUP em vez de 7UP na primeira vez em que entrei na messe de sargentos no Cumeré, foi um "salta, pira!", geral.

Outras de que se lembra:
(i) "as corridas de arcos com gancheta que fazíamos na parada de Cancolim";

(ii) "um ou dois festivais da canção de Cancolim: uma das canções vencedoras,  "Rio Chancra" era cantada pelo Rodinhas (Furriel Mecânico Correia)";

(iii) "as caçadas às galinhas e cabras da população, e a fisgadas as pombos do nosso pombal para os petiscos";

(iv) "os campeonatos das mais variadas jogatinas de cartas";

(v) "as missivas que escrevíamos aos ratos para não nos roerem as roupas dentro dos armários – quando vim de férias da primeira vez, dei com o meu saco de viagem todo desfeito e no meio dos farrapos uma ninhada de 7 ratinhos"...

"E mais, muito mais", diz ele, "que eu não sei contar aqui"!... A gente acha que ele sabe e tem jeito para contar histórias... Esperamos que nos visite muito proximamente, agora que lhe fomos reeditar (e para melhor!) algumas fotos do seu álbum...
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Nota dos editores:

(*) Último poste da série > 27 de março de  2016 > Guiné 63/74 - P15907: Memória dos lugares (336): Cancolim, subsetor de Galomaro (Rui Baptista, ex-fur mil, CCAÇ 3489 / BCAÇ 3872, 1972/74) - Parte I

5 comentários:

Juvenal Amado disse...

Cancolim era uma companhia que eu considerava a minha 2ª companhia, tantas as vezes lá fui tantas lá fiquei. Fui sempre bem recebido a pesar dealguma animosidade que existia para com a CCS. (festejaram quando a CCS foi atacada no dia 1 de Dezembro de 1972)Eles estavam magoados por o capitão Pamplona (comandante de operações)ter dito que eles eram atacados porque não faziam o patrulhamento. Não sei se faziam ou não, mas também na forma anímica que a companhia se encontrava, tudo era de esperar.
As ultimas vezes que fui a Bafata, foi com a companhia de Cancolim graças a um monumental pifo o que apanhei mais os suspeitos do costume. Quando chegamos ao quartel estava o coronel à nossa espera, a nossa sorte foi o padre Nuno vir de Bafatá connosco. A coisa era capaz de não ficar só pelo castigo de não voltar a Bafatá.

As fotos estão porreiras

Um abraço Rui

Luís Graça disse...

Juvenal, quem era esse capelão, por onde anda ? Tens que o trazer até ao nosso blogue...

O Rui diz que ele nunca usava arma nas colunas, ou mesmo quando saía com a malta fora do arame farpado... E era verdade que tu e o padre davam mau agoiro quando iam a Cancolim ?...

Fui uma vez a Galomaro-Dulombi-Saltinho, mas nunca passei em Cancolim... Mas foi em Madina Xaquili (carta de Cansissé, julgo eu) que a minha CCAÇ 12 teve o batismo de fogo, mas dessa vez (a 1ª vez que a malta saiu para o mato, ainda e farda nº 3, os africanos) eu não fui...

Quanto às fotos, é uma questão de as saber valorizar, do ponto de vista técnico e estético... É importante que a malta nos mande fotos com boa resolução (por ex., 1 ou 2 MB) para se poder depois editar, recortar, ampliar, melhorar o contraste, etc. Eu, pessoalmente adoro pôr os rostos da malta em grande plano, quando isso é possível...

Ab. Luis

Juvenal Amado disse...

Luís estou a tentar saber de onde é e onde pára o Padre Nuno. Ele esteve uma ou duas vezes connosco a almoçar sempre que o realizamos na Mealhada por isso eu penso que ele terá a sua paróquia ali para ao pé de Santa Maria da Feira.
Sim, ele nunca andava armado e nem o vi com uma na mão.
O Rui diz por graça que dava azar eu levar o padre Nuno a Cancolim, mas quem tinha azar era eu. Ah!Ah!Ah!
O Padre Nuno era uma pessoa de quem gostávamos, embora não fossem muitos concorridas as suas homilias e como nós íamos lá vinha ele até nós.Engraçado é que eu conheço hoje ex camaradas de Galomaro que normalmente não iam à missa e hoje são participantes fervorosos. Mas fizemos-lhe uma capela toda bonita com postes de palmeira, tecto de zinco, bancos corridos e com ar condicionado, pois só tinha paredes em esteira até meio. Até tinha bancos corridos.
Não encontro nenhuma foto mas vou pedir à malta.

Quanto às fotos o problema é que estiveram esquecidas muito tempo, também não eram de boa qualidade reveladas lá por um fotografo soldado que ainda ganhou uns cobres valentes.

Luís Graça disse...

O Rui há dias, ao telefone, contou-me que tinha comprado uma boa máquina em Bissau e que fez muitas fotos... Trouxe os rolos para revelar, em Lisboa, numa conhecida casa da Baixa... E não é que nesse dia foi de carro, com a namorada, até ao Portinho da Arrábida, com os rolos lá dentro do carro ?... 'Tá-me mesmo a ver!, foi roubado, e nunca chegou a ver as fotos da Guiné... Estas que ele nos mandou devem ser das poucas que ele ainda tem... e que deve ter mandado para casa, pelo correio, reveladas lá, como tu dizes...

Quanto à "perda da fé", na guerra, ou pelo menos, à "quebra dos hábitos religiosos" durante a guerra... É um fenómeno sociológico digno de registo e de reflexão: havia companhias mais "fervorosas" do que outras, companhias mais homogéneas como as madeirenses e as açorianas em que os laços comunitários (e religiosos) eram ainda fortes...No continente, com a progressiva "desruralização" do país (guerra colonial, emigração, etc.), começa a acentuar-se o fenómeno, não direi tanto da "descristianização", como sobretudo do enfraquecimento dos laços sociais nas comunidades rurais...

Juvenal Amado disse...

É como tu dizes connosco foram três companhias madeirenses que até um andor com a N.S. de Fátima em ponto grande levavam. Quando nós vimos a procissão ficamos um bocado incrédulos. (eram oficiais dessas comp. o José Vermelho e o Juvenal Candeias os dois membros do blogue)
Eu não me recordo de haver malta a ir à missa tirando um ou dois sapadores e o comandante. Depois quando chegamos cá a realidade quanto ao aprumo da fé desconcertou-me um pouco. Hoje nos almoços do 3872 só meia dúzia fica na palheta.
Quanto às fotos o Rui teve o mesmo azar que eu embora de forma diferente. Como contei foi a minha mãe enganada.
O padre Nuno é pároco em Paramos e pedi já ao camarada Mário Vasconcelos para lhe telefonar e dar um toque quanto ao ele participar no blogue.